« Home | Isto é só rir VIII » | Uma morte estúpida e desnecessária » | A benzedura » | Portugal 13 - 108 Nova Zelandia » | A ver vamos » | É hoje, às 12 Horas » | A Foto da Semana » | Uma história muito comovente. E instrutiva. » | Nem sequer para idiota útil dá » | Uma recordação de infancia »

domingo, setembro 16, 2007

Frangos de vacas


Quando o meu filho era pequenino dizia que não gostava de coelho. Um dia inventei que o coelho que estava no prato não era coelho, mas frango de vaca, O meu filho passou a adorar frango de vaca. Presumo que porque já que gostava tanto de "flanguinho" e razoavelmente de "bifito", deva ter achado que algo que juntasse as duas coisas tinha que ser muito bom.
...
Passado este tempo todo não sei do que sinto mais a falta. Se da minha capacidade de encontrar nomes para os coelhos da vida, se da sua ingenuidade para acreditar neles. Mas sinto.

Etiquetas:

51Comenta Este Post

At 9/17/2007 2:12 da manhã, Anonymous Anónimo escreveu...

“Vós famílias: não tenhais medo!”
V Encontro Mundial das Famílias
Valencia (Espanha) 1-9 de julho de 2006

OS ENCONTROS MUNDIAIS DAS FAMÍLIAS
ENTREVISTA COM O CARD. ALFONSO LÓPEZ TRUJILLO
Presidente do Pontifício Conselho para as Famílias
PAPA BENTO XVI E A FAMÍLIA
O CARD. RATZINGER E A FAMÍLIA
PAPA JOÃO PAULO II E A FAMÍLIA
FAMÍLIA: NATUREZA E DIREITOS
A FAMÍLIA NO MUNDO
Alguns dados estatísticos
A família na Europa
A família na África
A família na Ásia
A família no México
A FAMÍLIA EM MISSÃO
A catequese das Pontifícias Obras Missionárias sobre a “família missionária”
Testemunhos das famílias missionárias “ad intra” e “ad gentes”
A FAMÍLIA NO WEB: LINKS ÚTEIS

Este Dossiê se encontra disponível também no site da Agência Fides www.fides.org



OS ENCONTROS MUNDIAIS DAS FAMÍLIAS

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – “Vós famílias: não tenhais medo!”. Com estas palavras doze anos atrás Papa João Paulo II se dirigiu às famílias de mais de dez países do mundo reunidas na praça S. Pedro. Era o primeiro Encontro Mundial das Famílias, promovido no Ano internacional da Família, que desde então se repete a cada três anos em diferentes lugares do mundo. Em 1981, o mesmo ano da Carta Encíclica Familiaris consortio, João Paulo II havia instituído o Pontifício Conselho para as Famílias, que substituía o Comitê para as Famílias instituído em 1973 pelo Papa Paulo VI. A partir de 1994 o Dicastério torna-se responsável também pela organização dos Encontros Mundiais das Famílias. Se o primeiro Encontro se realizou em Roma, em 1997 o Rio de Janeiro hospedou o segundo Encontro, novamente em Roma no Ano do Grande Jubileu do ano 2000, e posteriormente em Manila, onde em 2003 desenvolveu-se o último Encontro. Coube agora a Valência, na Espanha, hospedar o quinto Encontro, de 1 a 9 de julho de 2006, o qual teve por tema “A transmissão da fé na família”.
“Fui o primeiro a promover instituições similares também graças à minha experiência como padre e Bispo em Cracóvia – disse Papa João Paulo II no Encontro das Famílias em 1994 – tendo sempre dado particular atenção aos jovens e às famílias. É precisamente a partir desta experiência que compreendi a necessidade indispensável de uma profunda formação teológica e intelectual neste campo de modo que se desenvolva um tratamento ético adequado ao valor do corpo, ao significado do matrimônio e da família, e à questão da paternidade responsável”. O tema deste primeiro Encontro foi “Família: coração da civilização do amor”. O Papa propôs a família como modelo principal para afrontar os males do mundo contemporâneo, uma família onde cada um, sobretudo os filhos, sejam formados nos valores do respeito, da solidariedade, do amor e da responsabilidade.
Três anos após, em 1997 no Rio de Janeiro, Papa João Paulo II retomou estas duas últimas palavras, amor e responsabilidade: “Estas duas palavras parecem justas e necessárias: amor e responsabilidade. Cheguei a esta conclusão cinqüenta anos atrás... Sim, cinqüenta anos atrás: amor e responsabilidade – referindo-se a uma sua obra de moral familiar chamada “Amor e Responsabilidade” escrita quando era Bispo em Cracóvia. Este parece ser um princípio válido para harmonizar estas duas arquiteturas, o humano e o divino, do matrimônio e da família”. À época, na América Latina, compareceram mais de dois milhões de pessoas de todos os continentes para assistir à Missa conclusiva presidida pelo Pontífice no Flamengo Park. O motivo deste segundo Encontro das famílias foi “A família: dom, empenho e esperança da humanidade”.
Durante o Grande Jubileu do ano 2000, para o terceiro Encontro, João Paulo II havia escolhido concentrar a sua atenção sobre o tema: “As crianças: família e sociedade no novo milênio”. Tendo tornado há pouco da peregrinação à Terra Santa, o Papa propôs a família de Nazaré como modelo para a família de hoje. “O grande espaço onde nos reunimos – disse João Paulo II – entre a Basílica e o colonnato de Bernini, é como uma casa para nós, uma grande casa a céu aberto. Reunidos juntos como uma grande família, com um só coração e uma só alma, podemos intuir e fazer nosso o sabor doce e íntimo desta humilde casa, onde Maria e José viviam entre a oração e o trabalho, e Jesus submetia-se a eles, tomando parte na vida comum”. As crianças estavam no centro das atenções do Encontro e do Papa mesmo, as crianças como dom da família e jamais como estorvo e fardo, as crianças como uma primavera, como uma esperança que continua a florir, mas que ao mesmo tempo requer exemplos, resposta e afeto: “As crianças – disse o Papa – fazem perguntas mais com os olhos que com o coração, mas que encadeiam os pais à sua grande responsabilidade e são de alguma forma para eles o eco da voz de Deus”.
O último Encontro do qual o Papa João Paulo II tomou parte, não em pessoa, mas via satélite, foi o de 2003 em Manila, nas Filipinas, para explicar o motivo daquela jornada: “A família cristã: boa nova para o terceiro milênio”. Em Manila compareceram famílias de mais de 76 países, por vezes caracterizados por tensões internacionais. Uma vez mais o Papa propôs a família como cura para os males da sociedade, “como a estrada privilegiada para o diálogo além das diferentes culturas e religiões, uma estrada de reconciliação e de paz”. O Pontífice exortou depois as famílias a serem boas novas para o terceiro milênio, com a graça particular do matrimônio: “Este graça que recebestes é a graça do amor que se oferece, do amor que se doa e perdoa; do amor altruísta, que esquece a própria dor; do amor fiel até a morte; do amor fecundo para a vida”.
O último encontro desenvolveu-se em Valência, de 1 a 9 de julho. Foi o primeiro do qual participou o Papa Bento XVI, cuja presença ocorreu nos dias conclusivos, de sábado 8 a domingo 9 de julho. Em um ano de pontificado e uma encíclica, a Deus caritas est que trata justamente do tema do amor, Papa Bento XVI parece já ter definido uma linha diretriz a seguir a fim de que a família redescubra e defenda as suas raízes e a sua identidade. Em 11 de maio passado, encontrando o “Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre o matrimônio e família” por ocasião do vigésimo quinto aniversário de sua fundação, Bento XVI expôs assim aquilo que é o fulcro da família fundada dobre o matrimônio, isto é, o amor entre os esposos, comparando-o ao da vida trinitária: “Deus serviu-se da via do amor para revelar o mistério íntimo da sua vida trinitária. Além disso, o relacionamento estreito que existe entre a imagem de Deus Amor e o amor humano nos permite compreender que a imagem do Deus monoteístico corresponde ao matrimônio monogâmico”. “O Matrimônio – continuou o Papa citando a sua Encíclica Deus caritas est – baseado sobre um amor exclusivo e definitivo torna-se ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e vice-versa: o modo de amar de Deus torna-se a medida do amor humano. [...] Esta impostação nos permite também superar uma concepção privatísta do amor, hoje tão difusa. [...] Evitar a confusão com outros tipos de união baseadas sobre um amor débil apresenta-se hoje com uma especial urgência. Somente a rocha do amor total e irrevogável entre homem e mulher é capaz de fundar a construção de uma sociedade que se torne uma casa para todos os homens”.



ENTREVISTA COM O CARDEAL ALFONSO LOPEZ TRUJILLO
PRESIDENTE DO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – “Família e procriação humana” é o título do último documento do Pontifício Conselho para a Família, publicado um mês antes do Encontro Mundial das Famílias em Valência. A Agência Fides dirigiu algumas perguntas sobre o documento e sobre o Encontro de Valência ao Card. Alfonso López Trujillo, que desde 1990 é Presidente do Pontifício Conselho para a Família, o Dicastério vaticano que entre as suas tarefas tem também o encargo e organizar os Encontros Mundiais.
1) Quais motivações e quais intenções induziram o Pontifício Conselho para a Família a preparar esta novo documento “Família e Procriação humana”?
R. Devo antes de tudo recordar que este nosso documento “Família e procriação humana” foi preparado durante muitos meses por uma equipe de especialistas internacionais, para os 25 anos do Dicastério, tendo sido apresentado na nossa Plenária, que se concluiu com uma bela mensagem do Papa Bento XVI, em 13 de maio passado.
Fala-se do documento “López Trujillo”. Não trabalhei somente eu, mas especialistas muito competentes de todo o mundo. É assinado, como de costume, pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Família e pelo Secretário, S. Ex.ª Karl Josef Romer. Em seguida foi distribuído, a pedido da Sala Stampa, em italiano. As traduções em outras línguas estarão prontas logo mais.
Aqueles que o leram estão realmente muito contentes, como tantos nos exprimiram. O documento tem a vantagem que em 60 páginas pode-se ter com clareza a síntese da doutrina da Igreja, tal qual é expressa nos ensinamentos pontifícios, como base de uma visão pastoral fundada sobre uma antropologia, sobre uma verdade, como deve ser. E esta síntese doutrinal e pastoral foi tomada por alguns como novidade. Foi evidente um fato, com uma visão de conjunto unitária: talvez o pensamento da Igreja não seja muito conhecido por muitos. Hoje as informações são fragmentárias e sobrepostas a um ou outro ponto que são discutidos, mas o aprofundamento do conjunto não é conhecido.
E é este o propósito do nosso documento, que muitos louvam como uma “descoberta”. É a tentação de uma inflação da bio-ética que substitui a espessura teológica e filosófica que, em um tempo de “crise conceitual”, perde-se. O tratamento torna-se muito superficial e tudo é opinável. A mesma fé e o magistério são só uma opinião a mais.
Nos jornais, sob um ponto delicado, são apresentadas diversas opiniões e assim o leitor pensa que se trate de uma livre escolha, como em um mercado. É um fenômeno grave, sobretudo para os cristãos. Deus não nos oferece um “menu”.
Freqüentemente, mesmo pessoas de grande respeitabilidade substituem a doutrina, com todas as suas exigências e a sua obrigatoriedade de uma genuína obediência de fé, com posições subjetivas, não bem fundadas, que passam por posições abertas contra o fechamento a as posturas “dogmáticas”. Por vezes Deus e os seus mandamentos são “evaporados” e as pessoas se assustam quando se recordam de sua Palavra. Tantas vezes o pensamento não emerge, está como que anestesiado e é vítima de um encantamento e da sedução da ciência e da técnica.
Alguns jornalistas, que talvez não tenham lido o documento, falam de uma linguagem dura. Após uma atenta leitura, dão-se conta de que as mesmas expressões são dos Pontífices, e nós simplesmente as repetimos. Estão sob o impacto, por exemplo, da expressão apocalíptica do “Eclipse de Deus”: mas foi João Paulo II a falar com grande vigor sobre a secularização que é um “eclipse do senso de Deus e do homem” (Evangelium Vitae 21). Outros se escandalizam porque falamos do aborto como de um “delito abominável”, que é uma expressão Conciliar e dos Papas de uso comum na teologia e assim por diante.
Nestes 16 anos do meu trabalho no Pontifício Conselho para a Família, publicamos muitos livros e alguns documentos. Os documentos dos Dicastérios não são jamais assinados pelo Papa, mesmo se por vezes foram solicitados pelo Sucessor de Pedro, como o “Vademecum para os confessores”, e são raros aqueles que são expressamente aprovados pelo Papa, como alguns da Doutrina para a Fé. Não é nosso hábito apresentar os nossos documentos na imprensa. O documento não foi preparado para o V Encontro Mundial das Famílias em Valência, mas para refletir em profundidade sobre o que é a procriação humana, assim com um nosso outro documento, que tem como título a “Sexualidade humana”. Portanto não “animal”, não “técnica”, não “produção”, mas procriação como o fruto do amor, de um ato humano de amor, que empenha muito. Uma procriação “integral”, que não termina com o nascimento, mas exige a educação e especialmente aquela da fé.
2) Quais são os conceitos fundamentais que se deseja iluminar no documento?
R. Sobretudo mostrar como o verdadeiro amor entre um homem e uma mulher doa comunhão de vida e de amor, na doação recíproca, tem o seu lugar no matrimônio, fundamento da família. No matrimônio é defendido o significado unitivo e o procretativo (cf. Humanae Vitae 12). A recíproca doação dos esposos é total. Se falta a totalidade não se compreende o que é a fidelidade, na abertura à vida e em uma comunhão até a morte. Se não é total, esta recíproca doação não é plenamente humana e corre o risco da fragmentação e portanto do amor traído. Assim estudam-se questões como a FIVET homóloga e heteróloga, a fecundação assistida, a clonagem, etc.
A contracepção, o aborto, a cultura da morte são temas importantes. Os conceitos de família, dos casais de fato, do aborto provocado estão bem presentes. Mesmo questões demográficas. Uma crítica, da qual fui informado que não é muito respeitosa e demonstra falta de uma mínima informação, protesta contra as nossas afirmações. Recorre-se a caricaturas quando em verdade há um vazio de argumentos. Assim, quando o documento apresenta o sério problema do desmoronamento da população por exemplo na Itália e na Espanha, um verdadeiro “inverno demográfico”, como diz Bento XVI, dizem que é violento ou ao menos equilibrado. Nós dizemos que se os casais têm somente um filho como média (mais exatamente uma taxa de 1,2 de nascimentos), isto mostra que muitos casais não têm filhos e optam por serem casais “estéreis”.
Preparamos um documento para Valência sobre o envelhecimento da população, como uma denúncia do mito demográfico, fato que hoje a ONU reconhece, mas que há 10 ou 15 anos acreditava ser um nosso exagero, como encarregados do tema demográfico. E isto é real: João Paulo II fez esta denúncia ao Parlamento Italiano. Há o medo da paternidade, não somente por hedonismo ou egoísmo, mas por problemas econômicos. Se não esta postura não for modificada não haverá futuro. Pode-se ver o conjunto de questões em meu livro “O grande desafio” que é hoje em sua segunda edição nas livrarias.
É pois quase uma piada este argumento crítico que o lar de Nazaré teve um só filho e não se lhe pode chamar estéril. Imagine este argumento em modo científico. Apresentar a Sagrada Família como ideal demográfico! Não é muito honroso para um jornal aceitar estas posições. O fio de todo o documento é humano, o coração humano, porque o risco, dizia Romano Guardini, é de sermos desumanos. Duas semanas atrás fui a uma conferência na Universidade de Mônaco na Baviera, onde Guardini ensinou e onde se encontra o seu túmulo; ali rezei. O Papa Bento XVI foi ilustre professor desta Universidade. Apresentei a Encíclica Deus caritas est. O homem desumano é nesta degradação pelo trágico vazio de verdade e de liberdade.
3) Como se afirma no Documento, a família está sofrendo uma série de ataques em muitas frontes, em todo o mundo. É possível identificar, nas diversas áreas geográficas continentais, características diversas destes ataques?
R. Nos último anos estes ataques foram mais abertos e sistemáticos, mas a Exortação Apostólica Familiaris Consortio acenava a uma hostilidade difundida contra a família. Tal denúncia era repetida freqüentemente por João Paulo II e ainda hoje por Bento XVI. Não é uma invenção do nosso documento, mas é a invasão do secularismo que, afastando Deus, não aceita a “instituição natural” da família.
Como expliquei diversas vezes, há um conjunto de posições hostis, hoje bem conhecidas, especialmente de legislações injustas (usa-se o termo “leis iníquas”) que se espalham, como por exemplo com relação à via aberta ao divórcio, por vezes extremamente fácil, apresentada com um suposto fundamento jurídico.
Parece curioso o desejo, por parte de alguns, de convencer que estas preocupações sejam uma invenção do Pontifício Conselho para as Famílias, enquanto fazem passar em silêncio as vozes de alarme dos Pontífices.
Estas posições contra a família e a vida têm como fonte uma postura “ideológica”, como é facilmente compreensível, com uma “filosofia” pobre com relação às necessidades e às concepções da democracia, como havia denunciado João Paulo II, do radicalismo político, como expresso por alguns parlamentos e na União Européia, com as suas notas Recomendações. É todo um modo que deve ser revisto, partindo dos conceitos basilares como o bem da pessoa, o bem comum, a verdade, a liberdade, a lei natural, o valor e os limites da ciência, e assim por diante.
4) Diante de um panorama tão preocupante, há sinais de esperança? Que podem fazer os católicos, as famílias cristãs, as organizações e as associações familiares?
R. Há muitos sinais de esperança, sobretudo graças a tantos movimentos nascidos em todo o mundo e à nova organização e estrutura das Conferências Episcopais que têm um escritório central por toda parte, juntamente com as Comissões pela Família e a Vida. Em todas as Conferências o tema é de prioridade absoluta. Nas dioceses, nas paróquias e nos movimentos há um novo ímpeto realizador da Igreja doméstica. Importante é o papel central que terão no futuro as crianças, símbolo da esperança de cada pai e de cada mãe. A Pastoral da Família está em pleno desenvolvimento e renovação. Foram dados até agora passos muito importantes neste sentido e hoje podemos dizer que em pouco tempo cresceram imensamente. Há uma nova consciência de que é preciso formar bem os agentes pastorais. No XXV aniversário da instituição do nosso Pontifício Conselho, o Santo Padre nos estimulou a prosseguir sobre esta estrada.
Na próxima semana, na parte inicial do Convênio, refletir-se-á sobre o tema da V Conferência “A transmissão da fé e da família”; à tarde serão tratadas matérias diversas como economia, saúde, doutrina social, demografia, etc. Logo após o fechamento deste Encontro publicaremos um interessante livro que contará com o apóio dos numerosos especialistas que tomarão parte. O Congresso teológico-pastoral iniciará terça-feira 4 e terminará sexta-feira 7 de julho e contará com a participação de mais de 7 mil pessoas.
5) O Encontro Mundial das Famílias terá por tema “A transmissão da fé na família”. Quais estradas devem percorrer hoje os pais para anunciar Jesus Cristo aos seus filhos e sobretudo para comunicar-lhes a alegria de ser cristãos em um mundo que está fazendo de tudo para obscurecer Deus e todo sinal de fé?
R. Os pais têm freqüentemente medo de educar e transmitir a fé. O seu empenho será aquele de educar na fé como primeiros evangelizadores dos filhos, aspecto central da Igreja. Estes devem empenhar-se com paciência, dedicando tempo, atenção e estando próximos aos filhos para ensinar a eles que a herança maior é a riqueza extraordinária da fé. Nesta missão os pais devem ser ajudados também por outras instituições, como o Estado. A família toda, os avós, podem ajudar a equilibrar os vazios devidos à dificuldade que encontram os lares hoje em dia em razão do trabalho. O conjunto de uma família é um pouco aberto a todas as tentações e provocações do mundo moderno a não cuidar do interior do lar.
6) Que se pode esperar do Encontro de Valência?
R. Todos os nossos Encontros representam um grande passo adiante, uma maior consciência da amplitude daquele bem universal que é a família e aquele dom que são os filhos. Justamente os filhos preenchem aquele vazio que notamos freqüentemente em muitas famílias, mesmo se hoje podemos olhar adiante com otimismo.
A partir deste Encontro acreditamos que as famílias terão novos argumentos para afrontar os novos desafios para atingir a totalidade do amor, uma maior estabilidade e a verdadeira identidade do matrimônio, além de uma maior segurança no diálogo com os parlamentares e os educadores porque juntos se possa ter um horizonte mais claro e para que a família seja a verdadeira protagonista. Uma verdadeira resposta que vem do amor de Deus que é o único projeto e o único modelo.

PAPA BENTO XVI E A FAMÍLIA

17 de maio de 2005: Mensagem à Igreja peruana
Terça-feira, maio, em concomitância como as celebrações pelo Cinqüentenário do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), na Basílica Catedral de Lima, realizou-se uma solene Celebração Eucarística que tinha dois motivos fundamentais: a abertura das celebrações pelo IV Centenário da morte de Santo Toribio de Mogrovejo (1538-1606), segundo Arcebispo de Lima, e a entrega ao Patrono do Episcopado Latino-americano dos trabalhos da XXX Assembléia Ordinária do Conselho Episcopal Latino-americano. Ao fim da Celebração, que foi presidida pelo Card. Juan Luis Cipriani, Arcebispo de Lima e Primaz do Peru, o Card. Giovanni Battista Re, Prefeito da Congregação para os Bispos e Presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, realizou uma leitura da Mensagem que Sua Santidade Bento XVI endereçou à Igreja peruana para exprimir afeto, vizinhança e encorajamento.
Núcleo central da mensagem do Sumo Pontífice é a solicitude paterna com a qual convida os peruanos a amar a sua fé, a alimentá-la com orações, os sacramentos e a escuta atenta à palavra de Deus. O Papa pede depois de transmiti-la no interior das suas famílias como o patrimônio mais precioso: “Se um pai ou uma mãe deixam aos seus filhos uma fé sólida, deixam-no o tesouro maior, porque será a luz que iluminará os seus passos na vida”. Relevando que a fé é um dom que não se vive sozinho, na intimidade, mas que se testemunha na vida de cada dia, O Santo Padre convida a testemunhar a fé, porque assim “a fé se transforma em uma luz esplendente que conduz Cristo, de modo tal a difundir através da vida os valores humanos e cristãos que fazem parte da identidade do povo peruano”.
O Cardeal Primaz da Igreja peruana, na sua homilia, relevou que Santo Toribio de Mogrojevo percorreu por 10 anos o complexo território do Peru realizando três visitas pastorais, posto que o amor de Cristo o impulsionava a uma insaciável sede de salvação das almas. Traços distintivos do ministério pastoral deste santo Pastor, foram a sua vizinhança a Deus e a fidelidade à oração enquanto elemento fundamental do seu ministério apostólico. De fato “uma oração intensa não nos tira do compromisso com a história, porque abre o coração ao amor de Deus e também ao amor dos irmãos, e nos torna capazes de construir a história segundo os desígnios de Deus” sublinhou o Card. Juan Luis Cipriani.
24 de maio de 2005: Mensagem à Igreja espanhola
“Nesta hora de discernimento para muitos corações, vós Bispos espanhóis volvei o olhar Àquele que, com total disponibilidade, acolheu a vida de Deus que irrompia na história”, afirma o Santo Padre Bento XVI na Mensagem enviada à Igreja espanhola, por ocasião da peregrinação nacional ao Santuário do Pilar de Saragoza no cinqüentenário da consagração da Espanha à Virgem Maria. Milhares de peregrinos juntamente aos seus Bispos reuniram-se no domingo 21 de maio no Pilar de Saragoza para celebrar o 150º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição e renovar a consagração da Espanha ao Coração Imaculado de Maria.
“Com esta peregrinação vocês querem aprofundar o admirável mistério de Maria e refletir sobre a sua inexaurível riqueza para a vocação de cada cristão à santidade” escreve o Santo Padre em sua Mensagem. “A Imaculada reflete a misericórdia do Pai... Como Advogada nos ajuda em nossas necessidades e intercede por nós diante de seu Filho... nos convida a nos aproximarmos de Cristo e, nesta aproximação, a experimentar, provar e ver «quanto é bom o Senhor».”
Uma vez que a Espanha se encontra em pleno debate sobre a laicidade do estado e a família está recebendo uma série de ataques como a proposta de reforma do Código Civil, o Papa recorda a Casa de Nazaré como modelo para todas as famílias e afirma que “na convivência doméstica a família realiza a sua vocação de vida humana e cristã, compartilhando as alegrias e as expectativas em um clima de compreensão e de ajuda recíproca. Portanto, o ser humano, que nasce, cresce e se forma na família, é capaz de seguir sem incertezas o caminho do bem, em deixar-se desorientar por modas e ideologias alienantes da pessoa humana”.
Consciente de “que a Igreja Católica na Espanha está disposta a dar passos decisivos nos seus projetos evangelizadores” o Papa pede que esta seja compreendida e aceita na sua verdadeira natureza e missão “posto que esta busca promover o bem comum para todos, com relação seja às pessoas seja à sociedade. Com efeito a fé e a prática religiosa dos fiéis não pode permanecer confinada ao âmbito puramente privado”.
O Santo Padre conclui a sua mensagem confiando a Maria Santíssima inquietudes e esperanças da Igreja espanhola, cada vida humana desde o primeiro instante de sua existência até o seu fim natural, e pedindo à Virgem Maria “de preservar cada família de toda injustiça social, de tudo aquilo que degrada a sua dignidade e ameaça a sua liberdade; e também que se respeite a liberdade religiosa e a liberdade de consciência de cada pessoa”.
30 de maio de 2005: O Papa confirma a convocação do V Encontro Mundial das Famílias
O Santo Padre Bento XVI endereçou uma carta ao Cardeal Afonso López Trujillo, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, na qual confirma a convocação do V Encontro Mundial das Famílias em Valência (Espanha) na primeira emana do mês de julho 2006, com o tema “A transmissão da fé na família”. “Neste sentido – lê-se na carta – proponho-me a encorajar, como fez João Paulo II, a ‘estupenda novidade’, o ‘Evangelho da Família’ cujo valor é central para a Igreja e a sociedade”.
O Santo Padre afirma que “a Igreja não pode deixar de anunciar que, segundo os planos de Deus, o matrimônio e a família são insubstituíveis e não admitem alternativas”. Referindo-se ao tema do Encontro, Bento XVI relembra que “a família tem hoje mais do que nunca uma missão nobilíssima, e que não pode eludir, de transmitir a fé. Os pais são os primeiros evangelizadores dos filhos, dom precioso do Criador”. O Papa conclui a carta elevando suas preces ao Senhor e abençoando todas as famílias que participam ou se uniram espiritualmente ao Encontro. “Que a Virgem Maria, nossa Mãe, que acompanhou seu Filho nas bodas de Caná, possa interceder por todas as famílias do mundo”.
6 de junho: Discurso de abertura do Convênio Eclesial da Diocese de Roma sobre “Família e Comunidade cristã”
Uma das primeiras amplos intervenções do Santo Padre Bento XVI dedicadas ao tema da família foi pronunciada em 6 de junho de 2005 (a pouco mais de um mês da sua eleição à catedra de Pedro) na abertura da Convênio da Dioese de Roma dedicado à família. Bento XVI, indo à Basílica Laternanese onde se realizava o Convênio, na abertura de seu longo discurso, disse ter acolhido «com muito prazer o convite a introduzir com minha reflexão este nosso Convênio Diocesano, antes de tudo porque isto me dá a possibilidade de vos encontrar, de ter um contato direto convosco, e depois porque posso vos ajudar a aprofundar o sentido e escopo do caminho pastoral que a Igreja de Roma está percorrendo». O Papa saldou também «com afeto» os Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosas e as religiosas, e em particular os leigos e as famílias «que assumais conscientemente aquelas tarefas de compromisso e testemunho cristão que têm a sua raiz no sacramento do batismo e, para os casados, no do matrimônio».
«Este Convênio – declarou o Pontífice – e o ano pastoral do qual este fornecerá as linhas guias, constituem uma nova etapa do percurso que a Igreja de Roma iniciou, sobre a base do Sínodo diocesano, com a Missão citadina desejada pelo nosso tanto amado Papa João Paulo II, em preparação ao Grande Jubileu de 2000. Naquela Missão todas as realidades da nossa Diocese – paróquias, comunidades religiosas, associações e movimentos – mobilizaram-se, não somente para uma missão ao povo de Roma, mas para serem si mesmas “povo de Deus em missão”, pondo em prática a feliz expressão de João Paulo II “paróquia, busca a ti mesma e encontra a ti mesma fora de ti mesma”: ou seja, nos lugares nos quais a gente vive. Assim, no curo da Missão citadina, muitos milhares de cristãos de Roma, em grande parte leigos, fizeram-se missionários e levaram a palavra da fé em primeiro lugar nas famílias dos vários bairros da cidade e depois nos diversos locais de trabalho, nos hospitais, nas escolas e nas universidades, nos espaços de cultura e de tempo livre. Após o Ano Santo, o meu amado Predecessor vos pediu que não interrompêsseis este caminho e que não desperdiçásseis as energias apostólicas suscitadas e os frutos da graça recolhidos. Por isso, a partir de 2001, o fundamental endereço pastoral da Diocese foi aquele de dar forma permanente à missão, caracterizando em sentido mais decididamente missionário a vida e a atividade das paróquias e de cada uma das realidades eclesiais. Desejo vos dizer antes de tudo que pretendo confirmar plenamente esta escolha: esta, de fato, revela-se sempre mais necessária e sem alternativas, em um contexto social e cultural no qual agem forças multíplices que tendem a distanciar-nos da fé e da vida cristã. Já por dois anos a Igreja de Roma vem concentrando os seus esforços sobretudo na família, não somente porque esta fundamental realidade humana hoje é submetida a multíplices dificuldades e ameaças e portanto tem particular necessidade de ser evangelizada e concretamente sustentada, mas também porque as famílias cristãs constituem um recurso decisivo para a educação à fé, a edificação da Igreja como comunhão e a sua capacidade de presença missionária nas mais diversas situações de vida, além de fermentar em senso cristão a cultura difusa e as estruturas sociais. Sobre estas linhas prosseguiremos também no próximo ano pastoral e por isso o tema do nosso Convênio é “Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé”. O pressuposto do qual é preciso partir, para poder compreender a missão da família na comunidade cristã e as suas tarefas de formação da pessoa e transmissão da fé, permanece sempre o do significado que o matrimônio e a família revestem do desígnio de Deus, criador e salvador. Este será, portanto, o miolo da minha reflexão desta noite, chamando a vossa atenção ao ensinamento da Exortação Apostólica Familiaris consortio (Parte segunda, nn. 12-16)».
Bento XV dedicou-se em seguida a falar do «fundamento antropológico da família». Matrimônio e família – explicou – não são, na realidade, uma construção sociológica casual, fruto de particulares situações históricas e econômicas. Ao contrário, a questão da justa relação entre o homem e a mulher afunda as suas raízes dentro da essência mais profunda do ser humano e pode encontrar a sua resposta só a partir dela. Isto é, não pode estar separada da pergunta antiga e sempre nova do homem sobre si mesmo: quem sou? O que é o homem? E esta pergunta, por sua vez, não pode ser separada da interrogação acerca de Deus: Deus existe? E quem é Deus? Qual é verdadeiramente o seu rosto? A resposta da Bíblia a estas duas interrogações é unitária e conseqüente: o homem é criado à imagem de Deus, e o próprio Deus é amor. Por isso a vocação para o amor é aquilo que faz com que o homem seja a autêntica imagem de Deus: ele torna-se semelhante a Deus na medida em que ama. Deste vínculo fundamental entre Deus e o homem tem origem outro: o vínculo indissolúvel entre espírito e corpo: de fato, o homem é alma que se exprime no corpo e corpo que é vivificado por um espírito imortal. Também o corpo do homem e da mulher tem, por conseguinte, por assim dizer, um caráter teológico, não é simplesmente corpo, e o que é biológico no homem não é só biológico, mas expressão e cumprimento da nossa humanidade. De igual modo, a sexualidade humana não está ao lado do nosso ser pessoa, mas pertence-lhe. Só quando a sexualidade se integra na pessoa, consegue dar um sentido a si mesma. Assim, dos dois vínculos, do homem com Deus e, no homem, do corpo com o espírito, brota um terceiro: o vínculo entre pessoa e instituição. A totalidade do homem inclui de fato a dimensão do tempo, e o "sim" do homem é um ir além do momento presente: na sua inteireza, o "sim" significa "sempre", constitui o espaço da fidelidade. Só dentro dele pode crescer aquela fé que dá um futuro e permite que os filhos, fruto do amor, creiam no homem e no seu futuro em tempos difíceis. Por conseguinte, a liberdade do "sim" revela-se liberdade capaz de assumir o que é definitivo: a maior expressão da liberdade não é então a busca do prazer, sem jamais alcançar uma verdadeira decisão. Aparentemente esta abertura permanente parece ser a realização da liberdade, mas não é verdade: a verdadeira expressão da liberdade é a capacidade de decidir por uma doação definitiva, na qual a liberdade, doando-se, se reencontra plenamente a si mesma. Em concreto, o "sim" pessoal e recíproco do homem e da mulher abre o espaço para o futuro, para a autêntica humanidade de cada um, e ao mesmo tempo está destinado à doação de uma nova vida. Por isso, este "sim" pessoal não pode deixar de ser um "sim" também publicamente responsável, com o qual os cônjuges assumem a responsabilidade pública da fidelidade que garante também o futuro para a comunidade. Com efeito, nenhum de nós pertence exclusivamente a si mesmo: portanto, cada um está chamado a assumir no mais íntimo de si a própria responsabilidade pública. O matrimônio como instituição não é, por conseguinte, uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, a imposição externa de uma forma na realidade mais privada que é a vida; ao contrário, é exigência intrínseca do pacto de amor conjugal e da profundidade da pessoa humana. As várias formas hodiernas de dissolução do matrimônio, como as uniões livres e o "matrimônio de prova", até ao pseudomatrimônio entre pessoas do mesmo sexo, são ao contrário, expressões de uma liberdade anárquica, que se faz passar indevidamente por verdadeira libertação do homem. Uma tal pseudoliberdade funda-se sobre uma banalização do corpo, que inevitavelmente inclui a banalização do homem. O seu pressuposto é que o homem pode fazer de si o que quer: o seu corpo torna-se assim uma coisa secundária, manipulável sob o ponto de vista humano, a ser utilizado como se deseja. A libertinagem, que se faz passar por descoberta do corpo e do seu valor, é na realidade um dualismo que torna o corpo desprezível, colocando-o por assim dizer fora do ser autêntico e da dignidade da pessoa.»
Ampla a reflexão do Papa também sobre o tema “Matrimônio e família na história da salvação”: «A verdade do matrimônio e da família, que afunda as suas raízes na verdade do homem, encontrou atuação na história da salvação, em cujo centro está a palavra: "Deus ama o seu povo". A revelação bíblica, de fato, é antes de tudo expressão de uma história de amor, a história da aliança de Deus com os homens: por isso, a história do amor e da união de um homem e de uma mulher na aliança do matrimônio pôde ser assumida por Deus como símbolo da história da salvação. O fato inexprimível, o mistério do amor de Deus pelos homens, recebe a sua forma lingüística do vocabulário do matrimônio e da família, em positivo e em negativo: de fato, o aproximar-se de Deus ao seu povo é apresentado na linguagem do amor esponsal, enquanto a infidelidade de Israel, a sua idolatria, é designada como adultério e prostituição. No Novo Testamento Deus radicaliza o seu amor até se tornar Ele mesmo, no seu Filho, carne da nossa carne, verdadeiro homem. Desta forma, a união de Deus com o homem assumiu a sua forma suprema, irreversível e definitiva. Assim, é traçada também para o amor humano a sua forma definitiva, aquele "sim" recíproco que não pode ser revogado: ela não aliena o homem, mas liberta-o das alienações da história para o conduzir à verdade da criação. A sacramentalidade que o matrimônio assume em Cristo significa portanto que o dom da criação foi elevado à graça de redenção. A graça de Cristo não se acrescenta de fora à natureza do homem, não lhe faz violência, mas liberta-a e restaura-a, precisamente ao elevá-la acima dos seus próprios limites. Assim como a encarnação do Filho de Deus revela o seu verdadeiro significado na cruz, também o amor humano autêntico é doação de si, e não pode existir se pretender subtrair-se à cruz. Queridos irmãos e irmãs, este vínculo profundo entre Deus e o homem, entre o amor de Deus e o amor humano, encontra confirmação também em algumas tendências e desenvolvimentos negativos, dos quais todos sentimos o peso. O aviltamento do amor humano, a supressão da autêntica capacidade de amar revela-se de fato, no nosso tempo, a arma mais apropriada e mais eficaz para afastar Deus do homem, para afastar Deus do olhar e do coração do homem. Analogamente, a vontade de "libertar" a natureza de Deus leva a perder de vista a própria realidade da natureza, inclusive da natureza do homem, reduzindo-a a um conjunto de funções, das quais dispor a seu bel-prazer para construir um suposto mundo melhor e uma suposta humanidade mais feliz».
O Papa falou em seguida dos filhos: «Também na geração dos filhos o matrimônio reflete o seu modelo divino, o amor de Deus pelo homem. No homem e na mulher a paternidade e a maternidade, como o corpo e como o amor, não se deixam circunscrever no biológico: a vida só é dada totalmente quando, com o nascimento, são dados também o amor e o sentido que fazem com que seja possível dizer sim a esta vida. Precisamente disto se torna totalmente evidente como é contrário ao amor humano, à vocação profunda do homem e da mulher, fechar sistematicamente a própria união à doação da vida, e ainda mais suprimir ou violar a vida que nasce. Contudo, nenhum homem e nenhuma mulher, sozinhos e unicamente com as próprias forças, podem dar aos filhos de maneira adequada o amor e o sentido da vida. De fato, para poder dizer a alguém "a tua vida é boa, mesmo se eu não conheço o teu futuro", são necessárias uma autoridade e uma credibilidade superiores às que o indivíduo pode ter sozinho. O cristão sabe que esta autoridade é conferida àquela família mais vasta que Deus, através do seu Filho Jesus Cristo e da doação do Espírito Santo, criou na história dos homens, isto é, a Igreja. Aqui ele reconhece a obra daquele amor eterno e indestrutível que garante à vida de cada um de nós um sentido permanente, mesmo se não conhecemos o futuro. Por este motivo, a edificação de cada família cristã individualmente coloca-se no contexto da família mais ampla da Igreja, que a ampara e a leva consigo e garante que existe o sentido e que haverá também no seu futuro o "sim" do Criador. E reciprocamente a Igreja é edificada pelas famílias, "pequenas Igrejas domésticas", como lhes chamou o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, 11; Apostolicam actuositatem, 11), redescobrindo uma antiga expressão patrística (São João Crisóstomo, In Genesim serm. VI, 2; VII, 1). No mesmo sentido a Familiaris consortio afirma que "o matrimônio cristão... constitui o lugar natural onde se cumpre a inserção da pessoa humana na grande família da Igreja" (n. 15)».
Papa Bento XVI concentrou-se então sobre o tema: “Família e Igreja”. « De tudo isto surge uma conseqüência evidente: a família e a Igreja, em concreto, as paróquias e as outras formas de comunidade eclesial, estão chamadas à colaboração mais estreita naquela tarefa fundamental que é constituída, inseparavelmente, pela formação da pessoa e pela transmissão da fé. Sabemos bem que para uma autêntica obra educativa não é suficiente uma teoria justa ou uma doutrina a ser comunicada. Há necessidade de algo muito maior e humano, daquela proximidade, quotidianamente vivida, que é própria do amor e que encontra o seu espaço mais propício na comunidade familiar, e depois também numa paróquia, movimento ou associação eclesial, em que se encontrem pessoas que se ocupam dos irmãos, em particular das crianças, mas também dos adultos, dos idosos, dos doentes, das próprias famílias, porque, em Cristo, os amam. O grande Padroeiro dos educadores, São João Bosco, recordava aos seus filhos espirituais que "a educação é algo do coração e que só Deus é o seu dono" (Epistolário, 4, 209). Central na obra educativa, e especialmente na educação para a fé, que é o vértice da formação da pessoa e o seu horizonte mais adequado, é em concreto a figura da testemunha: ela torna-se ponto de referência precisamente enquanto sabe dizer a razão da esperança que anima a sua vida (cf. 1 Pd 3, 15), e está pessoalmente comprometida com a verdade que propõe. Por outro lado, a testemunha nunca se propõe a si mesma como ponto de referência, mas propõe algo, ou melhor Alguém maior do que ela que encontrou e de quem experimentou a bondade confiante. Assim, cada educador e testemunha encontra o seu modelo insuperável em Jesus Cristo, a grande testemunha do Pai, que nada dizia de si mesmo, mas falava como o Pai lhe tinha ensinado (cf. Jo 8, 28). Este é o motivo pelo qual na base da formação da pessoa cristã e da transmissão da fé está necessariamente a oração, a amizade pessoal com Cristo e a contemplação n'Ele do rosto do Pai. Evidentemente, o mesmo é válido para qualquer nosso compromisso missionário, em particular para a pastoral familiar: a Família de Nazaré seja, portanto, para as nossas famílias e para as nossas comunidades, objeto de oração constante e confiante, além de ser modelo de vida.
Queridos irmãos e irmãs, e sobretudo vós, queridos sacerdotes, conheço a generosidade e a dedicação com que servis o Senhor e a Igreja. O vosso trabalho quotidiano na formação para a fé das novas gerações, em estreita ligação com os sacramentos da iniciação cristã, como também pela preparação para o matrimônio e para o acompanhamento das famílias no seu caminho, com freqüência não fácil, sobretudo na grande tarefa da educação dos filhos, é a via fundamental para regenerar sempre de novo a Igreja e também para vivificar o tecido social desta nossa amada cidade de Roma».
Quanto à ameaça do relativismo, o Papa pediu que não se deixasse «desencorajar pelas dificuldades» que toda família pode encontrar. « A relação educativa é por sua natureza uma coisa delicada: de fato, ela chama em causa a liberdade do outro que, mesmo se docemente, é contudo sempre provocada a uma decisão. Nem os pais, nem os sacerdotes ou os catequistas, nem os outros educadores se podem substituir à liberdade da criança, do adolescente ou do jovem a quem se dirigem. E especialmente a proposta cristã interpela profundamente a liberdade, chamando-a à fé e à conversão. Hoje, um obstáculo particularmente insidioso à obra educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa sozinho, como última medida, o próprio eu com as suas decisões, e sob a aparência da liberdade torna-se para cada um uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do seu "Eu". Dentro de um horizonte relativista como este não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade; mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de fato, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, do valor do seu compromisso para construir com os outros algo em comum. Por conseguinte, é claro que não só devemos procurar superar o relativismo no nosso trabalho de formação das pessoas, mas estamos chamados também a contrastar o seu predomínio destruidor na sociedade e na cultura. Por isso, é muito importante que, paralelamente com a palavra da Igreja, haja o testemunho e o compromisso público das famílias cristãs, especialmente para reafirmar a intangibilidade da vida humana desde a sua concepção até ao seu fim natural, o valor único e insubstituível da família fundada no matrimônio e a necessidade de disposições legislativas e administrativas que defendam as famílias na tarefa de gerar e educar os filhos, tarefa essencial para o nosso futuro comum. Também por este compromisso vos digo um obrigado cordial».
10 de junho de: Audiência aos Bispos de República da Sul-África, Botsuana, Suazilândia, Namíbia e Lesoto em visita Ad Limina
“Os católicos na vossa região constituem uma minoria. Isto representa muitos desafios que requerem dedicação da parte da Igreja no auxílio eficaz à grei e, ao mesmo tempo, na fidelidade ao seu compromisso missionário. Por este motivo é essencial que os Bispos promovam a obra crucial de catequese para garantir que o povo de Deus esteja realmente pronto a testemunhar com as palavras e com as ações o ensinamento autêntico do Evangelho”. É aquilo que recomendou Bento XVI dirigindo-se aos Bispos da República da Sul-África, Botsuana, Suazilândia, Namíbia e Lesoto recebidos em audiência na manhã de sexta-feira 100 de junho, na Sala dos Papas, por ocasião da sua visita «ad limina Apostolorum».
No início do encontro o Santo Padre, saldando os Bispos e com o seu clero, as religiosas e os leigos dos respectivos Países, recordou que a visita ad limina Apostolorum ocorre no ano dedicado à Eucaristia, sacramento que “deve estar sempre ao centro do vosso ministério episcopal e uma inspiração para quantos de vos assistem na vossa tarefa sagrada”. O Papa rendeu depois graças à Deus pelos numerosos sacerdotes, religiosos e leigos, homens e mulheres, que dedicaram a própria vida à evangelização e à catequese, relembrando a particular responsabilidade dos Bispos de garantir a estes “insubstituíveis evangelizadores” a necessária preparação espiritual, doutrinal e moral.
A África sub-saariana é abençoada por Deus com abundantes vocações, ainda que a região tenha necessidade de um número ainda maior de sacerdotes. “Enquanto Pastores do rebanho de Cristo, tendes a grave responsabilidade de ajudá-los a tornarem-se homens da Eucaristia – exortou Bento XVI. Os sacerdotes são chamados a deixar tudo e a tornarem-se sempre mais devotos ao Santíssimo Sacramento, concluindo homens e mulheres a este mistério e à paz que este porta consigo”. O Papa encorajou depois os Bispos “a selecionar conscienciosamente os candidatos ao sacerdócio” e a formá-los adequadamente “para garantir que estejam prontos aos numerosos desafios que deveram enfrentar... Um mundo cheio de tentações tem necessidade de sacerdotes totalmente dedicados à própria missão. Conseqüentemente pede-se a eles em modo especial de abrirem-se completamente ao serviço dos outros como fez Cristo acolhendo o dom do celibato. Os Bispos deveriam assistir-lhes assegurando que tal dom não se torne jamais um fardo, mas permaneça sempre doador de vida”.
Na parte conclusiva de seu discurso, o Papa concentrou-se sobre o tema da família, desde sempre “um elemento unificador da sociedade africana”, hoje infelizmente ameaçada “pelo divórcio, pelo aborto, pela prostituição, pelo tráfico de seres humanos e pela mentalidade a favor da contracepção, que contribuem ao desmoronamento da moral sexual”. Bento XVI disse portanto aos Bispos de compartilhar a sua profunda preocupação “pela devastação causada pelo vírus da Aids e pelas doenças a este ligadas”, e de rezar em particular “pelas viúvas, pelos órfãos, pelas jovens mães e pelas pessoas cuja vida foi feita em pedaços por esta cruel epidemia”. Exortou-os, portanto, a prosseguir em seus esforços pelo combate a este vírus “que não somente mata, mas ameaça seriamente a estabilidade econômica e social do continente. A Igreja católica esteve sempre na primeira linha na prevenção e nos cuidados com esta doença. O ensinamento tradicional da Igreja demonstrou ser o único modo intrinsecamente seguro para prevenir a difusão do HIV/Aids”.
12 de junho: Discurso do Angelus
Enquanto prossegue o Ano da Eucaristia, o Santo Padre Bento XVI quis lembrar antes da oração mariana do Angelus de domingo, 12 de junho, a importância do Domingo, Dia do Senhor, e do compromisso dos pais na educação à fé de seus filhos. Recordando o que destacou no recente Congresso Eucarístico italiano, o Papa reiterou que a participação à Missa dominical dever ser sentida pelo cristão “não como uma imposição ou como um peso, mas como uma necessidade e uma alegria. Reunir-se com os irmãos, escutar a Palavra de Deus, alimentar-se de Cristo, imolado por nós, é uma experiência que dá sentido à vida, que infunde paz no coração. Sem o domingo, nós, os cristãos, não podemos viver”.
O Santo Padre, em seguida, evidenciou o papel dos pais, “chamados a fazer com que seus filhos redescubram o valor e a importância da resposta ao convite de Cristo, que convoca toda a família cristã à missa dominical”. Neste caminho, uma etapa significativa é constituída pela Primeira Comunhão, “uma verdadeira festa para a comunidade paroquial, que acolhe pela primeira vez seus filhos menores à mesa do Senhor”. Justamente para destacar a importância deste evento para a família e para a paróquia, o Papa anunciou que, em 15 de outubro, realizará no Vaticano “um encontro especial de catequese para as crianças, em particular de Roma e do Lácio, que durante este ano receberam a Primeira Comunhão. Esta reunião festiva terá lugar quase no final do Ano da Eucaristia, enquanto se celebrará a assembléia ordinária do Sínodo dos Bispos, centrada no mistério eucarístico. Será uma circunstância oportuna e bela para confirmar o papel essencial que o Sacramento da Eucaristia tem na formação e crescimento das crianças”.
Antes de rezar a oração mariana, o Papa confiou este encontro à Virgem Maria, “para que nos ensine a amar cada vez mais Jesus, meditando constantemente sua Palavra e adorando sua presença eucarística, e nos ajude a fazer com que as jovens gerações descubram a «pérola preciosa» da Eucaristia, que dá autêntico e pleno sentido à vida”.
25 de junho de 2005: Audiência aos Bispos de Papua Nova Guiné e Ilhas Salomão em visita Ad Limina
“Jesus Cristo continua a levar as populações de suas duas ilhas a uma fé e a uma vida mais profundas n’Ele. Enquanto Bispos, respondam à sua voz pedindo de que modo a Igreja pode se tornar um instrumento sempre mais eficaz de Cristo”: foi o que recomendou o Santo Padre Bento XVI aos Bispos da Conferência Episcopal de Papua Nova Guiné e da Ilhas Salomão, recebidos em audiência na manhã de sábado, 25 de junho, por ocasião de sua visita ad limina Apostolorum.
O Papa recordou que da recente Assembléia Geral nacional em Papua Nova Guiné e do Seminário nas Ilhas Salomão, emergiram “sinais claros que incluem a forte participação dos jovens na missão da Igreja, a generosidade excepcional dos missionários e o florescimento de vocações locais”, sem, no entanto, esquecer das dificuldades. “Diante dessas dificuldades, os fiéis olham para vocês para que sejam testemunhas corajosas de Cristo, atentos em buscar novos modos para transmitir a fé, para que a força do Evangelho possa permear o modo de pensar, os modelos de juízo e as normas de comportamento.”
Prosseguindo o seu discurso, Bento XVI falou da relação entre sacerdotes e Bispos, que se expressa “no apoio à identidade única de seus sacerdotes, no encorajamento de sua santificação particular no ministério e na promoção de um aprofundamento de seu empenho pastoral”. O Papa reiterou ainda que “a identidade sacerdotal nunca deve ser comparada a nenhum título secular ou confundida com um trabalho civil ou político… O sacerdote vive uma vida de simplicidade, castidade e humilde serviço que inspira os outros com o exemplo. No centro do sacerdócio, existe a celebração quotidiana e devota da Santa Missa. Neste Ano da Eucaristia, dirijo-me aos seus sacerdotes: sejam fiéis a este compromisso, que é o centro e a missão da vida de cada um de vocês”.
Sobre a formação dos sacerdotes e dos religiosos, “parte integrante de uma evangelização bem feita”, há tempo objeto de reflexão, o Papa exortou os Bispos “a garantir uma seleção atenta dos candidatos, a supervisionar pessoalmente os seminários e a oferecer programas regulares de formação permanente, tão necessária para o aprofundamento da identidade sacerdotal e religiosa e para o enriquecimento do alegre empenho ao celibato”. Por fim, o Santo Padre expressou profunda gratidão “para com aqueles que atuam nos seminários e nas casas de formação”.
A última parte do discurso do Papa foi dedicada aos catequistas: “um número sempre maior de fiéis leigos está apreciando mais profundamente seu dever de participar da missão de evangelização da Igreja”, disse o Santo Padre, recordando o que emergiu durante o Sínodo para a Oceania, e encorajou os Bispos a promover apropriados programas de catequese para adultos, principalmente sobre temas do matrimônio e da vida familiar.
Por fim, o Papa exortou os Bispos: “Unidos na sua proclamação da Boa Nova de Jesus Cristo, vão plenos de esperança! Invocando sobre vocês a intercessão do bem-aventurado Peter To Rot, ofereço de coração a minha Bênção Apostólica a vocês e aos sacerdotes, aos religiosos e aos fiéis leigos de suas Dioceses”
8 de setembro de 2005: Audiência ao primeiro grupo de Bispos do México em visita Ad Limina
“Os momentos de encontro entre os Bispos são uma preciosa ocasião para viver e aprofundar a unidade. Neste sentido, a Conferência do Episcopado do México é também chamada a ser um sinal vivo da comunhão eclesial, com o objetivo de facilitar o ministério dos Bispos e a reforçar a colegialidade. Hoje, mais do que nunca, é necessário unir as forças e trocar experiências”. Esta é a exortação dirigida pelo Santo Padre Bento XVI ao primeiro grupo de Bispos do México («Norte Ocidente»), recebidos em visita Ad limina Apostolorum na quinta-feira, 8 de setembro, no Palácio apostólico de Castel Gandolfo.
Depois de recordar que "a nação mexicana surgiu do encontro de povos e culturas, cuja fisionomia foi marcada pela presença viva de Jesus Cristo e pela mediação de Maria”, o Papa disse: “Hoje o México vive um processo de transição caracterizado pela aparição de grupos que, às vezes, de maneira mais ou menos ordenada, buscam novos espaços de participação e representação. Muitos deles advogam com particular força a reivindicação em favor dos pobres e dos excluídos do desenvolvimento, particularmente dos indígenas. Os profundos desejos de consolidar uma cultura e instituições democráticas, econômicas e sociais, que reconheçam os direitos humanos e os valores culturais do povo, devem encontrar um eco e uma resposta iluminadora na ação pastoral da Igreja.”
O Santo Padre destacou a urgência, para todos os âmbitos da Igreja, de ajudar cada fiel “a viver o Evangelho nas diversas dimensões da vida… As formas tradicionais de viver a fé, transmitidas de modo sincero e espontâneo através de costumes e dos ensinamentos familiares, devem amadurecer em uma opção pessoal e comunitária”. Em particular, tal formação é necessária para os jovens, evidenciou Bento XVI, os quais “quando deixam de freqüentar a comunidade eclesial, depois dos Sacramentos de iniciação, se encontram diante de uma sociedade marcada por um crescente pluralismo cultural e religioso.”
Também as famílias requerem um acompanhamento adequado para descobrir e viver sua dimensão de "igreja doméstica"”. Mas é preciso sempre ter presente que, no entanto, o mero conhecimento dos conteúdos da fé "não supre a experiência do encontro pessoal com o Senhor”.
Entre as luzes que indicam a riqueza eclesial do México, o Santo Padre citou os mais de 400 Institutos de vida consagrada, principalmente femininos, muitos dos quais fundados no México, “que evangelizam todo o país e nos diversos ambientes, culturas e locais”. A estes, acrescentam-se uma maior participação dos fiéis leigos, uma crescente presença de movimentos leigos nacionais e internacionais, uma maior experiência comunitária. “Em relação às realidades locais e regionais, os Bispos têm de favorecer os processos pastorais orgânicos que dêem um maior sentido às manifestações derivadas da tradição e dos costumes. Esses processos devem ter por objetivo, primeiramente, integrar as diretrizes do Concílio com os desafios pastorais que as diversas situações concretas apresentam”.
Por fim, Bento XVI recordou que "a sociedade atual questiona e observa a Igreja, exigindo coerência e intrepidez na fé. Sinais visíveis de credibilidade serão o testemunho de vida, a unidade dos crentes, o serviço aos pobres e a incansável promoção de sua dignidade. Na tarefa evangelizadora, há que ser criativos, sempre em fidelidade à Tradição da Igreja e de seu magistério”. Por encontrarmo-nos em uma nova cultura marcada pelo meios de comunicação social, disse o Papa, a Igreja no México tem de aproveitar a “colaboração de seus fiéis, a preparação de tantos homens de cultura e as oportunidades que as instituições públicas concedem em matéria dos citados meios”.
3 de dezembro: Audiência aos Presidentes das Comissões Episcopais para a Família e para a Vida da América Latina
“Hoje é preciso anunciar com renovado entusiasmo que o Evangelho da família é um caminho de realização humana e espiritual, com a certeza de que o Senhor está sempre presente com a sua graça. Este anúncio é muitas vezes deformado por falsas concepções do matrimônio e da família, que não respeitam o projeto originário de Deus. Neste sentido, chegou-se a propor novas formas de matrimônio, algumas desconhecidas nas culturas dos povos, nas quais se altera a sua natureza específica”. Foi o que reiterou o Santo Padre Bento XVI, recebendo em audiência no sábado, 3 de dezembro, os participantes do III Encontro dos Presidentes das Comissões Episcopais para a Família e a Vida da América Latina, promovido pelo Pontifício Conselho para a Família.
“Também no âmbito da vida, estão surgindo novas impostações que colocam em discussão este direito fundamental - prosseguiu o Papa -. Como conseqüência, se favorece a eliminação do embrião ou o seu uso arbitrário em nome do progresso da ciência que, não reconhecendo os próprios limites e não aceitando todos os princípios morais que permitem tutelar a dignidade da pessoa, se torna uma ameaça para o próprio ser humano, que é reduzido a um objeto ou a um mero instrumento. Quando se chega a tais níveis, a própria sociedade é prejudicada e suas bases são abaladas com todo tipo de risco”.
No seu discurso, o Pontífice agradeceu de modo particular aos Bispos pela sua solicitude pastoral “no intuito de salvaguardar os valores fundamentais do matrimônio e da família, ameaçados pelo fenômeno atual da secularização que impede à consciência social descobrir adequadamente a identidade e a missão da instituição familiar, e ultimamente a pressão de leis injustas que ignoram os seus direitos fundamentais”. Além disso, o Papa Bento XVI recordou o dever dos Pastores de “apresentar em toda a sua riqueza o valor extraordinário do matrimônio que, enquanto instituição natural, é ‘patrimônio da humanidade’”.
O Santo Padre também destacou com prazer o crescimento e a consolidação da obra das Igrejas particulares em favor da família, “que afunda as suas raízes no desígnio amoroso de Deus e representa o modelo insubstituível para o bem comum da humanidade”. Além disso, reiterou que na América Latina, e em qualquer outro lugar, “os filhos têm o direito de nascer e de crescer dentro de uma família fundada no matrimônio, onde os pais sejam os primeiros educadores da fé para os filhos, e estes possam alcançar sua plena maturidade humana e espiritual. Realmente, os filhos são a maior riqueza e o bem mais precioso da família”. É preciso, portanto, ajudar as pessoas “a tomar consciência do mal intrínseco do crime do aborto que, atentando contra a vida humana no seu início, é também uma agressão contra a própria sociedade. Por isso, os políticos e os legisladores, como servidores do bem comum, têm o dever de defender o direito fundamental à vida, fruto do amor de Deus”. Para alcançar esse objetivo, é necessário que os agentes pastorais, sacerdotes e leigos tenham uma sólida preparação neste campo.
No final do seu discurso, o Santo Padre recordou o aproximar-se do V Encontro Mundial das Famílias, que se realizará em Valença, na Espanha, e encorajou os que se ocupam “da difícil tarefa da sua preparação”, auspiciando a presença de numerosas delegações da América Latina. “Da minha parte - concluiu Bento XVI -, apóio resolutamente a celebração deste encontro e o coloco sob a amorosa proteção da Santa Família”
25 de dezembro: a primeira Encíclica, “Deus Caritas est”
Introdução - « Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele » (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a conseqüente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: « Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem ». Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. No seu Evangelho, João tinha expressado este acontecimento com as palavras seguintes: « Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único para que todo o que n'Ele crer (...) tenha a vida eterna » (3, 16). Com a centralidade do amor, a fé cristã acolheu o núcleo da fé de Israel e, ao mesmo tempo, deu a este núcleo uma nova profundidade e amplitude. O crente israelita, de fato, reza todos os dias com as palavras do Livro do Deuteronômio, nas quais sabe que está contido o centro da sua existência: « Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças » (6, 4-5). Jesus uniu — fazendo deles um único preceito — o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo, contido no Livro do Levítico: « Amarás o teu próximo como a ti mesmo » (19, 18; cf. Mc 12, 29-31). Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um « mandamento », mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro.
Num mundo em que ao nome de Deus se associa às vezes a vingança ou mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto. Por isso, na minha primeira Encíclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós. Estão assim indicadas as duas grandes partes que compõem esta Carta, profundamente conexas entre elas. A primeira terá uma índole mais especulativa, pois desejo — ao início do meu Pontificado — especificar nela alguns dados essenciais sobre o amor que Deus oferece de modo misterioso e gratuito ao homem, juntamente com o nexo intrínseco daquele Amor com a realidade do amor humano. A segunda parte terá um caráter mais concreto, porque tratará da prática eclesial do mandamento do amor ao próximo. O argumento aparece demasiado amplo; uma longa explanação, porém, não entra no objetivo da presente Encíclica. O meu desejo é insistir sobre alguns elementos fundamentais, para deste modo suscitar no mundo um renovado dinamismo de empenhamento na resposta humana ao amor divino.”
“O amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam”. (Deus Caritas est, 2)
“O eros está de certo modo enraizado na própria natureza do homem; Adão anda à procura e « deixa o pai e a mãe » para encontrar a mulher; só no seu conjunto é que representam a totalidade humana, tornam-se « uma só carne ». Não menos importante é o segundo aspecto: numa orientação baseada na criação, o eros impele o homem ao matrimônio, a uma ligação caracterizada pela unicidade e para sempre; deste modo, e somente assim, é que se realiza a sua finalidade íntima. À imagem do Deus monoteísta corresponde o matrimônio monogâmico. O matrimônio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano. Esta estreita ligação entre eros e matrimônio na Bíblia quase não encontra paralelos literários fora da mesma”. (Deus Caritas est, 11)
31 de dezembro – Homilia durante o “Te Deum” de fim de ano
Um aceno à família e ao Programa Pastoral da Diocese de Roma, Papa Bento XVI quis fazer também no último dia do ano de 2005, durante a homilia para o Te Deum de agradecimento pelo fim do ano civil. «No que diz respeito ao caminho da Diocese de Roma, agrada-me deter-me brevemente sobre o programa pastoral diocesano, que este ano fixou a sua atenção na família, escolhendo como tema: "Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé". A família sempre esteve no centro da atenção dos meus venerados Predecessores, em particular de João Paulo II, que a ela dedicou múltiplas intervenções. Ele estava convicto, e em muitas ocasiões repetiu, que a crise da família constitui um grave dano para a nossa civilização. Precisamente para acentuar a importância da família fundada sobre o matrimônio na vida da Igreja e da sociedade, também eu quis oferecer a minha contribuição intervindo, na tarde de 6 de Junho passado, no Congresso diocesano de São João de Latrão. Estou feliz porque o programa da Diocese está a desenvolver-se positivamente com uma minuciosa acção apostólica, que é realizada nas paróquias, nas prefeituras e nas várias agregações eclesiais. Permita o Senhor que o esforço comum conduza a uma renovação autêntica das famílias cristãs. Aproveito a ocasião para saudar os representantes da Comunidade religiosa e civil de Roma presentes nesta celebração de fim de ano. Em primeiro lugar saúdo o Cardeal Vigário, os Bispos Auxiliares, os sacerdotes, os religiosos e os fiéis leigos provenientes das várias paróquias; saúdo também o Presidente da Câmara Municipal da Cidade e as demais Autoridades. Estendo o meu pensamento à inteira comunidade romana, da qual o Senhor me chamou para ser Pastor, e renovo a todos a expressão da minha proximidade espiritual».
12 de janeiro: Audiência a algumas comunidades do Caminho Neocatecumenal e a duzentas famílias a espera de sair em missão
“Queridas famílias, o crucifixo que recebem será seu inseparável companheiro de caminho, enquanto proclamam com sua ação missionária que somente em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, há salvação. Dele vocês serão testemunhas bondosas e gozosas, percorrendo com simplicidade e pobreza os caminhos de todos os continentes, sustentados pela incessante oração, atentos à palavra de Deus e alimentados pela participação na vida litúrgica das Igrejas particulares às quais serão enviados”. Com essas palavras, o Santo Padre Bento XVI se dirigiu a cerca de 200 famílias do Caminho Neocatecumenal, que recebeu em audiência esta manhã juntos aos responsáveis do Caminho: Kiko Argüello, Carmen Hernández e Padre Mario Pezzi.
O Santo Padre destacou no seu discurso que o especial “envio” missionário das famílias que irão a diversas nações, principalmente na América Latina, “se insere no contexto da nova evangelização, na qual desempenha um papel muito importante a própria família”. Em especial, o envio conferido pelo Sucessor de Pedro significa que “sua ação apostólica tende a integrar-se no coração da Igreja, em plena sintonia com suas diretrizes e em comunhão com as Igrejas particulares nas quais atuarão”.
O Papa Bento XVI reiterou “importância da liturgia e, em particular, a da santa missa na evangelização” e como “a centralidade do mistério de Cristo, celebrado nos ritos litúrgicos, constitui um caminho privilegiado e indispensável para construir comunidades cristãs vivas e perseverantes”. A este propósito, citou uma recente carta da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em que, a seu nome, foram disponibilizadas algumas normas concernentes à Celebração eucarística: “Estou seguro - disse o Pontífice - de que observarão atentamente estas normas que recolhem o que está previsto nos livros litúrgicos aprovados pela Igreja. Graças à adesão fiel a todas as diretrizes da Igreja, vocês realizarão de modo ainda mais eficaz seu apostolado, em sintonia e comunhão plena com o Papa e com os pastores de cada diocese”.
Entre os abundantes frutos pastorais colhidos pelo Caminho Neocatecumenal, o Santo Padre citou as numerosas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. “Hoje, nossa atenção dirige-se especialmente às famílias. Mais de duzentas estão dispostas a serem enviadas em missão; são famílias que partem sem grandes apoios humanos, mas que contam, antes de tudo, com o apoio da Providência divina. Queridas famílias, testemunhem com sua história que o Senhor não abandona quem confia nele. Sigam difundindo o Evangelho da vida. Ali onde os levar sua missão, deixem-se iluminar pelas consoladoras palavras de Jesus: «Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo». Em um mundo que busca a certeza humana e a segurança, mostrem que Cristo é a rocha segura sobre a qual há de se construir o edifício da própria existência, e que a confiança posta nele nunca é vã”.
12 de janeiro de 2006: Audiência aos representantes das Administrações da cidade e da província de Roma e da Região Lazio
Papa Bento XVI, encontrando no Vaticano os representantes das administrações das cidades e da província de Roma e da Região Lazio para a apresentação das felicitações para o início do ano novo, quis defender abertamente a família «fundada sobre o matrimônio» (sem atribuir «a outras formas de união impróprios reconhecimentos jurídicos») e dizer o «próprio ‘não’ à pílula abortiva Ru486, embora não a nomeando diretamente: é necessário «evitar – disse o Papa – a introdução de fármacos que escondam em qualquer modo a gravidade do aborto, como escolha contra a vida». «Penso em particular – disse ainda Bento XVI falando sobre a família – naquele terreno por demais sensível, e decisivo para o futuro da sociedade, que é representado pela família». Dúplice o empenho: «De um lado são oportunos todos aquelas providências que possam ser de auxílio aos jovens casais na formação de uma família e à família mesma na geração e educação dos filhos: a este respeito vem logo à mente problemas como o dos custos das residências, dos berçários e das escolas para crianças menores. De outro lado, é um grave erro obscurecer o valor e as funções da família legítima fundada sobre o matrimônio, atribuindo a outras formas de união impróprios reconhecimentos jurídicos, dos quais não há, em realidade, alguma efetiva exigência social».
24 de janeiro de 2006: Mensagem para a Jornada Mundial das Comunicações Sociais de 2006
“Em continuidade com o quadragésimo aniversário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II, desejo recordar o Decreto sobre os Meios de Comunicação Social, Inter Mirifica, que reconheceu aos mass media o poder de influenciar toda a sociedade humana. A necessidade de usufruir do melhor modo possível de tais potencialidades, em benefício da humanidade inteira, estimulou-me, nesta minha primeira mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, a refletir acerca do conceito de que a mídia se pode configurar como uma rede capaz de facilitar a comunicação, a comunhão e a cooperação”. Inicia-se com essas palavras a Mensagem do Santo Padre Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais 2006, que se celebrará na solenidade da Ascensão do Senhor, em 28 de maio. Como é tradição, a Mensagem foi publicada na festa litúrgica de S. Francisco de Sales, Padroeiro dos jornalistas.
Mesmo que os progressos tecnológicos no campo da mídia permitem às pessoas separadas por longas distâncias de entrar em comunicação instantânea e direta, “verificamos quotidianamente que a rapidez da comunicação nem sempre consegue criar um espírito de colaboração e de comunhão no âmbito da sociedade”, destaca o Santo Padre. “A comunicação autêntica deve basear-se na coragem e na decisão. Quantos trabalham na mídia devem estar determinados a não se deixarem subjugar pela grande quantidade de informações e não devem contentar-se com verdades parciais ou transitórias”.
Relançando o apelo para que a mídia de hoje “seja responsável, para se tornar protagonista da verdade e promotora da paz que dela deriva”, o Santo Padre evidencia que “os meios de comunicação social são uma «grande mesa-redonda» para o diálogo da humanidade, mas algumas atitudes no seu interior podem gerar uma monocultura que ofusca o gênio criativo, reduz a subtileza de um pensamento complexo e desvaloriza as peculiaridades das práticas culturais e a individualidade do credo religioso. Estas degenerações verificam-se quando a indústria da mídia se torna fim em si mesma, tendo unicamente por finalidade o lucro, perdendo de vista o sentido de responsabilidade no serviço ao bem comum”. A Mensagem, portanto, destaca a necessidade de garantir sempre “uma cuidadosa crônica dos acontecimentos, uma explicação satisfatória dos assuntos de interesse público, uma apresentação honesta dos diversos pontos de vista”. De particular atualidade e importância é “apoiar e encorajar a vida matrimonial e familiar”, assim como a educação das crianças e dos jovens propondo-lhes modelos válidos.
A Mensagem, portanto, sublinha três pontos, identificados pelo Papa João Paulo II, “indispensáveis para um serviço destinado ao bem comum: formação, participação e diálogo”. “A formação para um uso responsável e crítico da mídia ajuda a pessoa a servir-se dela de modo inteligente e apropriado… Como serviço público, a comunicação social exige um espírito de cooperação e co-responsabilidade, exige um uso dos recursos públicos sábio como nunca e um sério compromisso da parte de quantos desempenham papéis de responsabilidade pública, recorrendo também a normas de regulação e a outras providências ou estruturas designadas para tal finalidade. Por fim, a promoção do diálogo através do intercâmbio de cultura, a expressão de solidariedade e a adesão à paz oferecem uma grande oportunidade à mídia que necessita ser revalorizada e usada”.
O Papa Bento XVI conclui declarando-se certo de que os esforços para aplicar essas indicações vão ajudar “homens, mulheres e crianças a tornarem-se mais conscientes da dignidade da pessoa humana, mais responsáveis e mais abertos aos outros, sobretudo aos membros da sociedade mais necessitados e mais débeis”.
6 de fevereiro de 2006: Audiência ao segundo grupo de Bispos Congolenses em visita Ad Limina
“Caros Irmãos no Episcopado, ao final do nosso encontro como não reiterar a fundada esperança que compartilho com vocês de ver a reconciliação e a paz triunfar no país e em toda a Região dos Grandes Lagos! Que todos aqueles que presidem ao destino da nação ajam de modo harmonioso e responsável para alcançar uma paz duradoura! Também apelo à comunidade internacional para que não esqueça a África, levando adiante, em particular, ações corajosas e determinadas a consolidar a estabilidade política e econômica do país”. Foi a exortação conclusiva dirigida pelo Santo Padre Bento XVI ao segundo grupo de Bispos da Conferência Episcopal da República Democrática do Congo, recebido em audiência na segunda-feira, 6 de fevereiro, por ocasião de sua visita ad limina Apostolorum. Agradecendo aos Bispos pelos encontros realizados singularmente, o Santo Padre os convidou a garantir a seus diocesanos a sua solidariedade, “agora que são convidados, com todos os habitantes do país, a mobilizarem-se para obter a paz e a reconciliação, depois de anos de guerra que causaram, principalmente em sua região, milhões de vítimas. Que vocês sejam corajosos defensores da dignidade de cada ser humano e testemunhas audazes da caridade de Cristo, para edificar uma sociedade sempre mais justa e mais fraterna!”
O Santo Padre, em seguida, voltou ao tema da paz (“o compromisso pela paz é um desafio lançado à missão evangelizadora do Bispo”) e das trágicas conseqüências da guerra: “Neste ano, que a Igreja local dedica à bem-aventurada Anuarite Nengapeta, faço votos que o imperativo da caridade os mobilize e que, mediante a santidade de suas vidas e o dinamismo missionário que os anima, vocês sejam realmente profetas da justiça e da paz”. Satisfeito com o trabalho pastoral desenvolvido nas Comunidades eclesiais vivas por sacerdotes, pessoas consagradas e diversos organismos caritativos ao serviço dos mais necessitados, o Papa convidou os Bispos a trabalharem sem reservas para construir a unidade do povo de Deus.
Entre as prioridades que aguardam os Bispos congoleses, Bento XVI recordou “a difícil tarefa” de radicar o Evangelho na cultura africana, dar “nova vitalidade” ao sacramento da Penitência, redescobrir a Eucaristia como centro da existência de sacerdotes e fiéis e edificar a Igreja Família de Deus. O Papa também louvou o empenho da Conferência Episcopal “em abrir nos corações e nas consciências caminhos de reconciliação e de comunhão fraterna”, fazendo votos que traga bons frutos a campanha para propor a todos os cidadãos uma educação cívica. “A Igreja é chamada a participar desta obra - prosseguiu o Papa -, no lugar que lhe corresponde e segundo a vocação que lhe é própria, e a oferecer uma contribuição específica ao bem comum e à consolidação do Estado de direito, mostrando o seu empenho quotidiano pelo bem-estar material e espiritual de todos os congoleses”. Em particular, o Papa recomendou a formação específica dos políticos, “aprofundando o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja”.
O uso dos meios de comunicação social, em particular o rádio e a televisão, é hoje necessário “para que a Palavra do Evangelho seja ouvida em todos os pontos do país e para que o ensinamento da Igreja influa profundamente sobre as consciências, sobre a mentalidade e sobre os costumes”, também para limitar a ação das seitas, “que utilizam abundantemente as novas tecnologias para atrair e confundir os fiéis”. Uma outra prioridade pastoral é constituída pela evangelização da família, desagregada pelo movimento dos refugiados e deslocados, pela pandemia da Aids e pelas mudanças da sociedade contemporânea. “Neste espírito, é oportuno prestar atenção à preparação humana e espiritual dos casais e ao acompanhamento pastoral das famílias, recordando a dignidade do matrimônio cristão, único e indissolúvel, e propondo uma espiritualidade conjugal forte, para que as famílias cresçam em santidade”.
O Papa dirigiu uma particular saudação a todas as pessoas consagradas, homenageando “aqueles, homens e mulheres que, em condições extremas, escolheram permanecer entre as populações provadas para oferecer-lhes a assistência, o conforto e o apoio espiritual necessários”. Por fim, os jovens, “verdadeira riqueza para a Igreja e para todo o país”, necessitam fortalecer sua fé e sua esperança, através de uma formação cristã vigorosa. Não faltam iniciativas pastorais para a recuperação dos meninos de rua e das crianças-soldado, e seja as escolas católicas, como todas as pessoas que se preocupam com a formação e a educação dos jovens, são convidadas a oferecer aos jovens “os meios para crescer na caridade, para cultivar o prazer do compromisso e para praticar o respeito recíproco, o aprendizado do diálogo e o serviço à comunidade, para que sejam membros ativos da evangelização e da renovação do tecido social”.
20 de fevereiro de 2006: Audiência aos Bispos do Senegal, Mauritânia, Cabo Verde e Guiné-Bissau em visita Ad Limina
“Através de vocês, Pastores da Igreja em Senegal, Mauritânia, Guiné-Bissau e Cabo Verde, uno-me com o coração e a oração aos povos dos quais vocês têm a responsabilidade pastoral. Que Deus abençoe os artífices de paz e fraternidade que, em seus Países, constroem relações de confiança e colaboração recíprocas entre as comunidades humanas e religiosas!”. Assim, o Santo Padre Bento XVI saudou os Bispos da Conferência Episcopal que reúne os quatro Países africanos, recebidos em audiência segunda-feira, 20 de fevereiro, no contexto de sua visita Ad limina Apostolorum.
As Igrejas particulares destas nações “apresentam uma grande diversidade de situações humanas e eclesiais, que por vezes dificulta a boa coordenação do trabalho dos Pastores”. Por este motivo, o Santo Padre destacou que “os vínculos de comunhão efetivos continuam essenciais...” “Caminhando com o seu povo, o Bispo deve suscitar, guiar e coordenar a ação evangelizadora, para que a fé aumente e se difunda entre os homens. Nesta perspectiva, o Evangelho deve ser plenamente enraizado na cultura de seus povos”. O retorno à religião tradicional por parte de alguns “deve incentivar a busca de meios apropriados para despertar e reforçar a fé à luz do Evangelho, e consolidar os fundamentos teológicos das Igrejas particulares, assumindo, ao mesmo tempo, o melhor da identidade africana”. O Papa também ressaltou que “para viver em fidelidade os compromissos batismais, é preciso ter uma sólida formação da fé, a fim de enfrentamos novos fenômenos da vida contemporânea”.
Na difícil obra de evangelização, os sacerdotes são colaboradores generosos do Bispo. Por isso, é preciso cuidar de sua formação inicial e permanente, fazendo deles “homens equilibrados do ponto de vista humano e espiritual, capazes de responder aos desafios que devem enfrentar, seja na vida pessoal, como pastoral”.
Em seguida, o Santo Padre evocou a contribuição generosa e constante dos institutos de vida consagrada para construir a harmonia na Igreja e contribuir em seu dinamismo missionário, auspiciando que os membros dos Institutos “mantenham relações de confiança e colaboração com os Pastores, vivendo uma comunhão profunda, não somente no âmbito de cada comunidade, mas também com a Igreja diocesana e universal”.
Um dos campos em que a Igreja é mais engajada é o desenvolvimento social. “O cristianismo não deve se reduzir a uma sabedoria puramente humana - reiterou o Santo Padre - e nem se deve confundir com um serviço social, pois se trata de um serviço também espiritual. Todavia, para o discípulo de Cristo, o exercício da caridade não pode ser um meio a serviço do proselitismo, visto que o amor é gratuito. Vocês exercem o serviço ao homem muitas vezes em colaboração com homens e mulheres que não compartilham a fé cristã, e, em especial, com muçulmanos. Os esforços realizados para o encontro na verdade dos fiéis de diversas tradições religiosas contribuem para a realização concreta do bem autêntico das pessoas e da sociedade. É imperativo aprofundar cada vez mais as relações fraternas entre as comunidades, a fim de favorecer um desenvolvimento harmonioso da sociedade, reconhecendo a dignidade de cada pessoa, e permitindo o livre exercício da própria religião a todos”.
Em especial, na Guiné-Bissau, a Igreja local “encontra-se na linha de frente na promoção do diálogo e da cooperação entre todos os componentes da Nação”; e o Papa exortou os Bispos a continuarem a ser “pontos de referência seguros e de orientação para todos os cidadãos”. Enfim, entre as prioridades pastorais das respectivas Dioceses, o Papa Bento XVI destacou o tema da família cristã: “Sem ela, faltaria a unidade basilar de vida e de construção da “Família de Deus”, proposta pela Igreja, em nosso continente, na Assembléia Sinodal de 1994. Ela não pode se considerar realmente inserida o encarnada se o ideal cristão de vida familiar não estiver enraizado em meio ao povo africano”.
17 de março de 2006: Audiência à Plenária do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais
“Eu os exorto a renovar seus esforços dirigidos a ajudar aqueles que atuam no mundo dos meios da comunicação social “a promoverem aquilo que é bom e autêntico, em particular a propósito do significado da existência humana e social, e a denunciarem aquilo que é falso, principalmente tendências que prejudicam o tecido de uma sociedade civil digna da pessoa humana.” Este é o convite que o Santo Padre Bento XVI dirigiu aos participantes da Plenária do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, recebidos em audiência na manhã de 17 de março, na Sala Clementina, no Vaticano.
“Desejo agradecer a todos vocês pelo empenho no importante apostolado das comunicações sociais - disse o Santo Padre no início do seu discurso - seja como forma direta de evangelização, seja como contribuição à promoção de tudo aquilo que é bom e autêntico para cada sociedade humana”. O Papa Bento XVI citou a sua primeira Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, sobre os meios de comunicação “como rede que facilita a comunicação, a comunhão e a cooperação”. Quarenta anos depois do Decreto do Concílio Vaticano II, “Inter Mirifica”, que já havia reconhecido o enorme poder dos meios de comunicação social ao inspirar a mente dos indivíduos e ao plasmar seu pensamento, hoje compreendemos mais do que nunca “a exigência de utilizar aquele poder em benefício da humanidade”.
O Papa Bento XVI indicou aos presentes o desafio de encorajar as comunicações sociais e a indústria do entretenimento a serem protagonistas da verdade e promotores de paz: “Este empenho requer coragem e determinação de princípio àqueles que possuem a influente indústria da comunicação social ou trabalham nela, a fim de garantir que a promoção do bem comum nunca seja sacrificada a um desejo egoístico de lucro ou a um programa ideológico de escassa responsabilidade pública”.
Uma outra urgência identificada pelo Santo Padre na Mensagem deste ano para o Dia Mundial das Comunicações Sociais diz respeito à necessidade de apoiar o matrimônio e a vida familiar, “fundamento de cada cultura e sociedade. Em cooperação com os pais, as comunicações sociais e a indústria do entretenimento podem ser de ajuda na vocação difícil, mas satisfatória, de criar os filhos, apresentando modelos edificantes de vida e de amor. Quanto é desencorajador e destrutivo para todos nós quando acontece o contrário!”. O Papa Bento XVI concluiu o seu discurso citando as palavras de S. Paulo - “Cristo é a nossa paz: n’Ele somos um único povo (cf Ef 2, 14)” - e com uma exortação: “Trabalhemos juntos para edificar a comunhão de amor segundo os planos que o Criador evidenciou através do seu Filho!”
18 de março 2006: Audiência aos Bispos de Camarões em visita Ad Limina
O décimo aniversário da Exortação Apostólica pós-sinodal “Ecclesia in Africa”, assinada em Yaoundé em setembro de 1995 pelo Papa João Paulo II, caracterizou a vida da Igreja em Camarões no ano passado. Por esse motivo, o Papa Bento XVI fez votos para que “as instituições eclesiológicas e espirituais contidas neste texto, verdadeiros antídotos contra o desencorajamento e a resignação”, suscitem “um ímpeto novo, para realizar a missão salvífica que a Igreja recebeu de Cristo”. Recebendo em audiência os Bispos de Camarões em visita Ad limina apostolorum, no sábado, 18 de março, o Santo Padre destacou: “Trata-se de fazer penetrar o Evangelho no mais profundo das culturas e das tradições de seu povo, caracterizadas pela riqueza de seus valores humanos, espirituais e morais, sem deixar de purificar tais culturas, através de uma necessária conversão daquilo que nelas se opõe à plenitude de verdade e de vida que se manifesta em Cristo Jesus. Isso requer também anunciar e viver a Boa Nova iniciando, sem medo, um diálogo crítico com as novas culturas ligadas ao emergir da mundialização, para que a Igreja contribua com uma mensagem sempre mais pertinente e crível, permanecendo fiel ao mandamento que recebeu do seu Senhor.”
Dos relatórios qüinqüenais dos Bispos, emerge um “contexto econômico e social desfavorável, que faz aumentar o número de pessoas em condição de grande precariedade, enfraquecendo o laço social e comportando a perda de um certo número de valores tradicionais…”. Entre os outros motivos de preocupação e desafio para a Igreja, o Papa Bento XVI recordou a ofensiva das seitas, as diversas práticas de religiosidade popular que devem ser constantemente purificadas e as devastações da Aids. “Nesta perspectiva - prosseguiu o Papa - é oportuno ajudar todos os membros da Igreja, sem exceções, a desenvolver uma intimidade sempre maior com Cristo, alimentada pela Palavra de Deus, através de uma vida de oração intensa e de uma vida sacramental regular”.
Os Bispos são chamados “através da palavra e do testemunho de vida”, a “convidar os homens e descobrirem Cristo na força do Espírito e a confirmá-los na fé viva”. Em particular, que a riqueza das homilias, uma catequese estruturada, a formação inicial e permanente dos catequistas e o apoio à pesquisa teológica, “possam suscitar um novo ímpeto de santidade nas comunidades. Os cristãos poderão, então, ocupar seu lugar e agir com competência nos âmbitos da vida social, da política e da economia”. O Papa Bento XVI exortou os Bispos a prosseguirem no caminho da colaboração pastoral e da unidade, que “ajuda a levar adiante a evangelização de seu povo marcado por diferenças étnicas”, e os encorajou a mostrar com as palavras e os escritos que “a Igreja católica dá muita importância ao bem-estar e à dignidade de todos os habitantes de Camarões, sem exceções, e à realização de suas aspirações profundas à unidade, à justiça e à fraternidade”.
Alegrando-se com o crescente número de sacerdotes e de seminaristas, e agradecendo também “o trabalho paciente dos missionários que os precederam, que se doaram com generosidade e espírito apostólico para edificar comunidades capazes de suscitar no seu interior vocações sacerdotais”, o Santo Padre evidenciou a necessidade de que os Bispos estejam atentos “aos vínculos de comunhão fraterna” com os seus sacerdotes e que estes meditem “sobre o dom total que fizeram de si a Deus e à Igreja, semelhante ao dom de Cristo, e sobre as exigências que a caridade pastoral comporta, em particular sobre a necessidade de uma vida casta vivida no celibato, em conformidade com a lei da Igreja, sobre um justo exercício da autoridade e de uma relação saudável com os bens materiais”. “Não são as nossas ações pastorais, mas o dom de nós mesmos e o testemunho de vida - evidenciou o Papa - a revelar o amor de Cristo pelo rebanho”.
Na parte conclusiva do seu discurso, o Santo Padre exortou os Bispos a promoverem uma adequada pastoral familiar, e apreciou as muitas iniciativas através das quais “a Igreja em Camarões se preocupa constantemente em manifestar de maneira específica e eficaz a caridade de Cristo para com todos”. Por fim, o Papa Bento XVI exortou os Bispos de Camarões “a prosseguirem a obra de evangelização... a consolidarem relações fraternas com as outras confissões cristãs e com os fiéis de outras religiões, para manifestar o amor de Cristo Salvador, que faz nascer entre os homens o desejo de viver em paz e de formar um povo de irmãos”.
3 de abril de 2006: Audiência aos Bispos da Costa do Marfim em visita Ad Limina
As responsabilidades dos católicos na construção de uma nação e de um mundo de paz e reconciliado foram um dos argumentos principais tratados pelo Santo Padre Bento XVI no seu discurso aos Bispos da Costa do Marfim, recebidos em visita Ad Limina Apostolorum segunda-feira, 3 de abril. “A crise que o país vive infelizmente evidenciou as divisões que constituem uma ferida profunda nas relações entre os diversos membros da sociedade - disse o Papa Bento XVI -. As violências que derivaram minaram gravemente a confiança entre as pessoas e a estabilidade do país, deixando atrás de si sofrimentos difíceis de serem sanados. O restabelecimento de uma verdadeira paz será possível somente através do perdão generosamente concedido e da reconciliação efetivamente realizada entre as pessoas e entre os grupos envolvidos”. Para alcançar este objetivo, é necessário prosseguir corajosamente no diálogo para examinar as causas que levaram a esta situação, e encontrar soluções aceitáveis por todos, na justiça e na verdade. “O caminho da paz é longo e difícil, mas nunca é impossível”, exortou o Santo Padre, recordando que os católicos tiveram um papel importante neste processo, “enquanto a construção de um mundo reconciliado nunca pode ser para eles indiferente”.
O Papa Bento XVI recordou a necessidade primária de “recriar a confiança entre os discípulos de Cristo, apesar das divergências de opiniões que podem manifestar-se entre eles. De fato, é primeiramente dentro da Igreja que deve ser vivido um autêntico amor, na unidade e na reconciliação”. Os cristãos devem deixar-se transformar pela força do Espírito, “para serem verdadeiras testemunhas do amor do Pai”. “Em suas Igrejas diocesanas, diante das tensões políticas ou étnicas, Bispos, sacerdotes e pessoas consagradas devem ser para todos modelos de fraternidade e de caridade, e contribuir com suas palavras e comportamentos para a edificação de uma sociedade unida e reconciliada”.
Outra “preocupação principal” indicada pelo Santo Padre diz respeito à formação inicial e permanente dos sacerdotes, com um destaque para a vida espiritual: “O sacerdote tem como missão ajudar os fiéis a descobrirem o mistério de Deus e a abrirem-se aos outros. Para tal fim, é chamado a ser um autêntico homem em busca de Deus, permanecendo ao mesmo tempo próximo das preocupações dos homens”… “Além disso, vivendo fielmente a castidade no celibato, o sacerdote mostrará que todo o seu ser é dom de si mesmo a Deus e a seus irmãos”. Também os leigos necessitam de uma adequada formação e de um aprofundamento da fé, “para poder resistir ao retorno das práticas antigas e das solicitações das seitas, e principalmente para testemunhar a esperança cristã em um mundo complexo que conhece novos e graves problemas”. Em particular, os catequistas devem receber “uma formação que os torne capazes de desempenhar a missão que lhes foi confiada, vivendo ao mesmo tempo sua fé de modo coerente”.
O Papa Bento XVI evidenciou a necessidade de prosseguir a obra de inculturação da fé, tão importante para o anúncio do Evangelho a todas as culturas, que “não deve comprometer a especificidade e a integridade da fé, mas deve ajudar os cristãos a compreender melhor e a viver melhor a mensagem evangélica na própria cultura, e a saber renunciar às práticas que estão em contradição com os compromissos batismais”. Um outro tema importante diz respeito ao sacramento do matrimônio, enquanto são difusas a poligamia e as convivências: “É necessário, portanto, prosseguir sem descanso o esforço que realizaram para que, principalmente os jovens, aceitassem o fato de que o matrimônio é, para os cristãos, uma vida de santidade”.
Por fim, o Santo Padre se congratulou com o desenvolvimento dos movimentos eclesiais, “que contribuem para conferir um impulso missionário renovado às comunidades cristãs”, e convidou os membros desses grupos “a aprofundarem sempre mais seu conhecimento pessoal de Cristo”, e os Bispos a exercitarem “um discernimento iluminado e constante” dessas realidades eclesiais.
7 de abril 2006: Encontro com os jovens em preparação à XXI Jornada Mundial da Juventude
No curso do encontro em preparação à celebração da XXI Jornada Mundial da Juventude, o Santo Padre Bento XVI respondeu a algumas perguntas colocadas pelos jovens presentes na Praça S. Pedro. Uma destas tinha por tema o matrimônio e a família.
Eis pergunta: “Santo Padre, sou Anna, tenho 19 anos, estudo Letras e pertenço à Paróquia de S. Maria do Carmelo. Um dos problemas com os quais temos mais trabalho é o afetivo. Freqüentemente temos dificuldade em amar. Dificuldade, sim: porque é fácil confundir o amor com o egoísmo, sobretudo hoje, onde grande parte dos meios de comunicação quase nos impõem uma visão da sexualidade individualista, secularizada, onde tudo parece lícito, e tudo é válido em nome da liberdade de consciência dos indivíduos. A família fundada sobre o matrimônio parece hoje pouco mais do que uma invenção da Igreja, para não falar, depois, dos relacionamentos pré-matrimoniais, cujo veto parece, mesmo para muitos de nós crentes, coisa incompreensível e fora do tempo... Bem sabendo que tantos de nós buscam viver responsavelmente a sua vida afetiva, poderia ilustrar que coisa nos diz a este propósito a Palavra de Deus? Obrigado”.
A resposta do Santo Padre: “Trata-se de uma grande questão, e responder em poucos minutos certamente não é possível, mas tentarei dizer alguma coisa. A mesma Anna deu já muitas respostas quando dizia que o amor hoje é freqüentemente mal interpretado, em quanto é apresentado como uma experiência egoística, quando em verdade é um abandono de si, tornando-se assim um encontrar-se. Ela disse que uma cultura consumista falsifica a nossa vida com um relativismo que parece nos dar tudo e em realidade nos esvazia. Mas então escutemos a Palavra de Deus a este respeito. Anna queria justamente saber que coisa diz a palavra de Deus. Para mim é algo muito belo constatar que já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, logo após o relato da Criação do homem, encontramos a definição do amor e do matrimônio. O autor sagrado nos diz: “O homem abandonará pai e mãe, seguirá a sua mulher e ambos serão uma só carne, uma única existência”. Estamos ao início e já é dada uma profecia sobre que coisa seja o matrimônio; e esta definição permanece idêntica também no Novo Testamento. O matrimônio é este seguir o outro no amor e assim tornar-se uma única existência, uma só carne, e por isso inseparáveis; uma nova existência que nasce desta comunhão de amor, que une e assim cria o futuro. Os teólogos medievais, interpretando esta afirmação que se encontra ao início da Sagrada Escritura, disseram que entre os sete Sacramentos, o matrimônio é a primeiro instituição de Deus, tendo sido instituído já ao momento da criação, no Paraíso, o início da história, e antes de toda história humana. É uma sacramento do Criador do universo, inscrito portanto diretamente no ser humano mesmo – naqueles que são orientados a este caminho –, no qual o homem abandona sua mulher para formar uma só carne, porque os dois se tornem uma única existência.
Portanto o sacramento do matrimônio não é uma invenção da Igreja, é realmente “co-creado” com o homem como tal, como fruto do dinamismo do amor, no qual o homem e a mulher encontram-se um ao outro, e assim encontram também o Criador que os chamou ao amor. É verdade que o homem caiu e foi expulso do Paraíso, ou em outras palavras, palavras mais modernas, é verdade que todas as culturas são inclinadas ao pecado pelos erros do homem em sua história, e assim o desígnio inicial inscrito na nossa natureza permanece obscurecido. De fato, nas culturas humanas encontramos este obscurecimento do desígnio original de Deus. Ao mesmo tempo, porém, observando as culturas, toda a história cultural da humanidade, constatamos também que o homem jamais pode esquecer totalmente este desígnio que existe na profundidade do seu ser. Sempre soube, de uma certa forma, que as outras formas de relacionamento entre homem e mulher não correspondiam realmente ao desígnio original do seu ser. E assim nas culturas, sobretudo nas grandes culturas, vemos sempre de novo como estes se orientam a esta realidade, a monogamia, o ser homem e mulher uma só carne. É assim, na fidelidade, que pode crescer uma nova geração, pode continuar-se uma tradição cultural, renovando-se e realizando, na continuidade, um autêntico progresso.
O Senhor, que falou disto na língua dos profetas de Israel, acenando à concessão da parte de Moisés ao divórcio, disse: Moises vos concedeu “pela dureza de vossos corações”. O coração após o pecado tornou-se “duro”, mas este não era o desígnio do Criador e os Profetas com clareza crescente insistiram sobre este desígnio originário. Para renovar o homem, o Senhor – aludindo a estas vozes proféticas que sempre guiaram Israel à clareza da monogamia – reconheceu com Ezequiel que temos necessidade, para viver esta vocação, de um coração novo; ao contrário do coração de pedra – como diz Ezequiel – temos necessidade de um coração de carne, de um coração realmente humano. E o Senhor, no Batismo, mediante a fé “implanta” em nós este coração novo. Não é um transplante físico, mas talvez possamos servirmo-nos desta comparação: após o transplante, é necessário que o organismo seja tratado, que receba os remédios necessários para poder viver com o novo coração, de tal modo que este se torne o “seu coração” e não o “coração de um outro”. Tanto mais neste “transplante espiritual”, onde o Senhor nos implanta um coração novo, um coração aberto ao Criador, à vocação de Deus, à vocação de Deus, para poder viver com este coração novo, são necessários tratamentos adequados, é preciso recorrer aos remédios oportunos, para que este se torne realmente “coração nosso”. Vivendo assim na comunhão com Cristo, com a sua Igreja, o novo coração torna-se realmente “coração nosso” e torna-se possível o matrimônio. O amor exclusivo entre um homem e uma mulher, a vida a dois designada pelo Criador torna-se possível, mesmo se o clima do nosso mundo a torna tão difícil, até o ponto de fazê-la parecer impossível.
O Senhor nos dá um coração novo e nós devemos viver com este coração novo, usando as oportunas terapias para que seja realmente “nosso”. É assim que vivemos quando o Criador nos doou e isto cria uma vida realmente feliz. De fato, podemos vê-lo também neste mundo, não obstante tantos outros modelos de vida: são tantas famílias cristãs que vivem com fidelidade e com alegria a vida e o amor indicados pelo Criador e assim cresce uma nova humanidade.
E por fim acrescentaria: sabemos todos que para atingir um objetivo no esporte ou na profissão é preciso disciplina e renúncia, mas depois tudo isto é coroado pelo sucesso, pela conquista da meta desejada. Assim também com a vida mesma, isto é o tornar-se homem segundo o desígnio de Jesus, exige renúncias; estas porém não são uma coisa negativa, ao contrário ajudam a viver como homens com um coração novo, a viver uma vida realmente humana e feliz. Posto que existe uma cultura consumista que quer nos impedir de viver segundo o desígnio do Criador, devemos ter a coragem de criar ilhas, oásis, e depois grandes terrenos de cultura católica, nos quais se viva o projeto do Criador”.
24 de abril de 2006: Audiência aos Bispos de Gana em visita Ad Limina
“Sei que este ano é um jubileu especial para a Igreja em Gana. De fato, justamente ontem, 23 de abril, se celebrou o centenário da chegada dos missionários à parte setentrional do país. Rezo em particular para que o zelo missionário continue a preencher vocês e seu amado povo, reforçando-os em seus esforços para difundir o Evangelho”. Esta é a exortação que o Santo Padre Bento XVI dirigiu aos Bispos de Gana recebidos em visita Ad Limina apostolorum segunda-feira, 24 de abril, na Sala do Consistório do Palácio Apostólico.
“Nos últimos anos, o país realizou grandes passos adiante ao enfrentar a chaga da pobreza e ao reforçar a economia - disse o Santo Padre no seu discurso -. Apesar deste louvável progresso, ainda permanece muito a ser feito para superar esta condição que cria obstáculos para uma vasta porção da população. A pobreza extrema e difundida muitas vezes produz um declínio moral geral, que conduz ao crime, à corrupção, a ataques à santidade da vida humana ou até mesmo a um retorno às práticas de superstição do passado”. Nesta situação, a Igreja é chamada a resplandecer “como farol de esperança na vida do cristão”, ajudando os fiéis a compreenderem melhor as promessas de Jesus Cristo, intensificando os programas de formação que ajudem os fiéis a aprofundar sua fé cristã e a assumir seu justo lugar na Igreja de Cristo e na sociedade.
O Santo Padre destacou a importância do papel do catequista, expressando gratidão “aos numerosos leigos, homens e mulheres, que servem com abnegação a Igreja local deste modo”, permanecendo “mensageiros corajosos da alegria de Cristo” inclusive diante dos obstáculos que, muitas vezes, encontram em seu ministério. E exortou os Bispos a trabalharem para que “esses evangelizadores recebam o apoio espiritual, doutrinal, moral e material de que necessitam para realizarem corretamente sua missão”.
A alta porcentagem de jovens na população de Gana requer que a Igreja enfrente os seus problemas “de modo sincero e amoroso”, elaborando adequados programas juvenis que respondam a suas expectativas e os ajudem a reforçar sua identidade católica, fornecendo-lhes “os instrumentos necessários para enfrentar os desafios das realidades econômicas em mutação, da globalização e da doença. Isso os ajudará também a rebater as argumentações muitas vezes apresentadas pelas seitas religiosas”.
Um outro tema tocado pelo Santo Padre durante o seu discurso foi a família e o matrimônio cristão. “Muitos de vocês estão preocupados com a correta celebração do matrimônio cristão em Gana - disse o Papa Bento XVI -. Compartilho esta preocupação e convido os fiéis a colocarem o Sacramento do Matrimônio no centro de sua vida familiar. Mesmo que o cristianismo busque sempre respeitar as veneráveis tradições das culturas e dos povos, busca também purificar aquelas práticas que são o contrário do Evangelho. Por este motivo, é essencial que toda a comunidade eclesial continue a destacar a importância da união monogâmica e indissolúvel entre homem e mulher, consagrada no santo matrimônio. Para o cristão, as formas tradicionais de matrimônio nunca podem substituir o matrimonio sacramental”.
Por fim, o Papa se deteve sobre a formação dos futuros sacerdotes: “O sacerdócio nunca deve ser considerado como um modo para melhorar a própria posição social ou a própria qualidade de vida. Se assim fosse, o dom sacerdotal de si e a disponibilidade para com o desígnio de Deus dariam livre desafogo a desejos pessoais, tornando o sacerdote ineficaz e irrealizado. Por isso, eu os encorajo em seus esforços constantes voltados para garantir a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e a uma correta formação sacerdotal para aqueles que estudam para o ministério sagrado.”
11 de maio de 2006: Audiência aos participantes ao Congresso promovido pelo Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e Família
“A comunhão de vida e de amor, que é o matrimônio, se configura como um autêntico bem para a sociedade. Evitar a confusão com outros tipos de uniões baseadas em um amor frágil se apresenta hoje com uma especial urgência. Somente a rocha do amor total e irrevogável entre homem e mulher é capaz de fundar a construção de uma sociedade que se torne uma casa para todos os homens”: foi o que reiterou o Santo Padre Bento XVI recebendo em audiência, em 11 de maio, os participantes do Congresso Internacional promovido pelo Pontifício Instituto João Paulo II para o Estudo sobre Matrimônio e Família da Pontifícia Universidade Lateranense, sobre o tema: "A herança de João Paulo II sobre o matrimônio e a família: amar o amor humano".
No seu discurso, o Papa destacou que o Instituto foi firmemente desejado pelo Papa João Paulo II: “Justamente vocês sentem própria esta herança, porque são os destinatários e os perpetuadores da visão que constituiu um dos centros da sua missão e das suas reflexões: o plano de Deus sobre matrimônio e família. Trata-se de uma herança que não é simplesmente um conjunto de doutrinas ou de idéias, mas primeiramente um ensinamento dotado de uma luminosa unidade sobre o sentido do amor humano e da vida”.
O Papa Bento XVI recordou que a idéia de "ensinar a amar" acompanhou o então jovem sacerdote e sucessivamente o jovem Bispo Wojtyla, principalmente quando foi publicada a Encíclica “Humanae vitae”, que deu vida a amplos debates e a sucessivos aprofundamentos sobre este tema. O Papa Bento XVI citou dois elementos fundamentais que, no decorrer dos anos, o Instituto buscou aprofundar: “O primeiro elemento é que o matrimônio e a família estão radicados no núcleo mais íntimo da verdade sobre o homem e sobre o seu destino. A Sagrada Escritura revela que a vocação ao amor faz parte daquela autêntica imagem de Deus que o Criador quis imprimir na sua criatura, chamando-a a tornar-se semelhante a Ele justamente na medida em que é aberta ao amor. A diferença sexual que conota o corpo do homem e da mulher não é, portanto, um simples dado biológico, mas reveste um significado bem mais profundo: expressa aquela forma de amor com o qual o homem e a mulher, tornando-se uma só carne, podem realizar uma autêntica comunhão de pessoas aberta à transmissão da vida e cooperam, assim, com Deus, à geração de novos seres humanos. Um segundo elemento caracteriza a novidade do ensinamento de João Paulo II sobre o amor humano: o seu modo original de ler o plano de Deus justamente na confluência da revelação com a experiência humana. Em Cristo, com efeito, a plenitude da revelação do amor do Pai se manifesta também na verdade plena da vocação ao amor do homem, que pode encontrar-se realizado somente no dom sincero de si”.
Na parte conclusiva do seu discurso, o Papa Bento XVI indicou a tarefa que cabe ao Instituto no conjunto das estruturas acadêmicas: “iluminar a verdade do amor como caminho de plenitude em toda forma de existência humana. O grande desafio da nova evangelização, que João Paulo II propôs com tanto ímpeto, necessita ser apoiado com uma reflexão realmente aprofundada sobre o amor humano, pois é justamente este amor uma via privilegiada que Deus escolheu para revelar-se ao homem e é neste amor que o chama a uma comunhão na vida trinitária”.
13 de maio de 2006: Audiência aos participantes da Assembléia Planária do Pontifício Conselho para a Família
Em 13 de maio de 2006 Bento XVI recebeu na Sala Clementina do Vaticano os participantes da Assembléia Plenária do Pontifício Conselho para a Família. «Dirijo a cada um de vós a minha cordial saudação – disse Bento XVI –, com um pensamento particular ao Cardeal Alfonso López Trujillo, a quem agradeço ter-se feito intérprete dos sentimentos comuns.
Esta vossa reunião ofereceu-vos a ocasião de examinar os desafios e os projetos pastorais relativos à família, justamente considerada como "igreja doméstica" e santuário da vida. Trata-se de um campo apostólico vasto, complexo e delicado, ao quais vós dedicais energia e entusiasmo, com a intenção de promover o "Evangelho da família e da vida". Como deixar de recordar, a este propósito, a visão ampla e clarividente dos meus Predecessores, e de maneira particular do Papa João Paulo II, que promoveram com coragem a causa da família, considerando-a como realidade determinante e insubstituível para o bem comum dos povos?
A família fundamentada no matrimônio constitui um "patrimônio da humanidade", uma instituição social fundamental; é a célula vital e o pilar da sociedade, e isto diz respeito tanto aos crentes como aos não-crentes. Trata-se de uma realidade que todos os Estados devem ter na máxima consideração porque, como João Paulo II gostava de reiterar, "o futuro da humanidade passa através da família" (Familiaris consortio, 86).
Além disso, na visão cristã o matrimônio, elevado por Cristo à altíssima dignidade de sacramento, confere maior esplendor e profundidade ao vínculo conjugal e compromete mais vigorosamente os esposos que, abençoados pelo Senhor da Aliança, se prometem fidelidade recíproca até à morte, no amor aberto à vida. Para eles, o cerne e o coração da família é o Senhor, que os acompanha na missão de educar os filhos rumo à maturidade. De tal maneira, a família cristã coopera com Deus não somente na geração da vida natural, mas inclusive na cultivação dos germes da vida divina recebida mediante o Batismo. Estes são os conhecidos princípios da visão cristã do matrimônio e da família. Recordei-os uma vez mais na quinta-feira passada, quando falei aos membros do Pontifício Instituto "João Paulo II" para os Estudos sobre Matrimônio e Família.
No mundo contemporâneo, em que se vão difundindo algumas concepções equívocas sobre o homem, a liberdade e o amor humano, nunca nos devemos cansar de apresentar sempre de novo a verdade sobre a instituição familiar, como foi desejada por Deus desde a criação. Infelizmente, continua a aumentar o número de separações e de divórcios, que fragmentam a unidade familiar e criam não poucos problemas para os filhos, vítimas inocentes de tais situações. Hoje em dia, a estabilidade da família está particularmente em perigo; para a salvaguardar, é necessário ir com freqüência contra a corrente, em relação à cultura predominante, e isto exige paciência, esforço, sacrifício e busca incessante de compreensão mútua.
Mas também nos dias de hoje os cônjuges podem superar as dificuldades e conservar-se fiéis à sua vocação, recorrendo ao auxílio de Deus através da oração e participando assiduamente nos sacramentos, de maneira particular na Eucaristia. A unidade e a solidez das famílias ajuda a sociedade a respirar os valores humanos autênticos e a abrir-se ao Evangelho. Para isto contribui o apostolado de não poucos Movimentos, chamados a trabalhar neste campo em harmoniosa sintonia com as Dioceses e as paróquias.
Além disso, atualmente um tema mais delicado do que nunca é o respeito devido ao embrião humano, que deveria nascer sempre de um ato de amor e ser já tratado como pessoa (cf. Evangelium vitae, 60). Os progressos da ciência e da técnica, alcançados no âmbito da bioética, transformam-se em ameaças quando o homem perde o sentido dos seus limites e, a nível prático, pretende subsituir-se a Deus Criador. A Carta Encíclica Humanae vitae confirma com clarividência que a procriação humana deve ser sempre o fruto do ato conjugal, com o seu dúplice significado unitivo e procriativo (cf. n. 12). Exige-o a grandeza do amor conjugal, segundo o projeto divino, como recordei na Encíclica Deus caritas est: "O eros degradado a puro "sexo" torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma "coisa" que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria... Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano" (n. 5).
Graças a Deus não poucas pessoas, especialmente no meio dos jovens, continuam a descobrir o valor da castidade, que se manifesta cada vez mais como uma garantia segura do amor genuíno. O momento histórico que estamos a viver exige que as famílias cristãs dêem com corajosa coerência o testemunho de que a procriação é fruto do amor. Este testemunho não deixará de estimular os políticos e os legisladores a salvaguardarem os direitos da família. Com efeito, sabe-se que se estão a acreditar soluções jurídicas para as chamadas "uniões de fato" que, embora rejeitem as obrigações do matrimônio, pretendem gozar de direitos equivalentes. Além disso, às vezes deseja-se mesmo chegar a uma nova definição do matrimônio para legalizar uniões homossexuais, atribuindo-lhes também o direito à adoção de filhos. Vastas áreas do mundo estão a padecer o chamado "inverno demográfico", com o conseqüente progressivo envelhecimento da população; por vezes parece que as famílias são ameaçadas pelo medo da vida, da paternidade e da maternidade. É necessário dar-lhes nova confiança, para que possam continuar a cumprir a sua nobre missão de procriar no amor.
Estou grato ao vosso Pontifício Conselho porque, em vários encontros continentais e nacionais, procura dialogar com aqueles que têm responsabilidades políticas e legislativas a este propósito, e também se esforça por tecer uma vasta rede de colóquios com os Bispos, oferecendo às Igrejas locais a oportunidade de cursos abertos aos responsáveis pela pastoral. Depois, aproveito este ensejo para reiterar a todas as comunidades diocesanas o convite a participar com as suas delegações no V Encontro Mundial das Famílias, que terá lugar no próximo mês de Julho em Valença, na Espanha e no qual, se Deus quiser, também eu terei a alegria de participar pessoalmente. Obrigado, uma vez mais, pelo trabalho que estais a levar a cabo; que o Senhor continue a torná-lo fecundo! Asseguro para isto a minha lembrança na oração enquanto, invocando a proteção materna de Maria, concedo a todos vós a minha Bênção, que de bom grado faço extensiva às famílias, a fim de que continuem a construir o seu lar seguindo o exemplo da Sagrada Família de Nazaré.
31 de maio de 2006: Mensagem ao Congresso mundial dos Movimentos eclesiais e das novas Comunidades
“Aguardando o encontro previsto para sábado, 3 de junho, na Praça S. Pedro, com os membros de mais de 100 Movimentos eclesiais e novas Comunidades, estou contente de enviar a vocês, representantes de todas essas realidades eclesiais e novas Comunidades, reunidos em Rocca di Papa para o Congresso Mundial, uma calorosa saudação com as palavras do Apóstolo: «Que o Deus da esperança vos cumule de toda alegria e paz em vossa fé, a fim de que pela ação do Espírito Santo a vossa esperança transborde» (Rm 15,13).” Abre-se assim a Mensagem do Santo Padre Bento XVI aos participantes do segundo Congresso mundial dos Movimentos eclesiais e das novas Comunidades, que foi lido no início do trabalhos, em 31 de maio, por Dom Josef Clemens, Secretário do Pontifício Conselho para os Leigos.
O Papa Bento XVI recorda a sua intervenção como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no Congresso dos Movimentos, em 1998, e as palavras de João Paulo II, que então definiu os Movimentos “sinais de esperança para o bem da Igreja e dos homens”. O Papa Bento XVI convida a refletir “sobre aquilo que caracteriza essencialmente o acontecimento cristão: nele, com efeito, nos vem ao encontro Aquele que, em carne e sangue, visivelmente, historicamente, trouxe o esplendor da glória de Deus sobre a terra”.
Em uma época na qual a razão do homem é seriamente ameaçada pelo relativismo e pelo niilismo, o Papa observa que “Cristo se torna presente no coração do homem e o atrai. É graças a esta extraordinária atração que a razão é subtraída à sua sonolência e aberta ao Mistério”. Isso “colocou tantas pessoas em ‘movimento’. Através dos fundadores e dos iniciadores dos Movimentos e comunidades, vocês entreviram com singular luminosidade a face de Cristo e colocaram-se a caminho”.
A Mensagem do Santo Padre prossegue com uma recomendação aos Movimentos: “Façam de modo que sejam sempre escolas de comunhão, companhias a caminho nas quais se aprende a viver na verdade e no amor que Cristo nos revelou e comunicou por meio do testemunho dos Apóstolos, dentro da grande família dos seus discípulos”. E dirige um apelo: “Levem a luz de Cristo a todos os ambientes sociais e culturais nos quais vivem... Iluminem a escuridão de um mundo transtornado pelas mensagens contraditórias das ideologias! Não há beleza que valha se não há uma verdade a ser reconhecida e seguida, se o amor se torna sentimento passageiro, se a felicidade se torna miragem inalcançável, se a liberdade degenera em instintividade… Levem a este mundo turbado o testemunho da liberdade com o qual Cristo nos libertou. A extraordinária fusão entre o amor de Deus e o amor do próximo torna bela a vida e faz reflorescer o deserto no qual muitas vezes nos encontramos a viver”.
Na parte conclusiva, o Papa destaca que os Movimentos eclesiais e as novas Comunidades “são hoje sinal luminoso da beleza de Cristo e da Igreja, sua Esposa” e pertencem “à estrutura viva da Igreja”. E lhes agradece pelo compromisso missionário, pela ação formativa das famílias cristãs, pela promoção das vocações e pela disponibilidade com a qual são acolhidas as indicações do Sucessor de Pedro e dos Bispos das diversas Igrejas locais. “Confio na sua pronta obediência - disse ainda o Papa Bento XVI -. Para além da afirmação do direito à própria existência, deve sempre prevalecer, com indiscutível prioridade, a edificação do Corpo de Cristo em meio dos homens. Cada problema deve ser enfrentado pelos movimentos com sentimentos de profunda comunhão, em espírito de adesão aos legítimos Pastores”.
11 de junho de 2006 – Discurso do Angelus
Deus «não é solidão infinita, mas comunhão de luz e Pai e o Filho no Espírito Santo», um amor do qual se tem uma “analogia” na família. É aquilo que disse Bento XVI durante o Ângelus no domingo dedicado à Ssa. Trindade, 11 de junho de 2006. O Papa quis comparar a Santíssima Trindade às famílias e sublinhou como «graças ao Espírito Santo, que ajuda a compreender as palavras de Jesus e guia à verdade integral (cf. Jo 14,26; 16,13), os crentes podem conhecer, por assim dizer, a intimidade de Deus mesmo descobrindo que Ele não é solidão infinita, mas comunhão de luz e de amor, vida doada e recebida em um eterno diálogo entre o Pai e o Filho no Espírito Santo – Amante, Amado e Amor, para retomar S. Agostinho». E mesmo se os homens, agora, não pudessem vê-lo, «todo o universo, para quem tem fé, fala de Deus Uno e Trino. Desde os espaços interestelares até às partículas microscópicas, tudo o que existe remete a um Ser que se comunica na multiplicidade e variedade dos elementos, como numa imensa sinfonia. Todos os seres são ordenados segundo um dinamismo harmonioso que, analogicamente, podemos definir: "amor". Mas é somente na pessoa humana, livre e racional, que este dinamismo se torna espiritual, se faz amor responsável, como resposta a Deus e ao próximo, num dom sincero de si. Neste amor o ser humano encontra a sua verdade e a sua felicidade. Entre as diferentes analogias do mistério inefável de Deus Uno e Trino, que os fiéis são capazes de entrever, gostaria de citar a da família. Ela é chamada a ser uma comunidade de amor e de vida, em que as diversidades devem concorrer para formar uma "parábola de comunhão". Entre todas as criaturas, a obra-prima da Santíssima Trindade é a Virgem Maria: no seu Coração humilde e repleto de fé, Deus preparou para si uma morada digna, para completar o mistério da salvação».
23 de junho de 2006: Audiência aos Bispos da Lituânia, Letônia, Estônia in Visita Ad Limina
Em 23 de junho de 2006 o Santo Padre Bento XVI recebeu em audiência os Bispos das Conferências Episcopais de Lituânia, Letônia, Estônia, por ocasião da Visita “ad Limina Apostolorum”. Em particular o Santo Padre concentrou-se com eles sobre o tema da família. O Papa disse: “Entre tantos temas que gostaria de tratar com vocês, detenho-me sobre um de grande atualidade também em seus Países, ou seja o da família. Ao lado dos núcleos familiares exemplares, há freqüentemente outros marcados pela fragilidade dos laços conjugais, pela praga do aborto e pela crise demográfica, pela pouca atenção à transmissão de valores autênticos aos filhos, pela precariedade do trabalho, pela mobilidade social que afrouxa o laço entre as gerações, e por um crescente senso de desorientação interior dos jovens. Uma modernidade que não é radicada em autênticos valores humanos está destinada a ser dominada pela tirania da instabilidade e da desordem. Por isto cada comunidade eclesial, rica da própria fé e sustentada pela graça de Deus, é chamada a ser ponto de referência e a dialogar com a sociedade na qual está inserida. A Igreja, mestra de vida, atinge pela lei natural e pela Palavra de Deus aqueles princípios que indicam as bases irrenunciáveis para edificar a família segundo o desígnio do Criador. Caros e venerados Irmãos, não vos canseis de ser sempre corajosos defensores da vida e da família; prossegui com os esforços realizados pela formação humana e religiosa dos esposos e das jovens famílias. É esta uma obra altamente meritória, que espero seja apreciada e sustentada também pelas instituições da sociedade civil”.

30 de junho de 2006: Audiência ao Embaixador do Uruguai junto à Santa Sé
O Santo Padre Bento XVI, recebendo em Audiência S.E. o Senhor Mario Juan Bosco Cayota Zappettini, Embaixador do Uruguai junto à Santa Sé, por ocasião da apresentação das Cartas Credenciais, dirigiu-lhe, como de costume, um discurso no qual tocou em particular o tema da família. Reproduzimos as palavras do Santo Padre a este respeito:
“Os valores mais nobres, arraigados no coração das pessoas e no tecido social, são como a alma dos povos, que os torna fortes nas adversidades, generosos na colaboração leal e esperançosos na construção de um futuro melhor e cheio de vida, na qual todos sem exceção tenham a oportunidade de desenvolver a plena dignidade do ser humano. Por isso, se vêem com preocupação algumas tendências que procuram limitar o valor inviolável da própria vida humana, desde a sua concepção até ao seu fim natural, ou de a separar do seu ambiente natural, como o amor humano no matrimônio e na família. A Igreja promove sem dúvida uma "cultura da vida", generosa e criadora de esperança, e não só por motivos estritamente confessionais. Como sabe, Senhor Embaixador, há muitas pessoas eminentes, também no seu País, que partilham preocupações semelhantes por motivos éticos e racionais.
Com isso está relacionado, pela sua própria natureza, a questão da família, estrutura fundamental da sociedade, e da união em matrimônio de um homem com uma mulher, segundo o desígnio impresso pelo Criador na natureza humana. Não faltam aqueles que, através de alguns meios de comunicação social, difamam ou ridicularizam o nobre valor do matrimônio e da família, favorecendo desta forma o egoísmo e a desorientação, em vez da generosidade e do sacrifício necessários para manter vigorosa esta autêntica "célula primária" da comunidade humana. Fomentar a família, ajudá-la a cumprir as suas incumbências indispensáveis, significa também unidade social e, sobretudo, respeitar os seus próprios direitos, que não podem ser dissipados perante outras formas de união que os pretendem usurpar”.

O CARD. RATZINGER E A FAMÍLIA

1987 – Instrução “Donum vitae”
O Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu a Instrução “Donum Vitae” sobre o respeito da vida nascente e a dignidade da procriação com premissa Ad congregationem. Nessa ele falou também da família e o fez em particular na segunda parte da Instrução, dedicada às “intervenções sobre a procriação humana”. Aqui, em um capítulo intitulado “Porque a procriação humana deve ter lugar no matrimônio?” falou da família como lugar em que cada criança deve ter direito a nascer: «Todo ser humano deve ser acolhido como um dom e uma bênção de Deus. Todavia, do ponto de vista moral, uma procriação verdadeiramente responsável com relação ao nascituro deve ser fruto do matrimônio. Com efeito, a procriação humana possui características específicas, por força da dignidade pessoal dos pais e dos filhos: a procriação de uma nova peso soa, mediante a qual o homem e a mulher colaboram com a potência do Criador, deverá ser fruto e sinal da mútua doação pessoal dos esposos, do seu amor e da sua fidelidade. A fidelidade dos esposos, na unidade do matrimônio, comporta o respeito recíproco do seu direito a se tornarem pai e mãe somente através um do outro. O filho tem direito a ser concebido, levado no seio, posto no mundo e educado no matrimônio: é através da referência segura e reconhecida aos próprios pais que ele pode descobrir a própria identidade e amadurecer a própria formação humana. Os pais encontram no filho uma confirmação e um complemento da sua doação recíproca: ele é a imagem viva do seu amor, o sinal permanente da sua união conjugal, a síntese vivente e indissolúvel da sua dimensão paterna e materna.
Por força da vocação e das responsabilidades sociais da pessoa, o bem dos filhos e dos pais contribui para o bem da sociedade civil; a vitalidade e o equilíbrio da sociedade exigem que os filhos venham ao mundo no seio de uma família e que esta seja estavelmente fundada no matrimônio.
A tradição da Igreja e a reflexão antropológica reconhecem no matrimônio e na sua unidade indissolúvel o único lugar digno de uma procriação verdadeiramente responsável.
E ainda: «A fecundação artificial heteróloga é conforme com a dignidade dos esposos e com a verdade do matrimônio?” perguntou-se o Card. Ratzinger. «Através do FIVET e da inseminação artificial heteróloga, a concepção humana é obtida mediante o encontro dos gametas de ao menos um doador diverso dos esposos que são unidos pelo matrimônio. A fecundação artificial heteróloga é contrária à unidade do matrimônio, à dignidade dos esposos, à vocação própria dos pais e ao direito do filho a ser concebido e posto no mundo no matrimônio e pelo matrimônio. O respeito à unidade do matrimônio e à fidelidade conjugal exige que o filho seja concebido no matrimônio; o liame existente entre os cônjuges atribui aos esposos, de maneira objetiva e inalienável, o direito exclusivo a se tornarem pai e mãe somente através um do outro. O recurso aos gametas de uma terceira pessoa, para se ter à disposição o esperma ou o óvulo, constitui uma violação do compromisso recíproco dos esposos e uma falta grave para com aquela propriedade essencial do matrimônio, que é a sua unidade. A fecundação artificial heteróloga lesa os direitos do filho, priva-o da relação filial com as suas origens parentais e pode obstar o amadurecimento da sua identidade pessoal. Além disso, ela constitui uma ofensa à vocação comum dos esposos que são chamados à paternidade e à maternidade: priva objetivamente a fecundidade conjugal da sua unidade e da sua integridade; realiza e manifesta uma ruptura entre função parental genética, função parental de gestação e responsabilidade educativa. Tal alteração das relações pessoais dentro da família repercute na sociedade civil: aquilo que ameaça a unidade e a estabilidade da família é fonte de dissensão, de desordem e de injustiças em toda a vida social. Estas razões levam a um juízo moral negativo acerca da fecundação artificial heteróloga: é, portanto, moralmente ilícita a fecundação de uma esposa com o esperma de um doador que não seja o seu marido e a fecundação com o esperma do marido de um óvulo que não provém da sua mulher. Além disso, a fecundação artificial de uma mulher não casada, solteira ou viúva, seja quem for o doador, não pode ser justificada moralmente. O desejo de ter um filho e o amor entre os esposos que desejam solucionar uma esterilidade não superável de outra forma, constituem motivos que merecem compreensão; mas as intenções subjetivamente boas não tornam a fecundação artificial heteróloga nem conforme com as propriedades objetivas e inalienáveis do matrimônio nem respeitosa dos direitos do filho e dos esposos».
1994 – Carta aos Bispos sobre a comunhão eucarística dos divorciados casados novamente
Em 1994, o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por ocasião do Ano Internacional da Família, escreveu uma carta aos Bispos da Igreja católica na qual repropõe o amor e a solicitude da Igreja para com a família e, ao mesmo tempo, repropõe as inestimáveis riquezas do matrimônio cristão que constitui o fundamento da família.
«Neste contexto – escreveu o Cardeal Ratzinger – merecem uma especial atenção as dificuldades e os sofrimentos dos fiéis que se encontram em situações matrimoniais irregulares. De fato, os pastores são chamados a fazer sentir a caridade de Cristo e a materna solicitude da Igreja, acolhendo-os com amor, exortando-os a confiar na misericórdia de Deus e, com prudência e respeito, sugerindo-lhes caminhos concretos de conversão e participação na vida da comunidade eclesial. Cientes, porém, de que a compreensão autêntica e a genuína misericórdia nunca andam separadas da verdade, os pastores têm o dever de recordar a estes fiéis a doutrina da Igreja a propósito da celebração dos sacramentos e em particular da recepção da Eucaristia. Sobre este ponto, nos últimos anos em várias regiões foram propostas diversas soluções pastorais segundo as quais certamente não seria possível uma admissão geral dos divorciados novamente casados à comunhão eucarística, mas poderiam aproximar-se desta em determinados casos, quando segundo a sua consciência a tal se considerassem autorizados. Assim, por exemplo, quando tivessem sido abandonados de modo totalmente injusto, embora se tivessem esforçado sinceramente para salvar o matrimônio precedente ou quando estivessem convencidos da nulidade do matrimônio anterior, mesmo não podendo demonstrá-la no foro externo, ou então quando tivessem já transcorrido um longo período de reflexão e de penitência ou mesmo quando não pudessem, por motivos moralmente válidos, satisfazer a obrigação da separação. Em alguns lugares também se propôs que, para examinar objetivamente a sua efetiva situação, os divorciados novamente casados deveriam encetar um colóquio com um sacerdote criterioso e entendido. Mas este sacerdote teria de respeitar a eventual decisão de consciência deles de se abeirarem da Eucaristia, sem que isso implicasse uma autorização oficial. Nestes e em semelhantes casos tratar-se-ia de uma solução pastoral tolerante e benévola para poder fazer justiça às diversas situações dos divorciados novamente casados. Mesmo sabendo-se que soluções pastorais análogas foram propostas por alguns Padres da Igreja e entrarem em alguma medida também na prática, contudo elas jamais obtiveram o consenso dos Padres e de nenhum modo vieram a constituir a doutrina comum da Igreja nem a determinar a sua disciplina. Compete ao Magistério universal da Igreja, na fidelidade à Escritura e à Tradição, ensinar e interpretar autenticamente o depositum fidei.
Face às novas propostas pastorais acima mencionadas, esta Congregação considera pois seu dever reafirmar a doutrina e a disciplina da Igreja nesta matéria. Por fidelidade à palavra de Jesus Cristo, a Igreja sustenta que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro matrimônio foi válido. Se os divorciados se casam civilmente, ficam numa situação objetivamente contrária à lei de Deus. Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persiste tal situação. Esta norma não tem, de forma alguma, um caráter punitivo ou então discriminatório para com os divorciados novamente casados, mas exprime antes uma situação objetiva que por si torna impossível o acesso à comunhão eucarística: «Não podem ser admitidos, já que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio». Para os fiéis que permanecem em tal situação matrimonial, o acesso à comunhão eucarística é aberto unicamente pela absolvição sacramental, que pode ser dada «só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. Isto tem como conseqüência, concretamente, que, quando o homem e a mulher, por motivos sérios - como, por exemplo, a educação dos filhos - não se podem separar, "assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges"». Neste caso podem aproximar-se da comunhão eucarística, permanecendo firme todavia a obrigação de evitar o escândalo.
A doutrina e a disciplina da Igreja sobre esta matéria foram expostas amplamente no período pós-conciliar pela Exortação Apostólica Familiaris consortio. Entre outras coisas, a Exortação recorda aos pastores que, por amor da verdade, são obrigados a um cuidadoso discernimento das diversas situações e anima-os a encorajarem a participação dos divorciados novamente casados em diversos momentos da vida da Igreja. Ao mesmo tempo, reafirma a prática constante e universal, «fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união», indicando os motivos da mesma. A estrutura da Exortação e o teor das suas palavras deixam entender claramente que tal prática, apresentada como vinculante, não pode ser modificada com base nas diferentes situações. O fiel que convive habitualmente more uxorio com uma pessoa que não é a legítima esposa ou o legítimo marido, não pode receber a comunhão eucarística. Caso aquele o considerasse possível, os pastores e os confessores - dada a gravidade da matéria e as exigências do bem espiritual da pessoa e do bem comum da Igreja - têm o grave dever de adverti-lo que tal juízo de consciência está em evidente contraste com a doutrina da Igreja. Devem também recordar esta doutrina no ensinamento a todos os fiéis que lhes estão confiados. Isto não significa que a Igreja não tenha a peito a situação destes fieis que, aliás, de fato não estão excluídas da comunhão eclesial. Preocupa-se por acompanhá-las pastoralmente e convidá-las a participar na vida eclesial na medida em que isso seja compatível com as disposições do direito divino, sobre as quais a Igreja não possui qualquer poder de dispensa. Por outro lado, é necessário esclarecer os fiéis interessados para que não considerem a sua participação na vida da Igreja reduzida exclusivamente à questão da recepção da Eucaristia. Os fiéis hão-de ser ajudados a aprofundar a sua compreensão do valor da participação no sacrifício de Cristo na Missa, da comunhão espiritual, da oração, da meditação da palavra de Deus, das obras de caridade e de justiça. A convicção errada de poder um divorciado novamente casado receber a comunhão eucarística pressupõe normalmente que se atribui à consciência pessoal o poder de decidir, em última instância, com base na própria convicção, sobre a existência ou não do matrimônio anterior e do valor da nova união. Mas tal atribuição é inadmissível. Efetivamente o matrimônio, enquanto imagem da união esponsal entro Cristo e a sua Igreja, e núcleo de base e fator importante na vida da sociedade civil, constitui essencialmente uma realidade pública.
Certamente é verdade que o juízo sobre as próprias disposições para o acesso à Eucaristia deve ser formulado pela consciência moral adequadamente formada. Mas, é igualmente verdade que o consentimento, pelo qual é constituído o matrimônio, não é uma simples decisão privada, visto que cria para cada um dos esposos e para o casal uma situação especificamente eclesial e social. Portanto o juízo da consciência sobre a própria situação matrimonial não diz respeito apenas a uma relação imediata entre o homem e Deus, como se se pudesse prescindir daquela mediação eclesial, que inclui também as leis canônicas que obrigam em consciência. Não reconhecer este aspecto essencial significaria negar, de fato, que o matrimônio existe como realidade da Igreja, quer dizer, como sacramento. De outra parte, a Exortação Apostólica Familiaris Consortio, quando convida os pastores a distinguir bem as várias situações dos divorciados novamente casados, recorda também o caso daqueles que estão subjetivamente certos em consciência que o matrimônio anterior, irremediavelmente destruído, jamais fora válido.
Deve-se certamente discernir, através da via de foro externo estabelecida pela Igreja, se objetivamente existe tal nulidade do matrimônio. A disciplina da Igreja, enquanto confirma a competência exclusiva dos tribunais eclesiásticos no exame da validade do matrimônio dos católicos, oferece agora novos caminhos para demonstrar a nulidade do matrimônio precedente, procurando assim excluir, quanto possível, qualquer distância entre a verdade verificável no processo e a verdade objetiva conhecida pela reta consciência. Ater-se ao juízo da Igreja e observar a disciplina vigente acerca da obrigatoriedade da forma canônica como condição necessária para a validade dos matrimônios dos católicos, é o que verdadeiramente aproveita ao bem espiritual dos fiéis interessados. Com efeito, a Igreja é o Corpo de Cristo, e viver a comunhão eclesial é viver no Corpo de Cristo e nutrir-se do Corpo de Cristo. Ao receber o sacramento da Eucaristia, a comunhão com Cristo Cabeça não pode jamais ser separada da comunhão com seus membros, isto é, com sua Igreja. Por isso, o sacramento da nossa união com Cristo è também o sacramento da unidade da Igreja. Receber a comunhão eucarística em contraste com a comunhão eclesial é, pois, algo de contraditório em si mesmo. A comunhão sacramental com Cristo inclui e pressupõe a observância, mesmo se às vezes pode ser difícil, das exigências da comunhão eclesial, e não pode ser justa e frutífera se o fiel, mesmo querendo aproximar-se diretamente de Cristo, não observa estas exigências. Em harmonia com o que ficou dito até agora, há que realizar plenamente o desejo expresso pelo Sínodo dos Bispos, assumido pelo Santo Padre João Paulo II e atuado com empenhamento e com louváveis iniciativas por parte de bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos: com solícita caridade, fazer tudo quanto possa fortificar no amor de Cristo e da Igreja os fiéis que se encontram em situação matrimonial irregular. Só assim será possível para eles acolherem plenamente a mensagem do matrimônio cristão e suportarem na fé o sofrimento da sua situação. Na ação pastoral, dever-se-á realizar todo o esforço para que seja bem compreendido que não se trata de nenhuma discriminação, mas apenas de fidelidade absoluta à vontade de Cristo que restabeleceu e de novo nos confiou a indissolubilidade do matrimônio como dom do Criador. Será necessário que os pastores e a comunidade dos fiéis sofram e amem unidos às pessoas interessadas, para que possam reconhecer também no seu fardo o jugo suave e o fardo leve de Jesus. O seu fardo não é suave e leve enquanto pequeno ou insignificante, mas torna-se leve porque o Senhor - e juntamente com Ele toda a Igreja - o compartilha. É dever da ação pastoral, que há-de ser desempenhada com total dedicação, oferecer esta ajuda fundada conjuntamente na verdade e no amor.
2004 – Carta aos Bispos da Igreja católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo
Em 2004 o Card. Joseph Ratzinger escreveu uma carta aos Bispos centrada sobre a recíproca colaboração do homem e da mulher para a missão da Igreja. «Perita em humanidade – escreveu o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé –, a Igreja está sempre interessada por tudo o que diz respeito ao homem e à mulher. Nestes últimos tempos, tem-se refletido muito sobre a dignidade da mulher, sobre os seus direitos e deveres nos diversos âmbitos da comunidade civil e eclesial. Havendo contribuído para o aprofundamento desta temática fundamental, sobretudo com o ensinamento de João Paulo II, a Igreja sente-se hoje interpelada por algumas correntes de pensamento, cujas teses muitas vezes não coincidem com as finalidades genuínas da promoção da mulher. O presente documento, depois de uma breve apresentação e apreciação crítica de certas concepções antropológicas hodiernas, entende propor algumas reflexões inspiradas pelos dados doutrinais da antropologia bíblica — aliás indispensáveis para a salvaguarda da identidade da pessoa humana — sobre alguns pressupostos em ordem a uma reta compreensão da colaboração ativa do homem e da mulher na Igreja e no mundo, a partir dessa sua mesma diferença. Pretendem estas reflexões, ao mesmo tempo, propor-se como ponto de partida para um caminho de aprofundamento no seio da Igreja e para instaurar um diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade, na busca sincera da verdade e no esforço comum de promover relações cada vez mais autênticas».
«Nestes últimos anos – explicou ainda o Card. Ratzinger – têm-se delineado novas tendências na abordagem do tema da mulher. Uma primeira tendência sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela mesma, apresenta-se como antagônica do homem. Aos abusos de poder, responde com uma estratégia de busca do poder. Um tal processo leva a uma rivalidade entre os sexos, onde a identidade e o papel de um são assumidos em prejuízo do outro, com a conseqüência de introduzir na antropologia uma perniciosa confusão, que tem o seu revés mais imediato e nefasto na estrutura da família. Uma segunda tendência emerge no sulco da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou de outro sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente cultural, chamada gênero, é sublinhada ao máximo e considerada primária. O obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é grávido de enormes conseqüências a diversos níveis. Uma tal antropologia, que entendia favorecer perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico, acabou de fato por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o questionamento da família, por sua índole natural bi-parental, ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica.
A raiz imediata da sobredita tendência coloca-se no contexto da questão da mulher, mas a sua motivação mais profunda deve procurar-se na tentativa da pessoa humana de libertar-se dos próprios condicionamentos biológicos. De acordo com tal perspectiva antropológica, a natureza humana não teria em si mesma características que se imporiam de forma absoluta: cada pessoa poderia e deveria modelar-se a seu gosto, uma vez que estaria livre de toda a predeterminação ligada à sua constituição essencial. Muitas são as conseqüências de uma tal perspectiva. Antes de mais, consolida-se a idéia de que a libertação da mulher comporta uma crítica à Sagrada Escritura, que transmitiria uma concepção patriarcal de Deus, alimentada por uma cultura essencialmente machista. Em segundo lugar, semelhante tendência consideraria sem importância e sem influência o fato de o Filho de Deus ter assumido a natureza humana na sua forma masculina. Perante tais correntes de pensamento, a Igreja, iluminada pela fé em Jesus Cristo, fala ao invés de colaboração ativa, precisamente no reconhecimento da própria diferença entre homem e mulher. Para melhor compreender o fundamento, o sentido e as conseqüências desta resposta, convém voltar, ainda que brevemente, à Sagrada Escritura, que é rica também de sabedoria humana, e onde esta resposta se manifestou progressivamente, graças à intervenção de Deus em favor da humanidade.
O Card. Ratzinger dedicou-se então a descrever os dados fundamentais da antropologia bíblica: «Uma primeira série de textos bíblicos a examinar são os primeiros três capítulos do Gênesis. Colocam-nos eles «no contexto do “princípio” bíblico, no qual a verdade revelada sobre o homem como “imagem e semelhança de Deus” constitui a base imutável de toda a antropologia cristã». No primeiro texto (Gen 1,1-2,4) descreve-se o poder criador da Palavra de Deus que estabelece distinções no caos primigênio. Aparecem a luz e as trevas, o mar e a terra firme, o dia e a noite, as ervas e as árvores, os peixes e as aves, todos «segundo a própria espécie». Nasce um mundo ordenado a partir de diferenças que, por sua vez, são outras tantas promessas de relações. Eis, assim, esboçado o quadro geral em que se coloca a criação da humanidade. «Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança... Deus criou o ser humano à sua imagem; criou-o à imagem de Deus; criou-o homem e mulher» (Gen 1, 26-27). A humanidade aqui é descrita como articulada, desde a sua primeira origem, na relação do masculino e do feminino. É esta humanidade sexuada que é explicitamente declarada «imagem de Deus». O segundo relato da criação (Gen 2,4-25) confirma inequivocavelmente a importância da diferença sexual. Uma vez plasmado por Deus e colocado no jardim, de que recebe a gestão, aquele que é designado ainda com o termo genérico de Adam sente uma solidão que a presença dos animais não consegue preencher. Precisa de uma ajuda que lhe seja correspondente. O termo indica, aqui, não um papel subalterno, mas uma ajuda vital. A finalidade é, efetivamente, a de permitir que a vida de Adam não se afunde num confronto estéril, e por fim mortal, apenas consigo mesmo. É necessário que entre em relação com um outro ser que esteja ao seu nível. Só a mulher, criada da mesma «carne» e envolvida no mesmo mistério, dá um futuro à vida do homem. Isso dá-se a nível ontológico, no sentido que a criação da mulher da parte de Deus caracteriza a humanidade como realidade relacional. Neste encontro brota também a palavra que abre, pela primeira vez, a boca do homem numa expressão de maravilha: «Esta é realmente carne da minha carne e osso dos meus ossos» (Gen 2,23). «A mulher — escreveu o Santo Padre em referência a este texto do Gênesis — é um outro “eu” na comum humanidade. Desde o início, [o homem e a mulher] aparecem como “unidade dos dois”, e isto significa a superação da solidão originária, na qual o homem não encontra “um auxiliar que lhe seja semelhante” (Gen 2,20). Tratar-se-á aqui do “auxiliar” só na ação, no “dominar a terra”? (cf Gen 1,28). Certamente se trata da companheira da vida, com a qual o homem pode unir-se como se une com a esposa, tornando-se com ela “uma só carne” e abandonando, por isso, o “seu pai e a sua mãe” (cf Gen 2,24)». A diferença vital é orientada à comunhão e é vivida de forma pacífica, expressa no tema da nudez: «Ora ambos andavam nus, o homem e a sua mulher, e não sentiam vergonha» (Gen 2,25). Assim, o corpo humano, marcado pelo selo da masculinidade ou da feminilidade, «comporta “desde o princípio” o atributo “esponsal”, ou seja a capacidade de exprimir o amor: aquele amor precisamente no qual o homem-pessoa se torna dom e — mediante esse dom — realiza o próprio sentido do seu ser e existir».
«Ainda comentando estes versículos do Gênesis, o Santo Padre continua: «Nesta sua particularidade, o corpo é a expressão do espírito, e é chamado, no próprio mistério da criação, a existir na comunhão das pessoas, “à imagem de Deus”». Na mesma perspectiva esponsal, compreende-se em que sentido o antigo relato do Gênesis dê a entender como a mulher, no seu ser mais profundo e originário, exista «para o outro» (cf 1Cor 11,9): é uma afirmação que, bem longe de evocar alienação, exprime um aspecto fundamental da semelhança com a Santíssima Trindade, cujas Pessoas, com a vinda de Cristo, revelam estar em comunhão de amor, umas para as outras. «Na “unidade dos dois”, o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir “um ao lado do outro” ou “juntos”, mas também a existir reciprocamente “um para o outro”... O texto de Gênesis 2,18-25 indica que o matrimônio é a primeira e, num certo sentido, a fundamental dimensão desta chamada. Não é, porém, a única. Toda a história do homem sobre a terra realiza-se no âmbito desta chamada. Na base do princípio do recíproco ser “para” o outro, na “comunhão” interpessoal, desenvolve-se nesta história a integração na própria humanidade, querida por Deus, daquilo que é “masculino” e daquilo que é “feminino”». A visão pacífica com que termina o segundo relato da criação ecoa no «muito bom» que, no primeiro relato, encerrava a criação do primeiro casal humano. É aqui que se encontra o coração do plano originário de Deus e da verdade mais profunda do homem e da mulher, como Deus os quis e criou. Por mais perturbadas e obscurecidas que sejam pelo pecado, tais disposições originárias do Criador jamais poderão ser anuladas. O pecado original altera a maneira como o homem e a mulher acolhem e vivem a Palavra de Deus e a sua relação com o Criador. Logo a seguir à entrega do dom do jardim, Deus dá um mandamento positivo (cf Gen 2,16), seguido de outro negativo (cf Gen 2,17), em que implicitamente se afirma a diferença essencial entre Deus e a humanidade. Sob a insinuação da Serpente, essa diferença é contestada pelo homem e pela mulher. Em conseqüência, é também alterada a maneira de viver a sua diferença sexual».
«O relato do Gênesis estabelece assim uma relação de causa e efeito entre as duas diferenças: quando a humanidade considera Deus como seu inimigo, a própria relação do homem e da mulher é pervertida. Quando esta última relação se deteriora, o acesso ao rosto de Deus corre, por sua vez, o perigo de ficar comprometido. Nas palavras que Deus dirige à mulher a seguir ao pecado, é expressa de forma lapidar, mas não menos impressionante, o tipo de relações que passarão a instaurar-se entre o homem e a mulher: «Sentir-te-ás atraída para o teu marido e ele te dominará» (Gen 3,16). Será uma relação em que freqüentemente se desnaturará o amor na mera busca de si mesmo, numa relação que ignora e mata o amor, substituindo-o com o jogo do domínio de um sexo sobre o outro. A história da humanidade reproduz de fato tais situações, em que se exprime claramente a tríplice concupiscência que São João recorda, ao falar da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida (cf 1Jo 2,16)».
«Nesta trágica situação, perdem-se a igualdade, o respeito e o amor, que no plano originário de Deus a relação do homem e da mulher exige. Repassar estes textos fundamentais permite reafirmar alguns dados capitais da antropologia bíblica. Antes de mais, há que sublinhar o caráter pessoal do ser humano. «O homem é uma pessoa, em igual medida o homem e a mulher: os dois, na verdade, foram criados à imagem e semelhança do Deus pessoal». A igual dignidade das pessoas realiza-se como complementaridade física, psicológica e ontológica, dando lugar a uma harmoniosa «unidualidade» relacional, que só o pecado e as “estruturas do pecado” inscritas na cultura tornaram potencialmente conflituosa. A antropologia bíblica convida a enfrentar com uma atitude relacional, não concorrencial nem de desforra, os problemas que, a nível público ou privado, envolvem a diferença de sexo. Há que salientar, por outro lado, a importância e o sentido da diferença dos sexos como realidade profundamente inscrita no homem e na mulher: «a sexualidade caracteriza o homem e a mulher, não apenas no plano físico, mas também no psicológico e espiritual, marcando todas as suas expressões». Não se pode reduzi-la a puro e insignificante dado biológico, mas é «uma componente fundamental da personalidade, uma sua maneira de ser, de se manifestar, de comunicar com os outros, de sentir, exprimir e viver o amor humano». Esta capacidade de amar, reflexo e imagem de Deus Amor, tem uma sua expressão no caráter esponsal do corpo, em que se inscreve a masculinidade e a feminilidade da pessoa. A dimensão antropológica da sexualidade é inseparável da teológica. A criatura humana, na sua unidade de alma e corpo, é desde o princípio qualificada pela relação com o outro-de-si».
«É uma relação que se apresenta sempre boa e, ao mesmo tempo, alterada. É boa, de uma bondade originária declarada por Deus desde o primeiro momento da criação; mas é também alterada pela desarmonia entre Deus e a humanidade provocada pelo pecado. Esta alteração não corresponde, porém, nem ao projeto inicial de Deus sobre o homem e sobre a mulher, nem à verdade da relação dos sexos. Daí que, portanto, esta relação boa, mas ferida, precise de ser curada. Quais podem ser os caminhos dessa cura? Considerar e analisar os problemas inerentes à relação dos sexos, só a partir de uma situação marcada pelo pecado, levaria necessariamente o pensamento a regredir aos erros acima acenados. Há portanto que romper esta lógica de pecado e procurar uma saída que permita extirpá-la do coração do homem pecador. Uma orientação clara nesse sentido encontra-se na promessa divina de um Salvador, em que aparecem empenhadas a «mulher» e a sua «descendência» (cf Gen 3,15). É uma promessa que, antes de se cumprir, terá uma longa preparação na história. Uma primeira vitória sobre o mal está representada na história de Noé, homem justo, que, guiado por Deus, escapa ao dilúvio com a sua família e com as diversas espécies de animais (cf Gen 6-9). Mas é sobretudo na escolha divina de Abraão e da sua descendência (cf Gen 12,1ss) que a esperança de salvação se confirma. Deus começa assim a revelar o seu rosto, para que, através do povo escolhido, a humanidade aprenda a estrada da semelhança divina, ou seja, da santidade e, por conseguinte, da mudança do coração. Entre as muitas maneiras com que Deus se revela ao seu povo (cf Heb 1,1), segundo uma longa e paciente pedagogia, encontra-se também a referência ao tema comum da aliança do homem e da mulher. É paradoxal, se se considera o drama evocado pelo Gênesis e a sua réplica muito concreta no tempo dos profetas, bem como a mistura entre o sagrado e a sexualidade presente nas religiões que circundam Israel. Mesmo assim, tal simbolismo afigura-se indispensável para se compreender o modo com que Deus ama o seu povo: Deus faz-se conhecer como Esposo que ama Israel, sua Esposa. Se nesta relação Deus é descrito como «Deus ciumento» (cf Ex 20,5; Naum 1,2) e Israel denunciado como Esposa «adúltera» ou «prostituta» (cf Os 2,4-15; Ez 16,15-34), é porque a esperança, reforçada pela palavra dos profetas, está precisamente em ver a nova Jerusalém tornar-se a esposa perfeita: «tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus» (Is 62,5)».
«Recriada «na justiça e no direito, na benevolência e no amor» (Os 2,21), aquela que se afastara para procurar a vida e a felicidade entre os falsos deuses há-de voltar, e Àquele que lhe falará ao coração «cantará como nos dias da sua juventude» (Os 2,17); e ouvi-lo-á declarar: «o teu esposo é o teu criador» (Is 54,5). Substancialmente, é o mesmo dado que se afirma, quando, paralelamente ao mistério da obra que Deus realiza através da figura masculina do Servo sofredor, o livro de Isaías evoca a figura feminina de Sião, ornada de uma transcendência e de uma santidade que prefiguram o dom da salvação destinada a Israel. O Cântico dos Cânticos representa, sem dúvida, um momento privilegiado no uso desta modalidade de revelação. Nas palavras de um amor muito humano que celebra a beleza dos corpos e a felicidade do procurar-se um ao outro, exprime-se também o amor de Deus para com o seu povo. A Igreja, portanto, não se enganou, quando, usando as mesmas expressões, descobriu na audaciosa união do que há de mais humano com o que há de mais divino, o mistério da sua relação com Cristo. Ao longo de todo o Antigo Testamento, configura-se uma história de salvação que joga simultaneamente com a participação do masculino e do feminino. Os termos esposo e esposa, e também aliança, com que se caracteriza a dinâmica da salvação, embora possuindo uma evidente dimensão metafórica, são muito mais que simples metáforas. Tal vocabulário nupcial atinge a própria natureza da relação que Deus estabelece com o seu povo, mesmo se essa relação é mais vasta do que se possa provar na experiência nupcial humana. Igualmente, as mesmas condições concretas da redenção estão em jogo, na forma como oráculos, do tipo dos de Isaías, associam papéis masculinos e femininos no anúncio e na prefiguração da obra de salvação que Deus está para realizar. Tal salvação orienta o leitor, tanto para a figura masculina do Servo sofredor, como para a figura feminina de Sião. Os oráculos de Isaías, de fato, alternam esta figura com a do Servo de Deus, antes de culminar, no fim do livro, com a visão misteriosa de Jerusalém que dá à luz um povo num só dia (cf Is 66,7-14), profecia da grande novidade que Deus está para realizar (cf Is 48,6-8)».
«No Novo Testamento, todas estas prefigurações encontram a sua realização. Por um lado, Maria, como filha eleita de Sião, na sua feminilidade, recapitula e transfigura a condição de Israel/Esposa à espera do dia da sua salvação. Por outro, a masculinidade do Filho permite reconhecer como Jesus assume na sua pessoa tudo o que o simbolismo veterotestamentário aplicou ao amor de Deus para com o seu povo, descrito como o amor de um esposo para com a sua esposa. As figuras de Jesus e de Maria, sua Mãe, não só asseguram a continuidade do Antigo Testamento com o Novo, mas superam-no, a partir do momento que, com Jesus Cristo, aparece — como diz Santo Ireneu — «a novidade toda». Tal aspecto é posto em particular evidência pelo Evangelho de João. Na cena das núpcias de Caná, por exemplo, Jesus é solicitado pela mãe, chamada “mulher”, a dar como sinal o vinho novo das futuras núpcias com a humanidade (cf Jo 2,1-12). Tais núpcias messiânicas realizar-se-ão sobre a cruz, onde, ainda na presença da mãe, indicada como “mulher”, brotará do coração aberto do Crucificado o sangue/vinho da Nova Aliança (cf Jo 19,25-27.34). Nada surpreende, portanto, se João Baptista, interrogado sobre a sua identidade, se apresenta como «o amigo do esposo», que se alegra ao ouvir a voz do esposo e que deve eclipsar-se à sua chegada: «Quem tem a esposa é o esposo; e o amigo do esposo, que o acompanha e escuta, sente muita alegria ao ouvir a sua voz. Essa é a minha alegria, que agora é completa: Ele deve crescer e eu diminuir» (Jo 3,29-30)».
«Na sua atividade apostólica, Paulo desenvolve todo o sentido nupcial da redenção, concebendo a vida cristã como um mistério nupcial. Escreve à Igreja de Corinto, por ele fundada: «Sinto por vós um ciúme semelhante ao ciúme de Deus, porque vos desposei com um só esposo, que é Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura» (2Cor 11,2). Na Carta aos Efésios, a relação esponsal entre Cristo e a Igreja é retomada e amplamente aprofundada. Na Nova Aliança, a Esposa amada é a Igreja, e — como ensina o Santo Padre na Carta às famílias — «esta esposa, de que fala a Carta aos Efésios, faz-se presente em cada batizado e é como uma pessoa em quem o olhar do seu Esposo se compraz: “Amou a Igreja e por ela Se entregou... para a apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada” (Ef 5,25-27)». Meditando, portanto, sobre a união do homem e da mulher, como é descrita no momento da criação do mundo (cf Gen 2,24), o Apóstolo exclama: «É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja!» (Ef 5,32). O amor do homem e da mulher, vivido na força da vida batismal, passa a ser sacramento do amor de Cristo e da Igreja, testemunho dado ao mistério de fidelidade e de unidade, donde nasce a «nova Eva», e de que esta vive na sua peregrinação sobre a terra à espera da plenitude das núpcias eternas. Inseridos no mistério pascal e tornados sinais vivos do amor de Cristo e da Igreja, os esposos cristãos são renovados no seu coração, podendo evitar as relações marcadas pela concupiscência e pela tendência a subjugar, que a ruptura com Deus por causa do pecado havia introduzido no casal primitivo. Para eles, a bondade do amor, de que o desejo humano ferido sentia saudade, revela-se com novas acentuações e possibilidades. É nesta luz que Jesus, perante a pergunta sobre o divórcio (cf Mt 19,3-9), pode recordar as exigências da aliança entre o homem e a mulher, como Deus as quisera nas origens, ou seja, antes da aparição do pecado que justificaria as sucessivas acomodações da lei de Moisés. Longe de ser a imposição de uma ordem dura e intransigente, essa palavra de Jesus é, na verdade, o anúncio de uma «boa nova»: a da fidelidade mais forte que o pecado. Na força da ressurreição, torna-se possível a vitória da fidelidade sobre as fraquezas, sobre as feridas recebidas e sobre os pecados do casal».
«Na graça de Cristo que renova o seu coração, o homem e a mulher tornam-se capazes de se libertar do pecado e de conhecer a alegria do dom recíproco. «Vós que fostes batizados em Cristo fostes revestidos de Cristo... não há mais homem nem mulher» — escreve São Paulo aos Gálatas (3,27-28). O Apóstolo não declara aqui que deixou de existir a distinção homem-mulher, distinção que alhures diz pertencer ao projeto de Deus. O que, ao invés, quer dizer é o seguinte: em Cristo, a rivalidade, a inimizade e a violência, que desfiguravam a relação do homem e da mulher, são superáveis e estão superadas. Neste sentido, mais do que nunca é reafirmada a distinção do homem e da mulher, que aliás acompanha até ao fim a revelação bíblica. Na hora final da história presente, quando se vislumbram no Apocalipse de João «um novo céu» e «uma nova terra» (Ap 21,1), é apresentada em visão uma Jerusalém feminina «bela como noiva adornada para o seu esposo» (Ap 21,2). A própria revelação termina com a palavra da Esposa e do Espírito que imploram a vinda do Esposo: «Vem, Senhor Jesus» (Ap 22,20). O masculino e o feminino são, portanto, revelados como pertencentes ontologicamente à criação e, por conseguinte, destinados a perdurar além do tempo presente, evidentemente numa forma transfigurada. Desse modo caracterizam o amor que «não terá fim» (1Cor 13,8), embora se torne caduca a expressão temporal e terrena da sexualidade, ordenada para um regime de vida marcado pela geração e pela morte. Dessa forma de existência futura do masculino e feminino, o celibato pelo Reino quer ser profecia. Para os que o vivem, antecipa a realidade de uma vida que, embora permanecendo a de um homem e de uma mulher, deixará de estar sujeita às limitações presentes da relação conjugal (cf Mt 22,30). Para os que vivem a vida conjugal, também o seu estado constitui referência e profecia da perfeição que a sua relação encontrará no encontro face a face com Deus. Distintos desde o início da criação e permanecendo tais no próprio coração da eternidade, o homem e a mulher, inseridos no mistério pascal de Cristo, deixam de conceber a sua diferença como fonte de discórdia, a superar com a negação ou com o nivelamento, mas como uma possibilidade de colaboração, que devem cultivar no recíproco respeito da distinção. Daqui se abrem novas perspectivas para uma compreensão mais profunda da dignidade da mulher e do seu papel na sociedade humana e na Igreja».
Mais especificamente, em seguida, o Card. Joseph Ratzinger dedicou-se a enuclear a função materna da mulher na família: «Entre os valores fundamentais relacionados com a vida concreta da mulher, existe o que se chama a sua «capacidade para o outro». Não obstante o fato de um certo discurso feminista reivindicar as exigências «para ela mesma», a mulher conserva a intuição profunda de que o melhor da sua vida é feito de atividades orientadas para o despertar do outro, para o seu crescimento, a sua proteção. Uma tal intuição é ligada à sua capacidade física de dar a vida. Vivida ou potencial, essa capacidade é uma realidade que estrutura em profundidade a personalidade feminina. Permite-lhe alcançar muito cedo a maturidade, sentido da gravidade da vida e das responsabilidades que a mesma implica. Desenvolve em si o sentido e o respeito do concreto, que se opõe às abstrações, muitas vezes mortais para a existência dos indivíduos e da sociedade. É ela, enfim, que, mesmo nas situações mais desesperadas — a história passada e presente são testemunho disso —, possui uma capacidade única de resistir nas adversidades; de tornar a vida ainda possível, mesmo em situações extremas; de conservar um sentido tenaz do futuro e, por último, recordar com as lágrimas o preço de cada vida humana. Embora a maternidade seja um elemento chave da identidade feminina, isso não autoriza absolutamente a considerar a mulher apenas sob o perfil da procriação biológica.
Pode haver nesse sentido graves exageros que exaltam uma fecundidade biológica em termos vitalistas e que freqüentemente são acompanhados de um perigoso desprezo da mulher. A existência da vocação cristã à virgindade, audaciosa em relação à tradição veterotestamentária e às exigências de muitas sociedades humanas, é neste campo de grandíssima importância. Nega ela de forma radical toda a pretensão de fechar as mulheres num destino que seria simplesmente biológico. Como a virgindade recebe da maternidade física a advertência de que não existe vocação cristã senão no dom concreto de si ao outro, do mesmo modo a maternidade física recebe da virgindade o apelo à sua dimensão fundamentalmente espiritual: não é contentando-se em dar a vida física que se gera verdadeiramente o outro. Isto quer dizer que a maternidade pode encontrar formas de realização plena também onde não há geração física. Numa tal perspectiva, compreende-se o papel insubstituível da mulher em todos os aspectos da vida familiar e social que envolvam relações humanas e o cuidado do outro. Aqui se manifesta com clareza o que João Paulo II chamou gênio da mulher. Implica isto, antes de mais, que as mulheres estejam presentes, ativamente e até com firmeza, na família, que é «sociedade primordial e, em certo sentido, “soberana”», porque é nesta que, em primeiro lugar, se plasma o rosto de um povo; é nesta onde os seus membros adquirem os ensinamentos fundamentais. Nela aprendem a amar, enquanto são amados gratuitamente; aprendem o respeito por toda a outra pessoa, enquanto são respeitados; aprendem a conhecer o rosto de Deus, enquanto recebem a sua primeira revelação de um pai e de uma mãe cheios de atenção».
«Todas as vezes que venham a faltar estas experiências fundantes, é a sociedade no seu conjunto que sofre violência e se torna, por sua vez, geradora de múltiplas violências. Isso implica também que as mulheres estejam presentes no mundo do trabalho e da organização social e que tenham acesso a lugares de responsabilidade, que lhes dêem a possibilidade de inspirar as políticas das nações e promover soluções inovadoras para os problemas econômicos e sociais. A este respeito, não se pode, porém, esquecer que a interligação das duas atividades — família e trabalho — assume, no caso da mulher, características diferentes das do homem. Põe-se, portanto, o problema de harmonizar a legislação e a organização do trabalho com as exigências da missão da mulher no seio da família. O problema não é só jurídico, econômico e organizativo; é antes de mais um problema de mentalidade, de cultura e de respeito. Exige-se, de fato, uma justa valorização do trabalho realizado pela mulher na família. Assim, as mulheres que livremente o desejam poderão dedicar a totalidade do seu tempo ao trabalho doméstico, sem ser socialmente estigmatizadas e economicamente penalizadas. As que, por usa vez, desejarem realizar também outros trabalhos poderão fazê-lo com horários adequados, sem serem confrontadas com a alternativa de mortificar a sua vida familiar ou então arcar com uma situação habitual de stress que não favorece nem o equilíbrio pessoal nem a harmonia familiar».
«Como escreve João Paulo II, «reverterá em honra para a sociedade o tornar possível à mãe — sem pôr obstáculos à sua liberdade, sem discriminação psicológica ou prática e sem que ela fique numa situação de desdouro em relação às outras mulheres — cuidar dos seus filhos e dedicar-se à educação deles, segundo as diferentes necessidades da sua idade». É, em todo o caso, oportuno lembrar que os valores femininos, a que se acenou, são antes de mais valores humanos: a condição humana, do homem e da mulher, criados à imagem de Deus, é una e indivisível. É só por estarem em sintonia mais imediata com estes valores que as mulheres podem ajudar a lembrá-los ou ser o seu sinal privilegiado. Mas, em última análise, todo o ser humano, homem e mulher, é destinado a ser «para o outro». Nessa perspectiva, o que se chama «feminilidade» é mais do que um simples atributo do sexo feminino. A palavra designa, com efeito, a capacidade fundamentalmente humana de viver para o outro e graças ao outro. Portanto, a promoção da mulher no seio da sociedade deve ser compreendida e querida como uma humanização, realizada através daqueles valores que foram redescobertos graças às mulheres. Qualquer perspectiva que pretenda propor-se como luta dos sexos não passa de uma ilusão e perigo: desembocaria em situações de segregação e de competição entre homens e mulheres e promoveria um solipsismo que se nutre de uma falsa concepção da liberdade. Sem prejuízo dos esforços que são feitos na promoção dos direitos que as mulheres podem aspirar na sociedade e na família, estas observações querem, ao invés, corrigir a perspectiva que considera os homens inimigos a vencer. A relação homem-mulher não pode pretender encontrar a sua justa condição numa espécie de contraposição, desconfiada e defensiva. Tal relação tem de ser vivida na paz e na felicidade do amor partilhado. A um nível mais concreto, as políticas sociais —educativas, familiares, laborais, de acesso aos serviços, de participação cívica, — se, por um lado, devem combater toda a discriminação sexual injusta, por outro, devem saber escutar as aspirações e assinalar as necessidades de cada um. A defesa e promoção da igual dignidade e dos comuns valores pessoais devem harmonizar-se com o atento reconhecimento da diferença e da reciprocidade, onde a realização da própria humanidade masculina e feminina o exija».


JOÃO PAULO II E A FAMÍLIA
1981: a Instituição do Pontifício Conselho para a Família
O Pontifício Conselho para a Família foi instituído pelo Papa João Paulo II com o Motu proprio Familia a Deo instituta de 9 de maio de 1981, em substituição do Comitê para a Família criado pelo Papa Paulo VI em 11 de janeiro de 1973. O organismo é encarregado da pastoral e do apostolado em campo familiar, em aplicação dos ensinamentos e das orientações do Magistério eclesiástico, para que as famílias cristãs sejam ajudadas a realizar a missão educadora e apostólica a que são chamadas. Entre as numerosas tarefas confiadas a este Conselho, figura também a promoção e a coordenação dos esforços pastorais em ordem à procriação responsável segundo os ensinamentos da Igreja, como encorajar, sustentar e coordenar os esforços em defesa da vida humana em todo o arco da sua existência, da concepção à morte.
João Paulo II no Motu proprio Família a Deo instituta explica: «A família, instituída por Deus para que fosse a primeira e vital célula da sociedade humana, por Cristo redentor, que se dignou a nascer na família de Nazaré, foi tão grandemente honrada, que o matrimônio, íntima comunidade de amor e de vida, do qual a família traz suas origens, foi por ele elevado à dignidade de sacramento, de modo a significar eficazmente o místico pacto de amor entre Cristo e a Igreja (cf. GS 48). Com justa razão, portanto, o Conselho Ecumênico Vaticano II qualificou a família como “Igreja doméstica” (LG 11; cf. também AA 11), mostrando com tal ensinamento quão peculiar papel a família seja chamada a realizar no interior do plano de salvação e quão comprometedor seja portanto o dever que obriga os membros da família a atuar, cada um segundo a própria missão, o tríplice aspecto profético, sacerdotal e real, que Cristo confiou à Igreja.
Não deve, portanto, surpreender que a Igreja, sempre solícita ao longo dos séculos à família e aos seus problemas, tendo hoje crescido sejam os meios aptos a promover a família sejam os perigos de todo gênero que a ameaçam, dirija a essa os olhos com atenção também maior. Testemunho significativo de tal apostólica solicitude é o passo tomado por meu grande predecessor de v.m., o Papa Paulo VI, o qual em 11 de janeiro de 1973 decidiu constituir um especial “Comitê para a Família” com o encargo de estudar os problemas espirituais, morais e sociais da família, em uma visão pastoral. Este havia sido concebido como organismo de estudos e de pesquisas pastorais ao serviço da missão da Igreja e em particular da Santa Sé. Com o motuproprio Apostolatus peragendi foi disposto que o “Comitê para a família”, embora conservando sua estrutura e a composição sua própria, estivesse à frente do “Pontifício Conselho para os Leigos”.
Uma atenta reflexão sobre a experiência destes anos, mas sobretudo o desejo de dar uma resposta sempre mais adequada às expectativas do povo cristão, recolhidas pelo episcopado de todo o mundo e manifestadas pelo recente Sínodo dos Bispos, dedicado à família, induziram a dar ao Comitê para a família uma nova própria fisionomia e uma nova própria estrutura organizativa de modo que esta possa afrontar a problemática específica da realidade familiar em ordem aos cuidados pastorais e à atividade apostólica relativa a este nevrálgico setor da vida humana».
Feitas tais premissas, João Paulo II dispôs o quanto se segue: «I. É constituído o “Pontifício conselho para a família” que sucede, substituindo-o, o Comitê para a família, o qual cessa, portanto. II. Este é presidido por um Cardeal, assistido por um “Comitê de presidência” composto por Bispos de diversos continentes, e pelo Secretário do mesmo Pontifício conselho para a família, como também pelo presidente do Pontifício conselho para os leigos. O Cardeal presidente é coadjuvado por um Secretário e por um Subsecretário. Um congruente número de oficiais escolhido de vários países entre aqueles que têm competência e uma experiência pastoral específica na matéria, assegura o trabalho nos escritórios. III. Membros do Pontifício Conselho são pessoas, na maioria leigos conjugados, homens e mulheres chamados de todas as partes do mundo e expressivas das várias áreas culturais. Os membros são nomeados pelo Santo Padre. Os membros reúnem-se em plenária ao menos uma vez por ano. IV. O pontifício Conselho serve-se da colaboração de consultores especialistas nas várias disciplinas com particular referimento à problemática da família. Podem ser chamados a integrar o grupo dos consultores também sacerdotes e religiosos. Os consultores compõem a consulta, que tem a tarefa de exprimir conselhos e pareceres acerca de questões propostas pelo presidente e pelos membros. Estes poderão ser ouvidos individualmente ou coletivamente em encontros periódicos. V. Competência: É encargo do Pontifício Conselho para a Família a promoção pastoral das famílias e do apostolado específico em campo familiar, na aplicação dos ensinamentos e das orientações expressas pelas competentes instâncias do magistério eclesiástico, de modo que as famílias cristãs possam realizar a missão educativa, evangelizadora e apostólica, à qual são chamadas.
Em particular: a) em espírito de serviço e de colaboração e no respeito da ação sua própria, preparação de relatórios de informações, e trocas de experiências e de orientações inspiradoras da postoral familiar com os bispos, as conferências episcopais e os seus organismos, prepostos à pastoral familiar; b) difusão da doutrina da Igreja acerca dos problemas familiares de modo que esta possa ser integralmente conhecida e corretamente proposta ao povo cristão, seja na catequese seja no conhecimento científico; c) promove e coordena os esforços pastorais em ordem ao problema da procriação responsável segundo os ensinamentos da Igreja; d) estimular a elaboração de estudos relativos à espiritualidade matrimonial e familiar; e) encorajar, sustentar e coordenar os esforços em defesa da vida humana em todo o arco de sua existência desde a concepção; f) promover, também através da obra de institutos científicos especializados (teológicos e pastorais), os estudos finalizados a integrar, sobre os temas da família, as ciências teológicas e as ciências humanas a fim que toda a doutrina da Igreja seja sempre melhor compreendida pelos homens de boa vontade; g) cuidados das relações com os movimentos inspirados nas diversas confissões religiosas (ou em diversas concepções ideais), respeitosos da lei natural e de um saudável humanismo; h) com relação à competência do próprio Conselho para os leigos e em colaboração com este, o cuidado da específica preparação dos leigos empenhados no apostolado familiar desenvolvido enquanto indivíduos ou associações, inspirar, sustentar e regular a atividade das organizações internacionais católicas familiares seja nacionais seja internacionais, e de vários grupos de apostolado dos leigos com específico referimento aos problemas da família. A tal fim empreender relacionamentos especiais com o mesmo Pontifício Conselho para os leigos, com uma troca periódica de informações em vista de reflexões e programas comuns; i) prestar a sua colaboração aos dicastérios e aos organismos da cúria romana nas matérias de sua competência, que têm qualquer reflexo sobre a vida e a pastoral das famílias – recebendo por sua vez a colaboração destes – especialmente naquilo que diz respeito à catequese das famílias, à formação dos jovens sobre problemas familiares nos seminários e nas universidades católicas, a formação teológico-pastoral no campo familiar dos futuros missionários e das futuras missionárias, dos religiosas e das religiosas, a ação da Santa Sé em relação às competentes instâncias internacionais e junto aos estados em particular, para que os direitos da família sejam sempre mais reconhecidos e tutelados; 1) promover o recolhimento – através da representação pontifícia – das notícias sobre a situação humana, social e pastoral das famílias nos vários países.
1981: Exortação Apostólica Familiaris Consortio
Em 1981 João Paulo II assina um de seus documentos mais importantes entre aqueles dedicados à família: a Exortação Apostólica Familiaris Consortio dedicada às tarefas da família cristã no mundo de hoje. « A FAMÍLIA nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura. Muitas famílias vivem esta situação na fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento do instituto familiar. Outras tornaram-se incertas e perdidas frente a seus deveres, ou ainda mais, duvidosas e quase esquecidas do significado último e da verdade da vida conjugal e familiar. Outras, por fim, estão impedidas por variadas situações de injustiça de realizarem os seus direitos fundamenta. Consciente de que o matrimônio e a família constituem um dos bens mais preciosos da humanidade, a Igreja quer fazer chegar a sua voz e oferecer a sua ajuda a quem, conhecendo já o valor do matrimônio e da família, procura vivê-lo fielmente, a quem, incerto e ansioso, anda à procura da verdade e a quem está impedido de viver livremente o próprio projeto familiar. Sustentando os primeiros, iluminando os segundos e ajudando os outros, a Igreja oferece o seu serviço a cada homem interessado nos caminhos do matrimônio e da família. Dirige-se particularmente aos jovens, que estão para encetar o seu caminho para o matrimônio e para a família, abrindo-lhes novos horizontes, ajudando-os a descobrir a beleza e a grandeza da vocação ao amor e ao serviço da vida».
João Paulo II não tem dúvidas em reconhecer o valor do matrimônio e da família para a sociedade atual, valor que a Igreja sempre reconheceu a valorizou: « A Igreja, iluminada pela fé, que lhe faz conhecer toda a verdade sobre o precioso bem do matrimônio e da família e sobre os seus significados mais profundos, sente mais uma vez a urgência de anunciar o Evangelho, isto é, a «Boa Nova» a todos indistintamente, em particular a todos aqueles que são chamados ao matrimônio e para ele se preparam, a todos os esposos e pais do mundo. Ela está profundamente convencida de que só com o acolhimento do Evangelho encontra realização plena toda a esperança que o homem põe legitimamente no matrimônio e na família. Queridos por Deus com a própria criação, o matrimônio e a família estão interiormente ordenados a complementarem-se em Cristo e têm necessidade da sua graça para serem curados das feridas do pecado e conduzidos ao seu «princípio», isto é, ao conhecimento pleno e à realização integral do desígnio de Deus. Num momento histórico em que a família é alvo de numerosas forças que a procuram destruir ou de qualquer modo deformar, a Igreja, sabedora de que o bem da sociedade e de si mesma está profundamente ligado ao bem da família, sente de modo mais vivo e veemente a sua missão de proclamar a todos o desígnio de Deus sobre o matrimônio e sobre a família, para lhes assegurar a plena vitalidade e promoção humana e cristã, contribuindo assim para a renovação da sociedade e do próprio Povo de Deus».
Para o Santo Padre, « A situação em que se encontra a família apresenta aspectos positivos e aspectos negativos: sinal, naqueles, da salvação de Cristo operante no mundo; sinal, nestes, da recusa que o homem faz ao amor de Deus. Por um lado, de fato, existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimônio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos; há, além disso, a consciência da necessidade de que se desenvolvam relações entre as famílias por uma ajuda recíproca espiritual e material, a descoberta de novo da missão eclesial própria da família e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa. Por outro lado, contudo, não faltam sinais de degradação preocupante de alguns valores fundamentais: uma errada concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves ambigüidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais freqüente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva. Na raiz destes fenômenos negativos está muitas vezes uma corrupção da idéia e da experiência de liberdade concebida não como capacidade de realizar a verdade do projeto de Deus sobre o matrimônio e a família, mas como força autônoma de afirmação, não raramente contra os outros, para o próprio bem-estar egoístico. Merece também a nossa atenção o fato de que, nos países do assim chamado Terceiro Mundo, faltem muitas vezes às famílias quer os meios fundamentais para a sobrevivência, como o alimento, o trabalho, a habitação, os medicamentos, quer as mais elementares liberdades. Nos países mais ricos, pelo contrário, o bem-estar excessivo e a mentalidade consumista, paradoxalmente unida a uma certa angústia e incerteza sobre o futuro, roubam aos esposos a generosidade e a coragem de suscitarem novas vidas humanas: assim a vida é muitas vezes entendida não como uma bênção, mas como um perigo de que é preciso defender-se. A situação histórica em que vive a família apresenta-se, portanto, como um conjunto de luzes e sombras. Isto revela que a história não é simplesmente um progresso necessário para o melhor, mas antes um acontecimento de liberdade, e ainda um combate entre liberdades que se opõem entre si; segundo a conhecida expressão de Santo Agostinho, um conflito entre dois amores: o amor de Deus impelido até ao desprezo de si, e o amor de si impelido até ao desprezo de Deus. Segue-se que só a educação para o amor, radicada na fé, pode levar a adquirir a capacidade de interpretar «os sinais dos tempos», que são a expressão histórica deste duplo amor».
Mais adiante Papa João Paulo II fala de desígnio de Deus sobre o matrimônio e sobre a família: « Deus criou o homem à sua imagem e semelhança: chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor. Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano. Enquanto espírito encarnado, isto é, alma que se exprime no corpo informado por um espírito imortal, o homem é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O amor abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do amor espiritual.
A Revelação cristã conhece dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na sua totalidade ao amor: o Matrimônio e a Virgindade. Quer um quer outro, na sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do homem, do seu «ser à imagem de Deus». Por conseqüência a sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os atos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal. Esta se realiza de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte. A doação física total seria falsa se não fosse sinal e fruto da doação pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente. Esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais. O «lugar» único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimônio, ou seja o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus, que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjectivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora».
A terceira parte da Exortação apostólica é inteiramente dedicada às tarefas da família cristã. Tarefas que podem ser resumidas à necessidade de que a família ajude a criação de «uma comunidade de pessoas», que esta ajude a vida e seja um serviço à vida, que participe «ao desenvolvimento da sociedade», que participe «da vida e da missão da Igreja».
Mais adiante o Papa entra no tema específico da pastoral familiar, refletindo sobre seu tempo, estruturas, agentes e situações. Dedica um capítulo à ação pastoral diante de algumas situações irregulares. «Na sua solicitude pela tutela da família em todas as suas dimensões, não somente na dimensão religiosa, o Sínodo dos Bispos não deixou de prestar atenta consideração a algumas situações irregulares, religiosa e muitas vezes também civilmente, que - nas rápidas mudanças culturais hodiernas - se vão infelizmente difundindo mesmo entre os católicos, com não pequeno dano do instituto familiar e da sociedade, de que constitui a célula fundamental.
a) O matrimônio à experiência:
«Uma primeira situação irregular é dada pelo que se chama «matrimônio à experiência», que hoje muitos querem justificar, atribuindo-lhe um certo valor. A razão humana insinua já a sua não aceitação, mostrando quanto seja pouco convincente que se faça uma «experiência» em relação a pessoas humanas, cuja dignidade exige que sejam elas só e sempre, o termo do amor de doação sem limite algum nem de tempo nem de qualquer outra circunstância. Por sua parte, a Igreja não pode admitir um tal tipo de união por ulteriores motivos, originais, derivantes da fé. Por um lado, com efeito, o dom do corpo na relação sexual é símbolo real da doação de toda a pessoa: uma doação tal que, além do mais, na atual economia da salvação não pode atuar-se com verdade plena sem o concurso do amor de caridade, dado por Cristo. Por outro lado, o matrimônio entre duas pessoas batizadas é o símbolo real da união de Cristo com a Igreja, uma união não temporária ou «à experiência», mas eternamente fiel; entre dois batizados, portanto, não pode existir senão um matrimônio indissolúvel. Ordinariamente tal situação não poder ser superada se a pessoa humana, desde a infância, com a ajuda da graça de Cristo e sem temores, não for educada para o domínio da concupiscência nascente e para estabelecer com os outros relações de amor genuíno. Isso não se consegue sem uma verdadeira educação para o amor autêntico e para o reto uso da sexualidade, de modo a introduzir a pessoa humana em todas as suas dimensões, mesmo no referente ao próprio corpo, na plenitude do mistério de Cristo. Seria muito útil indagar sobre as causas deste fenômeno, também no seu aspecto psicológico e sociológico, para chegar a uma terapia adequada.
b) Uniões livres de fato
«Trata-se de uniões sem nenhum vínculo institucional, civil ou religioso, publicamente reconhecido. Este fenômeno - cada vez mais freqüente - não deixará de chamar a atenção dos pastores, exatamente porque existindo na sua base elementos muito diversos, será possível atuar sobre eles e limitar-lhes as conseqüências. Alguns, com efeito, consideram-se quase constrangidos a tais uniões por situações difíceis de caráter econômico, cultural e religioso, já que contraindo um matrimônio regular, seriam expostos a um dano, à perda de vantagens econômicas, à discriminação, etc. Outras, pelo contrário, fazem-no numa atitude de desprezo, de contestação ou de rejeição da sociedade, do instituto familiar, do ordenamento socio-político, ou numa busca única de prazer. Outros, enfim, são obrigados pela extrema ignorância e pobreza, às vezes por condicionamentos verificados por situações de verdadeira injustiça, ou também de uma certa imaturidade psicológica, que os torna incertos e duvidosos na contração de um vínculo estável e definitivo. Em alguns países os costumes tradicionais prevêem o matrimônio verdadeiro e próprio só depois de um período de coabitação e depois do nascimento do primeiro filho. Cada um destes elementos põe à Igreja árduos problemas pastorais, pelas graves conseqüências quer religiosas e morais (perda do sentido religioso do matrimônio à luz da Aliança de Deus com o seu Povo; privação da graça do sacramento; escândalo grave), quer também sociais (destruição do conceito de família; enfraquecimento do sentido de fidelidade mesmo para com a sociedade; possíveis traumas psicológicos nos filhos; afirmação do egoísmo). Os pastores e a comunidade eclesial serão diligentes em conhecer tais situações e as suas causas concretas, caso por caso; em aproximar-se dos conviventes com discrição e respeito; em esforçar-se com uma ação de esclarecimento paciente, de caridosa correção, de testemunho familiar cristão, que lhes possa aplanar o caminho para regularizar a situação. Faça-se, sobretudo, obra de prevenção, cultivando o sentido da fidelidade na educação moral e religiosa dos jovens, instruindo-os acerca das condições e das estruturas que favorecem tal fidelidade, sem a qual não há verdadeira liberdade, ajudando-os a amadurecer espiritualmente e fazendo-lhes compreender a riqueza da realidade humana e sobrenatural do matrimônio-sacramento. O Povo de Deus atue também junto das autoridades públicas, para que, resistindo a estas tendências desagregadoras da própria sociedade e prejudiciais à dignidade, segurança e bem-estar dos cidadãos, a opinião pública não seja induzida a menosprezar a importância institucional do matrimônio e da família. E já que em muitas regiões, pela pobreza extrema derivante de estruturas sócio-econômicas injustas ou inadequadas, os jovens não estão em condições de se casarem como convém, a sociedade e as autoridades públicas favoreçam o matrimônio legítimo mediante uma série de intervenções sociais e políticas, garantindo o salário familiar, emanando disposições para uma habitação adaptada à vida familiar, criando possibilidades adequadas de trabalho e de vida.
c) Católicos unidos só em matrimônio civil
«Difunde-se sempre mais o caso de católicos que, por motivos ideológicos e práticos, preferem contrair só matrimônio civil, rejeitando ou pelo menos adiando o religioso. A sua situação não se pode equiparar certamente à dos simples conviventes sem nenhum vinculo, pois que ali se encontra ao menos um empenhamento relativo a um preciso e provavelmente estável estado de vida, mesmo se muitas vezes não está afastada deste passo a perspectiva de um eventual divórcio. Procurando o reconhecimento público do vínculo da parte do Estado, tais casais mostram que estão dispostos a assumir, com as vantagens também as obrigações. Não obstante, tal situação não é aceitável por parte da Igreja. A ação pastoral procurará fazer compreender a necessidade da coerência entre a escolha de um estado de vida e a fé que se professa, e tentará todo o possível para levar tais pessoas a regularizar a sua situação à luz dos princípios cristãos. Tratando-as embora com muita caridade, e interessando-as na vida das respectivas comunidades, os pastores da Igreja não poderão infelizmente admiti-las aos sacramentos.
d) Separados e divorciados sem segunda união
«Motivos diversos, quais incompreensões recíprocas, incapacidade de abertura a relações interpessoais, etc. podem conduzir dolorosamente o matrimônio válido a uma fratura muitas vezes irreparável. Obviamente que a separação deve ser considerada remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis. A solidão e outras dificuldades são muitas vezes herança para o cônjuge separado, especialmente se inocente. Em tal caso, a comunidade eclesial deve ajudá-lo mais que nunca; demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão e ajuda concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade mesmo na situação difícil em que se encontra; ajudá-lo a cultivar a exigência do perdão própria do amor cristão e a disponibilidade para retomar eventualmente a vida conjugal anterior. Análogo é o caso do cônjuge que foi vítima de divórcio, mas que - conhecendo bem a indissolubilidade do vínculo matrimonial válido - não se deixa arrastar para uma nova união, empenhando-se, ao contrário, unicamente no cumprimento dos deveres familiares e na responsabilidade da vida cristã. Em tal caso, o seu exemplo de fidelidade e de coerência cristã assume um valor particular de testemunho diante do mundo e da Igreja, tornando mais necessária ainda, da parte desta, uma acção contínua de amor e de ajuda, sem algum obstáculo à admissão aos sacramentos.
e) Divorciados que contraem nova união
«A experiência quotidiana mostra, infelizmente, que quem recorreu ao divórcio tem normalmente em vista a passagem a uma nova união, obviamente não com o rito religioso católico. Pois que se trata de uma praga que vai, juntamente com as outras, afetando sempre mais largamente mesmo os ambientes católicos, o problema deve ser enfrentado com urgência inadiável. Os Padres Sinodais estudaram-no expressamente. A Igreja, com efeito, instituída para conduzir à salvação todos os homens e sobretudo os batizados, não pode abandonar aqueles que - unidos já pelo vínculo matrimonial sacramental - procuraram passar a novas núpcias. Por isso, esforçar-se-á infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação. Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimônio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimônio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o prece dente matrimônio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido. Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança. A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio. A reconciliação pelo sacramento da penitência - que abriria o caminho ao sacramento eucarístico - pode ser concedida só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. Isto tem como conseqüência, concretamente, que quando o homem e a mulher, por motivos sérios - quais, por exemplo, a educação dos filhos - não se podem separar, «assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges». Igualmente o respeito devido quer ao sacramento do matrimônio quer aos próprios cônjuges e aos seus familiares, quer ainda à comunidade dos fiéis proíbe os pastores, por qualquer motivo ou pretexto mesmo pastoral, de fazer em favor dos divorciados que contraem uma nova união, cerimônias de qualquer gênero. Estas dariam a impressão de celebração de novas núpcias sacramentais válidas, e conseqüentemente induziriam em erro sobre a indissolubilidade do matrimônio contraído validamente. Agindo de tal maneira, a Igreja professa a própria fidelidade a Cristo e à sua verdade; ao mesmo tempo comporta-se com espírito materno para com estes seus filhos, especialmente para com aqueles que sem culpa, foram abandonados pelo legítimo cônjuge. Com firme confiança ela vê que, mesmo aqueles que se afastaram do mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado, poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade.
f) Os sem-família
«Desejo ainda acrescentar uma palavra para uma categoria de pessoas que, pela situação concreta em que se encontram - e muitas vezes não por sua vontade deliberada - eu considero particularmente junto do Coração de Cristo e dignas do afeto e da solicitude da Igreja e dos pastores. Infelizmente há no mundo muitíssimas pessoas que não podem referir-se de modo algum ao que poderia definir-se em sentido próprio uma família. Grandes sectores da humanidade vivem em condições de enorme pobreza, em que a promiscuidade, a carência de habitações, a irregularidade e instabilidade das relações, a falta extrema de cultura não permitem praticamente poder falar de verdadeira família. Há outras pessoas que, por motivos diversos, ficaram sós no mundo. Também para todos estes há um «bom anúncio da família». Em favor de quantos vivem na pobreza extrema, já falei da necessidade urgente de trabalhar com coragem para se encontrarem soluções mesmo a nível político, que consintam ajudar a superar estas condições desumanas de prostração. É um dever que incumbe, solidariamente, à sociedade inteira, mas de uma maneira especial às autoridades pela força do seu cargo e das responsabilidades conseqüentes, assim como às famílias, que devem demonstrar grande compreensão e vontade de ajudar. Àqueles que não têm uma família natural, é preciso abrir ainda mais as portas da grande família que é a Igreja, concretizada na família diocesana e paroquial, nas comunidades eclesiais de base ou nos movimentos apostólicos. Ninguém está privado da família neste mundo: a Igreja é casa e família para todos, especialmente para quantos estão «cansados e oprimidos» (cf. Mt 11,28)».
A conclusão da Familiaris Consortio é caracterizada por uma série de declarações solenes: «A vós esposos, a vós pais e mães de família; a vós, jovens e donzelas, que sois o futuro e a esperança da Igreja e do mundo e construireis o núcleo que garantirá e dinamizará a família no terceiro milênio que se aproxima; a vós, veneráveis e caros Irmãos no episcopado e no sacerdócio, queridos filhos religiosos e religiosas, almas consagradas ao Senhor, que testemunhais aos esposos a realidade última do amor de Deus; a vós, homens todos de coração reto, que por razões diversas vos preocupais da situação da família, dirige-se com trepidante solicitude, a minha atenção ao final desta Exortação Apostólica. É pois indispensável e urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e promover os valores e as exigências da família. Sinto-me no dever de pedir aos filhos da Igreja um esforço especial neste campo. Conhecendo plenamente, pela fé, o maravilhoso plano de Deus, eles têm uma razão mais para se dedicar à realidade da família neste nosso tempo de prova e de graça. Devem amar particularmente a família. É o que concreta e exigentemente vos confio. Amar a família significa saber estimar os seus valores e possibilidades, promovendo-os sempre. Amar a família significa descobrir os perigos e os males que a ameaçam, para poder superá-los. Amar a família significa empenhar-se em criar um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. E, por fim, forma eminente de amor à família cristã de hoje, muitas vezes tentada por incômodos e angustiada por crescentes dificuldades, é dar-lhe novamente razões de confiança em si mesma, nas riquezas próprias que lhe advém da natureza e da graça e na missão que Deus lhe confiou. «É necessário que as famílias do nosso tempo tomem novamente altura! É necessário que sigam a Cristo». (João Paulo PP. II, Carta Appropinaquat iam, 1 [15 de agosto de 1980]: ASS 72 [1980], 791). Compete ainda aos cristãos a tarefa de anunciar com alegria e convicção a «boa nova» acerca da família, que tem necessidade absoluta de ouvir e de compreender sempre mais profundamente as palavras autênticas que lhe revelam a sua identidade, os seus recursos interiores, a importância da sua missão na Cidade dos homens e na de Deus. A Igreja conhece o caminho pelo qual a família pode chegar ao coração da sua verdade profunda. Este caminho, que a Igreja aprendeu na escola de Cristo e da história interpretada à luz do Espírito, não o impõe, mas sente a exigência indeclinável de o propor a todos sem medo, com grande confiança e esperança, sabendo, porém, que a «boa nova» conhece a linguagem da Cruz. É, no entanto, através da Cruz que a família pode atingir a plenitude do seu ser e a perfeição do seu amor. Desejo, por fim, convidar todos os cristãos a colaborar, carinhosa e corajosamente, com todos os homens de boa vontade, que vivem a responsabilidade própria no serviço à família. Os que dentro da Igreja, em seu nome e sob a sua inspiração, quer individualmente quer em grupos, movimentos ou associações, se consagram ao bem da família, encontram muitas vezes a seu lado pessoas e instituições empenhadas no mesmo ideal. Na fidelidade aos valores do Evangelho e do homem e no respeito a um legítimo pluralismo de iniciativas, esta colaboração poderá favorecer uma mais rápida e integral promoção da família. E agora, ao concluir esta mensagem pastoral, que visa chamar a atenção de todos sobre as pesadas mas fascinantes tarefas da família cristã, desejo invocar a proteção da Família de Nazaré. Por misterioso desígnio de Deus, nela viveu o Filho de Deus escondido por muitos anos: é, pois, protótipo e exemplo de todas as famílias cristãs. E aquela Família, única no mundo, que passou uma existência anônima e silenciosa numa pequena localidade da Palestina; que foi provada pela pobreza, pela perseguição, pelo exílio; que glorificou a Deus de modo incomparavelmente alto e puro, não deixará de ajudar as famílias cristãs, ou melhor, todas as famílias do mundo, na fidelidade aos deveres quotidianos, no suportar as ansias e as tribulações da vida, na generosa abertura às necessidades dos outros, no feliz cumprimento do plano de Deus a seu respeito. Que São José, «homem justo», trabalhador incansável, guarda integérrimo dos penhores que lhe foram confiados, as guarde, proteja e ilumine. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja também a Mãe da «Igreja doméstica» e, graças ao seu auxílio materno, cada família cristã possa tornar-se verdadeiramente uma «pequena Igreja», na qual se manifeste e reviva o mistério da Igreja de Cristo. Seja Ela, a Escrava do Senhor, o exemplo de acolhimento humilde e generoso da vontade de Deus; seja Ela, Mãe das Dores aos pés da Cruz, a confortar e a enxugar as lágrimas dos que sofrem pelas dificuldades das suas famílias. E Cristo Senhor, Rei do Universo, Rei das famílias, como em Caná, esteja presente em cada lar cristão a conceder-lhe luz, felicidade, serenidade, fortaleza. No dia solene dedicado à sua Realeza, peço que cada família Lhe ofereça um contributo próprio, original para a vinda no mundo do seu Reino, «Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz», para o qual se encaminha a história. A Ele, a Maria e a José confio cada família. Nas suas mãos e no seu coração ponho esta Exortação: sejam Eles a transmiti-la a vós, veneráveis Irmãos e diletos filhos, e a abrir os vossos corações à luz que o Evangelho irradia sobre cada família. A todos e a cada um, assegurando a minha constante prece, concedo de coração a Bênção Apostólica em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo».
1982: Instituição do Pontifício Instituto “João Paulo II” para estudos sobre o Matrimônio e Família
Com a Constituição Apostólica “Magnum Matrimonii Sacramentum” de 7 de outubro de 1982, é fundado este Pontifício Instituto com o poder de conferir a Licença e o Doutorado em Sagrada Teologia e o Mestrado em Ciências do Matrimônio e da Família. Erigido junto à Pontifícia Universidade Lateranense, com os Estatutos aprovados pelo Papa João Paulo II em 1992, 1993 e 2000, o Instituto tornou-se autônomo. Através dos Decretos emanados em datas diversas, foram erigidas Seções do Instituto em Washington (Estados Unidos da América), Cidade do México (México), Valência (Espanha), São Salvador (Brasil), Cotonou (Benin), Thuruthy (Índia).
A intenção com o qual foi fundado o Instituto é o de oferecer à Igreja um aprofundamento do desígnio de Deus sobre a pessoa, o matrimônio e a família. O Instituto de fato se propõe a (1) oferecer aos sacerdotes, religiosos e leigos uma formação teológica, filosófica e ética completa para uma visão integral do homem e um olhar cristão sobre o amor humano e a vida nascente, como suporte a um serviço pastoral sempre mais qualificado; (2) promover a família como essencial sujeito e objeto da nova evangelização para gerar uma nova cultura da vida, com ensinamentos competentes e específicos sobretudo sobre questões de atualidade tais como a bioética; (3) realizar um percurso de estudos que observa a família também em chave sociológica, psicológica e jurídica como suporte às diversas profissões (ensinamento, coordenação pastoral familiar, consulta familiar na diocese, mundo empresarial...)
Programas de Estudo: Doutorado em S. Teologia do Matrimônio e da Família, Licença em S. Teologia do Matrimônio e da Família; Mestrado em Ciências do Matrimônio e da Família; Mestrado em Bioética e formação.
1988: A Carta Apostólica “Mulieris dignitatem”
A Carta Apostólica “Mulieris dignitatem”escrita pelo Papa João Paulo II em 1988 concentra-se sobre a dignidade e sobre a vocação da mulher. O Santo Padre dedica amplos parágrafos à missão da mulher quando decide de casar-se e, unindo-se a um homem, dar a vida a uma família. «A passagem já citada da Carta aos Efésios (5, 21-33), na qual a relação entre Cristo e a Igreja é apresentada como vínculo entre o Esposo e a Esposa, faz referência também à instituição do matrimônio segundo as palavras do Livro do Gênesis (cf. 2, 24). Ela une a verdade sobre o matrimônio como sacramento primordial com a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança de Deus (cf. Gên 1, 27; 5, 1). Graças ao significativo confronto presente na Carta aos Efésios, adquire plena clareza aquilo que decide da dignidade da mulher, quer aos olhos de Deus, Criador e Redentor, quer aos olhos do homem: do homem e da mulher. No fundamento do desígnio eterno de Deus, a mulher é aquela na qual a ordem do amor no mundo criado das pessoas encontra um terreno para deitar a sua primeira raiz. A ordem do amor pertence à vida íntima do próprio Deus, à vida trinitária. Na vida íntima de Deus, o Espírito Santo é a hipóstase pessoal do amor. Mediante o Espírito, Dom incriado, o amor se torna um dom para as pessoas criadas. O amor, que vem de Deus, comunica-se às criaturas: « O amor de Deus é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado » (cf. Rom 5, 5).
«O chamamento da mulher à existência junto ao homem (« um auxiliar que lhe seja semelhante »: cf. Gên 2, 18) na « unidade dos dois » oferece, no mundo visível das criaturas, condições particulares a fim de que « o amor de Deus seja derramado nos corações » dos seres criados à sua imagem. Se o autor da Carta aos Efésios chama Cristo Esposo e a Igreja Esposa, ele confirma indiretamente, com tal analogia, a verdade sobre a mulher como esposa. O Esposo é aquele que ama. A Esposa é amada: é aquela que recebe o amor para, por sua vez, amar. A citação do Gênesis — relida à luz do símbolo esponsal da Carta aos Efésios — permite-nos intuir uma verdade que parece decidir essencialmente a questão da dignidade da mulher e, em seguida, também a da sua vocação: a dignidade da mulher é medida pela ordem do amor, que é essencialmente ordem de justiça e de caridade. Só a pessoa pode amar e só a pessoa pode ser amada. Esta é uma afirmação, em primeiro lugar, de natureza ontológica, da qual emerge depois uma afirmação de natureza ética. O amor é uma exigência ontológica e ética da pessoa. A pessoa deve ser amada, pois só o amor corresponde àquilo que é a pessoa. Assim se explica o mandamento do amor, conhecido já no Antigo Testamento (cf. Dt 6, 5; Lev 19, 18) e colocado por Cristo no próprio centro do « ethos » evangélico (cf. Mt 22, 36-40; Mc 12, 28-34). Assim se explica também o primado do amor expresso nas palavras de São Paulo na Carta aos Coríntios: « maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13). Se não se recorre a essa ordem e a esse primado, não se pode dar uma resposta completa e adequada à interrogação sobre a dignidade da mulher e sobre a sua vocação».
«Quando dizemos que a mulher é aquela que recebe amor para, por sua vez, amar, não entendemos só ou antes de tudo a relação esponsal específica do matrimônio. Entendemos algo mais universal, fundado no próprio fato de ser mulher no conjunto das relações interpessoais, que nas formas mais diversas estruturam a convivência e a colaboração entre as pessoas, homens e mulheres. Neste contexto, amplo e diversificado, a mulher representa um valor particular como pessoa humana e, ao mesmo tempo, como pessoa concreta, pelo fato da sua feminilidade. Isto se refere a todas as mulheres e a cada uma delas, independentemente do contexto cultural em que cada uma se encontra e das suas características espirituais, psíquicas e corporais, como, por exemplo, a idade, a instrução, a saúde, o trabalho, o fato de ser casada ou solteira. A citação da Carta aos Efésios, que consideramos, leva-nos a pensar numa espécie de « profetismo » particular da mulher na sua feminilidade. A analogia do Esposo e da Esposa fala do amor com que todo homem é amado por Deus em Cristo, todo homem e toda mulher. Todavia, no contexto da analogia bíblica e na base da lógica interna do texto, é precisamente a mulher aquela que manifesta a todos esta verdade: a esposa. Esta característica « profética » da mulher na sua feminilidade encontra a sua mais alta expressão na Virgem Mãe de Deus. É em relação a ela que se coloca em relevo, do modo mais pleno e direto, o elo íntimo que une a ordem do amor — que entra no âmbito do mundo das pessoas humanas através de uma Mulher — com o Espírito Santo. Maria escuta na Anunciação: « Virá sobre ti o Espírito Santo » (Lc 1, 35)».
E ainda «A dignidade da mulher está intimamente ligada com o amor que ela recebe pelo próprio fato da sua feminilidade e também com o amor que ela, por sua vez, doa. Confirma-se assim a verdade sobre a pessoa e sobre o amor. Acerca da verdade da pessoa, deve-se uma vez mais recorrer ao Concílio Vaticano II: « O homem, a única criatura na terra que Deus quis por si mesma, não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesmo ». Isto se refere a todo homem, como pessoa criada à imagem de Deus, quer homem quer mulher. A afirmação de natureza ontológica aqui contida está a indicar também a dimensão ética da vocação da pessoa. A mulher não pode se encontrar a si mesma senão doando amor aos outros. Desde o « princípio » a mulher — como o homem — foi criada e «colocada» por Deus precisamente nesta ordem de amor. O pecado das origens não anulou esta ordem, não a apagou de modo irreversível. Provam-no as palavras bíblicas do Proto-Evangelho» (cf. Gen 3, 15).
«Nas presentes reflexões observamos o lugar singular da « mulher » nesse texto chave da Revelação. Além disso, é preciso observar como a própria mulher, que chega a ser « paradigma » bíblico, se encontra também na perspectiva escatológica do mundo e do homem, expressa no Apocalipse. (60) é « uma mulher vestida de sol », com a lua debaixo dos pés e uma coroa de estrelas sobre a cabeça (cf. Apoc 12, 1). Pode-se dizer: uma mulher à medida do cosmos, à medida de toda a obra da criação. Ao mesmo tempo, ela sofre « as dores e o tormento do parto » (Apoc 12, 2), como Eva « mãe de todos os viventes » (Gen 3, 20). Sofre também porque, « diante da mulher que está para dar à luz » (cf. Apoc 12, 4), se põe o « grande dragão, a serpente antiga » (Apoc 12, 9), conhecido já no Proto-Evangelho: o Maligno, « pai da mentira » e do pecado (cf. Jo 8, 44). De fato, a « serpente antiga » quer devorar « o filho ». Se vemos neste texto o reflexo do Evangelho da infância (cf. Mt 2, 13. 16), podemos pensar que no paradigma bíblico da « mulher » está inscrita, desde o início a até ao fim da história, a luta contra o mal e contra o Maligno. Esta é também a luta pelo homem, pelo seu verdadeiro bem, pela sua salvação. Não quererá a Bíblia dizer-nos que precisamente na « mulher », Eva-Maria, a história registra uma luta dramática em favor de todo homem, a luta pelo seu fundamental « sim » ou « não » a Deus e ao seu desígnio eterno sobre o homem?»
«Se a dignidade da mulher testemunha o amor que ela recebe para, por sua vez, amar, o paradigma bíblico da « mulher » parece desvelar também qual seja a verdadeira ordem do amor que constitui a vocação da mesma mulher. Trata-se aqui da vocação no seu significado fundamental, pode-se dizer universal, que depois se concretiza e se exprime nas múltiplas « vocações » da mulher na Igreja e no mundo. A força moral da mulher, a sua força espiritual une-se à consciência de que Deus lhe confia de uma maneira especial o bomem, o ser humano. Naturalmente, Deus confia todo homem a todos e a cada um. Todavia, este ato de confiar refere-se de modo especial à mulher — precisamente pelo fato da sua feminilidade — e isso decide particularmente da sua vocação. Inspirando-se nesta consciência e neste ato de confiança, a força moral da mulher exprime-se em numerosíssimas figuras femininas do Antigo Testamento, do tempo de Cristo, das épocas sucessivas, até aos nossos dias».
«A mulher é forte pela consciência dessa missão, forte pelo fato de que Deus « lhe confia o homem », sempre e em todos os casos, até nas condições de discriminação social em que ela se possa encontrar. Esta consciência e esta vocação fundamental falam à mulher da dignidade que ela recebe de Deus mesmo, e isto a torna « forte » e consolida a sua vocação. Deste modo, a « mulher perfeita » (cf. Prov 31, 10) torna-se um amparo insubstituível e uma fonte de força espiritual para os outros, que percebem as grandes energias do seu espírito. A estas « mulheres perfeitas » muito devem as suas famílias e, por vezes, inteiras Nações. Na nossa época, os sucessos da ciência e da técnica consentem alcançar, num grau até agora desconhecido, um bem-estar material que, enquanto favorece alguns, conduz outros à marginalização. Desse modo, este progresso unilateral pode comportar também um gradual desaparecimento da sensibilidade pelo homem, por aquilo que é essencialmente humano. Neste sentido, sobretudo os nossos dias aguardam a manifestação daquele « gênio » da mulher que assegure a sensibilidade pelo homem em toda circunstância: pelo fato de ser homem! E porque a maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13). Portanto, uma leitura atenta do paradigma bíblico da « mulher » — desde o Livro do Gênesis até ao Apocalipse — confirma em que consistem a dignidade e a vocação da mulher e o que nelas é imutável e não se desatualiza, tendo o seu « fundamento último em Cristo, o mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade ». (61) Se o homem é por Deus confiado de modo especial à mulher, isto não significará talvez que Cristo espera dela a realização do « sacerdócio real » (1 Pdr 2, 9), que é a riqueza que ele deu aos homens? Esta mesma herança Cristo, sumo e único sacerdote da nova e eterna Aliança e Esposo da Igreja, não cessa de submeter ao Pai, mediante o Espírito Santo, para que Deus seja « tudo em todos » (1 Cor 15, 28). Então chegará ao cumprimento definitivo a verdade que « maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13).
1992: O sacramento do Matrimônio no Catecismo da Igreja Católica
Na edição redigida durante o pontificado de João Paulo II (1992) do Catecismo da Igreja Católica, fala-se da família e do sacramento do matrimônio. O Catecismo parte nas suas considerações relembrando as palavras de São Paulo que na Epístola aos Efésios diz: «Vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja... Este mistério é grande; digo-o em referimento a Cristo e à Igreja (Ef 5,25; Ef 5,32)».
Para o catecismo, «O pacto matrimonial, pelo qual um homem e uma mulher constituem entre si uma íntima comunidade de vida e de amor, foi fundado e dotado de suas leis próprias pelo Criador. Por sua natureza, é ordenado ao bem dos cônjuges, como também à geração e educação dos filhos. Entre os batizados, foi elevado, por Cristo Senhor, à dignidade de sacramento. O sacramento do Matrimônio significa a união de Cristo com a Igreja. Concede aos esposos a graça de amarem-se com o mesmo amor com que Cristo amou sua Igreja; a graça do sacramento leva à perfeição o amor humano dos esposos, consolida sua unidade indissolúvel e os santifica no caminho da vida eterna».
«O Matrimônio se baseia no consentimento dos contraentes, isto é, na vontade de doar-se mútua e definitivamente para viver uma aliança de amor fiel e fecundo. Como o Matrimônio estabelece os cônjuges num estado público de vida na Igreja, convém que sua celebração seja pública no quadro de uma celebração litúrgica diante do sacerdote (ou de testemunha qualificada da Igreja), das testemunhas e da assembléia dos fiéis. A unidade, a indissolubilidade e a abertura à fecundidade são essenciais ao Matrimônio. A poligamia é incompatível com a unidade do matrimônio; o divórcio separa o que Deus uniu; a recusa da fecundidade desvia a vida conjugal de seu "dom mais excelente": a prole».
«O novo casamento dos divorciados ainda em vida do legítimo cônjuge contraria o desígnio e a lei de Deus que Cristo nos ensinou. Eles não estão separados da Igreja, mas não têm acesso à comunhão eucarística. Levarão vida cristã principalmente educando seus filhos na fé. O lar cristão é o lugar em que os filhos recebem o primeiro anúncio da fé. Por isso, o lar é chamado, com toda razão, de "Igreja doméstica", comunidade de graça e de oração, escola das virtudes humanas e da caridade cristã».
1993/1994: O Ano Internacional da Família
Em 6 de junho de 1993 João Paulo II anuncia na praça São Pedro a celebração do Ano Internacional da Família (AIF) que tem início com a Festa da Sagrada Família do mesmo ano 1993 e termina com a mesma Festa de 1994. A iniciativa do Papa se dá em sintonia com o Ano internacional da Família decretado pela ONU. «A Igreja saúda cordialmente esta iniciativa e a esta se associa com todo o amor que tem por cada família humana» diz o Santo Padre em 6 de junho de 1993. «Gostaria antes de anunciar, justamente no curso deste encontro Internacional da família, uma convocação especial para o inteiro povo cristão. Da Festa da Sagrada Família deste ano, até a mesma Festa de 1994 celebraremos também no interior da Igreja católica o Ano internacional da família. O Pontifício Conselho para a Família, conjuntamente aos outros órgãos competentes, seguirá a iniciativa das Nações Unidas com espírito de diálogo e colaboração, preparando a coordenando as celebrações a as manifestações que serão promovidas no interior da Igreja católica. O Ano internacional da família oferecerá sem dúvida uma oportunidade providencial para aprofundar os valores constitutivos desta instituição natural. Estou certa que um conhecimento e uma valorização melhores ajudará a construir um mundo mais fraterno e solidário, reconhecendo a família como célula fundamental da sociedade. Convido portanto as conferências episcopais, os bispos, as comunidades diocesanas e paroquiais, os movimentos, os grupos e as associações, especialmente aquelas quotidianamente empenhadas nas pastorais familiares, a colher este singular momento de graça por um trabalho que se impulsione ainda mais em profundidade».


1993: Os principais objetivos do Ano Internacional da Família
Papa João Paulo II com a instituição de um Ano Internacional dedicado inteiramente à Família (AIF) pretende por ao centro da atenção da Igreja e de toda a sociedade civil a família, que como diz a Familiaris Consortio, «na sua profunda natureza é a proclamação, na Igreja, da Boa Nova sobre o amor conjugal». O Papa põe ao centro da evangelização da Igreja a família pedindo que a pastoral de toda a Igreja observe a essa e a essa seja endereçada. São tantos os documentos da Igreja que dizem respeito à família e em particular para todo o ano de 1994 João Paulo II pedirá a todos de ler e meditar principalmente a constituição pastoral Gaudium et spes, a exortação apostólica Familiaris Consortio, a Carta dos direitos da família da Santa Sé, e o Catecismo da Igreja Católica. Naquilo que diz respeito à defesa e a tutela da vida, João Paulo II insistirá muito sobre a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI.
O primeiro intento com que se abre o dia da Festa da sagrada Família 1993, a AIF é de oferecer uma contribuição para que se desenvolva e progrida sempre mais uma pastoral inteiramente dedicada à família e à defesa da vida. A família depois, fundada sobre o matrimônio segundo o projeto original de Deus, quer ser um modelo a ser observado por todos os homens. Na encíclica Centesimus annus recorda-se que é na família que «o homem recebe as primeiras e determinantes noções em torno à verdade e ao bem, aprende que coisa quer dizer amar e ser amado e, portanto, que coisa quer dizer em concreto ser uma pessoa». É justamente no AIF 2004 que João Paulo II quer com força por ao centro da sociedade civil o modelo de família cristã, como primeira e vital célula da sociedade e portanto garantia insubstituível para o bem da humanidade.
Um documento sobre o qual o Santo Padre insistirá muito a fim de levar adiante um diálogo constante e profícuo com toda a sociedade civil será a Carta dos direitos da família, da Santa Sé. Esta «é endereçada principalmente aos governos. Ao reafirmar, para o bem da sociedade, a comum consciência dos direitos essenciais da família, a Carta oferece a todos aqueles que dividem a responsabilidade pelo bem comum um modelo e um ponto de referência para a elaboração de uma legislação e de uma política da família, e uma guia para os programas de ação».
1994: A Mensagem para a Jornada Mundial da Paz
“Da família nasce a paz da família humana” é o tema da Mensagem de João Paulo II escrito para a celebração da XXVII Jornada Mundial da Paz, em 1 de janeiro de 1994, a poucos dias da abertura do Ano Internacional da Família. Escreve o Santo Padre: «Deus quis para a humanidade uma condição de harmonia e de paz, colocando o seu fundamento na própria natureza do ser humano, criado «à sua imagem». Esta imagem divina realiza-se não só no indivíduo, mas também naquela singular comunhão de pessoas que é formada por um homem e uma mulher, de tal modo unidos no amor que se tornam «uma só carne» (Gn 2, 24). Assim está escrito: «Criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). A esta comunidade específica de pessoas, confiou o Senhor a missão de dar a vida e dela cuidar formando uma família, e contribuindo assim de maneira decisiva para a tarefa de administrar a criação e prover ao futuro mesmo da humanidade».
A Mensagem fala da família como uma comunidade de vida e amor que «debruça-se sobre quantos se encontram em dificuldade: os que não têm família, as crianças privadas de assistência e afeto, as pessoas abandonadas e marginalizadas». Esta além disso, é freqüentemente vítima de ausência de paz quando «em contraste com a sua original vocação de paz, a família revela-se, infelizmente e tantas vezes, lugar de tensão e prepotência, ou então vítima inerme das numerosas formas de violência que caracterizam a sociedade atual». A família, conclui a Mensagem, é esta mesma protagonista da paz ao serviço desta.
1994: A Mensagem para a Jornada das Comunicações Sociais
Nas Mensagens para a Jornada Mundial das Comunicações Sociais, João Paulo II fala freqüentemente da família. Em particular, no curso da vigésima oitava Jornada Mundial das Comunicações Sociais, fala da Família em relação à Televisão. O tema é delicado porque, segundo o Santo Padre, a televisão não é simplesmente um objeto presente em casa, mas, muito mais, é um objeto que muda e mudou profundamente a vida mesma de cada família: « Nos últimos decênios, a televisão revolucionou as comunicações, influenciando profundamente a vida familiar. Hoje, a televisão é uma fonte primária de notícias, de informações e de distração para inumeráveis famílias, a ponto de modelar as suas atitudes e as suas opiniões, os seus valores e os protótipos de comportamento».
É necessário, segundo João Paulo II, que os pais estejam atentos àquilo que os filhos vêem na televisão, lhes ajudem a discernir quais programas é lícito ver e quais não. Até porque «formar os hábitos dos filhos pode, por vezes, querer simplesmente significar apagar o televisor, porque há coisas melhores a se fazer, ou porque a consideração para com os outros membros da família o exige, ou porque a assistência indiscriminada da televisão pode ser prejudicial. Os pais que usam habitualmente e por tempo prolongado a televisão como uma espécie de babá eletrônica, abdicam do seu papel de primeiros educadores dos próprios filhos. Esta dependência da televisão pode privar os membros da família da oportunidade de interagir mutuamente através da conversa, das atividades e da oração comuns. Os pais sábios são, além disso, conscientes de que também os bons programas devem ser completados por outras fontes de informação, entretenimento, educação e cultura».
« A Igreja — que é comunhão na verdade e no amor de Jesus Cristo, Palavra de Deus —, agradecida pela contribuição que a televisão, como meio de comunicação, tem dado e pode dar a esta comunhão no interior da família e entre as famílias, aproveita a oportunidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais para encorajar as mesmas famílias, os que trabalham nos meios de comunicação social e as autoridades públicas a realizar plenamente o nobre mandato de sustentar e reforçar a primeira e mais vital "célula" da sociedade, a família».
1994: A Carta às Famílias
Em 2 de fevereiro de 1994, no Ano Internacional da Família, João Paulo II escreve uma longa carta dirigida a todas famílias. A Carta permanece um ponto central no interior da atenção que João Paulo II quis dedicar às famílias e no curso dos anos sucessivo a sua promulgação foi por diversas pessoas recordada, retomada e meditada.
A intenção do Santo Padre é, como escreve ao fim da Carta, que «a Sagrada Família, ícone e modelo de cada família humana, ajude cada um a caminhar no espírito de Nazaré; ajude cada núcleo familiar a aprofundar a própria missão civil e eclesial, mediante a escuta da Palavra de Deus, a oração e a partilha fraterna de vida! Maria, Mãe do belo amor, e José, Guarda do Redentor, nos acompanhem a todos com a sua incessante proteção!».
João Paulo II na Carta sublinha que « a Igreja saúda com alegria a iniciativa promovida pela Organização das Nações Unidas, de fazer de 1994 o Ano Internacional da Família. Tal iniciativa põe em realce o quanto seja fundamental a questão familiar para os Estados que são membros da ONU. Se a Igreja deseja tomar parte nela, fá-lo porque ela mesma foi enviada por Cristo a «todas as nações» (Mt 28, 19). Não é a primeira vez, aliás, que a Igreja assume como própria uma iniciativa internacional da ONU».
O Papa escreve a Carta dirigindo-se em particular a cada família « a cada família concreta de cada região da terra, qualquer que seja a longitude e latitude geográfica, onde se encontre, ou a diversidade e complexidade da sua cultura e da sua história». Às famílias o Santo Padre relembra antes de tudo como seja justamente graças à oração que o Filho de Deus pode habitar em meio aos homens e convida cada família a rezar em conjunto. A Carta depois, se desdobra em dois longos capítulos intitulados “A Civilização do Amor” e “O Esposo convosco”. No primeiro capítulo João Paulo II relembra como uma civilização do amor seja possível somente se no centro desta é reconhecida a família: « Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história. A família está no centro de todos estes problemas e tarefas: relegá-la para um papel subalterno e secundário, excluindo-a da posição que lhe compete na sociedade, significa causar um grave dano ao autêntico crescimento do corpo social inteiro».
No segundo capítulo o Papa explica como «a verdade da família seja inscrita na Revelação de Deus e na história da salvação». Jesus vive no interior de cada família cristã e de dentro a sustenta, a ajuda, a guia e a educa: « o Esposo está convosco. Sabeis que Ele é o bom Pastor, e conheceis a sua voz. Sabeis para onde vos conduz, como luta para vos providenciar as pastagens onde encontrar a vida e encontrá-la em abundância; sabeis como enfrenta os lobos devoradores, sempre pronto a arrebatar-lhes das fauces as suas ovelhas: cada marido e cada esposa, cada filho e cada filha, cada membro das vossas famílias. Sabeis que Ele, como bom Pastor, está disposto a oferecer a própria vida pelo rebanho (cf. Jo 10, 11). Ele vos conduz por estradas que não são aquelas sinuosas e traiçoeiras de muitas ideologias contemporâneas; repete ao mundo de hoje a verdade integral, como quando se dirigia aos fariseus ou anunciava aos Apóstolos, que depois foi por estes pregada ao mundo, proclamando-a aos homens do tempo, hebreus e gregos. Os discípulos estavam bem cientes de que Cristo tudo tinha renovado; de que o homem se tornara «nova criatura»: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, mas «um só», n'Ele (cf. Gál 3, 28), agraciado com a dignidade de filho adotivo de Deus. No dia do Pentecostes, este homem recebeu o Espírito Consolador, o Espírito de verdade; e teve assim início o novo Povo de Deus, a Igreja, antecipação de um novo céu e de uma nova terra (cf. Ap 21, 1).
Os Apóstolos, anteriormente temerosos inclusivamente em relação ao matrimônio e à família, tornaram-se corajosos. Compreenderam que o matrimônio e a família constituem uma verdadeira vocação proveniente do próprio Deus, um apostolado: o apostolado dos leigos. Estão ao serviço da transformação da terra e da renovação do mundo, da criação e da humanidade inteira».
1994: A Mensagem para a Jornada Missionária Mundial
Para a Jornada Missionária Mundial de 1994, Ano internacional da Família, o Papa João Paulo II dedica a sua Mensagem a este tema, “consciente como sou do estreito relacionamento que se dá entre a missão da Igreja e a família”. Escreve o Papa: «Cristo mesmo escolheu a família humana como âmbito da sua encarnação e da preparação à missão confiada pelo Pai celeste. Ele, ale disso, fundou uma nova família, a Igreja, enquanto prolongamento da sua universal ação de salvação. Igreja e família, portanto, na perspectiva da missão de Cristo, manifestavam laços recíprocos e finalidades convergentes. Se cada cristão é co-responsável pela atividade missionária, constitutiva da Família eclesial à qual, por graça de Deus, todos pertencemos, com maior razão solicitada pelo anelo missionário deve sentir-se a família cristã, que apóia-se sobre um sacramento específico. O amor de Cristo que consagra o pacto conjugal é também fogo sempre ardente que aquece a evangelização. Cada membro da família, em sintonia com o Coração Redentor, é convidado a empenhar-se per todos os homens e mulheres do mundo, manifestando «a solicitude por aqueles que estão longe, como por aqueles que estão próximos»... É oportuno sublinhar como os dois santos Patronos das missões, ao lado de tantos operários do Evangelho, gozaram na sua juventude de um ambiente familiar realmente cristão... A família participa da vida e da missão eclesial segundo uma tríplice ação evangelizadora: em seu interior, na comunidade de pertencimento à Igreja universal. O sacramento do matrimônio, de fato, «constitui os cônjuges e os pais cristãos testemunhas de Cristo até os extremos da terra, verdadeiros e próprios missionários do amor e da vida».»...
«A expressão mais alta de generosidade é o dom integral de si. Por ocasião da Jornada Missionária não posso evitar dirigir-me em modo particular aos jovens. Caríssimos! O Senhor lhes deu um coração abertos a grandes horizontes: não temam comprometer a sua inteira vida no serviço de Cristo e de seu Evangelho! Escutem-no enquanto repete também hoje: «A messe é muita, mas os operários são poucos». Dirijo-me, além disso, a vocês pais. Jamais falte ao vosso coração a fé e a disponibilidade, quando o Senhor quiser abençoar-lhes chamando um filho ou uma filha a um serviço missionário. Saibam dar graças! Façam antes de modo que esta chamada seja preparada com a oração familiar, com uma educação rica de ímpeto e entusiasmo, com o exemplo quotidiano da atenção aos outros, com a participação à atividade paroquial e diocesana, com o empenho no associacionismo e no voluntariado. A família, que cultiva o espírito missionário no modo de delinear o estilo de vida e a mesma educação, prepara o bom terreno para a semente da divina chamada e reforça, ao mesmo tempo, os vínculos afetivos e as virtudes cristãs dos seus membros».
1994: Carta às crianças
Durante o Ano Internacional da Família, João Paulo II escreve uma carta às crianças. Também esta, como a carta à família, permanece uma obra chave na pedagogia educativa de João Paulo II para com a família inteira. João Paulo II em 13 de dezembro de 1994 dirige-se às crianças de todo o mundo para festejar juntamente com eles a festa de Natal. « O Natal é a festa de um Menino, de um Recém-nascido – escreve João Paulo II. É, portanto, a vossa festa! Aguardais a ela com impaciência, e para ela vos preparais com alegria, contando os dias e quase as horas que faltam para a Noite Santa de Belém. Parece que estou a ver-vos: andais a preparar o presépio, em casa, na paróquia, em cada canto do mundo, reconstruindo o clima e o ambiente em que nasceu o Salvador. É verdade! Durante o período natalício, a gruta com a manjedoura ocupa o lugar central na Igreja. E todos se apressam a ir em peregrinação espiritual até lá, como os pastores na noite do nascimento de Jesus. Mais tarde, será a vez dos Magos chegarem do Oriente distante, seguindo a estrela até ao lugar onde foi colocado o Redentor do universo».
«Queridas crianças – continua o Santo Padre na sua carta – escrevo-vos a pensar no tempo, já lá vão muitos anos em que também eu era menino como vós. Também eu vivia, então, a atmosfera feliz do Natal, e quando brilhava a estrela de Belém corria ao presépio, junto com os da minha idade, para reviver o que sucedeu há 2000 anos, na Palestina. Nós, crianças, manifestávamos a nossa alegria sobretudo com o canto. Como são belos e comoventes os cânticos natalícios, que, segundo a tradição de cada povo, se alternam à volta do presépio! Como são profundos os pensamentos neles contidos, e sobretudo quanta alegria e ternura neles se exprime ao Deus-Menino, que veio ao mundo na Noite Santa!».
A Carta se desenvolve em dois capítulos nos quais o Santo Padre explica às crianças que no Natal Jesus doa a verdade e doa si mesmo. Enfim, João Paulo II relembra o salmo “Laudate pueri Dominum” e escreve: «Permiti, queridos meninos e meninas, que, no final desta Carta, recorde as palavras de um Salmo que sempre me tocaram: Laudate pueri Dominum! Louvai, meninos, louvai o nome do Senhor! Bendito seja o nome do Senhor agora e para sempre! Desde o nascer ao pôr do sol, seja louvado o nome do Senhor (cfr. Sal 112/113,1- 3). Quando medito as palavras deste Salmo, passam diante dos meus olhos os rostos das crianças de todo o mundo: do Oriente ao Ocidente, do Norte ao Sul. É a vós, meus amiguinhos, sem distinção de língua, de raça ou nacionalidade, que digo: Louvai o nome do Senhor!».
1999: A Carta aos anciãos
Em 1º de outubro de 1999 é publicada a Carta que João Paulo II escreve ais anciãos de todo o mundo. «A soma da nossa vida é de setenta anos, os mais fortes chegam aos oitenta; mas a maior parte deles é fadiga e dor, passam depressa e nós desaparecemos » (Sal 90/89, 10) é a citação do Salmista com a qual o Santo Padre decidiu abrir a Carta. «Porém, é sempre verdade que os anos passam rapidamente; o dom da vida, apesar da fadiga e dor que a caracteriza, é belo e precioso demais para que dele nos cansemos».
João Paulo II escreve aos anciãos em um momento particular de sua existência, ou seja, quando a velhice inicia a fazer-se ouvir, e com esta os primeiros sinais da doença. « Sendo também eu ancião, senti o desejo de estabelecer um diálogo convosco. Faço-o, antes de mais, dando graças a Deus pelos abundantes dons e oportunidades que Ele me concedeu até hoje. Percorro novamente com a memória as etapas da minha existência, que se entrelaçam com a história de grande parte deste século, e vejo aparecer a figura de numerosas pessoas, algumas delas particularmente queridas: são lembranças de eventos ordinários e extraordinários, de momentos felizes e de fatos marcados pelo sofrimento. Acima de tudo, no entanto, vejo estender-se a mão providente e misericordiosa de Deus Pai, o qual « trata do melhor modo tudo o que existe »,(1) e « se algo Lhe pedimos, segundo a Sua vontade, Ele ouve-nos » (1 Jo 5, 14). A Ele, digo com o Salmista: « Desde a minha juventude, Vós me instruístes, Senhor, até ao presente anuncio as Vossas maravilhas. Agora na velhice e na decrepitude, não me abandoneis, ó Deus; para que narre às gerações a força do Vosso braço, o Vosso poder a todos os que hão-de vir » (Sal 71/70, 17-18).
Em poucas e simples palavras João Paulo II explica o motivo desta Carta sobre a sua vida. « Meu pensamento dirige-se com afeto a vós, caríssimos anciãos de qualquer língua e cultura. Escrevo-vos esta carta no ano que a Organização das Nações Unidas quis oportunamente dedicar aos anciãos, para chamar a atenção da sociedade inteira para a situação daquele que, pelo peso da idade, deve com freqüência enfrentar problemas numerosos e difíceis. Sobre este tema, o Pontifício Conselho para os Leigos já ofereceu preciosas linhas de reflexão. Com esta carta, desejo somente exprimir a minha proximidade espiritual com o intuito de quem, ano após ano, sente crescer dentro de si uma compreensão sempre mais profunda desta fase da vida e nota conseqüentemente a necessidade de um contacto mais direto com os seus coetâneos para refletir sobre coisas que são de comum experiência, tudo colocando sob o olhar de Deus que nos envolve com o seu amor, e com a sua providência nos sustenta e conduz».
2000: O Jubileu das famílias
Sábado 14 de outubro de 2000, na praça São Pedro, durante o Grande Jubileu do ano de 2000, João Paulo II encontra as famílias. João Paulo II logo expressou «a alegria» da recente peregrinação realizada por ele a Nazaré, «o lugar onde o verbo se fez carne». « Nessa visita – explicou o Santo Padre – levei todos vós no meu coração, rezando com ardor por vós à Sagrada Família, sublime modelo de todas as famílias. E é precisamente o clima espiritual da Casa de Nazaré que desejamos reviver nesta noite. O grande espaço que nos congrega, entre a Basílica e a colunata de Bernini, serve-nos de casa, uma grande casa ao ar livre. Aqui reunidos como uma verdadeira família, "um só coração e uma só alma" (cf. At 4, 32), podemos intuir e fazer nosso o sabor doce e íntimo daquela casa humilde, onde Maria e José viviam entre oração e trabalho, e Jesus "lhes era submisso" (Lc 2, 51), tomando gradualmente parte na vida comum».
João Paulo II falou depois especificamente das tarefas que cabem às família cristã: «Olhando para a Sagrada Família, casais cristãos, sois estimulados a interrogar-vos acerca das tarefas que Cristo vos confia, na vossa maravilhosa e comprometedora vocação. Por isso, o tema do vosso Jubileu Os filhos: primavera da família e da sociedade pode oferecer-vos sugestões significativas. Não são precisamente as crianças que fazem uma espécie de "exame" contínuo aos pais? Não o fazem apenas com os seus freqüentes "por quê?", mas com o seu próprio rosto, ora risonho, ora velado pela tristeza. Como que inscrito em todo o seu modo de ser há um interrogativo, que se exprime das maneiras mais diversas, por vezes mesmo através dos caprichos, e que poderíamos traduzir em perguntas como estas: mãe, pai, amais-me? Sou verdadeiramente um dom para vós? Aceitais-me como sou? Esforçais-vos por fazer sempre o meu bem genuíno? Talvez estas perguntas se façam mais com os olhos que com as palavras, mas elas obrigam os pais à sua grande responsabilidade e, de certa forma, são-lhes o eco da voz de Deus».
«Os filhos são "primavera": qual é o significado desta metáfora escolhida para o vosso Jubileu?
Ela leva-nos para aquele horizonte de vida, de cores, de luz e de cântico que é próprio da estação primaveril. Os filhos são tudo isto por natureza. Eles são a esperança que continua a florescer, um projeto que recomeça permanentemente, o porvir que se abre de forma incessante. Representam o florescimento do amor conjugal, que neles se encontra e se consolida. Ao nascerem, trazem uma mensagem de vida que, em última análise, remete para o próprio Autor da vida. Necessitados de tudo como eles são, de maneira especial nas primeiras fases da existência, constituem naturalmente um apelo à solidariedade. Não foi por acaso que Jesus convidou os discípulos a terem um coração de crianças (cf. Mc 10, 13-16). Diletas famílias, hoje quereis dar graças pelo dom dos filhos e, ao mesmo tempo, receber a mensagem que Deus vos transmite através da sua existência».
«Infelizmente, como bem sabemos, a situação das crianças no mundo nem sempre é aquela que deveria ser. Em muitas regiões, e paradoxalmente nos países de maior bem-estar, ter filhos tornou-se uma opção decidida com grande perplexidade, muito além da prudência que é justamente necessária para uma procriação responsável. Dir-se-ia que às vezes os filhos são sentidos mais como ameaça que como dádiva. Depois, o que dizer do outro triste cenário da infância ultrajada e explorada, para o qual chamei a atenção inclusivamente na Carta às Crianças? Porém, nesta noite encontrais-vos aqui para dar testemunho da vossa convicção, fundamentada na confiança em Deus, de que é possível inverter esta tendência. Estais aqui reunidos para uma "festa da esperança", fazendo vosso o "realismo" concreto desta virtude cristã fundamental».
«Com efeito, a situação das crianças constitui um desafio para a inteira sociedade, um desafio que interpela diretamente as famílias. Ninguém mais que vós, estimados pais, pode constatar quanto é essencial para os filhos poderem contar convosco, com ambas as vossas figuras paterna e materna na complementaridade dos vossos dons. Não, não é um passo em frente na civilização secundar tendências que obscurecem esta verdade elementar e pretendem afirmar-se também a nível legal».
«Não são porventura as crianças já demasiado penalizadas pelo flagelo do divórcio? Como é triste para uma criança ter de se resignar a dividir o seu amor entre pais em conflito! Muitos filhos ficarão psicologicamente marcados para sempre devido à provação a que a divisão dos pais os submeteram».
«Diante de inúmeras famílias desfeitas, a Igreja não se sente chamada a expressar um juízo severo e desinteressado, mas antes a fazer penetrar a luz da palavra de Deus em tantos dramas humanos, acompanhada do testemunho da sua misericórdia. Este é o espírito com que a pastoral familiar procura enfrentar também as situações dos fiéis que divorciaram e voltaram a casar-se. Eles não são excluídos da comunidade; pelo contrário, são convidados a participar na sua vida, percorrendo um caminho de crescimento no espírito das exigências evangélicas. Sem deixar de lhes revelar a verdade acerca da desordem moral objetiva em que se encontram e das conseqüências que daí derivam para a prática sacramental, a Igreja pretende demonstrar-lhes toda a sua proximidade maternal».
«Cônjuges cristãos, estai certos disto: o Sacramento do matrimônio garante-vos a graça necessária para perseverardes no amor recíproco, do qual os vossos filhos têm tanta necessidade quanto do pão».
«Hoje sois chamados a interrogar-vos sobre esta profunda comunhão entre vós, enquanto pedis a abundância da misericórdia divina».
«Ao mesmo tempo, não podeis evitar o interrogativo essencial sobre a vossa missão de educadores. Tendo dado a vida aos vossos filhos, estais comprometidos também em acompanhá-los nas orientações e opções de vida, da maneira apropriada à sua idade, garantindo-lhes todos os seus direitos».
«No nosso tempo, o reconhecimento dos direitos da criança conheceu um progresso indubitável, mas ainda é motivo de aflição a negação prática destes direitos, como se manifesta em numerosos e terríveis atentados contra a sua dignidade. É preciso vigiar, a fim de que o bem da criança seja colocado sempre em primeiro lugar. Desde o momento em que se deseja ter um filho. A tendência a recorrer a práticas moralmente inaceitáveis na geração trai a absurda mentalidade de um "direito ao filho", que tomou o lugar do justo reconhecimento de um "direito do filho" a nascer e depois a crescer de maneira plenamente humana. Como é diversa e meritória, ao contrário, a prática da adoção! Um verdadeiro exercício de caridade, que visa o bem dos filhos antes das exigências dos pais».
«Caríssimos, comprometamo-nos com todas as nossas forças, em defender o valor da família e o respeito da vida humana, desde o momento da concepção. Trata-se de valores que pertencem à "gramática" fundamental do diálogo e da convivência humana entre os povos. Formulo votos veementes por que tanto os governos e os parlamentos nacionais como as Organizações internacionais e, de modo particular, a Organização das Nações Unidas, não deixem que esta verdade se extravie. A todos os homens de boa vontade, que acreditam nestes valores, peço que unam eficazmente os próprios esforços, para que eles prevaleçam na prática da vida, nas orientações culturais e nos mass media, nas opções políticas e nas legislações dos povos».
«A vós, queridas mães, que tendes dentro de vós um instinto incoercível pela defesa da vida, dirijo um sentido apelo: sede sempre fonte de vida, nunca de morte!»
«A vós, pais e mães, digo: fostes chamados para a excelsa missão de colaborar com o Criador na transmissão da vida (cf. Carta às Famílias, 8); não tenhais medo da vida! Proclamai juntos o valor da família e da vida, pois sem estes valores, não há um futuro digno do homem!»
«O maravilhoso espetáculo das vossas tochas acesas nesta Praça vos acompanhe por muito tempo, como um sinal d'Aquele que é a Luz e vos chama a iluminar com o vosso testemunho o caminho da humanidade pelas vias do novo milênio!»
1994 - 2003: Os Encontros Mundiais das Famílias
Deram-se quatro Encontros Mundiais da Família presididos pelo Santo Padre João Paulo II. Instituídos no Ano Internacional da Família (1994), realizam-se a cada triênio e iniciam-se sempre com um Congresso Teológico Pastoral. Assim a cada três anos é oferecida esta singular oportunidade de refletir de modo aprofundado sobre um tema central da pastoral da família e da vida.
No primeiro Encontro (Roma, 1994) por ocasião do Ano Internacional da Família, o tema foi: “Família: coração da civilização do amor”. O segundo Encontro (Rio de Janeiro, 1997) teve por tema “A família: dom e empenho, esperança da humanidade”. Por ocasião do III Encontro Mundial, desenvolvido em Roma no âmbito do Grande Jubileu do ano de 2000, a reflexão concentrou-se sobre o tema “Os filhos, primavera da família e da sociedade”. O IV Encontro mundial, desenvolvido nas Filipinas (Manila, 2003) teve como tema “A Família cristã: uma boa nova para o terceiro milênio”. João Paulo II, não tendo podido participar pessoalmente, fez-se presente através de uma vídeo-transmissão. Este último Encontro das Famílias teve também um espírito ecumênico: o Patriarca da Igreja ortodoxa romena, Sua Beatitude Teoctist, enviou seu representante, e além disso esteve presente uma delegação russa da diocese de Ivanovo.

FAMÍLIA: NATUREZA E DIREITOS
Não obstante o modelo de família cristã fundada sobre o sacramento do Matrimônio seja hoje sempre mais atacado e julgado irrealizável e utópico, a Igreja continua a propô-lo convencida de que seja o único que possa realmente realizar a plena felicidade de um homem e de uma mulher.
A simples observação da realidade de todos os tempos e lugares e de cada homem, nos mostra como a família monogâmica fundada sobre o amor recíproco entre duas pessoas de sexo oposto, selado por um pacto, uma promessa de fidelidade, sempre existiu. Em outras palavras, os fatos antes de tudo nos mostram como a família fundada sobre o matrimônio seja uma realidade inata ao homem. É suficiente este dado de fato para bater qualquer argumentação que busca minar a família como nós a conhecemos.
Um desejo inato
É inscrito de fato na natureza mesma do ser humano, que ele tenha tanto desejo de amar. Isto é explicado pela constatação de que o homem por si só é insuficiente, no sentido que não se basta a si mesmo. Como de fato os animais não dotados de razão têm necessidades, o homem, ser racional, têm desejos, tende a alguma coisa de outro. Este tender é antes de tudo ditado pela condição física do homem que o leva a desejar aquilo que serve à sua subsistência, o alimento antes de tudo e tudo aquilo que satisfaz as suas necessidades de ser corporal. É isto de algum modo aquilo que associa o homem ao animal. Mas o ser humano tem o poder, através de razão, de sublimar as necessidades materiais a tal ponto de torná-las prazeres.
A maior das necessidades
A natureza da pessoa humana é indivisivelmente composta por um princípio material, o corpo, e por um princípio material, a alma. Mesmo a alma tem as suas necessidades. E assim como o corpo quando sacia, ainda que instantaneamente, as suas necessidades sente-se satisfeito, assim também a alma tem necessidade de ser satisfeita por algo que seja apropriado à sua natureza. Assim nasce no homem o sentimento inato de aprender e de conhecer. Mas assim como as necessidades do corpo precisam de algo de adaptado à natureza material do corpo mesmo para serem saciadas, assim a alma encontrará a sua satisfação, ou melhor, sentir-se-á saciada, somente por aquilo que lhe é símile. É fácil intuir então como esta necessidade espiritual inata da alma possa ser preenchida e satisfeita somente por aquilo que lhe é similar, ou seja, por uma outra pessoa, reconhecida como igual em dignidade e natureza. As necessidades da alma, que se tornam claramente necessidade do homem todo, uma vez que a alma é o princípio de toda a pessoa, podem ser preenchidos e satisfeitos plenamente somente por uma outra pessoa e não por coisas.
A necessidade de amar
Todas as necessidades tendem por natureza ao bem, ou àquilo que se retém como tal. Assim também a alma tende por si mesma ao bem através de uma particular inclinação chamada amor. Segundo a filosofia tomista o amor é, de fato, o nome que se dá a todas as inclinações em direção a qualquer tipo de bem. Ora, pode-se amar em dois modos diferentes, como diz S. Tomás: “O amor com o qual se ama um ser, querendo para este o bem, é um amor em senso pleno e absoluto. O amor, por outro lado, com o qual se ama uma coisa para extrair dela o bem em proveito de terceiros é um amor secundum quid” (S. Th, I-II, q. 26, a. 4). É esta uma verdade fundamental: o amor entre duas pessoas, e tanto mais o amor entre um homem e uma mulher sobre o qual se funda o matrimônio, não poderá jamais se resolver em um amor egoístico como aquele em que se ama uma coisa para satisfazer simplesmente as próprias necessidades como se faria com uma coisa. O amor a uma pessoa, para poder ser realmente tal, deverá sempre ser um amor entre sujeitos.
É claro que o homem, buscando o próprio bem, sentirá um sentimento de amor que poderá ser satisfeito somente por algo similar a ele, por uma outra pessoa como se disse acima. Mas uma pessoa, em quanto tal, não poderá jamais ser um objeto de satisfação do desejo de ser amado. Enquanto pessoa, sempre será e deverá ser somente um sujeito, em nome da dignidade que lhe é própria. Assim o homem busca o sumo bem para si mesmo através de um sentimento de amor a uma outra pessoa que definitivamente satisfaz e corresponde a este desejo inato. Uma volta um tanto longa talvez, para demonstrar filosoficamente uma coisa muito simples, mas não sempre óbvia. A felicidade do ser humano, isto é o seu bem, pode ser satisfeito definitivamente somente por uma outra pessoa à qual se nutre o amor.
Todo efeito, de fato, é proporcionado à sua causa. A felicidade humana poderá ser satisfeita somente por uma causa que lhe seja similar, isto é, uma outra pessoa. “Mas objeto próprio do amor é o bem: posto que o amor comporta uma conaturalidade ou complacência do amante com relação ao amado, e para cada ser é bem aquilo que lhe é conatural ou proporcionado” (S. Th, I-II, q. 27, a.1).
Para recapitular: o ser humano tem uma necessidade inata de preencher um vazio por assim dizer primordial, que transcende as suas necessidades, posto que deriva diretamente da tendência da alma ao bem. Esta tendência ao bem, com a qual se chega à felicidade, é chamada amor e pode ser satisfeito somente por um sujeito conatural ao ser humano, ou seja, por uma outra pessoa. O homem, portanto, entendido como homem e como mulher, encontrará a sua plena felicidade somente no encontro de amor com uma outra pessoa. Tudo isto é conatural à pessoa humana, fortemente enraizada na sua experiência e demonstrável simplesmente pela observação do comportamento de todos os homens em todas as épocas e em todas as culturas.
Dois gêneros
O ser humano é indivisivelmente formado por alma e corpo. O corpo do homem se explicita desde o nascimento em dois gêneros diferentes, o masculino e o feminino. Mesmo se o gênero, como se verá em seguida, não é exclusivamente o sexo corpóreo, todavia deriva deste. O gênero masculino e feminino então informa toda a vida pessoal, explicitando-a em dois diferentes modos de ser iguais entre si na dignidade e nos direitos, e complementares na atuação das faculdades humanas. Por complementares entende-se que aquilo que um explicita não o explicita o outro e vice-versa.
Por que o homem busca naturalmente uma mulher e uma mulher um homem? Simplesmente porque os dois gêneros vêem no outro um sujeito similar a si em dignidade e, portanto, capaz de preencher o próprio desejo de bem e de amor; mas ao mesmo tempo a complementaridade faz com que se busque no outro aquilo que não se tem, para preencher o próprio vazio originário, com um sujeito amado complementar a si.
Um amor exclusivo
Por que um amor entre um homem e uma mulher é exclusivo? Foi dito como tal amor não é um amor entre um sujeito e objeto, mas justamente entre dois sujeitos, nenhum dos quais podendo ser visto como mera satisfação das próprias necessidades. Mas há algo a mais a dizer. O amor entre um homem e uma mulher é um amor de união no qual um busca o outro e no outro busca alguma coisa, ou seria melhor dizer alguém, insubstituível e único com o qual fundar e construir o próprio ser. O amor realmente conjugal, como o chamaremos mais adiante, não é, portanto, um amor ocasional, mas sim um amor que tem uma tendência natural à exclusividade e à continuidade. Não é, desta forma, um amor passageiro, no qual em um dos dois componentes o amor possa ser trocável, substituível, pelo simples fato que cada um, embora mantendo a própria individualidade, sem a qual não seria possível o amor pessoal, se identifica e se transforma no outro. São Tomás assim o descreve: “O amante é transformado no amado e em um certo modo converte-se nesse. E pelo fato de que o amor transforma o amante no amado, ele faz com que o amante penetre a intimidade do amado, e vice-versa, de modo que nada daquilo que pertence ao amado permanece separado do amante” (III Sent. d. 27, q. 1, a. 1,4).
Aquilo que acabamos de descrever é a essência do matrimônio, ou seja, a essência da união entre duas pessoas de sexo oposto sobre o qual se funda a família. É uma descrição que parte substancialmente da observação dos fatos, da natureza das coisas, ajudada e aprofundada graças à lente da filosofia personalista. É portanto uma reflexão compartilhável e acessível com exclusivamente com os meios da razão especulativa, comum a todos os homens, prescindindo de suas crenças religiosas. Sobre esta visão do amor conjugal inscreve-se também o Magistério da Igreja sobre a Família e sobre a ética familiar.
Um modelo obsoleto?
Se este é um modelo, um paradigma daquilo que é o amor sobre o qual se baseia a família, é igualmente verdadeiro que hoje são propostos outros paradigmas culturais que por sua vez se baseiam sobre diferentes visões e definições do ser humano. Acontece com freqüência que a visão da família até aqui proposta seja vista como algo de obsoleto e antiquado, que em quanto tal não corresponde mais à realidade das coisas do mundo de hoje. Tudo evolui, diz-se, e a família também evoluiu, não podendo mais ser a mesma coisa do passado. Novas exigências de vida, novas condições sócio-econômicas, fazem com que o velho paradigma do amor conjugal hoje esteja e deva estar em crise, a favor de novo modelos de família que gozariam de dignidade igual, se não maior. Quem quisesse ainda obstinadamente crer na antiga e obsoleta instituição da família compreendida como união entre homem e mulher, diz-se, está fora dos tempos.
Mas a natureza da pessoa, sempre a mesma e idêntica a si mesma, continua a persistir igual no tempo. Se, portanto, é natural que hajam mudanças em determinadas realidades que dizem respeito à pessoa, deve também ser verdadeiro que determinadas realidades, as mais profundas, sejam e permaneçam sempre as mesmas, pois sempre o mesmo é o homem sobre o qual se fundam.
Se portanto é normal que a instituição familiar deva em qualquer modo seguir a evolução do mundo, é igualmente verdadeiro que a essência, o núcleo da família permanece sempre o mesmo, como o homem que evolui nas suas expressões, as quais, porém, derivam da mesma natureza pessoal que constitui a pessoa.
Com muita freqüência novas ideologias, novas reivindicações, novas propostas que atingem a família fundam-se sobre o uso ambíguo de determinados termos e de algum conceitos. Mesmo se por vezes é inegável que haja somente um grão de má fé, é errada interpretação de alguns termos e conceitos a causa de uma certa confusão.


Como orientar-se
Uma instrumento útil para tentar ao menos orientar-se nesta intrincada vereda de caminho palavras ricas de significado é o Lexicon editado pelo Pontifício Conselho da Família. Compilado em forma de vocabulário, o Lexicon reúne em ordem alfabética uma série de termos ambíguos e discutíveis, sobre a família, vida e questões éticas, como justamente indica o subtítulo da obra. Para o argumento que estamos ilustrando, a família, há alguns vocábulos dos quais buscaremos fazer uma síntese. Sem nenhuma pretensão de exaustividade, tentaremos usar o material do Lexicon buscando seguir em frente na justificação antropológica da família entendida como união entre homem e mulher fundada sobre o matrimônio.
Dois gêneros e somente dois
A primeira coisa, e provavelmente a mais basilar, é justificar que no mundo o ser humano se encarna somente em dois gêneros, masculino e feminino, de modo que se pode afirmar com uma certa segurança que podem existir seres humanos fêmeas e outros seres humanos machos, entre eles idênticos em dignidade e direitos, mas complementares. Tudo isto poderia parecer supérfluo, e no entanto não o é. Se de fato na experiência prática encontram-se somente homens e mulheres, para alguns esta distinção entre gênero masculino e feminino seria totalmente falsa. Os gêneros, ao contrário de dois seriam quatro, cinco, se não seis: heterossexual masculino, heterossexual feminino, homossexual, lésbica, bissexual e diferenciado.
É claro, porém, que fazendo assim, ou seja, não individuando somente dois gêneros sexuais, a instituição familiar perde todo fundamento. Reafirmar, portanto, que o ser humano se encarna e goza de dois gêneros sexuais será então fundamental para poder justificar a existência da família.
No curso da segunda metade do século passado uma certa corrente de pensamento feminista quis destacar o gênero do sexo. Para alguns o sexo seria individuado nos atributos físicos com o qual se vem ao mundo, ao passo que o gênero, totalmente desligado do sexo, seria a identidade sexual do indivíduo como produto das pressões sociais. Estas construções sociais, essencialmente impostas, teriam produzido uma desigualdade entre homem e mulher para prejuízo desta última. Se, portanto, desejamos realmente afirmar a igualdade de todos os indivíduos da espécie humana, seria preciso que nos libertássemos das construções sociais de gênero, que conferem ao homem e à mulher papeis e tarefas predeterminados e, enquanto tais, impostos.
Livres de todo vínculo
Tais reivindicações inscrevem-se também na luta de classes que pregava a liberação de qualquer vínculo e superestrutura de modo que a humanidade, livre de condicionamentos arcaicos, pudesse finalmente viver uma nova era. Uma das primeiras “superestruturas” a serem eliminadas é a família: “O primeiro antagonismo de classe coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher unidos no matrimônio monogâmico, e a primeira opressão de uma classe sobre a outra com o sexo feminino submetido ao masculino”. Estas frases são de Frederick Engels em sua Origem da família da propriedade e do estado, obra considerada uma pedra de base para um certo feminismo desestruturalista de cunho marxista.
À sessão do Lexicon “Ideologia de gênero: perigos e alcance”, recorda-se quais sejam os objetivos desta ideologia. Desmontar a sociedade partindo da família de modo que a igualdade dos seres humanos, e sobretudo daquela que se considera mais oprimida, a mulher, passe antes de tudo através da libertação do gênero imposto pela sociedade. Assim a família monogâmica do homem e da mulher será uma arcaica instituição a ser superada, a educação das crianças deverá prescindir de qualquer “imposição” de gênero, as religiões, enfim, deverão ser abandonadas posto que fonte de fundamentalismos perigosos.
A mulher, portanto, subjugada por séculos de abusos e opressão, deverá antes de tudo liberar-se do papel de esposa e de mãe que lhe impôs a família. De outra parte, se o sexo deve ser realmente desligado do gênero, quem disse que a mulher e não o homem deve fazer o papel de mãe? Sobre que coisa se poderiam fundar os papeis familiares vistos aqui como opressivos e discriminantes? Objetivo final de quem impugna e propõe uma nova definição de gênero é a desconstrução da sociedade tal como hoje a conhecemos, na tentativa de destruir o patriarcado, os papeis sociais, a religião, a tradição, a educação política, e assim por diante. Portanto o programa principal das feministas é a “desconstrução do gênero a fim de obter uma sociedade sem gêneros”, como se lê em uma outra sessão do Lexicon, o de título “Novas definições de gênero”.
Esta tendência, que deriva do uso impróprio, como veremos em seguida, da palavra gênero, está presente também em muitos e importantes documentos de organizações internacionais. Assim, por exemplo, a IV Conferência mundial das Nações Unidas sobre a mulher, realizada em Pequim em setembro de 1995, definiu o gênero como “a relação entre homem e mulher baseada sobre papeis definidos socialmente que se designam a um e ao outro sexo” (Lexicon, p. 457).
Com uma tal concepção do termo gênero, nos documentos da Conferência de Pequim, bem como do Cairo, aspirava-se a uma total liberação da mulher do gênero feminino, de modo que esta pudesse ser finalmente livre para decidir sobre sua própria vida, sobre seu próprio corpo e sobre o uso a lhe dar.
Novos direitos
A partir destas reivindicações baseadas sobre uma nova visão do ser humano, nascem também para muitos novos direitos, como os assim chamados direitos reprodutivos. Muitas sessões do Lexicon são dedicadas a estes novos direitos, com base nos quais se invocaria a total liberdade de usar o próprio corpo e a própria sexualidade em modo totalmente desvinculado do sexo biológico de nascimento. Toda mulher deveria ser assim livre para decidir se, como e quando por no mundo um filho, se em companhia de um homem, de uma mulher, de ambos, ou ainda a partir da simples doação de esperma de um desconhecido. O menino assim obtido não necessitaria mais de duas figuras, uma masculina e uma feminina para a própria educação e o próprio crescimento; menos ainda deveria ser influenciado em qualquer tipo de escolha com relação às suas inclinações sexuais. Estes novos direitos, entre os quais justamente o reprodutivo e sexual, dever-se-iam inscrever sem reservas entre os direitos fundamentais da pessoa, entre os sancionados pelas Nações Unidas na Declaração universal dos direitos do homem, juntamente aos da saúde, da vida, da educação e da cidadania. Conseqüentemente, quem quer que fosse, seja de que modo fosse, se opusesse ao não reconhecimento destes novos direitos, deveria ser considerado retrógrado, fundamentalista religioso e opressor.
Um convite à reflexão
Além de expor e denunciar estas novas ideologias que põem em risco a sobrevivência da instituição familiar, o Lexicon propõe também reflexões interessantes para tentar entender até o fundo o peso e o verdadeiro sentido das palavras, de modo a que se possa usá-las corretamente. Uma entre as mais interessantes e inovadoras e dada sob o título “Novas definições de gênero”. Como declara o autor mesmo tenta-se aprofundar antropologicamente e filosoficamente o gênero humano, tratando-se “mais de um convite à reflexão que de uma declaração de verdade absoluta!” (Lexicon p. 607).
O autor leva em consideração a pessoa humana com os meios da filosofia aristotélico-tomista e com estes traça um paralelismo entre matéria e forma, corpo e alma, sexo e gênero. O ser humano é composto indivisivelmente de alma e corpo, que juntos formam a pessoa. Como o homem, todas as substâncias que conhecemos são compostas de matéria e forma: na pessoa humana a forma é o princípio espiritual, o corpo é, ao contrário a matéria. Ambos têm igual dignidade e são essenciais e inseparáveis para a substância do ser humano. Formam uma unidade real e não podem ser divididas, sob pena da dissolução da substância do ser humano. Se a distinguem, isto se faz somente por via conceitual, para compreender melhor a natureza da substância de que se fala, que neste caso é a substância do homem.
O autor faz um interessante paralelismo: como o corpo está para a alma, assim o sexo está para o gênero. É uma proposta de reflexão, nada mais, mas abre cenários interessantes. A reflexão parte da cisão que para alguns deveria existir entre o sexo e o gênero, pelo o qual o segundo estaria totalmente desligado do primeiro. Vistos, ao contrário, como um unicum incindível, o sexo tornar-se-ia o substrato necessário sobre o qual o gênero se explicita. Assim não poderá existir a possibilidade de que uma pessoa de sexo feminino, por exemplo, possa ter um gênero masculino ou por assim dizer neutro. Se o sexo, isto é a fisicidade biológica do corpo, será igual para todos aqueles que o gozam, o gênero será uma explicitação na vida concreta de uma unicidade pessoal: todo homem e toda mulher explicitarão o próprio gênero masculino e feminino em maneira única, pertencendo, no entanto ao mesmo sexo masculino e feminino. De outro lado mancomunando o sexo à matéria e o gênero à forma, segundo a teoria hilemórfica pela qual cada corpo pertence tão somente a uma alma, não será possível que um gênero masculino ou feminino possa tomar vida sem um sexo específico.
O autor usa, enfim, também a teoria do movimento aristotélico para definir com clareza a estreita relação que existe e deve necessariamente existir entre gênero e sexo. Mesmo para o ser humano sexuado de fato, podem-se identificar quatro causas que influenciam o ser humano da pessoa. Como causa material é individuado o corpo com a sua individualidade sexual de macho ou fêmea; como causa formal, ao contrário, individua-se o gênero, que por sua vez se explicita em infinitos modos de acordo com a causa eficiente que está individuada nos condicionamentos externos e nos movimentos interiores de cada um. A causa final por sua vez será a escolha fundante e fundamental com a qual cada um decide orientar a própria vida. Lendo o gênero com as quatro causas aristotélicas, parece evidente que este não possa ser desligado totalmente do sexo biológico, mesmo se não é totalmente condicionado. Lê-se de fato: “A matéria de um particular ser é o seu mesmo potencial e a formação é a gradual relação da própria perfeição. [...] No contexto de gênero o sexo corpóreo sugere a direção da realização através de um determinado gênero oposto: um conjunto feito de um corpo feminino e de um corpo masculino não parece ser capaz e realizar o potencial de uma pessoa humana. [...] O gênero é por isso maleável, sujeito a influências internas e externas à pessoa humana, mas deve obedecer à ordem já predisposta pelo corpo” (Lexicon p. 609).
Salvar a unidade
Parece claro diante destas reflexões que as reivindicações clamadas pelo feminismo de gênero e por aqueles que querem o gênero desligado totalmente do sexo, não possam gozar de uma real e exaustiva visão do ser humano. Além das conseqüências, por vezes preocupantes, que tais teorias possam aportar à sociedade e à família, lançam a pessoa humana em um ulterior e perigoso dualismo. A filosofia, ao contrário, e uma séria leitura da pessoa humana, têm a tarefa de conjugar a visão da realidade com uma leitura do humano mais orgânica possível. Os dualismos, na história, causaram sempre danos, enquanto tomaram sempre em consideração a realidade da pessoa humana sob um único ponto de vista. A pessoa, ao contrário, é uma unidade orgânica, não despedaçável em diversas partes, complicada de se estudar e analisar justamente por sua incindível unidade e organicidade das suas várias partes. Além disso, é igualmente claro que certas reivindicações surgiram de justas leituras da realidade: é justo restituir dignidade à mulher onde esta a perdeu, é um dever libertar o homem de constrições que o afligem, é um dever designar a cada um, homem e mulher, deveres e dignidades iguais, mas complementares. Tudo isto sem, porém, trair a natureza mesma da pessoa. Escrevia João Paulo II na “Carta às mulheres” no parágrafo 11: “é possível acolher, sem conseqüências desvantajosas para a mulher, também uma certa diversidade nos papeis, na medida em que tal diversidade não é fruto de arbitrária imposição, mas surge da peculiariedade do ser masculino e feminino”.
Direitos e “direitos”
Da reivindicação de novos direitos, entre os quais aqueles reprodutivos e sexuais. Alguns destes foram elencados na Declaração dos direitos sexuais e reprodutivos da Federação Internacional de Planificação Familiar (IPPF). Para que cada um possa fazer um juízo, bastará cotejar, como em uma visão sinóptica, alguns destes direitos, com aqueles sancionados e universalmente reconhecidos pela Declaração universal dos direitos humanos promulgada pela ONU em 1948.

Declaração universal dos direitos humanos Direitos sexuais e reprodutivos
Os homens e as mulheres, a partir da idade núbil, têm o direito, sem quaisquer restrições por razões de raça, nacionalidade ou religião, de casar-se e criar uma família. O exercício da independência sexual, bem como o direito a gozar segundo as próprias preferências, e o direito a que isso seja tutelado por lei.

Somente através do livre e pleno consentimento dos futuros esposos, o matrimônio poderá ser contraído. Sexualidade por prazer e recreação, independente da reprodução.
A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem o direito de ser protegida pela sociedade e pelo estado. Igual participação das mulheres e dos homens nos cuidados das crianças através de uma construção criativa além dos tradicionais papeis de gênero.

Por questão de correção é preciso dizer que se realizou uma seleção de direitos reprodutivos aqui elencados, entre aqueles que mais se atritam contra os da Declaração. De todo modo, é preciso também dizer que não existe uma lista rígida e universalmente reconhecida daquilo que se desejaria elevar à condição de direitos naquilo que diz respeito ao sexo e a reprodução humana. Faltando portanto um consenso reconhecido, a lista dos direitos reprodutivos e sexuais é potencialmente aberta a qualquer reivindicação que, com base a determinadas e específicas ideologias, queira elevar à condição de direitos universais, aquelas que possam ser somente reivindicações de uma parte minoritária.
Mas então qual pode ser a fonte segura da qual possam surgir novos direitos humanos, que possam realmente fazer jus a tal título? Uma resposta pode ser encontrada no título “Novos direitos humanos” do Lexicon: “São três as coisas que devem ser contempladas pelos direitos humanos: a dignidade pessoal, a fundação sobre a lei natural do homem, a condição comunitária do homem” (p. 631). Em outras palavras – seguindo a filosofia tomista – para individuar aquilo que é direito do homem e aquilo que, ao contrário, não o é, “basta seguir a estrada da observação da inclinação profunda da natureza humana, tais como a conservação do ser, a tendência à propagação, a fome e a sede de transcendência que pertencem a todos os seres humanos” (Lexicon p. 629).
Em suma, não toda reivindicação é um direito do homem, não toda exigência, ainda que a primeira vista legítima, pode ser considerada direito universal da pessoa humana, enquanto somente aquilo que emerge da natureza da pessoa pode e deve ser reconhecido como um direito a ser garantido e preservado.
Se o ser humano tem direitos, essencialmente sancionados pela ONU em 1948, também toda realidade propriamente humana pode evocar a si direitos inalienáveis, justamente pelo fato de que tais realidades existem, e têm uma dignidade diretamente proporcional à natureza da qual derivam, ou seja, da natureza humana. A família, realidade e instituição que, como se viu, tem suas raízes profundamente radicadas na natureza do ser humano, tem também esta direitos que podem ser individuados pela observação racional da sua natureza.
A Carta dos direitos da família
O Pontifício Conselho da Família, no qüinquagésimo aniversário da Declaração Universal dos direitos humanos, destilou um elenco de direitos da família para “apresentar a todos os nossos contemporâneos, sejam estes cristãos ou não, uma formulação – a mais completa e ordenada possível – dos direitos fundamentais inerentes àquela sociedade natural e universal que é a família” como se lê no preâmbulo da Carta.
Tais direitos são expressos na consciência do ser humano e nos valores comuns a toda a humanidade. Não são portanto formulações dogmáticas nem tanto menos artigos de fé, mas foram individuados e são propostos como pertencentes a cada família humana pela simples convicção que cada ser humano, além do seu credo religioso, goza das mesmas dignidades da comum natureza humana.
Começa-se antes de tudo com a afirmação no preâmbulo de que se o ser humano goza de determinados direitos, então os goza também a família, uma vez que “os direitos da pessoa, mesmo se expressos como direitos do indivíduo, têm uma fundamental dimensão social”. Lê-se, além disso, a fundamental distinção entre Estado e família: “A família, sociedade natural, existe anteriormente ao estado e a qualquer outra comunidade e possui direitos próprios, que são inalienáveis”.
O artigo 1º sanciona o direito inalienável de cada pessoa de contrair matrimônio em liberdade e sem constrição, ou ainda a permanecer nubente ou celibatária; é um direito poder contrair matrimônio e “restrições legais ao exercício deste direito [...] podem ser introduzidas somente quando são requeridas por graves e objetivas exigências do mesmo instituto matrimonial”.
A família, célula da sociedade, deve ser sustentada juridicamente pela autoridade, mas ao mesmo tempo “a situação dos casais não unidos em matrimônio não deve ser posta sobre o mesmo plano do matrimônio devidamente contraído”.
Sendo a família uma instituição baseada sobre o matrimônio, se ressalta que este “não pode ser contraído senão mediante o livre e pleno consenso dos esposos devidamente expresso”. Em tal modo os esposos “na natural complementariedade que existe entre homem e mulher, gozam da mesma dignidade e dos mesmos direitos com relação ao matrimônio”.
Os esposos, segundo a Carta, têm direito a decidir a respeito do intervalo entre o nascimento e o número de filhos que aceitam procriar, “em uma justa hierarquia de valores e em conformidade à ordem moral objetiva”. Se é um direito dos esposos poder ter filhos “a atividade das autoridades públicas e das organizações privadas, que tentam de qualquer modo limitar a liberdade dos casais a decidir a respeito de seus filhos, constitui uma grave ofensa à dignidade humana e contra a justiça”.
Um inteiro artigo, o 4, é dedicado totalmente ao respeito devido à vida nascente, desde o momento da concepção. Declara-se, de fato, que o “aborto é uma violação do direito fundamental à vida do ser humano”, exclui-se toda possibilidade de manipulação genética (justamente pela dignidade inerente à pessoa), e do mesmo modo declaram-se ilegítimos todos as intervenções que manipulem o patrimônio genético da pessoa humana, excluídos claramente aqueles que visam corrigir eventuais anomalias genéticas.
Os pais, diz-se no artigo seguinte, têm o “originário, primário e inalienável direito” de educar os filhos. Esta liberdade exprime-se no direito a educar a prole segundo as próprias convicções morais e religiosas, tendo como único limite o bem e a dignidade da criança; os pais têm direito a “escolher livremente escolas ou outros meios necessários para educar os seus filhos em conformidade com as suas convicções”. Se isto é reconhecido como um direito da pessoa e portanto da família, “as autoridades públicas devem fazer com que subsídios públicos sejam dispostos de modo que os pais sejam realmente livres para exercitar este direito, sem que isto acarrete uma onerosidade injusta”.
Alguns direitos inalienáveis do ser humano devem ser aplicados também à família, como a liberdade religiosa, aquela de professar e difundir publicamente a própria fé; o direito a exercitar a sua função social e política na construção da sociedade; o direito a condições econômicas aptas a garantir uma vida digna. O trabalho, direito do homem, deve reentrar na família na medida em que “permita aos membros uma vida em conjunto e não seja obstáculo à unidade, o bem estar a saúde e a estabilidade da família”, assim como “o trabalho doméstico da mãe deve ser reconhecido e respeitado pelo seu valor perante a família e a sociedade”.
Toda boa lei positiva de qualquer estado tem a sua tarefa de preservar o bem da pessoa e da sociedade. Tal bem, o bem integral da pessoa, será de acordo com a natureza objetiva da pessoa e com os direitos que desta emergem. Bastará portanto ter aqui elencado quais possam ser os direitos da família para poder julgar quais sejam as leis boas, quais sejam aquelas que apontam para o bem da sociedade, preservando sua célula primária, justamente a família. Mas para fazer isto é preciso antes de tudo ter a coragem de chamar as coisas com o seu nome e não, por exemplo, chamar família àquilo que família não é; usar com lentes interpretativas erradas termos importantes para definir o ser humano; correr atrás de momentâneas reivindicações para esquecer a realidade imutável da instituição familiar.

A FAMÍLIA NO MUNDO
NÚMEROS E DADOS
Do ponto de vista sociológico e antropológico a família tem o fim de assegurar o futuro à sociedade através da geração dos filhos e através da transmissão de ensinamentos e estilos de vida que formam o núcleo sócio-cultural de pertença a um grupo mais ou menos amplo de pessoas. Desde os primórdios da história do homem são identificáveis os primeiros traços dos núcleos familiares. Antes, juntamente com o culto os mortos, os testemunhos de vida familiar são os primeiros traços que podem contradistinguir uma sociedade humana daquilo que, ao contrário, não a é. Do ponto de vista antropológico, de fato, as raízes das instituições familiares podem ser identificadas na necessidade de criação da prole e de mútua assistência entre os dois componentes do casal. Na pré-história, como também em algumas culturas primitivas, os vários núcleos familiares viviam juntos dividindo espaços de habitação, recursos alimentares e cuidado da prole; em outras civilizações, ao contrário, existiram e existem ainda hoje, outras formas de coexistência de pessoas de sexo diverso com o fim de cuidar da prole, que em algum modo podem ser considerados modelos alternativos à família, por assim dizer, tradicional.
Antropologicamente falando pois a família pode ser definida “Conjugal”: composta pelos pais e pelos seus filhos. A família conjugal pode ser portanto: (1) Monógama (com somente dois pais); (2) Poligínica (quando existem diversas mais e um só pai); (3) Poliândrica (quando há diversos pais e uma só mãe); (4) Poligimnândrica (quando existem diversos pais e mães convivendo em conjunto).
Além da família conjugal, com as suas formas conhecidas, pode existir a família co-sanguínea, ou a assim chamada família alargada, composta pelos pais, pelos filhos e por outros membros co-sanguíneos aos pais como avós e tios.
Hodiernamente, no mundo pós moderno, formam-se sempre mais freqüentemente famílias assim chamadas monogenitoriais, compostas por um único pai que sozinho cria a prole.
Se, portanto, no mundo existiram e existem várias formas de convivência que de algum modo podem ser definidas família, aquela conjugal é de longe a mais praticada e a mais numerosa. Muitas pesquisas, além da simples observação da realidade, demonstram que esta, sobretudo naquilo que diz respeito ao crescimento dos filhos, seja aquela que garante maior segurança e estabilidade.
A família monogâmica está presente em todas as partes do mundo sempre idêntica a si mesma, com as mesmas estruturas essenciais. Mas estando presente em zonas geográficas e geopolíticas distantes e com dinâmicas sócio-culturais diferentes, a família enfrenta determinados problemas de acordo com a zona geográfica em que vive.
As Nações Unidas, ainda que por vezes levem adiante reivindicações familiares baseadas em ideologias não sempre aceitáveis, têm há tempos fotografado a situação da família em todas as partes do mundo, apresentando relações e dossiês que cuidadosamente apresentam os desafios e as dificuldades da família nos cinco continentes. Aos estudos das Nações Unidas nos referiremos naquilo que diz respeito aos números, cifras e problemas gerais.
A primeira consideração a se fazer é que no último século a instituição da família sofreu muitas mudanças, mesmo profundas, em sua própria estrutura, tanto que para alguns a família mesma, tal como foi sempre concebida encontra-se em crise. Uma crise – sempre para alguns – segundo a qual, sendo a família um produto de uma sociedade em contínua evolução, não é possível falar-se de família tradicional, mas seria preciso reconhecer o natural desdobramento da família em direção a novas formas que eram consideradas há um tempo impensáveis.
Se, de fato, em escala global não se verifica uma diminuição significativa da união matrimonial, da qual estatisticamente nasce uma família, ao que parece estas uniões são sempre mais frágeis e menos duráveis. A comprová-lo estão os divórcios em vários estados do mundo, que tomamos como situações-tipo, e que relatamos a seguir.
Matrimônios e divórcios
Cuba é o país com a mais alta taxa de divórcio:
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimônios 64900 57252 57001 54345 56876
Divórcios 39798 40068 37937 37260 35590





Um dos maiores estados da África do norte, o Egito.
1998 1999
Matrimônios 503551 525412
Divórcios 71792 73414

Os dados para as zonas urbanas e rurais.
MATRIMÔNIOS 1998 1999
Zonas Urbanas 183.975 191.224
Zonas Rurais 319575 334188

DIVÓRCIOS 1998 1999
Zonas Urbanas 38872 39829
Zonas Rurais 32920 33585

No Egito e faixa de idade com a qual se casa é mais alta em relação aos países fronteiriços: dos 20 aos 34 anos.
Não se registra uma forte diferença de idade do esposo e da esposa.

Uruguai
1988 1999 2000 2001 2002
Matrimônios 16176 15488 13888 13988 14073
Divórcios 6598 7002 6822 7409 6761

Brasil
1999 2000 2001
Matrimônios 788 744 732 721 710 121
Divórcios 121 333 121 417 122 791

Japão
1998 1998 2000 2001 2002
Matrimôn. 784 595 762 028 798 138 799 999 757 331
Divórcios 243 183 250 529 264 246 285 911 289 836

Irã
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 531 490 611 073 646 498 640 710 650 960
Divórcios 42 391 51 044 53 797 60 559 67 256

Israel
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 40 137 40 236 38 894 38 924 39 718
Divórcios 9 886 10 683 10 723 11 164 10 939

Turquia
1998 1999 2000 2001
Matrimôn. 485 035 475 513 461 417 453 213
Divórcios 32 167 31 540 34 862

Canadá
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 152 821 155 742 157 395 146 618 147 634
Divórcios 69 088 70 910 71 144

França
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 271 361 286 191 297 922 288 255 280 600
Divórcios 116 515 116 813 114 005 126 631

Áustria
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 39 143 39 485 39 228 34 213 36 570
Divórcios 17 884 18 521 19 552 20 582 19 639

Bélgica
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 44 393 44 171 45 123 42 110 40 434
Divórcios 26 503 26 423 27 002 29 314 30 628

Finlândia
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 24023 24271 26150 24830 26969
Divórcios 13 848 14 030 13 913 13 568 13 336

Polônia
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 209 430 219 398 211 150 195 122 191 935
Divórcios 45 230 42 020 42 770 45 308 45 414


A idade com a qual se casa
Em Cuba a idade legal para casar-se é de 16 anos para os homens e 14 para as mulheres. Diferentemente de países com condições sócio-econômicas similares, em Cuba há um nivelamento da idade do matrimônio entre homens e mulheres que não cria fortes disparidades de idade entre esposo e esposa. Em geral, portanto – sempre em Cuba –, permanece alto o número de pessoas, seja de homens seja de mulheres, que se casa na faixa de idade entre 30 e 34 anos. E depois maior é o número de matrimônios contraídos em zonas urbanas que no campo: em 2000 de fato foram realizados mais de 51.762 matrimônios na cidade com relação aos 5.607 dos celebrados no campo.
No Brasil, ao contrário, onde a idade legal para casar-se é muito baixa, 14 anos para o homem e 12 para a mulher, existe uma fortíssima disparidade de idade no casal. Por exemplo, dos 788.744 matrimônios de 1999, 204.117 mulheres casaram-se quando tinham uma idade compreendida entre os 15 e os 19 anos, mas somente 42.959 destas casaram-se com homens da mesma faixa de idade.
Nos países não industrializados, a idade do matrimônio permanece relativamente baixa, em torno à faixa compreendida entre os 14 e os 21 anos, com diferenças entre os homens e as mulheres. De outra parte, a idade do matrimônio nestes países se eleva no que se refere às zonas urbanas. A constituição da família, de fato nas zonas rurais pouco desenvolvidas, é antes de tudo uma garantia de força e trabalho; nas zonas urbanas dos países subdesenvolvidos, ao contrário, a formação de uma família pode mostrar-se também como uma dificuldade a mais, sobretudo para aquela faixa de pessoas vindas do campo para a cidade a fim de buscar condições econômicas melhores. Nos países industrializados eleva-se muito a idade do matrimônio, até quase a média dos 30 anos, e suaviza-se a diferença de idade entre esposo e esposa.

A taxa de fertilidade
Mesmo a taxa de fertilidade, ou seja o número de crianças concebidas em cada família, muda muitíssimo de zona para zona do mundo. A África sub-saariana, por exemplo, é a zona mundial com a mais alta taxa de fertilidade do planeta, mesmo se nestas áreas registra-se uma forte diminuição de nascimentos nos últimos anos. De fato, desde 1975 registra-se uma inflexão dos nascimentos que foi gradualmente e ainda não de todo retomada a partir de 1995. Mas o dado mais significativo desta zona geográfica, que mudou muito mesmo a taxa de fertilidade, é a forte urbanização de uma larga parte da população da África sub-saariana.
Se, de fato, em 1950 somente 11% da população vivia na cidade, em 1996 o percentual chegou a 32% com uma previsão para o ano de 2025 que chega a 50%. Este deslocamento da população em direção às áreas urbanas significou uma forte mudança de hábitos, usos e costumes, que reduziu drasticamente a taxa de natalidade. Por exemplo no Kenia a taxa de fertilidade desceu até 1,62% nas zonas rurais, enquanto nas urbanas a taxa desceu 2,64%. Esta diferença é logo explicada: nas zonas rurais as instituições sociais e as práticas culturais tradicionais permanecem fortes, e também o uso de contraceptivos artificiais é uma prática ainda fortemente limitada. Na cultura africana, de fato, a vida é considerada uma grande riqueza seja material seja espiritual. Por exemplo em Ruanda, após as terríveis chacinas dos últimos anos, a taxa de natalidade cresceu fortemente porque a população de algum modo se sentia no dever de reparar milhões de mortos com a riqueza de novas crianças.
Se na África no qüinqüênio 1995-2000 a taxa de fertilidade para a mulher foi de 5,74%, a situação muda drasticamente na Europa ocidental e na América do Norte: nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de fertilidade é de 2,03%. Após um forte declínio dos nascimentos nos anos sessenta e setenta, nos países ocidentais, parece que agora a taxa de fertilidade está se recuperando.

A idade do primeiro filho
O momento em que a mulher permanece grávida eleva-se sempre mais a partir de 1970. Se, de fato, na Europa e América do norte o primeiro filho chega entre 25 e 29 anos, muitos casais esperam até os 35 anos. Na Itália em 1978 o primeiro filho chegava em média em torno aos 24 anos, hoje acima dos 29.
Se, porém, nestes países se eleva o momento de ter a primeira gravidez, a idade do primeiro relacionamento sexual, , bem como a idade em que se casa, declinaram radicalmente. Se, de fato, nos anos 30 a mulher tinha o seu primeiro relacionamento sexual entre 19 e 21 anos, nos anos 90 a idade havia se instalado entre os 16 e os 18 anos. Aumentou exponencialmente o número de jovens que ainda vive com os pais: na faixa entre os 25 e os 29 anos, nos países do sul da Europa a o percentual é de 65% para os homens e de 44% pra as mulheres. É inferior, ao contrário, naquilo que diz respeito aos países do norte da Europa, onde desce aos 25% para os homens e a 12% para as mulheres. Naquilo que diz respeito ao matrimônio, depois, prefere-se antes adquirir a própria independência econômica, e portanto tentar conviver com o próprio parceiro; somente após, e não para todos, chega-se à decisão de esposar-se.

Fragilidade do matrimônio
Dos dados expostos até agora, vê-se com muitos países e novos matrimônios sejam um tanto frágeis: na Europa a taxa dos divórcios é de 30%, mesmo se nos países escandinavos e na Inglaterra a taxa chega até 59%. Após a ruptura de uma união os dados dizem que se tende em larga parte a formarem-se novas: 75% das mulheres e 80% dos homens tentam fundar uma nova união. E, todavia, existem sempre mais famílias assim chamadas monoparentais, formadas em geral por mulheres que, sozinhas, criam um ou mais filhos. Freqüentemente, na Europa e na América do Norte, isto ocorre em seguida a um divórcio ou simplesmente por escolha.
As famílias monoparentais, ao contrário, mostraram timidamente sua face somente há pouco tempo na Ásia central. Nos últimos anos 90, por exemplo, o Paquistão detinha o maior número de famílias com mais de cinco pessoas: eram mais de 75% do total. De todo modo, também nos países da Ásia central, houve um declínio das famílias numerosas, mesmo se como dissemos, as famílias monoparentais, permanecem ainda uma exceção. No Casaquistão, por exemplo, as famílias com mais de cinco componentes eram 31,2% durante os anos 90: em 200, ao contrário, desceram a 27,9%.

A família matriarcal
Um outro fenômeno a ser registrado é a família matriarcal, ou, de qualquer modo, o papel de chefe de família, que em várias partes do mundo e em várias regiões a mulher vai cada vez mais assumindo. Em muitas culturas asiáticas, por exemplo, a mulher mais velha assume o papel de chefe de família. Este fenômeno, sempre na Ásia, é em forte crescimento. Particularmente nas zonas rurais as mulheres se encontram sempre mais sós na administração também econômica da família, papel que em geral é tradicionalmente reservado aos homens. As causas podem ser muitas, como a viuvez, razões de saúde, carestia ou guerras; ou ainda em razão dos movimentos migratórios internos e externos aos estados, que sempre mais freqüentemente levam os homens longe de casa por longos períodos de tempo a fim de buscar trabalho. No Sri Lanka, por exemplo, o percentual de mulheres chefes de família aumentou de 19% nos anos 90 até 20% em 2000. No Casaquistão e Uzbequistão, respectivamente 32 e 22% do total dos núcleos familiares têm como chefe mulheres.
Na África, a situação é, por sua vez, diferente. Muito freqüentemente encontram-se famílias monoparentais, não por tradição, mas por necessidade. De fato, neste continente muitos núcleos familiares são destruídos por morte de um dos dois cônjuges, mas sobretudo por causas inerentes e fluxos migratórios de estado africano a estado africano, bem como da África para outro continente, como a Europa ou a América do Norte. Atualmente na África os movimentos migratórios transformaram-se em movimentos de refugiados, isto é, em movimentos migratórios forçados em razão da carestia e da guerra. Desde 1995 na África encontram-se mais de um terço dos refugiados de todo o mundo, quase dez milhões de pessoas. Na Guiné, por exemplo, encontram-se cerca de 650.000 refugiados provenientes sobretudo de Sierra Leone e da Libéria; no Sudão são cerca de 395.000, na Etiópia 326.000. Claramente a situação de refugiado investe também contra a solidez e o bem estar da família africana, dividindo por vezes inteiros núcleos familiares.
Mas retornando à situação das mulheres sós que administram um núcleo familiar, um dado acima de todos fala por si só. No estado de Lesoto, calcula-se que 40% da força de trabalho masculina entre os 20 e os 39 anos emigra a fim de buscar trabalho na fronteiriça África do Sul, de modo que a maior parte das famílias depende economicamente do trabalho que os homens da família desenvolvem no estado confinante.

A FAMÍLIA NA EUROPA

A Europa é um continente velho, onde anciãos superam os jovens; além disso, na União Européia rompe-se um matrimônio a cada 33 segundos: estes são somente alguns sinais de alarme lançados pela Rede Européia do Instituto de Política Familiar (IPF), através do seu relatório sobre a “Evolução da Família na Europa em 2006” apresentado em 9 de maio, no Parlamento Europeu, na jornada que coincide com a celebração da jornada da Europa. A relação foi realizada por uma equipe multidisciplinar de especialistas em diversas áreas: psicólogos, demógrafos, especialistas na conciliação da vida de trabalho e matrimonial etc... coordenados pelo IPF. Constitui, portanto, um dos estudos mais completos e atuais que se realizou até agora sobre a família na Europa nos últimos 25 anos (1980-2005). À apresentação estiveram presentes Lola Velarde, Presidente da Rede Européia do IPF, e Eduardo Hertfelder Aldecoa, Presidente da Federação Internacional do IPF.
O relatório articula-se em três partes. A primeira analisa a situação da família na Europa e a sua evolução nos últimos 25 anos nos diversos aspectos: demográficos, natalidade, vida matrimonial, etc. Na segunda se observa a evolução das diversas políticas que a Comissão Européia aplicou neste tempo, e aquelas dos diversos países da União Européia. Como conseqüência desta analise a terceira parte propõe uma séria de medidas que o Instituto da Política Familiar considera indispensáveis para a realização de uma verdadeira política integral da família, e para o crescimento de políticas públicas na perspectiva da família. Apresentamos em seguida alguns dados significativos da relação.

1. Evolução da população
O crescimento da população européia foi lento. A Europa é hoje em dia um continente velho. Em 26 anos a população da União Européia cresceu em 35 milhões de pessoas, isto supõe um crescimento de 8,3%. Nos últimos 25 anos a população juvenil européia (menores de 14 anos) desceu em 21,6%, e isto significa que se perderam 20 milhões de jovens neste período, uma vez que estes representam atualmente somente 16,4% da população total européia. Espanha, Portugal e Itália são os países nos quais os jovens menores de 14 anos diminuíram e a população maior de 65 anos cresceu mais. Ao contrário, Irlanda e Chipre são os países da UE com maior população juvenil: superior em 20% com relação à media européia.
O futuro da população é preocupante. Segundo as projeções de população, a Europa chegará a um pico populacional em 2.025 para depois iniciar a descida. Os Estados Unidos da América, por sua vez, cresceram quatro vezes mais que a UE desde 1994.

2. Evolução da natalidade
Na União Européia cada vez nascem menos crianças. No ano de 2005 nasceram na UE 870.478 crianças a menos em relação a 1982. Isto supõe uma redução de 15,3%. Em algumas nações a situação de natalidade é crítica: Grécia (1,29), Espanha (1,32) e Itália (1,34) são os países da UE-15 com um índice de natalidade crítico. Todos os países da ampliação – com exceção de Chipre – não chegam a um índice de fecundidade de 1,3.
Na Europa (UE-25) verifica-se um aborto a cada 30 segundos. A cada dia 2.880 crianças não podem nascer na Europa. Fala-se de 120 abortos a cada hora. Isto é, uma a cada 6 gravidezes (17,2%) que se verificam na Europa terminam em aborto.
França (208.759), Inglaterra (195.483), Itália (133.000), Alemanha (128.030) e Espanha (79.788) são os cinco países da UE-25 com mais abortos, e representam 75% de todos os abortos da UE. Isto faz com que o aborto seja, juntamente ao câncer, a primeira causa de mortalidade em toda a Europa.
3. Evolução dos matrimônios
Em 24 anos (1980-2004) o número dos matrimônios na UE-25 caiu em 663.600 unidades, o que representa uma perda de 23,5%. Estes matrimônios dão-se sempre em idade mais alta. Em apenas 23 anos, os europeus retardaram em quase 5 anos a idade na qual começam a ter filhos.
Uma em cada três crianças nasce fora do matrimônio (31,6% na UE-25 e 32,8% na UE -15). Isto supõe que mais de 1.300.000 crianças nasçam fora do matrimônio, do momento em que em alguns países a metade dos filhos nascem fora do matrimônio: Suécia (55,4%), Dinamarca (45,5%), França (45,2%) e Reino Unido (42,3%).
Segundo o relatório a ruptura dos matrimônios atingiu cifras alarmantes na Europa. As rupturas aumentaram em 315.360 unidades em 25 anos (1980-2004); isto representa um aumento de 50%. Portugal, com um crescimento de 89%, é o país da UE-15 onde cresceu majoritariamente a ruptura do matrimônio nos últimos 10 anos (1995-2004), seguido pela Itália (62%) e pela Espanha (59%). Em somente 15 anos (1990-2004) romperam-se na Europa mais de 10 milhões de matrimônios (10.190.000), com mais de 16 milhões de crianças afetadas pela decisão de seus pais. Atualmente para cada dois matrimônios que se celebram na Europa, um se rompe.
4. Evolução das famílias
As casas européias serão sempre mais vazias, posto que contam cada vez menos com seus membros. A média está já abaixo e 2,5 membros. Eslovênia (3,1 membros), Polônia (3,1), Chipre (3), e Espanha (2,9) são os países com maior número de membros por família. Ao contrário Inglaterra (2,3), Finlândia (2,2), Dinamarca (2,2) e Alemanha (2,1) são os países com menor número de membros.
5. Evolução das políticas familiares
Enquanto alguns países como Alemanha, França, Irlanda, Noruega, Hungria, Luxemburgo, Eslovênia, Bélgica, Eslováquia, contam com Ministérios/Secretarias de Estado para a Família, a Comissão Européia não conta com um Comissariado para a Família, nem possui um Observatório da Família, nem um Livro Verde da Família. A Europa destina em média 28% do PIB para despesas sociais, e, ao contrário, destina à família somente 2,2% do PIB, o que representa 7,8% das despesas sociais (2003).
Estes dados não fazem senão demonstrar, como afirma Eduardo Hertfelder, que a Europa “esqueceu-se da família e meteu-se em políticas aberrantes contra a família”. Por isso, juntamente ao relatório, a IPF apresenta também uma série de propostas, entre as quais: (1) impulsionar o desenvolvimento de políticas públicas na perspectiva da família na Europa implantando uma verdadeira e eficaz política integral da família com caráter universal; (2) transformar a família em uma prioridade política; (3) garantir a todas as famílias igualdade de oportunidades e evitar discriminações por número de filhos, nível de renda, etc; (4) solicitar aos países membros da UE a criação de um Ministério para a Família a fim de desenvolver a proteção e a promoção da família na Europa; (5) desenvolver campanhas de sensibilização social para reavaliar a infância e a maternidade...
O texto integral do Relatório sobre a Família na União Européia:
Em espanhol: http://www.ipfe.org/Informe_Evolucion_Familia_Europa_2006_Espanol.pdf
Em inglês: http://www.ipfe.org/Report_Evolution_Family_in_Europe_2006.pdf
Em francês: http://www.ipfe.org/rapport_evolution_famille_europe_2006.pdf

A FAMÍLIA NA ÁFRICA

A família é universalmente reconhecida como o fundamento da sociedade, seja qual for a realidade sócio-cultural de cada continente. Na África, a evocação do tema da família assume uma conotação particularmente importante no sentido que cada homem é intrinsecamente e espiritualmente ligado à sua família, aos seus antepassados e aos seus descendentes, sejam estes vivos ou mortos.
Na tradição “fon” do Benim do Sul, por exemplo, a comunidade é entidade alargada. É uma comunidade física e espiritual independente da localização geográfica dos indivíduos que a compõem.
O ser humano, portanto, é antes de tudo um ser familiar. A criança não pertence assim aos seus pais diretos, mas à coletividade, da qual leva o nome e pela qual é criada. Desta identificação sumária da família, derivam os principais traços, os aspectos positivos e os negativos, e os problemas particulares da família na África.
Aspectos positivos
Antes de tudo diremos que a família na África é fundamentada sobre a aliança natural entre um homem e uma mulher. Não obstante a diversidade das culturas, esta apresenta traços característicos positivos (v. A. Quenum & K. Dabire Eglise famille de Dieu: chemim de fraternité em Afrique, Université Catholique de l’Afrique de l’Ouest):
a) o sentido da solidariedade, que se revela como uma característica fundamental da família. Esta, de fato, protege cada indivíduo do perigo de isolamento, compreendidas as dificuldades climáticas, de suicídio e de outras conseqüências provocadas pela solidão;
b) a responsabilidade coletiva: o pertencimento da criança à grande coletividade comporta que esta última seja responsável “comunitariamente” pela sua educação e pela sua integração, sobretudo através de ritos de iniciação por faixas de idade ou por famílias “clãs”, em alguns casos;
c) o sentido da divisão: o homem não deve ser definido por suas posses, mas pelo seu ser, sobretudo pelo seu senso de divisão, a sua generosidade e a sua preocupação pelo outro. Isto limita os riscos de um acúmulo de riquezas em benefício de minoria egoísta;
d) a pesquisa de consenso: associado ao sentido do diálogo e caracterizado pela discussão, busca evitar a cristalização dos antagonismos, ao fim de esconjurar a violência doméstica, a comunidade tem necessidade de paz para sobreviver;
e) o sentido da hospitalidade;
f) o sentido de honra e do crescimento da família para assegurar a sobrevivência.
Aspectos negativos
Os aspectos negativos da família africana derivam pela maior parte de seus aspectos positivos. Assim se evidencia o risco de sufocamento das iniciativas pessoais devido a esta demasiado grande responsabilidade coletiva. Portanto o sentido da divisão e da solidariedade pode gerar o risco do parasitismo. Espera-se tudo do outro, sobretudo os mais anciãos. Não se assumem as responsabilidades individuais, e assim a responsabilidade individual é ameaçada também pela escolha do estado de vida, na escolha profissional. A interferência dos pais e dos sogros na escolha do cônjuge e na vida conjugal é a sua ilustração perfeita. Esta representa uma ameaça para a identidade e a sobrevivência da família nuclear.
É preciso igualmente evidenciar uma pronunciada crença no fatalismo. Quase tudo é ligado ao destino, à influência dos defuntos e dos espíritos maléficos ou benéficos. Esta crença nos espíritos, em certas culturas gera a psicose da onipresença dos inimigos, sobretudo na própria família. Se uma criança tem diarréia, pensa-se logo ao sortilégio provocada por aquele ou aquela suspeita de bruxaria na família. Neste modo se cultiva um clima de desconfiança e de medo. “O verdadeiro inimigo não está fora, mas dentro da família”, ouve-se com freqüência.
Problemas particulares
O subdesenvolvimento e a miséria causam uma perda de identidade e antes de dignidade que provocam certa vulnerabilidade diante de solicitações externas em realidade nocivas à existência e a solidez da família, e prejudicam perigosamente o desenvolvimento. O etnocentrismo representa uma violação ao direito natural à liberdade de escolha do companheiro de vida. Algumas práticas tradicionais como a viuvez, despersonalizam a mulher e por vezes a coisificam. É preciso compreender que não é ainda reconhecida à mulher na sociedade africana toda a dignidade que lhe confere o projeto de clichês veiculados em abundância pelos meios de comunicação, cuja objetividade no tratamento da informação sobre a África é sempre um tanto equívoca.
R.p. Philippe Kinkpon
Vice-Presidente Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e Família em Cotonou (Benin)

A FAMÍLIA NA ÁSIA

Ao tema da família na Ásia foi dedicada dois anos atrás, em agosto de 2004, uma Assembléia Plenária da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas (FABC). O Instrumentum Laboris que guiou os trabalhos da 8ª Assembléia Plenária da FABC, celebrada entre 17 e 23 de agosto de 2004 em Taejeon, na Coréia do Sul, sobre o tema “A família asiática em direção a uma cultura da vida”, era articulada em três partes. A primeira parte do documento traçava o quadro da “Situação Pastoral da família na Ásia”, reportando tradições e valores da família asiática, as suas diversas variedades e formas, concentrando-se sobre os problemas da pobreza das famílias nas áreas urbanas e rurais.
A segunda parte era uma reflexão teológico-pastoral, segundo a Sagrada Escritura e os princípios da Doutrina Social da Igreja, que define a família “Santuário de amor e de vida, harmonia e comunhão”, concentrando-se sobre a vocação e missão da família no Terceiro milênio em uma era de globalização cultural e de grandes transformações sociais, diante à difusão, também na Ásia, de práticas como o aborto e o divórcio, que ameaçam a unidade das famílias.
A terceira parte era dedicada às “Recomendações Pastorais para o serviço às famílias”, que deveria concentrar-se não somente sobre a fase de formação pré-matrimonial, mas também sobre a evangelização das famílias, a educação à fé e à formação em eu interior, e sobre a particular atenção às famílias pobres.
Da grande reunião dos representantes das Igrejas asiáticas participaram 186 delegados, entre os quais 6 cardeais, 25 arcebispos, 60 bispos, 29 sacerdotes, 3 religiosos, 8 religiosas, 55 leigos, homens e mulheres. Há “grandes sinais de esperança” para as famílias asiáticas que vivem e testemunham os valores cristãos: é aquilo que emergiu dos trabalhos da Assembléia Plenária. Na conclusão dos trabalhos os Bispos, notando o contexto em que as famílias cristãs vivem na Ásia, em condições de exígua minoria religiosa, sublinharam como estas são capazes de testemunhar valores tais como a veneração pela vida, a hospitalidade, o respeito pelos anciãos, o amor pelos filhos.
Na mensagem conclusiva os bispos, não escondendo as dificuldades que a família deve enfrentar no continente asiático, sempre mais marcado pela globalização cultura, pelo individualismo, materialismo e laicismo, apontam que somente uma cultura da vida inspirada nos valores do reino de Deus pregado por Jesus, pode promover o bem das famílias. A cultura da vida significa “a proteção da vida humana em todas as suas dimensões, da concepção à morte” e o “primado da dignidade humana sobre a eficiência e a economia”.
Durante os trabalhos da assembléia, os delegados examinaram e discutiram o Instrumentum laboris que elencava alguns problemas que afligem muitas famílias asiáticas: a pobreza, as migrações, a exploração das mulheres e das crianças, os problemas da globalização e do secularismo, os das culturas tradicionais.
Entre os desafios assinalados pelo documento, consta o crescimento na Ásia de uma cultura contra a família, a falta de respeito pela vida, o alto número de divórcios. A Igreja quer responder a estes desafios com a visão da famílias.
Os grupos de trabalho eram organizados com base à proveniência regional e lingüística dos delegados. Naquele dedicado ao “diálogo inter-religioso e família” houve testemunhos de casais “mistos” (do ponto de vista confessional), dado que os matrimônios entre pessoas de diferentes religiões são sempre mais um desafio pastoral para a Igreja na Ásia.
Os bispos asiáticos receberam também a visita de mons. Wilton Gregory, Presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Ele notou que, não obstante os diversos problemas que vivem as famílias asiáticas imigradas na América, “estes porém são capazes de um testemunho luminoso de unidade e concórdia, de amor e dedicação”.
“A Igreja católica e as sociedades asiáticas e africanas devem apresentar com força o matrimônio e a família como algo precioso. A família cristã, vista com olhos cristãos como “Igreja doméstica”, deveria ser um lugar em que a verdade do Evangelho é a norma de vida e o dom que os membros da família fazem à intera comunidade. (...) A família não é somente objeto de cuidados pastorais da Igreja, mas também o agente de evangelização mais eficaz”. Assim declarou S.E. o Arcebispo Robert Sarah, Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, em discurso pronunciado na Assembléia Plenária (FABC). Na sua palestra Mons. Sarah sublinhou que a Congregação para a Evangelização valoriza muito o trabalho de evangelização que os Bispos asiáticos estão levando adiante no vasto continente, relembrando que “a missão da Igreja na Ásia não foi outra que aquela que Cristo confiou-lhe, isto é, levar a mensagem de salvação do Evangelho a todos os homens de boa vontade, a mensagem de paz, amor e fraternidade especialmente nestes tempos de ódio e violência”.
Constatando o crescimento da dimensão materialista e secular no mundo contemporâneo, Mons. Sarah delineou a tarefa da Igreja relembrando a imagem de uma pintura no interior de Basílica de S. Francisco em Assis: aquela do Santo que sustenta a Igreja de S. Giovanni in Laterano sobre suas costas. “Como S. Francisco, somo chamados a fazer a nossa parte no sustento do mundo. Esta é a nossa missão, e a grandeza de um cristão reside nesta missão”, disse o Arecebispo. “Como São Francisco, podemos evitar o colapso deste mundo sustentando-o sobre as nossas costas, vivendo em Deus e com Deus e permitindo a Ele de preenchê-lo com o Seu amor”.
Relembrando que a missão do cristão é essencialmente “uma missão de amor”, Mons. Sarah disse que “não há amor sem sofrimento” e depois indicou aos bispos asiáticos duas figuras modelo para o seu caminho: Santa Teresa do Menino Jesus, que descobriu o Pai como “ser que tem um amor incondicionado por nós”, e Madre Teresa de Calcutá, que tinha “o amor como fundamento da sua missão evangelizadora”.
Mons. Sarah tocou depois o tema do processo cultural, que definiu “um complexo e contínuo processo que envolve a totalidade da vida de uma pessoa. É o processo que liga Deus à vida, a uma dada cultura e a história humana. Neste sentido o processo cultural é visto como o maior desafio presente e futuro à Igreja”. “O processo cultural – continuou – é uma irrupção, uma epifania do Senhor no coração de um povo e de uma cultura. (...) essa transforma o coração do homem na sua postura em relação a Deus e aos seus irmãos, para amá-los e servi-los totalmente, sem calcular os custos”. Por isto, disse, “o processo cultural é um desafio à santidade”.
“Esta experiência de um Deus que é santo e que ama – concluiu o Secretário – deve começar pelas famílias cristãs, que devem ser consideradas um ponto de partida de cada experiência humana e cristã”. “Quando uma família cristã é um sinal crível de sua vocação e missão essencial, proclamando através de sua vida o Evangelho do amor e contribuindo ao desenvolvimento de uma civilização do amor”.
Texto da Mensagem dos Bispos na conclusão da Assembléia
http://www.evangelizatio.org/portale/adgentes/chieselocali/chieselocali.php?id=49

A FAMÍLIA NO MÉXICO

Esta anotação se baseia sobre alguns dados recolhidos no Diagnóstico da Família Mexicana, apresentado pelo Sistema Nacional para o Desenvolvimento Integral da Família, DIF, órgão governativo encarregado da área da família no México, com o qual o Instituto Superior de Estudos para a Família, Seção Mexicana do Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre o Matrimônio e Família, trabalhou em diversas ocasiões.
Na apresentação da Numeralia de la Família em México a família é apresentada como “o primeiro grau para a construção do tecido social”, e são fornecidos alguns dados importantes sobre a evolução e sobre a sua situação atual. Reportamos aqui a nossa interpretação destes dados numéricos.
1. Famílias nucleares e Famílias extensas
Das 20.636.169 famílias hoje existentes no nosso país, 47,1% corresponde a famílias nucleares e 45,9% a famílias extensas, entendendo-se per família extensa aquela formada por uma família nuclear que vive com outros parentes sob o mesmo teto.
Uma primeira reflexão nos leva a crer que um número relevante de casais não têm uma casa própria (adquirida ou alugada) e são obrigados a viver com a sua família extensa. Esta situação em particular é pouco favorável, porque impede o justo crescimento e o desenvolvimento familiar. Devemos de todo modo compreender que se trata de uma situação que se dá por necessidade mais que por vontade.
Há um provérbio que diz “quem se casa quer casa”, porque é claro que quem inicia uma nova família deve abandonar a própria para levar adiante com o cônjuge um novo projeto de vida, e que é preciso fazê-lo, nos limites do possível, a sós. Na maioria dos casos a intromissão dos parentes nos conflitos dos casais – que, é preciso dizê-lo, são necessários para a consolidação do casal e para a sua mútua compreensão – é de pouca ajuda na resolução dos problemas.
Em muitas destas famílias extensas há ainda problemas mais graves como a promiscuidade, o abuso sexual, o alcoolismo, a violência, os maltratos, etc., que, somados às problemáticas típicas do casal, constituem um terreno particularmente fértil a fim de que os filhos cresçam com grandes carências e dificuldades, sejam fáceis presas da droga e tornem-se jovens delinqüentes.
Uma solução de boa parte destes problemas é promover meios de modo que as famílias possam ter uma habitação própria, e isto se reveste de particular interesse social, porque é certo que as famílias nucleares oferecem melhores oportunidades de crescimento e desenvolvimento aos seus membros, e a coisa melhor para cada família é ter a própria casa.

2. Famílias Monoparentais e Biparentais
Um outro dado de grande interesse fornecido pela Numeralia de la Família em México diz respeito ao número de famílias nucleares monoparentais, que são 2.064.812 sobre um total de 15.294.905 famílias nucleares. Ou seja, 13,5% das famílias nucleares têm somente pai ou somente mãe, mesmo se em geral neste grupo falta o pai.
Mesmo esta situação representa um cenário difícil para a educação dos filhos, porque é importante que este posam contar com a figura paterna e materna, e que aprendam, com o exemplo dos pais a convivência própria do amor conjugal, a compreensão, a generosidade, a tolerância, a atenção e o respeito. A primeira e melhor escola para tornar-se pai e mãe é a própria família.
Um dado interessante desta estatística é que, mesmo se em menor proporção, existem famílias monoparentais onde o chefe de família é um homem, ou seja, a mãe falta por morte ou abandono. Nestas circunstâncias a educação é ainda mais difícil porque se presume que o pai esteja empenhado sobretudo no trabalho fora de casa e tenha pouco tempo a dedicar aos filhos. Ao contrário, quando o chefe de família é a mãe, em geral desenvolve trabalhos em meio período ou atividades que se podem realizar em casa.
É exemplar como muitas mães sós nestas circunstâncias tenham levado adiante famílias numerosas, infundindo nos seus filhos um exemplo de amor que os leva a serem pessoas de bem, mesmo se, como já se disse, a carência da figura paterna pode ter um impacto na formação da pessoa.
Para tudo o quanto exposto é desejável que a família permaneça unida pelos pais, porque somente assim é possível oferecer aos filhos a possibilidade de crescer e desenvolver-se de modo adequado, salvo em caso, obviamente de morte de um dos cônjuges, e então pode ser justo que o cônjuge que tenha sobrevivido busque apoio na família de origem ou se case novamente.

3. Número de filhos
Este é um argumento muito interessante e não obstante as médias estatísticas, seguramente há uma diminuição no número de filhos da família mexicana. É o caso das famílias nucleares que têm uma média de 2,6 filhos e das famílias monoparentais que têm uma média de 2,2 filhos.
Estes dados podem sugerir que as famílias de hoje em dia têm, na maior parte, entre 2 ou 3 filhos e que no caso das famílias monoparentais onde o chefe de família é a mãe, estes filhos podem ser de um só pai ou mãe ou de diversos pais.
Aqui são necessárias 2 reflexões. A primeira: é verdade que um menor número de filhos significa um ônus econômico menor para os pais, mas é do mesmo modo verdadeiro que se corre o risco de uma super proteção dos filhos quando são poucos, ainda mais se se trata de um filho único, ou ainda de dois, sendo um menino e uma menina, freqüentemente tratado como se fossem filhos únicos. A segunda reflexão nos leva ao tema da mãe nubente, separada ou divorciada, que, por vezes, na busca de uma pessoa que lhe dê amor, proteção e companhia, se encontra na situação de uma nova gravidez, tornando evidente o seu desejo de formalizar um relacionamento e freqüentemente sofre o conseqüente abandono por parte do novo companheiro.
A realidade é que não necessariamente um menor número de filhos comporta um benefício, porque existem famílias que, embora tendo a possibilidade de manter um número maior de filhos, não os há, por uma escolha pessoal, justificada ou não, mas que não diz respeito à própria situação econômica. De outra parte a realidade nos mostra que famílias monoparentais, sobretudo aquelas que têm a mãe como chefe de família, são muito vulneráveis e sujeitas a outros problemas mais graves e complexos, como no caso referido, onde em muitas ocasiões a solução de um problema como uma gravidez não desejada é o aborto, que minará em modo grave a consciência da mulher e influirá pesadamente sobre o ambiente familiar.
O número de filhos que um casal deve ter diz cabe a eles decidirem, todavia é importante sublinhar o papel desempenhado nesta decisão pela própria consciência. De outra parte, as mães nubentes, têm todo o direito de formar uma família, e oferecer aos seus filhos a possibilidade de ter um lar e contar com uma figura paterna em casa, e poder elas mesmas contarem com uma pessoa com a qual dividir o seu projeto de vida. Seguramente é necessário trabalhar para prevenir esta condição, seguramente é necessário trabalhar também para que esta condição seja aceita no nosso contexto social e na caridade para com quem a vive.

4. Casais casados e casais de fato
Sobre este ponto se encontra uma proporção de 4 para 1. Ou seja, a cada quatro casais, um vive uma união de fato, entendendo-se com isto que a união não tem vínculos legais. A proporção é alta e aumenta a cada ano, ou seja, a cada ano surgem mais casais que decidem conviver sem casar-se, enquanto o número de matrimônios cresce 1% ao ano, ou seja muito menos que a população (mais ou menos a metade).
De quanto se disse somos levados a refletir sobre o fato de que uma em cada cinco pessoas preferem não se comprometer em um relacionamento, talvez porque pensam que no caso de as coisas irem mal podem evitar o tedioso processo de divórcio, ou ainda porque sabem já que o relacionamento não durará muito e preferem esta condição para poder mudar o parceiro sem problemas.
De todo modo, aquilo que prevalece, de fundo, é o egoísmo e a falta de empenho, mesmo se em alguns casos existe também o medo, o temor, sobretudo nos filhos dos pais separados ou divorciados.
Esta situação tem como corolário que diante da incerteza sobre o futuro do relacionamento, estes casais não geram filhos, ou ao menos buscam não fazê-lo, porque sabem que a chegada de um filho pode causar a separação ou a ruptura, sendo o filho vítima desta triste situação. Porém há também situações em que a chegada de um filho motiva positivamente o casal a empenhar-se e a formalizar o relacionamento, freqüentemente com sucesso.
Certamente o medo do compromisso é um fato determinante, e, como se disse, tem também a ver com o egoísmo. Por isso é necessário que sejam as famílias mesmas a dar aos seus filhos os valores fundamentais que levam ao altruísmo e a ver o matrimônio como qualquer coisa de natural – porque o é –; que o compromisso de unir-se com uma outra pessoa não seja outra coisa que a conseqüência da própria maturidade; e que tenham uma idéia precisa do significado do matrimônio.

5. Matrimônios e divórcios
Aqui encontramos dados muito interessantes. Avalia-se que a cada 100 matrimônios ocorrem 7 divórcios; todavia para cada divórcio há o triplo de casais separados e esta cifra está em crescimento. Ou seja, 28 a cada 100 casais são divorciadas ou separadas. Esta cifra é alarmante.
Hoje em dia os casais se casam mais tarde do que antes, em média próximo aos 25 anos, e aqueles que se divorciam permanecem juntos em média por um período de 10 anos, e isto subentende uma certa capacidade de tolerância e compreensão, que porém não é suficiente para conservar o vínculo.
Há um outro dado importante: o nível de educação de quem se divorcia é superior ao da média da população, e isto indica que a um nível maior de instrução há um maior conhecimento desta figura jurídica e um maior recurso a essa.
O divórcio tornou-se algo socialmente aceito, enquanto antes não o era muito, e vindo a faltar a pressão social é praticado com mais freqüência. De outra parte, sobre o plano religioso, católico, como no caso da maior parte dos mexicanos, a anulação do sacramento do matrimônio é hoje mais requerida com relação ao passado, mesmo se se trata de um número não comparável ao divórcio e muito menos às separações. Em síntese, o divórcio e a separação crescem dia após dia. E não somente são aceitos, mas mesmos justificados, ao passo que na maior parte dos casos derivam somente de uma falta de conhecimento e de compreensão do significado do matrimônio. É curioso que esta ignorância seja radicada em um mais alto nível de instrução, como se isto reforçasse a cultura do egoísmo, o materialismo, o hedonismo, deixando o conhecimento e a promoção dos valores universais e fundamentais que são pouco ensinados e que são aqueles que devem sustentar a pessoa, o casal, a família e a sociedade.

Conclusão
Há muitos outros dados que poderíamos analisar para obter uma reflexão capaz de nos ajudar a compreender a dinâmica social em torno ao casal e à família no México, todavia uma coisa deve restar clara: seguramente a família é o primeiro grau na construção do tecido social, e a sua função e insubstituível.
A responsabilidade de manter unida a família é de toda a sociedade, do estado, das igrejas de todos os credos, das instituições educativas em todos os níveis, dos meios de comunicação, etc; em síntese, de todos os setores sociais em geral. Mas, de modo particular, a união da família é de responsabilidade daqueles indivíduos que assumiram a difícil, mas gratificante incumbência de formar uma família, dos homens e das mulheres que decidiram ajudar-se e formar-se para compreender o verdadeiro sentido do matrimônio e defender assim o valor da família.
Eduardo Zainos García Cano
Diretor Nacional do Instituto Superior para a Família “João Paulo II” na Cidade do México

FAMÍLIAS EM MISSÃO
As Catequeses propostas pelas POM da Espanha para solicitar a reflexão e o empenho missionário das famílias em vista do Encontro Mundial de Valência
O Conselho Pastoral das Pontifícias Obras Missionárias (POM) da Espanha, por ocasião do V Encontro Mundial das Famílias que se celebrará em Valência de 1º a 9º de julho, decidiu ajudar a reflexão sobre o tema da “Família Missionária”. Por isto foram publicadas algumas catequeses sobre este argumento. Parte-se da constatação que muitas famílias espanholas, de diversos modos, dedicam-se ao suporte e à cooperação missionária, e, portanto, ao trabalho missionário da Igreja na Espanha depende em boa medida do seu esforço e da sua colaboração. Por isso as POM pretendem prestar maior atenção às “famílias missionárias”, de modo que o seu trabalho seja mais conhecido e muitas outras possam unir-se a esta missão.
Principais destinatários das catequeses publicadas pelas POM são as famílias que cooperam já ativamente na missão da Igreja através de grupos de animação missionária, as famílias dos missionários e missionárias que ajudam aqueles que partiram em missão, e as famílias interessadas na missão universal da Igreja que desejam conhecer mais sta realidade e buscam o modo de cooperar segundo as próprias possibilidades.
Os temas tratados nas catequeses são os seguintes: “A dimensão missionária da família”, que tem o objetivo de descobrir como a responsabilidade missionária resida na própria família cristã; “O suporte e a cooperação missionária da família” onde se apresentam os modelos para um verdadeiro suporte missionário das famílias, buscando elevá-las à consciência da própria responsabilidade missionária e de seu compromisso para com a missão da Igreja, segundo a própria condição de vida; “A família dos missionários” que tem por objeto tomar consciência da importância da família para as vocações e para a atividade missionária. Enfim propõe-se sugestões para a celebração da Eucaristia com as famílias missionárias. Cada uma das catequeses é estruturada em cinco partes: (1) apresentação e objetivos; (2) testemunho missionário; (3) desenvolvimento expositivo do tema, iluminando-o a partir dos ensinamentos bíblicos, litúrgicos, doutrinais, etc., da Igreja; (4) compromisso missionário com propostas concretas para viver a dimensão missionária na família; e, enfim, (5) uma oração que conclui o tema.
Tema 1: a dimensão missionária da família
Este tema busca aprofundar a dimensão missionária da família, a fim de evidenciar que a responsabilidade missionária pertence ao ser da família cristã, segundo as palavras da Encíclica Redemptoris Missio: “A família cristã tem também parte na missão universal da Igreja... a sua ação evangelizadora ultrapassa os limites do quadro familiar, tendo uma dimensão apostólica... A cooperação na missão é sinal de maturidade, de abertura e de autenticidade na fá. Uma família cristã na qual – cada um de seus membros e essa como família – vive-se a fé com maturidade é uma família que sente a missão universal da Igreja como algo de próprio e colabora com ela na medida de suas possibilidades” (cf. RM 49).
A família é considerada pela Igreja como uma “pequena igreja doméstica”, isto é, uma comunidade evangelizadora, “um espaço onde o Evangelho é transmitido e de onde isto se irradia e onde, conscientes desta missão, todos os membros evangelizam e são evangelizados” (Evangelii Nuntiandi 71b).
A família cristã é chamada a viver com responsabilidade a sua inserção na Igreja e assumir a parte que lhe corresponde na evangelização do mundo. O modo como realizar esta missão é próprio e original porque responde ao seu ser como uma comunidade intima de vida e amor (cf. FC 50).
Dada a especificidade da sua missão o testemunho da família cristã no mundo tem uma importância capital. Através da experiência da vida familiar, os esposos juntamente aos seus filhos, fazem presente a Igreja e a mensagem do Evangelho nos ambientes quotidianos nos quais encontram-se os membros das outras famílias. A família é chamada a fazer, generosamente, “partícipes outras famílias de suas riquezas espirituais” (GS 48). A experiência do amor e a fidelidade dos cônjuges, a unidade e a solidariedade na família, são uma presença viva de Cristo em meio às circunstâncias quotidianas nas quais se encontra a família.
A potência evangelizadora e missionária que possui este testemunho das famílias cristãs é inimaginável. Quando uma família cristã faz da sua vida familiar um testemunho claro e consciente da fé em Cristo, cria profundos pontos de interrogação (cf. EM 21) que movem muitos a interessarem-se sobre a verdade e sobre Cristo.
A missão evangelizadora da família é, como a da Igreja, de caráter universal. A família não pode fechar-se sobre si mesma em nenhum sentido, nem mesmo no sentido de concentrar-se exclusivamente sobre a educação cristã e sobre a evangelização de seus membros.
A família desdobra o seu potencial missionário em dois aspectos complementares:
- Dentro do âmbito familiar ou mais restrito. Os cristãos são chamados a buscar com o seu testemunho de atrair à fé os parentes que não a têm ou que não a vivem com coerência.
- Fora do âmbito familiar. O testemunho ilumina o caminho de fé de outras famílias e com o seu empenho apostólico mostra o modo de viver a fé como família.
Além disso há hoje em dia numerosas famílias que se dedicam à atividade missionária fora das fronteiras do próprio país,nos países de missão Ad Gentes.
Compromisso missionário
A família é igreja doméstica que:
- Transmite a fé: os pais cristãos assumem o compromisso de transmitir a fé aos seus filhos.
- Introduz à oração e aos sacramentos: os pais são os primeiros a ensinar e acompanhar os filhos na oração e na participação sacramental.
- Introduz em um estilo de vida evangélico: são os pais que, com a palavra e o testemunho, ajudam a viver o estilo de vida de Jesus.
- Fomenta o compromisso missionário: a família é a base ideal a fim que a vida cristã se expanda a outras pessoas e famílias.
Tema 2: a animação e a cooperação missionária da família
Neste capítulo dão-se modelos para um verdadeiro suporte missionário das famílias e busca tomar consciência da responsabilidade missionária que têm e de seu compromisso para com a missão da Igreja segundo as próprias condições de vida.
O suporte missionário da família baseia-se sobre princípios comuns da ação missionária: a seqüela de Cristo, a experiência da própria vocação e carisma, a comunhão eclesial e a disponibilidade para a evangelização. O suporte missionário parte logicamente da chamada que Cristo faz a todos os seus discípulos à sua seqüela. A família, como pequena igreja doméstica, é convidada a seguir Jesus nos seus critérios e no seu modo de vida, assim como se exprime no Evangelho. Do encontro com Cristo e de sua seqüela a família pode reconhecer a sua vocação eclesial e a vocação missionária.
A animação missionária da família ajuda a amar profundamente a própria realidade eclesial; evangeliza-se pela família e como família. Por esta razão a família deve radicar-se profundamente na própria realidade e viver a vocação à qual foi chamada por Deus. Por isso é também fundamental viver a comunhão eclesial como parte essencial da própria identidade, com tudo aquilo que implica: a inserção vital na comunidade eclesial e a comunhão das diversas vocações, carismas e ministérios.
Enfim, a animação missionária suscita a disponibilidade para a evangelização, sobretudo dos mais pobres – dentro e fora da própria comunidade – isto é, aqueles que não têm fé.
Um elemento específico do suporte e da cooperação missionária das famílias e a iniciação das crianças e dos jovens ao compromisso apostólico. Na família aprende-se a viver com o espírito aberto aos outros, consciente dos dons que foram recebidos e da necessidade de compartilhá-los com os outros.
As famílias contribuem à missão com a oração para os missionários e para a evangelização das pessoas e dos povos. O fazem também com a contribuição material: material escolástico, medicinas, contribuição econômica, etc., e para outras necessidades da missão. Enfim, emerge a cooperação pessoal: a consagração do próprio tempo e do próprio esforço às atividades de animação e formação missionária, de acolhimento dos missionários, de colaboração com a Delegação Diocesana das Missões, as instituições missionárias, etc.
Compromisso missionário
O suporte e cooperação missionária das famílias abraça muitos âmbitos e ações.
Suporte missionário
- Informar-se sobre a situação da missão no mundo, especialmente sobre temas relativos à família, à infância e à juventude. Por isto as revistas missionárias oferecem uma grande ajuda.
- Formar-se no espírito missionário da Igreja, usando os meios que são oferecidos para tanto: cursos, materiais de formação, de suporte missionário, jornadas de formação, etc.
- Participar às jornadas missionárias, das POM, das Conferências Episcopais, diocesanas, sensibilizando outras famílias.
- Colaboração na animação missionária continua que se leva a termo na paróquia, na diocese, etc., através de grupos missionários, atividades, campanhas, iniciativas de formação missionária...
Iniciativa ao compromisso apostólico:
- Servir prioritariamente a educação à fé dos seus membros: o batismo, a catequese, a vida litúrgica e sacramental, a oração pessoal e comunitária, o compromisso apostólico...
- Acompanhar os filhos na maturação da fé e da vida cristã e no discernimento da vocação eclesial (matrimônio, sacerdócio, vida consagrada).
- Colaborar com grupos cristãos juvenis de modo que conheçam a aprofundem a dimensão missionária na formação e no compromisso cristão.
Cooperação missionária
- Cooperar espiritualmente e economicamente nas Jornadas Missionárias da Igreja.
- Colaborar com a missão da Igreja, levando a fé àqueles que não conhecem Cristo e aos distantes da Igreja, tanto àqueles que estão próximos à família (familiares, parentes, amigos, etc.) como aos mais distantes, especialmente do mundo familiar e juvenil.
- Empenhar-se especialmente nas atividades realizadas pelas instituições missionárias, da Delegação Diocesana das Missões e das POM, pelo seu caráter universal e pontifício.
Tema 3: a família dos missionários
Este tema tem por objetivo trazer à consciência a importância das famílias para as vocações e para as atividades missionárias e, além de reconhecer o seu trabalho, pretende mostrar como cooperar com tais atividades e, através destas, com os missionários. Sem dúvida a vocação missionária, como qualquer outra vocação eclesial, desenvolve-se e se cultiva nas famílias cristãs. Ainda que a vocação seja um dom do Espírito Santo à pessoa, é evidente que a influência sobre a chamada que pode exercitar o ambiente, sobretudo familiar, é muito grande.
Os pais, portanto, têm a obrigação de educar de modo cristão os filhos nos valores necessários de modo que compreendam a dimensão universal do amor de Deus (cf. FC 54). Deste modo estarão fixando as bases de modo que os filhos sejam capazes de responder à vocação missionária se Deus os chamar. Se isto ocorre a família cristã, como pequena igreja doméstica, é a ajuda mais próxima que os filhos podem encontrar durante o discernimento da vocação e a sua maturação.
A família cristã é chamada a acolher a vocação de alguns membros como um dom de Deus, e a ajudar com generosidade a resposta àquilo que Deus pede, com liberdade e com alegria. Além disso as famílias devem considerar que este é um dom de Deus antes primeiro para a pessoa chamada, mas também para toda a família ou a comunidade cristã e, em última instância, para toda a Igreja. As famílias dos missionários são logicamente unidas estreitamente aos seus membros missionários.
Estas são formalmente as primeiras a oferecer o seu apoio e o seu afeto para ajudá-las a perseverar na vocação e na missão a que Deus lhes chamou e a Igreja lhes envia. Muitas vezes as famílias dos missionários prestam também, na medida de suas possibilidades, apoio material para as atividades dos missionários. As mesmas famílias dos missionários tornam-se missionárias quando difundem o espírito missionário na comunidade cristã e participam ao suporte e à cooperação missionária desta. Não raramente chegam mesmo a viajar para visitar os missionários, conhecer de perto o trabalho e cooperar pessoalmente consigo na missão que levam adiante.
Compromisso missionário
Três chaves importantes para maturar o empenho centrando a atenção na família dos missionários:
1. A cooperação das famílias cristãs à missão universal da Igreja começa com o discernimento da vocação dos filhos:
- Criar um ambiente de oração, serviço ao próximo e participação às atividades eclesiais que favoreça o nascimento e o desenvolvimento das vocações na família.
- Informar-se e conhecer a vocação missionária em geral, como participar da Jornada de “Vocações Nativas” da Pontifícia Obra de São Pedro Apostolo, para conhecer as necessidades das Igrejas em missão.
2. Ajudar diretamente as famílias dos missionários com:
- A oração para os missionários conhecidos e suas famílias.
- A gratidão e o apoio da comunidade eclesial às famílias dos missionários, sobretudo nos momentos em que mais têm necessidade: doença, morte de um parente, etc.; ou no momento de aceitar a vocação de um membro.
- A colaboração com a Delegação Diocesana das Missões no trabalho de contato com os missionários das dioceses e no acolhimento daqueles retornados.
3. Cooperar com a missão universal da Igreja através das famílias dos missionários para:
- Conhecer as notícias dos missionários e do seu trabalho missionário.
- Colaborar economicamente com os missionários buscando além disso a aproximação de pessoas, famílias, comunidades cristãs, etc., para a missão.
- Ajudar as famílias dos missionários para uma cooperação momentânea na própria missão.

TESTEMUNHOS DE FAMÍLIAS MISSIONÁRIAS
MOVIMENTO DOS FOCOLARI
As primeiras experiências de “famílias missionárias” do Movimento dos Focolari remontam a 1959. As famílias que fizeram esta experiência até agora são cerca de 250. As famílias se transferem em relação às exigências da Obra pelo qual pode acontecer que uma família esteja por alguns anos em um local e depois retorne ao seu país de origem ou se transfira a um outro local; outras, ao contrário, permanecem definitivamente onde são transferidas. Algumas transferências ocorrem de uma nação ou outra ou de um continente ao outro. Uma das primeiras transferências com duração de 4 anos ocorreu da Itália à África (Família Calò). Atualmente são muito freqüentes viagens da família por um período variável de poucos dias a aproximadamente um mês.
As famílias, antes de partir, recebem uma formação seja pessoal nos respectivos Focolari, seja como casal por parte da secretaria de Famílias Novas. A formação diz respeito à própria vida espiritual, à consciência dos documentos da Igreja e à vida de família segundo a espiritualidade da unidade, que ajuda a família a adaptar-se culturalmente à nova realidade social e eclesial. São fornecidas também informações necessárias para os cuidados com a saúde e para a adaptação ao novo ambiente geográfico.
As famílias focolare são por vocação disponíveis à transferência. Antes de tudo são avaliadas as exigências da Obra seja na própria zona seja na solicitante. Avaliam-se depois as características que deve ter uma dada família para andar naquele determinado local (conhecimento da língua, tipo de trabalho, idade, saúde, etc.). Embora tendo estas características não todas as famílias são, porém, capazes de transferir-se (filhos adolescentes, pais anciãos, problemas de trabalho, etc.). A coordenação se dá através de um setor específico presente na Secretaria Central de Famílias Novas.
Andrea e Fiorella: da Itália missionários em Honduras
De si mesmos Andrea e Fiorella dizem ter vivido um namoro “particular”. Veneziana ela, hoje com 50 anos, e comasco ele, com 53, conheceram-se e apaixonaram-se nos anos setenta. Andrea não acreditava em Deus e Fiorella, que vinha de uma família cristã, atravessava um daqueles períodos de crescimento em que, buscando o próprio caminho, recusava tudo aquilo que lhe era proposto ou que lhe parecia imposto. De resto eram anos de fermento cultural e de mudanças sociais, nos quais sobre os rastros das contestações nasciam as afirmações de novos direitos, redesenhavam-se a sociedade e os relacionamentos entre as pessoas sobre a base da afirmação das novas liberdades individuais. Assim os primeiros anos de namoro foram vividos sem que pusessem a si mesmos tantos problemas: estavam juntos e tanto bastava, não se colocavam perguntas sobre o futuro ou o significado de um relacionamento de casal; defendiam a própria liberdade.
Mas depois Fiorella encontrou os Focolarinos, e tudo mudou. «Estas pessoas fizeram-me reencontrar o Evangelho, de conseqüência repensei a minha vida e fiz escolhas, de qualquer modo impondo-as também a Andrea, que não estava fazendo o mesmo percurso que eu». Por exemplo em relação aos relacionamentos prematrimoniais: ela estava convencida do fato de que era necessário abandoná-los, para reencontrar um sentido mais profundo e mais projetado ao futuro em seu amor. Da sua parte Andrea foi sempre muito disponível: «Para mim foi um discernimento», explica, «porque naquela época compreendi que a amava realmente, a ponto de aceitar que ela tivesse amadurecido as próprias idéias, que a levavam a questionar-me, a dividir escolhas que por minha conta não teria feito jamais». De outra parte, acrescenta Fiorella, «sentia que o nosso amor deveria recomeçar desta nova presença na minha vida: Deus».
Dito deste modo pode parecer um percurso simples e linear, mas de fato não o foi. Um momento fundamental de crise (mas também um ponto decisivo no caminho de crescimento) foi quando ela acreditou estar grávida, e ele considerou óbvio que aquela criança não deveria nascer. Fiorella ao contrário sentiu que justamente a busca de liberdade que até aquele momento a havia guiado, impunha-lhe ter o bebê, ao custo de abandoná-lo. Na realidade não era grávida, e quando se reencontraram, após um pouco de tempo, colocaram o seu relacionamento sobre novas bases. «Aceitei até mesmo casar-me na Igreja...», relembra Andrea. Após três anos de matrimônio, também ele reencontrou Deus. Brincando, hoje dizem que é culpa do fato que Fiorella não tinha a carteira de motorista, e, portanto, freqüentemente ele devia acompanhá-la às reuniões e aos encontros (mesmo se ele não participava: preferia esperá-la fora). O fato é que aceitou um diálogo sempre mais agudo e pôs em crise as próprias certezas sobre o fato que Deus, se existia, estava errado...
Sempre mais, portanto, a vida de casal construía-se sobre a consciência da presença do amor de Deus em meio a eles, e esta consciência fazia-se também ação concreta: hospedaram uma menina anoréxica, receberam para cuidar uma menina de 12 anos que depois descobriu-se estar grávida, e assim por diante...
Recontar o percurso interior e o caminho de fé de Andrea e Fiorella pode parecer uma digressão, mas na verdade a escolha de oferecer a sua disponibilidade ao Movimento para uma eventual transferência nasce desta conversão. O encontro com as famílias-focolare (assim são chamadas, no Movimento, aqueles que estão dispostos a deslocar-se para habitar onde a Obra considera oportuna a presença de uma família para ajudar as comunidades nascentes) despertou em Fiorella o seu desejo juvenil de partir a outros países, e fascinou Andrea: assim deram a sua disponibilidade de partir. «Mas éramos um pouco como crianças pequenas, que dizem “quando crescer quero ser piloto de avião”. Talvez não estivéssemos muito conscientes daquilo que estávamos fazendo...», dizem hoje, repensando aquele momento.
A sua disponibilidade, de todo modo, não foi acolhida de pronto, e a vida seguia adiante. De outra parte, enquanto isso, Andrea havia construído uma carreira, tornando-se diretor de uma empresa na qual trabalhava; dois filhos haviam nascido, tinham quase esquecido de ter dado a disponibilidade. Assim, quando após quatro anos a proposta de partir concretizou-se, chegou improvisamente, tanto que tinham acabado de realizar uma reforma em sua casa. O tempo transcorrido, de todo modo, não foi inútil: o seu caminho de fé se havia reforçado, tanto que cada um deles havia pedido de entrar e fazer parte da comunidade dos consagrados (no movimento dos Focolari esta possibilidade é contemplada também para os casados, na forma adequada ao seu estado, e a escolha é de toda forma individual, não do casal).
Naquelas condições tiveram de preparar os filhos: Maria Giovanna tinha oito anos, e Ivan cinco, e não era de fato óbvio que tivessem vontade de partir (o terceiro, Juan Diego, nasceria em Honduras). «Foi um período intenso», relembra Fiorella, «marcado também da dor. Minha mãe estava doente, e justamente ao fim de uma longa noite de vigília telefonaram-nos para dizer que uma pessoa do movimento havia colocado à nossa disposição uma casa lá. Parecia um absurdo; repensei a passagem do Evangelho, “... mas tu vem e segue-me... deixa que os mortos”, e improvisamente pareceu-me aplicável ao pé da letra». Dois dias depois a mãe morreu, e seis meses depois os Turatti partiram para Tegucigalpa, a capital de Honduras. Mas se se lhes pergunta que coisa se propunham realizar, respondem que não sabiam. Não tinham um projeto preciso, mas somente uma motivação: «movia-nos o mesmo princípio que nos moveu quando começamos a ter uma consciência de fé: amar os outros, difundir aquele amor que Jesus gera em meio a nós», explica Andrea.
Também eles, como todas s famílias tinham diante de si problemas práticos e incógnitas. Para Andrea tratava-se de deixar o trabalho, e era um bom trabalho, e mesmo seus colegas tinham já começado a fazer brincadeiras pela escolha que estava fazendo. O apartamento foi alugado a uma família estrangeira que tinha absolutamente necessidade de uma casa (de outra parte a idéia era partir por um ano para fazer, digamos, uma espécie de experiência de prova). Não falavam nem mesmo a língua. Sabiam somente que lá, em Honduras, teriam encontrado uma pequena comunidade focolarina que lhes teria acolhido, e que havia uma casa pronta para eles.
A comunidade era realmente pequena, sete pessoas apenas, e o impacto com o novo ambiente não foi fácil. Não facilitavam nada a nova vida os problemas de higiene e a necessidade, por exemplo, de desinfetar regularmente a casa para eliminar os insetos portadores de doenças; o dever de ferver a água antes de bebê-la e o alimento diverso («comemos a primeira pizza após um ano, porque não podíamos nos permitir»); as primeiras doenças; a inserção escolar das crianças («eram classes com mais de 60 crianças e por vezes vinham a casa com hematomas, porque haviam apanhado»); as dificuldades econômicas. A escolha dos focolarinos, de fato, é que as famílias, podendo, se sustentem por si sós: quem se transfere pela Obra, portanto, deve buscar um trabalho no local ao qual foi enviado (mesmo se o movimento intervém caso isso não seja possível). Nos primeiros tempos os Turatti tiveram de recorrer à liquidação que Andrea havia recebido no momento de sua demissão, porque buscar um trabalho, qualquer que fosse, revelou-se logo uma tarefa quase impossível. E quatro meses em casa foram um problema não só econômico, mas também humano: não era fácil, para alguém que havia sempre trabalhado, aceitar este novo status (nos sustentava neste sentido o ter dito sim a Deus sem esperar nada em troca). Ao fim um trabalho chegou, mesmo se como simples ajudante de armazém; mas o importante era começar, e após um pouco de tempo, na seqüência de uma série de circunstâncias quase incríveis, chegou finalmente um contrato para um trabalho muito melhor.
Um dado de fato que os sensibilizou, no início, foi o contraste entre a presença de poucas pessoas em boas condições sociais e a interminável multiplicação de barracos em que vive a população pobre. As dificuldades de relacionamento entre as classes sociais, entre outras coisas, refletia inevitavelmente também dentro da pequena comunidade focolarina.
«Por sorte, nos sustentamos entre si, fomos uma família unida», comenta Fiorella. «Levamos sempre conosco os nossos filhos, mesmo se nas situações mais estranhas e, por vezes, perigosa», acrescenta Andrea. Como na vez em que se aventuraram em uma colina absolutamente revestida de barracos a fim de procurar uma família da comunidade que há um certo tempo estava sumida da comunidade. E não sabiam eles, chegados há poucos meses, que era perigoso para dois gringos circular por aquelas vielas, porque se arriscavam a ser agredidos e passar por situações desagradáveis. Mas a sua imprudência, na realidade, abriu uma estrada que percorreriam proficuamente, porque continuaram a andar entre os barracos, e a buscar gente pobre, a levar ajuda, mas sobretudo a estabelecer relacionamentos. «Foi uma escolha fundamental, porque de outro modo havia o risco de que nos mancomunássemos aos outros estrangeiros, que normalmente fazem parte da alta sociedade, e que portanto nos recusassem. Porém, vendo-nos entre eles, viram-nos sob outra luz», explica Andrea. «E nós apostamos na possibilidade de juntar ricos e pobres, em torna à Palavra de vida (um comentário a uma frase do Evangelho que no movimento dos Focolari se busca viver todos os meses). Não nos apoiávamos em uma paróquia, não havíamos estrutura: tínhamos somente a nossa casa e nós mesmos», continua Fiorella. «Tínhamos começado a encontrar as pessoas, a falar deste Jesus vivo em meio a nós. Trocávamos experiências, e era estranho escutar, ao mesmo tempo quem ia comer em um restaurante e quem não tinha o necessário para sobreviver. Porém tanto uns quanto os outros vinham à nossa casa, gerando a realidade de uma única família entre todos».
Era em sua casa que, entre outras coisas, realizavam-se todos os encontros e as reuniões, ao menos no começo. «Depois começamos a ser chamados para encontrar alguns pequenos grupos nas paróquias, ou então em outras casas, ou onde quer que se reunisse um grupo de pessoas. Logo iniciou-se também uma bela colaboração com os outros movimentos presentes na diocese e com o bispo, que nos envolveu em algumas atividades da diocese, compreendida a preparação do congresso eucarístico». De todo modo a comunidade focolarina crescia, e entravam nela pessoas que provinham de seitas, ou das filas das testemunhas de Jeová, das Igrejas da “última hora”... por vezes também de outras experiências eclesiais que haviam vivido com menos convicção».
Andrea e Fiorella tinham também alargado o território do qual se ocupavam, e iam aos países em torno, sobretudo nos fins de semana, para seguir os grupos que pouco a pouco nasciam, freqüentemente atingindo zonas perdidas, nas quais não havia sequer água potável e ainda menos luz elétrica, e onde encontravam talvez seis, sete pessoas. Mas o trabalho dava frutos: o ser finalmente conhecidos, e também reconhecidos como focolarinos, facilitava as coisas; e também quando começaram a organizar as Mariapoles. Os relacionamentos estabelecidos nas longas viagens dos fins de semana faziam com que participassem também pessoas que deviam enfrentar horas de viagem: para as Mariapoles, que duravam três dias, chegavam a reunir-se 250 pessoas.
«Na medida em que seguíamos adiante dávamo-nos conta do quanto era ocidental a nossa cultura», diz Fiorella. «Não é a Palavra de Deus, somos nós que devemos nos adaptar culturalmente», continua Andrea, «para anunciá-la mais eficazmente. Gradualmente, aprendíamos a compreender as pessoas, e, assim, compreendíamos também como propor a nossa mensagem. Por exemplo, eles tendem a nunca dizer não para não ofender ou parecer muito descorteses, e nos tomou tempo até aprendermos a distinguir o sim verdadeiro daquele que era cortesia, que na realidade era um não». «A coisa mais importante, e também mais bela, é viver com eles», conta Fiorella. «Havia uma senhora de S. Pedro Sula, que vive a cinco horas de Tegucigalpa. Havia vindo a um encontro enfrentando todas aquelas horas de viagem junto ao filho deficiente. Naquelas ocasiões dormíamos todos, nós e eles, em uma escola, sobre colchões que havíamos jogado sobre a terra após ter deslocado os bancos. À noite esta menino era inquieto, e nós havíamos feito um pouco de turnos para cuidar dele. Ao fim, a mãe nos disse: “este filho eu mantinha sempre escondido, mas agora entendi que também ele é filho de Deus”. Agora ela e o marido guiam a comunidade de S. Pedro Sula. Poderíamos contar tantas destas histórias de pessoas que foram conquistadas pelo amor e por sua vê conquistaram outras, sempre por amor».
Andrea e Fiorella conduziram também várias atividades de formação para a família e formação religiosa. «Nos baseávamos, obviamente, sobre o estilo focolarino, e usávamos os subsídios e os materiais nossos ao lado daqueles oficiais da Igreja». Deste modo seguiram-se grupos de famílias (onde vários casais de fato regularizaram com o matrimônio a sua união), grupos de pessoas solteiras, jovens e crianças pequenas; nasceram de fato os GEN 3 e os GEN 4.
Estes últimos nasceram também graças a Maria Giovanna e Ivan. «A presença das crianças foi fundamental, antes de tudo porque permitiu-nos uma vida normal», explica Andrea. «Os nossos filhos misturavam-se com os filhos dos outros, brincavam com eles nos barracos, faziam amizade. Tanto que haviam desenvolvido um sentido de igualdade que os mesmos hondurenhos não têm. Depois, à medida que cresciam, começaram a dar um contributo sempre mais consciente à vida do movimento naquele País. Com eles nasceram os GEN 4, porque contagiaram os seus amigos falando de suas experiências de amor concreto». «Eles nos seguiam por todas as partes, ns vilas como entre os barracos. Isto os levou, crescendo, a imitar-nos, a assumir espontaneamente os nosso mesmos compromissos», acrescenta Fiorella. «Naturalmente houve também momentos de cansaço: por vezes era pesada aquela vida em uma casa sempre cheia de gente, que arriscava a não nos deixar espaço para uma vida pessoal. Um dia era ao telefone e Maria Giovanna me disse: “certo, se também eu telefonasse, talvez me responderia”. Compreendemos então que deveríamos reservar momentos exclusivamente dedicados a eles, assim no domingo a noite nos concedíamos um sorvete, ou buscávamos uma piscina... mas estávamos juntos». «As viagens eram freqüentes e muito longas», continua Andrea, «e estes tornaram-se espaços também para nós, espaços nos quais podíamos falar, dizer aquilo que desejávamos, ou aquilo que não nos agradava em relação um ao outro...».
As viagens fazíamos sempre todos juntos, mesmo porque a situação de Tegucipalpa não permitia deixar as crianças em casa a sós: muita violência, muitas drogas, muitos perigos pelas ruas. Em certos momentos a disponibilidade dos filhos para ajudar os outros quase ultrapassava a dos pais: havia o perigo de que para ajudar os companheiros se metessem por sua vez em problemas, ou outras eram eles mesmos a pedirem a disponibilidade dos pais: «as pessoas batiam continuamente à nossa porta pedindo ajuda, e nós, quando podíamos, os ajudávamos dando comida. Uma vez que já não agüentávamos mais, ao sentir bater a enésima pessoa dissemos: “chega!”, mas Ivan replicou: “mas é Jesus que bate!”».
Em Honduras os Turatti permaneceram por oito anos. Depois sentiram a necessidade de voltar, até porque Maria Giovanna havia completado os graus superiores, e a única possibilidade de continuar a estudar era ir embora de Honduras. Começava a época dos namoros e eles começaram a perguntar-se sobre o futuro dos filhos, sobre a sua possibilidade de construir uma família ali, naquele ambiente tão difícil... Era hora de voltar, mesmo se Andrea temia, após tantos anos no exterior, não encontrar trabalho. Encontrou-o logo, porém, em Milão. Mas quando o movimento propôs-lhe morar e trabalhar na Cidade Nova, revista do Movimento dos Focolari, e atualmente ao Centro do Movimento Famílias Novas, expressão do Movimento dos Focolari relativa à família, aceitou, mesmo se isto implicava receber um estipêndio menor com relação àquele que receberia voltando a trabalhar em uma empresa.
Não obstante, a volta não foi fácil. «Após tantos anos não era um voltar, mas um partir. As crianças sentiam-se hondurenhas: Ivan tinha já 13 anos e Maria Giovanna 16; não faltaram problemas de adaptação e, entre outras coisas, não pode inscrever-se na Universidade porque era jovem demais... Mas aceitar a proposta que vinha do Movimento nos parecia um modo de continuar a estar a disposição de Deus», disse Andrea. «E estamos contentes, porque cremos ter feito uma experiência privilegiada, e porque vemos que, ainda hoje, os nossos filhos buscam Deus todos os dias», conclui Fiorella.
Que podemos dizer; cremos firmemente que Deus tem um desígnio belíssimo para cada um de nós, o importante e aderir a ele. Certamente nestes anos Jesus pediu-nos muito; tudo. Mas não terminaremos nunca de agradecer a Deus e Chiara (a fundadora do Movimento dos Focolari) por nos ter lançado nesta maravilhosa revolucionária e divina aventura, por nos ter metido no coração o desejo de amá-lo e seguí-lo. Temos somente uma vida, queremos gastá-la em alguma coisa que valha a pena, custe o que custar, e sermos assim, como diz Chiara, “colaboradores de Deus a fim de doar a humanidade vida e amor”.

Antonella e Luca: da Itália missionários no Quênia
Luca: Estivemos na África dois anos, como voluntários e ao serviço do Movimento dos Focolari. Aqueles anos tiveram uma importância na minha formação de homem e de cristão empenhado a viver a espiritualidade da unidade, típica do Movimento.
Parti para o Quênia sozinho. Antonella me encontraria cerca de dois meses depois com a menina. Vi-me projetado em uma realidade formada pela pobreza, injustiça, doença, mas também pela simplicidade, a alegria: aquilo que me sensibilizava é que as pessoas pareciam-me felizes e em harmonia com o mundo dentro e fora de si. Na noite mesma de minha chegada vi-me no hospital onde viria a oferecer meus serviços a mais de 50 km de casa, com um conhecimento do inglês muito precário e com uma preparação para enfrentar aquele mundo bastante escassa, mas com a sensação de ter diante de mim uma ocasião única, quase a possibilidade de recomeçar tudo do zero.
Os primeiros tempos foram transcorridos na preparação profissional à tarefa que deveria assumir. Sentia-me inadequado mesmo sob este perfil, porque na Itália era especialista em um ramo, ao passo que lá deveria enfrentar todo tipo de patologia, inclusive a cirurgia.
As mais variadas experiências de acolhimento, de partilha e a tensão de manter-me em unidade com o lar haviam-me preparado para este momento, mas não foi fácil adequar-me à cultura, às exigências das pessoas com as quais todos os dias tinha trabalho; tive que esquecer os meus modos de pensar europeus, eficientíssimos, lógicos, e dar espaço a pessoas que antes do hospital buscavam a ajuda de feiticeiras, a pessoas que, interrogadas se tinham dor em um certo órgão respondiam: “É você o doutor; você que deve me dizer que coisa eu tenho”.
Certamente, não obstante os meus esforços, cometi muitos erros. Relembro esta experiência dos primeiros dias... No hospital, uma rapaz afetado pela osteomielite tinha acabado de saber que deveria transcorrer um longo período na cama. Vi-o triste e desencorajado e, buscando consolá-lo, dei-lhe um rádio portátil e vi o sorriso retornar ao seu rosto. Pensava ter feito a coisa justa, com generosidade, mas falando em seguida sobre isto em casa, com delicadeza fizeram-me entender que não era aquele o caminho, não era dando um objeto do qual, além de tudo, me veria privado, que encontraria o relacionamento com ele. Nos meses seguinte tornou-se sempre mais claro para mim que tinha me arriscado a cair no erro de quem quer ajudar sem entender que a cada povo devemos o respeito pela sua dignidade e que somente isto nos pode tornar iguais e portanto capazes de reciprocidade.
Algum tempo depois fui chamado para uma delicada operação cirúrgica em um hospital perdido no Norte do Quênia, na região onde vivem os Samburu. A viagem foi longa e desagradável. Na volta trazia no coração um dito que havia ouvido lá: “Aliviar a dor é coisa de Deus”. Pensava em tantos de meus colegas na Itália, tomados por outros problemas, e todavia tão sensíveis a este misterioso fascínio que está na consciência social do médico. Parecia-me intuir nesta frase uma resposta a esta exigência. No encontro com a cultura africana sentimo-nos freqüentemente pobres e impotentes, mas sempre vigilantes a fim de não sobrepor e impor o nosso modo de ser, a nossa cultura ao patrimônio do outro.
Com alegria aprendi a respeitar a cultura africana, a compreender que o nosso modo de viver e de pensar, para eles é freqüentemente estranho e os faz sorrir; descobri tantos valores que são vividos de modo radical e entre estes a unidade do homem entre o seu ser o ser de Deus.
A sua vida é profundamente permeada por Deus, fincada no sacro. Aquelas sementes do Verbo que Chiara Lubich, a fundadora dos Focolari, descobriu na cultura africana e que intuiu ser fruto do Espírito, ajudaram-nos, através de sua aplicação na vida e no relacionamento de todos os dias, a compreender, respeitar e amar o povo que nos havia acolhido.
No Quênia, um dos provérbios que freqüentemente se houve, referido às mais diversas situações, é: “Aquilo que custa pouco, vale pouco”.
Custaram-nos seguramente estes anos, tanto trabalho, incertezas, nostalgias, falta de bens materiais, riscos para a saúde nossa e dos filhos, mas nós fomos transformados por esta experiência, aprendemos a sofrer mais pelos outros, a crer, além das circunstâncias, a descobrir a obra de Deus nos eventos de todos os dias, e nos encontramos reforçados, seja na vida de casal, seja na família, mais abertos aos outros, porque mais capazes de escutar a nós mesmos, de viver o outro. Pois bem, creio que a nossa experiência possa ser justamente sintetizada naquele provérbio: “custou-nos muito, valeu muito”.
Antonella: Aquilo Chiara Lubich nos disse sobre importância da interação cultural com outros povos, fez com que víssemos mais bela, mais significativa a nossa preciosa experiência africana. O primeiro ensinamento neste sentido o recebemos do Eterno Pai, que nos deu como sinal a nossa primeira filha, nascida um pouco antes da nossa partida: para a cultura africana, de fato, que dá um grande valor à maternidade, eu como mulher sem filhos não teria sido bem aceita.
Por isto crianças e mães ocuparam logo um lugar privilegiado em meu coração. Observando o mundo do qual havia vindo, permaneci sempre impressionada ao observar com quanta delicadeza as mãos das mães africanas, habituadas a trabalhos pesados, manejam um recém-nascido. As mães, lá, segundo um comportamento em uso, não acariciam nem beijam os seus filhos, mas mais que em outros lugares a mãe e a criança são uma coisa só, mesmo fisicamente. Ela o leva nas costas a todo lugar: ao campo, à Igreja, à feira. Mas as crianças crescem boas e não fazem manha, porque se contentam com pouca coisa.
Por uma exigência forte de assumir dentro de mim a cultura, os valores, as esperanças, e as misérias deste povo, ajudei e encorajei Luca e abrir uma clínica de infertilidade (e os seus colegas, embora conhecendo bem o problema, haviam sempre se recusado a ocupar-se disto, porque na África há já tantas crianças) e grande era a nossa alegria quando, graças a tratamentos mais adequados, conseguíamos dar a uma mulher humilhada, aviltada e repudiada pelo marido, porque estéril, a felicidade de tornar-se mãe. Sabíamos que aquela mulher retomaria o seu lugar na família, na tribo e na sociedade.
Se nos machucava o fato de que a sedução do consumismo ocidental criasse também neste povo necessidades artificiais, pelas quais estes renunciavam à simplicidade incomparável da sua vida, notávamos e valorizávamos a sabedoria pacata dos anciãos, tornados especialistas pela vida. Relembro um encontro particularmente significativo pelo ensinamento que me deu: a um velho kikuju, recuperado no hospital de uma gravíssima asma bronquial, uma enfermeira recordava que as próximas chuvas trariam um recrudescimento da sua doença. “Paciência”, teria respondido ele de pronto, “estarei mal eu, mas a chuva será uma benção para todos: após tanta seca teremos finalmente uma boa colheita e alimento para os nossos filhos que por ora sofrem com a fome”.
Nesta resposta vi exprimido o sentido comunitário tribal que antepõe sempre o bem de todos ao do indivíduo, e não é acaso este um valor do Evangelho?
São poucos dois anos em confronto com uma vida, mas permaneceu dentro de nós a sua simples alegria de viver, a sua extraordinária capacidade de adaptação a situações difíceis, a sua hospitalidade. Fomos em busca, em sua casa, de uma família que habitava fora da cidade, em uma zona bastante quente, de modo que pensamos em levar conosco uma garrafa d’água para nossa filha Sara, que na época tinha dois anos. Não há água corrente naquela zona, e aquela que é utilizada é a da chuva, recolhida em depósitos de uma estação das chuvas à outra. Para nós europeus é decididamente perigosa, mesmo porque somos escassamente imunizados contra todas as doenças que se poderiam contrair bebendo-a, de modo que pensávamos que teríamos de evitar beber naquele dia.
Na nossa chegada compreendemos o quanto éramos esperados e com qual amor concreto. No almoço, para cada um de nós três, havia uma garrafa de coca-cola. Olhamo-nos comovidos e conscientes que o tornar-se um pode ter raízes somente no céu.
Um dos aspectos da cultura africana com o qual tivemos de nos fazer um é o sentido do tempo. Para quem é obrigado a conviver com as estações mais do que com o relógio, um compromisso a uma certa hora é inconcebível. Uma vez estávamos em Meru, uma cidade a cerca de 300km de nossa casa, a fim de encontrar a comunidade do Movimento que era ali numerosa. O encontro deveria começar as dez da manhã, mas as pessoas chegaram por volta da uma. Havíamos raciocinado ao modo europeu, e não havíamos levado em consideração que para chegar à missão deveriam percorrer horas de estrada a pé.
À noite, no momento de partir, tivemos, ao contrário, de nos apressar, porque no escuro as estradas não são seguras e porque nos esperavam no hospital e sabíamos que ficariam preocupados de não nos ver no horário marcado. Uma família que habitava próximo convidou-nos a ir à sua casa para nos mostrar e porque queria nos doar produtos da sua terra.
Tais momentos nos educaram a viver com solenidade o instante presente, sem preocupações com o futuro, seguros do amor de Deus. Uma experiência forte para mim foi o impacto com aquela grande pobreza e com a dor que dessa deriva. Uma noite era já tarde e Luca não retornava a casa. Fui ao hospital. Luca era com uma criança somali que morria por desnutrição. Foi um momento duríssimo para mim: estar próxima a esta pobreza sem poder fazer nada. Parecia-me ler sobre o seu rosto sofrido toda a dor de um povo.
Um povo (porque é o número que impressiona) que anda horas a pé sob o sol para ir ao trabalho; um povo que trabalha com paciência os pedaços de metal para conseguir alguns utensílios de cozinha para vender. Veio-me dentro a revolta contra a injustiça e contra a nossa sociedade do bem estar que o permite, até que me lembrei que Jesus viu-se impotente, Ele que era filho de Deus. Amando porém este senso de impotência salvou a humanidade. Creio que a escolha de amar Jesus na Sua máxima dor, experimentada na cruz, quando se sentiu abandonado pelo Seu próprio Pai, então, como agora, para mim é a maior contribuição que se possa fazer a fim de que o mundo encontre a unidade, concretizando aquele amor que Jesus nos deixou como Seu mandamento.
No Quênia vivíamos no Hospital Nazaré, onde Luca realizava a sua obra de médico missionário. Todas as manhãs Warimu me trazia leite fresco. Falava só Kikuiu, mas – não sei como – conseguiam se comunicar profundamente. Assim quis dizer uma coisa que era muito importante: seu filho tinha quatro mulheres e onze filhos. Ela, atraída pelo testemunho de uma família cristã como a nossa, queria nos falar do matrimônio cristão, mas não sabia como fazê-lo: na época havíamos encontrado um modo de transmitir a ela esta mensagem. Passado um outro ano nós tivemos de retornar para a Itália. Não tive mais contatos com Warimu, exceto pelas notícias que nos chegavam de amigos do hospital. Retornando ao Quênia após cinco anos, com todos os filhos, que então haviam se tornado três, fomos ao Hospital Nazaré onde encontrei Warimu: um encontro belíssimo, verdadeiro, como se não nos tivéssemos jamais nos afastado. Ela chama alguém que a possa traduzir, porque tem uma coisa importante a dizer-me: seu filho converteu-se ao Cristianismo e casou-se com uma das quatro mulheres. É inacreditável. Esta conversão de vida era também para ela o fruto da unidade entre nós. Realmente nada é impossível a Deus, se estamos unidos em Seu nome.

CAMINHO NEOCATECUMENAL
Vicente e Imaculada: da Espanha missionários na Costa Rica
Em outubro de 2000, no âmbito do Jubileu das Famílias, o nosso amado Papa João Paulo II diante de milhares de peregrinos enviou cento e nove famílias pertencentes ao Caminho Neocatecumenal a evangelizar por todo o mundo. Estas famílias haviam vivido precedentemente um período de convivência em Porto S. Giorgio (Itália) onde se havia também realizado o sorteio de suas destinações nos cinco continentes. Uma daquelas famílias era a nossa: Eu, Vicente, minha mulher Imaculada e 7 filhos que havíamos então (hoje temos 11), da paróquia da “Sagrada Família de Torrent” (Valência, Espanha).
A nossa destinação era um pequeno país da América Central chamado Costa Rica, de onde Monsenhor Hugo Barrantes Ureña, Bispo da nova diocese criada a Puntarenas (1988), havia feito um pedido de famílias que o ajudassem a evangelizar.
A nossa missão? Tentar viver como a Sagrada Família de Nazaré: com simplicidade e com humildade, louvando o Senhor e vendo “no outro” o Cristo. A Costa Rica é um país onde a figura do chefe de família está a ponto de extinguir-se, onde inteiros bairros são habitados por mulheres solteiras, que vivem juntas a vários filhos de pais diferentes e onde são poucas as famílias que não sofreram abusos e violência da parte de um dos próprios componentes, de algum vizinho ou de conhecidos. A Igreja nos pedia simplesmente de viver ali, com a ajuda de Deus, unidos e fiéis. Nesta zona as seitas abundam. Na nossa rua as únicas duas casas católicas eram as de uma senhora anciã e a nossa; o resto das casas eram habitadas por testemunhas de Jeová, protestantes, etc.
Na nossa casa, que tinha o teto feito de tábuas, como todas as outras, convivíamos com todo tipo de animais: iguanas sobre o teto, serpentes no jardim, ratos, aranhas, belíssima variedades de colibris, esquilos, etc. Muito próximo a nós havia um cárcere e toda vez que passávamos por ali sentíamos o desejo de anunciar o amor de Deus. Todas as sextas-feiras acompanhávamos o Vicário da paróquia para assistir os encarcerados. O índice de violência era muito alto e para entrar na cela ao início éramos escoltados por oito guardas. Lembro-me que uma vez estas guardas tiveram de criar uma divisão entre aqueles que queriam nos escoltar e aqueles que não queriam. Aqueles que não queriam saber nada da Igreja católica gritavam para nos impedir de sermos escoltados. Eu, que tivera uma juventude muito difícil no mundo da droga, da qual Deus me havia libertado, entendia os encarcerados perfeitamente. Contei-lhes a gritos de onde me havia tirado o Senhor e disse-lhes que havia a possibilidade de que Deus regenerasse também a eles... Então começaram a escutar-me e com o passar das semanas nos respeitaram sempre mais. Mesmo se não fazia parte dos nossos projetos, propusemos ao pároco, ao Bispo e aos responsáveis itinerantes, de anunciar o Evangelho aos encarcerados constituindo pequenas comunidades no interior do cárcere. Esta experiência havia já sido tentada em um cárcere italiano e havia dado ótimos resultados.
Deus arrombou as portas do cárcere e assim começamos a catequese para adultos juntamente a um grupo de catequistas. Entre enormes dificuldades criaram-se diversas comunidades e isto reduziu muito o nível de violência no interior do cárcere porque, uma vez constituídas, eram os mesmos encarcerados que as compunham a evangelizar aos outros. Quando antes devíamos ser escoltados por 8 guias, agora nos bastava somente uma.
Na Costa Rica os cursos para o batismo se articulam em 10 encontros obrigatórios. Nós, que estávamos na paróquia para ajudar o pároco, ocupávamo-nos também destes cursos, aos quais dávamos um caráter fortemente kerigmático, sem esconder que a origem da frustração do homem era no pecado, e predicando que Deus vinha em socorro daqueles que acreditavam no poder divino de mudar as suas vidas. Um jovem casal que nos escutava com muita atenção terminou o curso com grande satisfação. Alguns anos mais tarde os encontramos e a mulher nos cumprimentou afetuosamente sem deixar de nos agradecer pelos cursos. Mais tarde soubemos que naqueles tempos seu marido era-lhe infiel e que graças à nossa catequese havia renunciado ao adultério, havia entrado em uma pequena comunidade paroquial e haviam tido diversos filhos.
Durante uma catequese no cárcere disse aos detentos que quando descobrissem Cristo ficariam descontentes até mesmo de deixar o cárcere... Naturalmente puseram-se a rir e houve uma grande confusão... Os ciclos de catequese concluíam-se com um período de convivência. O senso de união com que o Senhor nos presenteava era de tal modo forte que uma semana antes que começasse este período de convivência aproximei-me de um dos detentos que me confessou estar triste porque voltava à liberdade um dia antes do início este período de convivência e queria que eu falasse com o diretor do cárcere para deixá-lo permanecer alguns dias a mais... Queria permanecer outro dia após uma condenação de 17 anos! A esmagadora verdade é que aquilo que nos rende prisioneiros não são muros com cancelas, mas a ausência de Cristo no coração. Com Cristo somos livres. Sem Ele vivemos como escravos. Aquele detento havia compreendido muitíssimo bem.
Nestes cinco anos de missão passamos por muita coisa: incidentes, doenças tropicais como a dengue – pela qual fomos internados no hospital, eu e alguns de meus filhos –, febres de todo tipo e grandes dificuldades econômicas. Mas tivemos também grandes alegrias, como a de ver tantos esposos reconciliados e também o nascimento de dois casais de gêmeos – motivo de perseguição em um País onde é normal que os médicos pratiquem nas mulheres a ligação das trompas, em muitos casos sem sequer pedir o seu consentimento. Lembro-me bem que quando estavam para nascer os meus gêmeos (décimo e undécimo filhos) eu estava na sala de espera e o médico que deveria praticar a cesárea em minha mulher saiu irritadíssmo perguntando pelo pai dos meninos... Disse-me com grande irritação que minha mulher havia recusado a ligação das trompas após tantos filhos. Este é um modo de ferir a maternidade brutalmente: no momento em que a mulher é mais fraca, logo após o parto, ela é persuadida a interromper a vida para sempre... Inma, minha mulher, saiu chorando da sala de parto, abatida entre a alegria e a dor, como alguém que após ter sustentado um longo combate sabe ter saído vencedor.
Retornamos a Valencia há alguns meses, em tempo para esta providencial visita de Sua Santidade Bento XVI para o Encontro das Famílias; e digo providencial porque não é esta a Espanha que deixamos para trás há cinco anos. Retornando, deparamo-nos com outra missão. Se na América Latina são a pobreza e a sede os grandes desafios a serem superados, aqui há verdadeiros perigos como o comunismo, o consumismo, o hedonismo e tantas outras coisas similares. É realmente um desafio manter e viver segundo as próprias convicções religiosas. O ataque à vida a à família é feroz. Esperemos portanto na palavra do Santo Padre que nos conforta e nos ajuda a manter viva a chama da Fé.

FAMÍLIAS MISSIONÁRIAS LIGADAS ÀS PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS
Na América Latina
Com relação ao objetivo da Pontifícia Obra Missionária da Propagação da Fé de prestar particular atenção à formação missionária da família, prestamos este serviço já há tantos anos e de modos diversos com o resultado de ter obtido o compromisso missionário de tantas famílias na nossa Igreja Argentina e fora dessa. Deste modo estas famílias respondem “quando chamadas a serem sinal missionário para aqueles que estão longe, para famílias que não crêem ainda e para famílias cristãs que não vivem em sintonia com a fé recebida” (Familiaris Consortio).
A primeira família missionária partiu em 1991 para a diocese de Xai-Xai (Moçambique) onde adotaram uma criança de seis meses que havia sido abandonada pouco depois de um ataque da guerrilha. Outras famílias prestaram o seu serviço em Madagascar, na Índia, em Angola, e outras ainda se preparam para partir além das fronteiras da sua pátria.
Nos dias 15 a 17 de julho de 1995 realizou-se em Belo Horizonte (Brasil) o primeiro Encontro das Famílias Missionárias da América Latina, no âmbito do V Congresso Missionário Latinoamericano (COMLA V), do qual participaram famílias da Argentina, do Brasil, da Colômbia (País organizador), do Equador, de Honduras, do Paraguai, do Peru, da República Dominicana e da Venezuela. O primeiro e o Segundo Encontro Nacional das Famílias Missionárias (1995 e 1996) foram realizados nos locais das POM de Buenos Aires.
No Primeiro Congresso Nacional (1997) estiveram presentes 24 famílias missionárias e tantas outras participaram do Segundo Congresso Missionário Nacional, realizado em Mar del Plata, no COMLA VI-CAM 1 (Argentina), no COMLA VII-CAM 2 (Guatemala) e no ECOLMI 3 (Panamá). Este ano se realizam os encontros missionários regionais, onde haverá o setor das Famílias Missionárias.
Nestor e Silvia: na Argentina missionários entre a população aborígene do Chaco
A minha família é composta por mim, Nestor (Médico), minha mulher Silvia (Profesora de Biologia) e os nossos três filhos. Movidos pelo ardor missionário começamos a trabalhar em uma comunidade terapêutica para a recuperação e a cura de jovens que faziam uso de drogas; uma das atividades da “Legião de Maria” da diocese de Loma (Zamora).
Todos os domingos levávamos os jovens à Missa na paróquia local e quando tornávamos à comunidade, sendo que enquanto eu realizava as conversas individuais ou me encontrava com o grupo de auto-ajuda, Silvia ensinava-os a trabalhar na horta e no jardim, a cuidar das galinhas e coelhos e a preparar as refeições na cozinha. Também os nossos filhos tinham uma tarefa: os dois maiores ajudavam a fazer as tarefas com os jovens que estavam terminando a escola elementar ou média e a pequenina era um pouco a irmãzinha de todos e os entretinha com as suas travessuras.
Quando na Argentina começou a epidemia da cólera começamos a colaborar, através das irmãs de “Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Jesus de Castres”, com a população creola e indígena de “wichi”, na impenetrável zona rural da província do Chaco. A nossa ajuda foi em princípio unicamente de tipo solidário, mas na Páscoa de 1996 fomos a Sauzalito e nas aldeias vizinhas, e, vivendo esta realidade de perto sentimos a necessidade de oferecer também nós um apoio de tipo pastoral e evangelizador. A zona que depende da paróquia é muito vasta e as duas paróquias mais próximas estão longe 300km uma da outra. Desde 1996 a cada ano a visitamos em diversos momentos do ano. Em Sauzalito colaboramos nas atividades paroquiais e na vila de Tapalís (Tartagal). Eu ajudo a população como médico, minha mulher Silvia visita as mulheres aborígenes, e os meus filhos ocupam-se de brincar com as crianças e de dar a eles a merenda. Na capela, se vamos com um sacerdote, celebramos a Missa todos os dias, de outro modo, enquanto ministro extraordinário da Comunhão, celebramos a Liturgia da Palavra.
A nossa família alargou-se com a mulher de meu filho Gabriel e com o marido de nossa Filha Verônica, que se uniram à nossa atividade missionária aqui – Silvina, a menor é ainda solteira. Havíamos também começado a nos preparar com o nosso Diretor diocesano das POM para ir à Costa do Marfim, onde ele havia trabalhado três anos como missionário, mas a crise econômica do nosso País nos impediu.
Atualmente coordenamos um grupo missionário composto pelas famílias dos nossos filhos casados e por outros dois casais, com os quais prestamos serviço fora de nossa diocese.
Quando terminamos nossa atividade em comunidade, uma específica solicitação do pároco durante a Missa fez com que sentíssemos que a paróquia precisava de nós; daquele momento em diante somos o casal guia na catequese familiar.
Como família missionária, no nosso ambiente, nos nossos trabalhos quotidianos e nos lugares de missão damos testemunho da alegria de ser apaixonados por Cristo e da sua missão, e de quanto nos faz feliz compartilhar a fé e a nossa preparação com os nossos irmãos creolos e aborígenes wichi nos quais pensamos continuamente. Estamos aguardando a aposentadoria a fim de podermos dedicar mais tempo a eles, uma vez que a nossa missão é a 1700km de distância de nossa casa.
Augusto e Idalmy: no centro de Cuba uma “casa missionária”
No centro da ilha de Cuba, na diocese de “Santa Clara”, existe uma casa que abre as suas portas às pessoas do Reparto José Martí. Trata-se da casa da família de Augusto Alfredo Hernández Lorezo, composta pela sua mulher Idalmy Ruiz Acosta, pela sua filha Aneisi Hernández Ruiz, casada há pouco com Zacharit Hurtado Sánchez. Todos são missionários há mais de cinco anos.
Aneisi, que queria fazer alguma coisa além de freqüentar encontros de formação e as celebrações eucarísticas, viu esta possibilidade de oferecer a própria disponibilidade à primeira equipe missionária fundada na diocese. O ser testemunha da fé simples do povo da região a havia enchido de esperança e ela havia conseguido transmitir esta esperança aos seus pais, a tal ponto que ficaram bastante contentes de participar também eles deste compromisso pastoral. Visitando zonas muito pobres da Zona de Báez descobriram que as pessoas que encontravam conseguiam manter muito viva a sua fé, não obstante vivessem em condições de tanto desagravo. Idalmy conta por exemplo que uma senhora de 95 anos que a havia convidado a entrar em sua casa, dormia em uma cama sem colchão, mas mostrara orgulhosa todas as orações e todos os santinhos que conservava há anos. Nas zonas que visitava Idalmy faltava até mesmo um templo onde se pudesse reunir em oração, e ainda assim isto não havia impedido que a fé permanecesse tão viva entre o povo.
A sua casa é atualmente uma casa de missão que, estando muito longe da paróquia da cidade, é utilizada para celebrar a Eucaristia, para rezar o rosário e para o catecumenato dos jovens, adultos e crianças; uma das iniciativas pastorais que a Igreja cubana promove. Existem além disso mais de duas mil casas que funcionam como pequenas comunidades, muitas das quais desenvolvem também ações de tipo social a favor dos mais necessitados.
A cada ano as dioceses escolhem uma zona pastoral para realizar uma missão no verão, missão da qual a família de Alfredo participa regularmente. A missão tem início em 11 de agosto, festa de “Santa Clara de Assis”, Patrona da diocese, com o envio missionário da parte do Bispo. No dia seguinte as famílias partem para as casas-família que as deverão acolher. As pessoas empenhadas acordam cedo, rezam as Laudes e recebem a Eucaristia e em grupos de dois desenvolvem a sua missão “porta à porta” nas zonas que lhes foram designadas. À tarde, ao contrário, organizam encontros de iniciação cristã com as crianças, os adolescentes e os jovens que encontraram durante as visitas da manhã. A noite, ao contrário, é dedicada aos adultos.
Um outro grupo se ocupa das visitas aos doentes que não podem sair de casa. Idalmy diz que as crianças são muito pontuais e muito felizes de participar: “querem logo vir a nós e realizar missão, se fazem novas amizades e a atmosfera na zona torna-se muito serena”. Somos muito bem acolhidos, conta Augusto, mesmo quando visitamos pessoas que não são praticantes ou que não crêem. As pessoas nos demonstram afeto, gratidão e admiração. Oferecem-nos aquilo que possuem de melhor. A missão nos agrada tanto; mais do que o trabalho pastoral na paróquia.
Recebemos uma formação permanente para poder ser missionários. Uma sábado ao mês somos formados especificamente de modo que a nossa missão adquira uma qualidade. Quando chegam nos bairros e nas zonas rurais nos apresentamos com uma camiseta com a bandeira cubana e com a N. Sra. da “Caridade do Cobre”, patrona de Cuba. O povo nos abre as portas, nos pergunta que coisa fazemos e isto facilita o início de um diálogo evangelizador. A Missão conclui-se todos os anos com uma celebração na qual N. Sra. peregrina ocupa um lugar de honra. Os aplausos, as flores e as velas são todas sinais de afeto para com a santa imagem, que todos desejam tocar e levar nas costas. A religiosidade popular, que parecia adormentada, começa a despertar, conta Aneisi. Agora é preciso organizar novas casas de missão como a nossa.
Marco e Maribel: missionários entre as vilas mais pobres e perdidas do Equador
Vivemos intensamente dia a dia a nossa escolha, como uma resposta à situação de crise e de perda dos valores cristãos na qual nos encontramos. Propomos despertar as consciências de modo que as famílias descubram o verdadeiro sentido da vida através da experiência, do serviço apostólico e do encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo libertador; e a fim de que esta descoberta os leve a uma mentalidade nova, à realização de ações que transformem a realidade e tornando assim efetivo o mandamento missionário de Jesus Cristo: “Ide e anunciai a Boa Nova por todo o mundo...” Este mandamento para nós torna-se um imperativo: andai pelo mundo e anunciai o Evangelho em todo ambiente por onde vos moveis! Ide ao encontro do outro! É uma “obrigação” do batismo. É assim que a missão para nós tornou-se o projeto da nossa vida; um projeto quotidiano. Não somos missionários somente quando vivemos a experiência missionária nas vilas perdidas e pobres de nosso país, mas o somos também quando ultrapassamos os nossos limites pessoais e geográfico, e juntamente aos nossos filhos nos preparamos, rezamos, dialogamos...
Eu, Maribel, havia iniciado a minha formação nos grupos jovens da minha escola; experiência que logo amadureceu em mim a idéia de comprometer-me mais profundamente no auxílio aos necessitados, mesmo contra o parecer de meus pais, parentes e amigos que me diziam que era somente uma perda de tempo, que bastava freqüentar a Missa de quando em quando e realizar coletas no Natal para “doar” aos pobres.
Marco, sensibilizado por uma experiência de vida muito negativa, havia começado esta “loucura” de seguir Cristo no grupo juvenil da paróquia, também ele contra a opinião de todos aqueles que eram convencidos de que teria feito melhor em “dedicar-se a construir o seu futuro para ter uma boa posição econômica a fim de não sofrer tanto como naqueles momentos”.
“Juntos”, mas em lugares diferentes, havíamos iniciado o processo de educação à fé que, mais tarde, freqüentando os cursos, as reuniões de grupo e os períodos de convivência, teria permitido o nosso encontro. A Missa do nosso matrimônio durou duas horas e meia durante as quais fomos consagrados como “Família Missionária”. Finalmente havíamos encontrado não somente a pessoa que nos tornava felizes, mas sobretudo a pessoa com a qual compartilhar este sonho de ir além dos nossos limites onde quer que o Senhor quisesse nos mandar.
Havíamos já realizado a experiência missionária juntos quando éramos namorados, coisa muito gratificante, mas a primeira experiência como marido e mulher foi realmente maravilhosa. Maribel estava grávida de Naomi (que agora tem nove anos). Havíamos organizado cada coisa perfeitamente. O povo estava sensibilizado tão somente com a nossa presença, e nos demos conta de que o simples fato de nos apresentarmos como família era já de algum modo evangelizar. Agora há também Pauleth (6 anos) e Mateo (2 anos) e juntos nos dedicamos completamente à experiência missionária “ad intra” em cada parte do nosso amado Equador: costa, serra e oriente. Hoje com o frio intenso das montanhas e amanhã com o calor sufocante da praia ou da selva. Isto, porém, não conta; aquilo que conta é poder compartilhar com o povo o nosso maravilhoso encontro pessoal e familiar com o Cristo vivo; conta o dom de si em troca da felicidade do outro, de quem nos é próximo como de quem nos é distante.
Nada nos importa da fadiga das longas jornadas dedicadas às assembléias com os jovens e os adultos, as catequeses, a recreação com as crianças e as longas caminhadas para visitar as famílias. O importante é ter encontrado arrombadas as portas daquelas casas e dos corações daqueles que nelas moram; importam as confissões íntimas que nos faziam aquelas pessoas esperando de nós uma palavra de conforto.
Também nosso filhos Naomi, Pauleth e Mateo são missionários ao seu modo. Ensinam às crianças da comunidade o Pai Nosso, a Ave Maria e as outras orações enquanto nós falamos com os seus pais.
A nossa prioridade é aquela de ir ao encontro do outro. Não vemos a hora de partir, e na espera que chegue o momento buscamos viver o Evangelho todos os dias nas nossas atividades cotidianas, no trabalho, nos orfanatos, na escola, nas ruas, sobre os ônibus, etc., junto aos jovens com os quais dividimos a vida de fé. A nossa tarefa é de formar os jovens e as famílias.
As nossas famílias sempre se opuseram a esta nossa escolha. Mesmo após casados nos diziam: “agora que são casados devem ser mais conscientes”, “não devem expor as crianças”, “devem pensar no futuro”... mas depois, pouco a pouco, estas coisas foram substituídas por outras entre as quais: “temos necessidade de rezar”, “podem nos orientar nisto?”, “que são exatamente estas missões?”...
Lutamos para que nossas vidas sejam sempre mais coerentes com a nossa fé, para que nos tornemos verdadeiras “testemunhas” capazes de dar o que possuem e de viver aquilo que dão, e para que consigamos administrar melhor o tempo que dedicamos ao serviço missionário, à nossa atividade quotidiana, à oração e ao nosso ser esposos e pais.
Agora estamos nos preparando para uma missão ad gentes, mas ainda não sabemos aonde iremos: à África, à Oceania ou ao próprio continente americano. Iremos aonde quiser o Senhor. Estamos prontos para tudo. Nos abandonamos à Sua Providência. Sabemos que tudo isto implica “sacrifícios”, mas os aceitamos porque estamos convencidos de que Cristo, o missionário do Pai, nos acompanhará para sempre nesta grande aventura missionária. Coloquemos a nossa experiência nas mãos do Deus da Vida.
Os inícios de um grupo de Famílias Missionárias em Arica, no Chile
Em Arica, no norte do Chile, está nascendo um grupo de Famílias Missionárias. Estamos ainda no início e, portanto, até que o grupo não esteja consolidado devemos ainda nos considerar como uma expressão diocesana. Quando formos um grupo em uma outra diocese poderemos falar de grupo nacional.
Na paróquia do Cristo Salvador, na cidade de Arica, um grupo de pais, cujos filhos participam da Obra Pontifícia da Infância Missionária, acolhendo o desafio de João Paulo II na Encíclica Familiaris Consortio (“A família é chamada a ser sinal missionário para aqueles que estão longe, para aqueles que não crêem e para as famílias cristãs que não vivem coerentemente a fé recebida”) deram vida à Família Missionária.
Desde o início declararam-se um serviço das Pontifícias Obras Missionárias que, através da Obra da Propagação da Fé, colabora com toda a Igreja na sua missão de evangelização em seu senso missionário universal de modo que desenvolvam a sua missão de verdadeiras famílias católicas.
Encorajados pelo Monsenhor Héctor Vargas, Bispo diocesano, guiados espiritualmente pelo Padre Armando Andrade, Diretos Diocesano das Pontifícias Obras Missionárias e com o apoio dos esposos Juan Carlos Basay e Maria Elena Diaz, reúnem-se todas as semanas para preparar os argumentos a serem propostos às respectivas comunidades cristãs.
O seu método de trabalho é o mesmo seguido pelos filhos na Infância Missionária, isto é “A escola de Jesus”, as suas quatro fases: Catequese Familiar Missionária, Espiritualidade Missionária, Projeção Missionária e Vida de Família. O objetivo final é antes de tudo o de aumentar o compromisso de cada um para com Jesus e depois para com a Igreja, e para com os nossos irmãos. A família deve ser entendida como a primeira comunidade missionária, o primeiro e principal agente evangelizador que educa na fé, no amor e nas outras virtudes; e o termo não é referido à família tomada individualmente ou à comunidade paroquial, mas sim à humanidade inteira...” Ide e pregai o Evangelho ao mundo (Mt 28, 19-20).
Além de formar missionários, a Comunidade de Famílias Missionárias de Arica sustenta a formação de 200 chefes de família que são organizados para dar vida ao “Projeto de Habitação Católico Hasche Sanchez”, os quais se reúnem nesta mesma cidade todas as sextas-feiras em grupos de 12 a 15 pessoas para refletir sobre os ensinamentos de Jesus Cristo, porque seguir a Cristo significa identificar-se com os seus projetos, os seus comportamentos e com as suas escolhas; é ser instrumento do seu amor que libera; é crer n’Ele como o único capaz de nos fazer livres.
Além disso visitam as famílias mais necessitadas, vêem como se organizam e se distribuem, se ocupam daquelas que não possuem uma casa ou que sofreram a perda de uma pessoa querida... visitam os doentes e os anciãos e dão o seu sustento aos atos litúrgicos tais como procissões da primeira sexta-feira de todos os meses em cada paróquia.
Charles e Ysidmar: missionários na Amazônia venezuelana
Segundo o Diretor Nacional das POM da Venezuela, Padre José Romero Linares, na Venezuela não existe uma verdadeira organização de famílias missionárias no interior das POM, mas trabalha-se para que hajam famílias missionárias e para dar sustento a todos aqueles que sentem a vocação missionária.
Charles e Ysidmar são um casal de esposos convidados pela POM no Vicariato Apostólico de Puerto Ayacucho, na Amazônia Venezuelana.
Somos Ysidmar e Charles, um casal de esposos missionários da Venezuela. Charles nasceu no estado do Zulia e eu no de Portuguesa. Temos ambos 26 anos. Sou formada em filosofia e ele é engenheiro informático. Em 2 de agosoto festejaremos o nosso terceiro aniversário de matrimônio. Três anos durante os quais o Senhor nos concedeu todos os bens. A escolha que fizemos não foi sempre fácil, mas valeu à pena; uma coisa que construímos dia após dia, um dom, um compromisso, a nossa vocação e o projeto de felicidade que Deus tinha para nós.
Charles recebeu a sua formação cristã no Seminário Diocesano dos Pais Oblatos; eu, ao contrário, nos serviços de animação das Pontifícias Obras Missionárias (Infância e Missões Jovens). Quando nos encontramos e decidimos unir as nossas vidas tínhamos claro que o Senhor nos chamava a servir os nossos irmãos de modo completo. Não podíamos ser um casal dedicado ao trabalho e a si mesmos esquecendo a chamada de Deus de dar testemunho aos homens de Seu amor. Estávamos certos de que o Senhor nos havia dado a vocação ao matrimônio, mas também aquela de missionários ad gentes... O projeto de amor de Deus para nós era aquele de ser uma família missionária também além de nossas fronteiras.
O dia do nosso matrimônio foi o dia do sim definitivo a este projeto e a nosso Senhor. Começamos a nossa vida de casados no Vicariato apostólico de Machiques, do qual Charles é originário. Charles era docente em um liceu e eu trabalhava com a sua ajuda no Setor de Direitos Humanos do Vicariato. Juntos nos ocupávamos de dois municípios localizados em uma zona de fronteira muito perigosa do nosso país. Trabalhávamos com amor em uma comunidade muito pobre deste vicariato (indígenas e refugiados), mas era também um trabalho duro, porque naquele tempo nesta comunidade vivia-se um clima de grande violência em razão dos conflitos armados na fronteira com a República da Colômbia. O medo, as perseguições, a violência eram a ordem do dia nestas comunidades. Após termos compartilhado um ano com eles, nos propuseram ir à Amazônia, no vicariato de Puerto Ayacucho. Monsenhor Ramiro, Vicário de Machiques, no início não era tanto de acordo sobre deixar que fossemos. O vicariato de Machiques é muito vasto e o pessoal missionário é pouco. Após ter orado e refletido disse-nos: “Gostaria que permanecessem. O seu testemunho, como família, é luz para as outras famílias do nosso Vicariato. É verdade, somos um Vicariato pobre... mas, mesmo se pobres, mandamos missionários...”
As suas palavras nos encheram de alegria e assim, três meses mais tarde, partimos felizes à nossa meta de missão na Amazônia: S. Carlos do Rio Negro, na fronteira com a Colômbia, o Brasil e a Venezuela. San Carlos é uma pequena vila na selva, ao qual se pode chegar somente por via aérea; duas horas de vôo da capital do estado. Encontram-se vários grupos étnicos: Curripacos, Yeral, Baré, Baniva e Yanomami que convivem com os creolos.
Entre esta diversidade desenvolvemos o nosso apostolado: formação de animadores comunitários, catequistas; condutores de grupos juvenis e infantis; cursos para o povo; visita e assistência de 25 comunidades indígenas localizadas nas margens do Rio Negro e o Casiquiare. O compromisso mais importante: viver com o povo dia após dia entrando nas suas casas e nas suas vidas para que Jesus entrasse em seus corações.
Transcorrido quase um ano, Monsenhor Divasson, Vicário de Puerto Ayacucho, nos conduziu ao Alto Orinoco, em uma zona de prevalência Yanomami... Foi uma mudança radical. Após ter vivido com creolos e indígenas, passamos a viver na companhia do povo Yanomami em uma zona onde não há senão selva. Éramos uma comunidade de 11 missionários, entre sacerdotes, religiosos e leigos a serviço de quatro missões nesta vasta zona: Malaca, Mavaquita, Platanal e Ocamo.
A nós dois foi designada a missão de Mavaquita... tivemos de viver ali e tivemos a responsabilidade de conduzir esta missão... tivemos de nos ocupar da escola, da cooperativa dos artesãos e das costureiras, e do catecumenato; coisa bem diversa da catequese ao qual estávamos habituados nas nossas paróquias... E tudo isto sem nos esquecermos que teríamos antes de tudo de aprender a falar o Yanomami, porque os indígenas de Mavaquita têm pouquíssimo contato com o mundo creolo e são muito poucos os que falam espanhol. Graças a Deus os Yanomami nos ajudaram muito e em pouco tempo aprendemos as coisas mais necessárias para pode comunicar com eles, e aqueles poucos que falavam espanhol nos ajudavam com as traduções quando não compreendíamos mesmo.
Tantas vezes nos encontramos fazendo o papel de enfermeiros, de doutores, de mediadores nos conflitos. Existia um ambulatório, mas não havia um médico. Relembro em quantas ocasiões tivemos de socorrer os pacientes, de dia e de noite, crianças na maioria afetadas pela malária ou pela pneumonia... Eu que não sabia nada de medicina acabei tornando-me uma grande enfermeira!
Não é fácil viver entre os Yanomami, mas isto não depende tanto das características geográficas (acaba-se por se habituar as cobras, as aranhas e a todo tipo de animais) quanto das diversidades culturais, que por vezes tornam difíceis aceitar que se o outro pensa diversamente de mim é porque a sua cultura e o seu modo de ver o mundo são completamente diferentes do meu.
Em janeiro descobri que estava grávida de um mês. Foi um presente dos céus, algo que não esperávamos, uma alegria imensa para nós e para toda a comunidade que pensava já em um nome yanomami para o nosso filho. Decidimos permanecer em Mavaquita não obstante o risco de que esta escolha comportava... Deus teria pensado em nós... O nosso moto: prudência e providência.
No início de fevereiro, porém, desencadeou-se uma forte epidemia de malária no alto Orinoco, principalmente em Mavaquita, e a comunidade católica considerou prudente que abandonássemos logo a zona em razão de minha gravidez. Interromper a nossa amadíssima missão foi para nós uma grande dor. Os Yanomami insistiram muito para que permanecêssemos, mas estávamos certo de aquela era a vontade do Senhor, mesmo se por vezes é difícil aceitá-la.
Monsenhor Divasson nos reenviou a Puerto Ayacucho, capital do estado. Eu trabalhando na Secretaria para os Direitos Humanos e Charles no Escritório Técnico de Projetos... Estamos contentes porque estes dois departamentos trabalham para a inserção da comunidade indígena e a nossa experiência como família missionária nos serve de ajuda para desenvolvê-lo melhor. Em setembro nascerá o novo membro de nossa comunidade, Jesus Esteban, um pequeno missionário que completará a nossa família missionária.

FRATERNIDADE MISSIONÁRIA VERBUM DEI
Miguel e Saidy: família missionária no Peru
Somos um casal de missionários e pertencemos à Fraternidade Missionária Verbum Dei. Miguel Gutiérrez (48) e Saidy (33) Gutarra e três filhos: Ángela de 7 anos, Pablo de 5 e Mariana de 2. Somos casados há 10 anos. Quando nos casamos éramos muito apaixonados, mas não tínhamos um projeto claro para o nosso matrimônio, a única coisa que desejávamos era poder construir uma família feliz. E filhos aos quais poder oferecer o melhor, que para nós significava uma boa educação, e um nível social e econômico privilegiado. Não excluíamos o divórcio, por nós considerados uma solução razoável caso o relacionamento, um dia, não funcionasse mais. Buscávamos ter valores cristãos, mas não como alguma coisa de concreto a ser vivido, antes como uma boa moral praticável e como religiosidade possível. O nosso maior interesse era o de adquirir objetos e fazer carreira, e nos empenhávamos a conquistar estes objetivos a custo de qualquer sacrifício, buscando assim garantir um futuro melhor aos nossos filhos e a nós mesmos. Os estudos que havíamos feito, odontologia e direito, representavam para nós um horizonte a ser potencializado a fim de conquistarmos aquilo que queríamos obter.
Sentíamos, porém, a necessidade de dar um lugar a Deus entre nós. Nos primeiros cinco anos vivemos de modo dissipado, buscando sermos felizes, porém não conseguíamos, e não conseguíamos sequer experimentar aquilo que queríamos; ao lado da felicidade desejada havia um profundo senso de insatisfação. Agora nos damos conta de que não éramos capazes de imaginar que “seguir Jesus” e “optar” pelos valores do Evangelho pudesse ser o nosso caminho; sendo um casal, acreditávamos, erroneamente, que a plenitude do amor era reservada a pessoas especiais como os religiosos ou os sacerdotes.
A nossa busca de sentido nos levou a encontrar uma comunidade de missionários que se dedicava exclusivamente a difundir a palavra de Deus. Não eram somente meninos e meninas não casados, mas também casais que se dedicavam à oração e à pregação, viviam em modo simples e fraterno e emanavam uma alegria que até agora não conhecíamos. O segredo da sua vida era a oração, e nos fez o grande dom de nos ensinar a rezar e conhecer a Palavra de Deus, um Deus próximo, amigo e familiar. Descobrimos que em seu projeto redentor há os casais e nós éramos chamados a sermos luz para outros casais. Este projeto não somente preenchia todos os vazios, mas nos tomava de entusiasmo. A melhor coisa que podemos oferecer aos nossos filhos e a nós mesmos é a alegria de viver plenamente a nossa união amando-nos com um amor humano-Divino.
Demo-nos também conta de que, na nossa busca pela realização da nossa vocação enquanto casal, não tínhamos um grande conhecimento da verdade da fé e nem mesmo uma formação justa para responder à chamada de “como transmitir a fé?”, “Como evangelizar neste mundo de hoje? E os nossos filhos? E as outras famílias? Como ser luz?...” Assim iniciamos um intenso período de formação, de oração, de gestação e crescimento na fé. Pouco a pouco, com o calor da oração, e sem que nos déssemos conta, construímos das mãos de Deus aquilo que hoje é o nosso projeto de casal: viver dedicando-se à evangelização, consagrar a vida, não com isoladas atividades apostólicas, mas doando a vida à evangelização a partir da nossa realidade como família. Isto significa dedicar tempo à oração e a preparar a Palavra a ser transmitida, usando aquilo que temos de melhor: a inteligência, o afeto, o esforço, de modo que esta Palavra chegue a um maior número de pessoas e estas possam conhecer Deus, a vida de fé, o Amor, recuperar o sentido da vida. Temos ainda muita estrada a fazer, porém nos grupos que quotidianamente seguimos na oração, nas Escolas da Palavra, nos retiros de oração, etc... descobrimos que todos os homens são nascidos por obra de Deus: e como podem encontrá-lo se não se anuncia o Evangelho?
Daniel e Galdis: família missionária no Chile
Chamo-me Daniel e minha mulher Gladys. Temos duas filhas: Andréia (28 anos) e Daniela (22). Somos casados há 26 anos, infelizmente muito atormentados e cheios de brigas e separações.
Ambos trabalhamos para uma fábrica (PRISA “supermercado e empresa distribuidora de artigos para escritório”) na qual os missionários do Verbum Dei desenvolvem há algum tempo uma bela e intensa obra pastoral. Na fábrica há uma capela onde se celebra a Missa toda semana e onde é possível seguir cursos de catequese para receber os sacramentos. Inscrevi-me no curso de crisma juntamente com minha mulher e a minha filha (que então tinha 19 anos e não havia sido batizada). Honestamente o fiz somente porque sentia-me no dever e portanto chegava aos encontros sempre no último momento e com efeito não me esforçava. Minha mulher e minha filha, ao contrário, entusiasmaram-se de pronto, e freqüentando a catequese sentiram-se logo melhor.
Mas isto foi assim até o momento do fim de semana de retiro do qual participou todo o grupo. Lembro que enquanto era ainda no caminho pensava: “ninguém me fará lavagem cerebral”. O meu coração era duro e cético. Ficou-me impresso o primeiro testemunho que ouvi: uma menina de 19 anos contou a sua dura vida, e sua experiência do amor do Pai que a sustentava a ajudava a ser feliz... convidou-nos, portanto a falar com Ele e nos sentirmos seus filhos. Esta coisa simples comoveu-me profundamente e me fez refletir sobre tantas coisas. O sábado à tarde havíamos feito uma via crucis... E foi tremendamente doloroso entender de improviso o quanto havia me comportado mal até aquele momento, e quanto mal havia feito à minha família e a todos aqueles que me amavam. Ao fim nos foi dada a possibilidade de confessarmo-nos. Sofria muitíssimo e experimentei tanta vergonha... Custou-me muito a decisão de dar aquele passo, e quando finalmente encontrei-me diante do padre ajoelhei-me e não conseguia fazer outra coisa que chorar... Chorar pelos meus erros, chorar porque sentia que o amor do Pai abraçava a minha vida e me perdoava. Senti-me renascer... Comecei a ver as coisas sob uma luz completamente diversa e senti que a alegria nascia-me espontânea do coração. Mesmo para minha mulher e para minha filha encontrar a Deus foi uma experiência maravilhosa. Agora o nosso matrimônio é feliz, cheio de amor recíproco. Deus nos buscou e encontrou para que entre nós houvesse realmente o respeito e a confiança que havíamos perdido.
Tínhamos buscado ajuda de psicólogos e um pouco por tudo quanto é lugar, mas somente o amor de Deus foi capaz de reunir e de dar nova luz ao nosso matrimônio. Agora sentimos o dever de ajudar outros casais e pedimos aos missionários de nos formar para testemunhar Deus. Freqüentamos há algum tempo a “Escola de Apóstolos”, onde nos preparamos para evangelizar e fazemos também a “revisão de vida” com outros casais que sentem o nosso desejo que nós. Juntos organizamos diversos retiros para as famílias. O próximo será feito com casais de nossos companheiros de trabalho. Hoje em dia não conseguimos mais nos conceber sem um compromisso sério com a missão. Participamos ativamente nos trabalhos da comunidade e nos ocupamos da gestão da casa para os retiros Verbum Dei de Santiago (Pirque).
Germán e Ana Maria: família missionária na Espanha
Somos uma família missionária da Fraternidade Missionária Verbum Dei; temos quatro filhos de 6, 11, 13 e 20 anos. Vivemos em Zaragoza (Espanha), onde Gérman trabalha em uma escola como professor elementar e Ana Maria e dedica às tarefas domésticas para a família. Para falar de nossa vida missionária, da nossa família de hoje, devemos voltar muitos anos atrás. Em um momento da nossa vida Jesus voltou o seu olhar sobre nós, nos amou, chamou-nos a segui-lo a partir da nossa situação conjugal. Foi uma experiência fundamental que mudou o nosso modo de viver e de agir. “Segui-me, vos farei pescadores de homens” (Mt 4,19). Deus nos punha diante de um projeto de vida e de amor que dizia respeito aos nossos filhos, à nossa família e muitas outras famílias.
O Senhor nos chamou já “antes de nos formar no seio materno” (Jr 1,5), “para que estivéssemos com Ele e também para que nos enviasse a pregar” (Mc 3,13), e, pela sua graça, pouco a pouco encontramos resposta a esta chamada, como os primeiros discípulos, na nossa dedicação à oração e ao ministério da Palavra (At 6,4). Compreendemos que esta chamada é um dom, um presente de Deus, por puro amor, pura misericórdia. Porque Ele nos olhou na nossa pequenez, e por isto podemos cantar a sua Magnificência em ações de graça juntamente à nossa Mãe, a Virgem.
Iniciamos a nossa formação missionária há 20 anos, pouco depois do nosso casamento e do nascimento de nosso primeiro filho. Deus nos chamava e queríamos responder àquilo que ele queria de nós. A oração, o trabalho, o estudo, a educação dos nossos filhos e o apostolado marcaram o ritmo desta primeira etapa de nossa vida missionária. Primeiro em Valência, para a formação na espiritualidade própria do carisma. Depois em Madri para a formação teológica e em seguida Lisboa para a experiência da evangelização. Mais tarde, Roma, para completar os estudos. E depois chegaram outras destinações, Madri como formadores e atualmente Zaragoza para colaborar com a pastoral missionária da diocese.
De um lado, trabalhamos para a preparação dos cristãos que se dedicam à evangelização e ao serviço da Palavra de Deus. Ocupamo-nos da vida espiritual e da formação que nos habilita a nos tornarmos apóstolos e missionários que, através da oração, o testemunho de vida e o anúncio da Palavra, ajudam os outros a tornarem-se também eles discípulos e missionários de Cristo. Buscamos oferecer uma formação integral que toque todos os âmbitos da vida. Por isso organizamos retiros, exercícios espirituais, convivências, conversas, formações, revisões de vida e tutelas.
De outro lado, porém, o trabalho apostólico é dirigido à evangelização de todos. As iniciativas apostólicas surgem de corações apaixonados por Cristo, e aqueles que participam da evangelização tornam-se pilastras e propulsores de projetos de evangelização. Atualmente trabalhamos em uma “escola de apóstolos”, onde venho planejar diversas atividades de formação e evangelização. Além disso, colaboramos com um grupo de fé dirigido aos pais dos alunos; deste modo podem também eles ocuparem-se da catequese em família. Na paróquia, com o grupo de imigrantes. Em algumas cidades do interior, com um grupo que celebra a Palavra na ausência do presbítero. Com a Delegação das Missões, participam do Conselho Diocesano da Pastoral e ajudam nos planos pastorais da diocese neste setor.
Em todos estes anos tivemos o prazer de poder contemplar como Deus pouco a pouco escreveu uma maravilhosa história de amor para a nossa família. Tivemos sempre a certeza de que a coisa melhor que poderíamos dar e deixar como herança aos nossos filhos era a fé, a descoberta de um Deus Pai, amigo, companheiro, que fala aos nossos corações. Cremos na sua Palavra quando diz: “Todos os teus filhos serão discípulos do Senhor, grande será a prosperidade de teus filhos” (Is 54,13). Desde pequenos ensinamos a eles a buscarem Jesus, ao Papai do Céu Deus, à Virgem, de modo simples e espontâneo; a falar com Deus como se fala a um amigo. Buscamos criar ambientes onde os nossos filhos sentiam que a nossa família faz parte de uma família universal, com os irmãos de todas as línguas, raça, nação e condição social. Na realidade sentimos que a nossa casa é o mundo inteiro, e os nossos irmãos são os homens de toda a terra.
Muitas vezes as pessoas nos perguntam: “E os vossos filhos?” A nossa resposta foi sempre que, cada um deles, como o amor que lhes demos, com a fé que lhes transmitimos, como o nosso testemunho de vida com a ajuda de Deus, deverá percorrer a própria estrada, fazer as próprias escolhas, em liberdade como fizemos nós. A tarefa de formar apóstolos e missionários de Cristo, inicia nossa família. Esta é o nosso primeiro campo de apostolado. A Igreja doméstica é o local onde os nossos filhos começam a conhecer Deus e é a primeira escola de evangelização, onde todos somos evangelizados e evangelizadores.
A nós não cabe conhecer o momento, nem temos o direito de pretender os frutos de nossa semeadura. Isto o sabe somente Deus. A nós cabe semear todos os dias com paciência e esperança, amar-nos unidos com a certeza que “Aquele que iniciou em vós esta obra boa a levará ao seu termo” (Fil 1,6), porque “quem confiou no Senhor e permaneceu desiludido?” (Sir 2,10).
Adriana e Alfonso: família missionária no México
Somos Adriana e Alfonso, um casal mexicano, somos casados a treze anos e Deus nos concedeu sermos pais de quatro filhos. Conhecemo-nos trabalhando nas missões e durante o noviciado compreendemos que Deus nos chamava a servi-lo juntos e por isto decidimos nos casar. No início acreditávamos servir a Deus com as nossas profissões. Como médico e como laureada em comunicação; foi-nos proposto trabalhar na África, mas Deus, com o nascimento do nosso primeiro filho, nos fez ver que não eram estes os seus planos.
Seis meses mais tarde conhecemos a Fraternidade Missionária Verbum Dei e compreendemos que se podia ser uma família e consagrar a vida à evangelização. Duas coisas que nos pareciam inconciliáveis. Aceitamos a chamada de Deus e iniciamos a aventura mais fascinante da nossa vida: seguir Cristo de perto, ao ponto de nos consagrarmos como casal missionário Verbum Dei. Desde então o nosso único desejo foi: Escutar o Senhor através de sua Palavra, deixar-se forjar por Ele e levar a sua mensagem às pessoas que Ele põe em nosso caminho.
Somos testemunhas que o Evangelho é vida e é Verdade. E como família constatamos que quando se busca em primeiro lugar Deus, todo o resto vem em abundância. Após 8 anos de formação, compreendidos alguns anos de teologia, tínhamos a urgência de levar este fogo a outras cidades, motivo pelo qual, como Abraão, deixando a casa, as terras, os parentes, seguimos a chamada de Deus e dos nossos responsáveis a iniciar o movimento na cidade de Puebla.
Estes quatro anos passados em Puebla foram os mais fecundos de nossas vidas. Dedicamo-nos a formar evangelizadores de todas as idades e condições: crianças, adolescentes, jovens, namorados, profissionais, casais, mães solteiras que se aproximaram da fé e agora nos dedicamos a difundi-la na sua universidade: namorados que se deram conta de que o matrimônio é uma vocação e desejam casar-se com a melhor preparação possível e ajudar os outros; casais que se dedicam a dar a oportunidade de começar, porém com Deus; crianças que cresceram com os valores da fé, profissionais que buscam ser coerentes no seu ambiente... Ou seja, pudemos ver a força que tem a Palavra de Deus: quando as pessoas se metem com humildade e docilidade diante d’Ele e obedecem.
Os nossos mesmos filhos que cresceram neste ambiente, maravilham-se quando vêem que chegamos a Puebla em seis e agora somos muitos. Deus nos deu uma grande família: todos aqueles que escutam a Palavra de Deus e a querem por em prática são seus tios, primos, irmãos, avós. Os maiores, que têm 10 e 12 anos, já ajudam nas pregações às crianças pequenas. Os menores de 8 e 6 anos preferem ajudar-nos cantando e dançando as canções dos “amigos de Jesus”.
Trabalhamos o suficiente para viver, e o tempo que sobra dedicamos a ensinar às pessoas a rezar, a formar as pessoas de modo que aprendam a conhecer a Palavra, a dialogar para ajudá-los na sua vida espiritual, a organizar com eles os retiros de fim de semana, etc. É verdade, há muito trabalho a fazer, porém por nada neste mundo cederemos ao nosso cansaço cotidiano, seguindo com o coração satisfeito por ter feito a Sua vontade.
A missão nos uniu como casal, os nossos filhos podem ver que o Evangelho pode ser vivido, e nos foi oferecido um projeto que não terminará com a morte. Este continuará a trabalhar porque nos não fomos mais que “servos inúteis, que fizeram aquilo que deveriam fazer”. Queremos deixar aos nossos filhos e às pessoas que conhecemos a herança do Evangelho, “onde os ladrões não chegam nem e a traça rói” (Lc 12,33), porque somente a sua Palavra transformará realmente as famílias, os ambientes sociais bem como os políticos.
A nós, como família, cabe escutá-lo, amá-lo e obedecer-lhe... permitindo que Ele passe através de nossa pobre vida e continue a amar cada irmão.
Um casal missionário com dois filhos missionários
Pela graça de Deus, e é o caso de dizê-lo, somos os pais de dois filhos missionários. Em todos estes anos foram muitas as pessoas que, chegando ao conhecimento desta circunstância, se dirigiram a nós para nos manifestar a sua admiração como se tivéssemos sido nós a promover e a incentivar a escolha dos nossos filhos de responder à chamada do Senhor. Nada mais errado! Seguramente nos consideramos sempre uma família cristã, mas que se limitava a freqüentar a Missa dominical e a observar os mandamentos com maior ou menos sucesso. Quando pensávamos no futuro dos nossos filhos não nos passou jamais pela mente que um deles pudesse consagrar-se a Deus. A primeira parte da sua vida transcorreu na Cidade Real, onde juntamente com os dois outros irmãos freqüentaram uma escola pública normal, não uma escola religiosa – ainda que naquele tempo, de um ponto de vista religioso, o ar que se respirava em qualquer tipo de escola, pública ou religiosa, fosse de todo modo muito diferente daquele que se respira hoje.
Em 1986 nos transferimos a Toledo por motivos de trabalho, e encontrar o local de uma nova escola para os nossos 4 filhos não foi tarefa fácil. Finalmente isto foi possível no “Colégio Infantes”, dependente do Arcebispo de Toledo. É plausível que a vocação de nossa filha esteja ligada a ideologia daquela escola? De modo direto diria que não, mas talvez sim, porque é ali que realizei os primeiros contatos com as missionárias do Verbum Dei de Madri. Talvez a sua vocação missionária tivesse nascido justamente assim, mas na época não nos demos conta.
Em 1989 Isabel foi a Santiago de Compostela em peregrinação, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, presidida por João Paulo II, e ao voltar comunicou-nos a sua decisão de tornar-se missionária. Ficamos perplexos e um pouco desconcertados. Jamais esperaríamos que a sua vida tomasse este rumo. Nossa filha era uma menina ao passo dos tempos, com os mesmos hobbies dos jovens de sua idade, não tendo jamais demonstrado um particular interesse em atividades de tipo religiosos ou espiritual.
Eu e minha mulher aceitamos a sua decisão não sem um certa inquietação, especialmente por parte de minha mulher, uma vez que Isabel era a nossa única filha fêmea, porque éramos conscientes que enquanto cristãos não podíamos nos opor à chamada do Senhor. Que contraditório seria pois nos opormos quando era nossa filha que o Senhor chamava?
Acreditávamos que esta fosse uma questão que dizia respeito somente à nossa filha e Deus, e que, portanto, nos deveríamos nos manter fora, mas pouco depois compreendemos que quando Deus chama um membro de uma família, toda a família, no fim das contas, é envolvida. Como já disse antes, eu e minha mulher éramos cristãos de uma qualidade medíocre. Deus não havia uma verdadeira presença em nossas vidas, mas, movidos pelo desejo de entender que coisa leva uma menina de 19 anos a realizar um giro tão drástico em sua vida, quisemos conhecer a comunidade religiosa na qual havia entrado e que até então não sabíamos sequer que existisse.
Soubemos que esta comunidade era dividida em três setores: missionários, missionárias e casais missionários. Saber da existência desta terceira possibilidade foi para nós uma grande novidade, mas também a porta que nos permitiu conhecer um âmbito de fé e de religiosidade completamente novo para nós. Foi como se Deus, movendo nossos os filhos, nos tivesse permitido conhecê-lo.
Ensinaram-nos a rezar e a dialogar com Deus por meio de Sua Palavra, levando-nos à descoberta de um Deus próximo, para nós desconhecido, que preencheu as nossas vidas de VIDA, libertando-nos de todas as coisas que o consumismo nos apresenta como necessárias e que, ao contrário, não são senão fardos pesados que nos distanciam de Deus e nos impedem de sermos felizes.
Havíamos descoberto o tesouro que nossa filha havia descoberto antes; por isto, quando seis anos mais tarde nosso filho menor, 21 anos, noivo e a ponto de formar-se em engenharia agrônoma, nos comunicou que abandonava tudo para se tornar missionário, ao invés de nos preocuparmos, sentimo-nos infinitamente gratos ao Senhor que em sua misericórdia continuava a abençoar-nos sem que sequer o merecêssemos. Haviam acaso se realizado em nossa casa as palavras de Jesus a Zaqueu: hoje chegou a salvação a esta casa?
Não é preciso dizer o impacto que teve a escolha de meu filho sobre o resto da família, especialmente sobre os nossos tios e primos. Para tranqüilizar-lhes, eu, minha mulher e nossos filhos, juntamente a alguns missionários do Verbum Dei, decidimos compartilhar com todos eles uma jornada de convivência no Santuário da Patrona de nossa cidade, da qual participaram além de nossos parentes tantas pessoas de nossa cidade, sobretudo os jovens. Foi uma experiência fantástica! Um sucesso tão grande que agora todos aqueles são tão entusiastas quanto nós do fato que nossos filhos sejam missionários.
Passaram-se 17 anos do nascimento da vocação de minha filha e 11 da de meu filho, e em todo este tempo a nossa família não fez outra coisa que continuar a crescer na família do Verbum Dei. Toledo é uma cidade de grande interesse turístico, diria que uma visita obrigatória, e portanto viver aqui nos dá a oportunidade de acolher tantos missionários e missionárias. A nossa casa hospedou irmãos dos cinco continentes com os quais compartilhamos a sua cultura e a sua fé em Cristo.
Guardamos as recordações da nossa viagem à Rússia e às Filipinas a fim de visitarmos os nossos filhos, nem como das experiências absolutamente inesquecíveis que nos permitiram compartilhar a nossa fé com os irmãos que até agora não conheciam, mas com os quais sentiam-se ligados com vínculos ainda mais fortes do que os de sangue; vínculos que não conhecem as barreiras da cultura o idioma. Como esquecer os nossos encontros com os casais do Verbum Dei de Manila e de Zabu, ou ainda aqueles com os professores da universidade desta última cidade! Éramos um só coração e uma só alma, como nas primeiras comunidades cristãs. Quando se experimenta coisas desta ordem, como tornam-se atuais as palavras do profeta Isaías: alarga o espaço de tua tenda; não pares; alonga as tuas cordas, firma tuas estacas porque te alargarás a esquerda e a direita! Com os nosso filhos, também nós anunciamos Cristo em todos os ambientes em que se movem sem temor daquilo que pensam ou não pensam de nós. Possa Deus acrescentar a nossa fé e conceder-lhes a graça de continuar a testemunhá-Lo, com firmeza e coragem, em cada momento e circunstância em que vivemos.

A FAMÍLIA NO WEB: LINKS ÚTEIS
Portais e sites católicos sobre a família
Vaticano (portal plurilíngüe)
www.vatican.va

Pontifício Conselho para a Família (portal plurilíngüe)
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/family/index_it.htm

Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre o Matrimônio e Família (ita-ing)
http://www.istitutogp2.it/presentazione/home.aspx

Equipe Notre Dame (site em italiano)
http://www.equipes-notre-dame.it/

Centre de Liaison des Equipes de Recherche, Amour et Famille (site em francês)
http://www.cler.net

The Apostolate for Peace in the Family (site em inglês)
http://www.peaceinthefamily.org/

Human Life International (site em inglês e espanhol)
http://www.hli.org/

Vida Humana Internacional (site em espanhol e inglês)
http://www.vidahumana.org/

Women for Faith and Family (site em inglês)
http://www.wf-f.org/

La Treve de Dieu (site em francês, espanhol e inglês)
http://www.trdd.org/

Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família (site em português)
http://providafamilia.org

Confederation Nationale des Associations Familiales Catholiques de France. (site em francês)
http://www.afc-france.org/

LifeSite (site em inglês)
http://www.lifesite.net/

Culture of Life Family Services (site em inglês)
http://www.colfs.org/

Portale delle Famiglie (site em italiano)
http://www.portalefamiglie.it

Adorto - Movimento nazionale per la famiglia e la vita (site em italiano)
http://www.adorto.com/

Mondo Famiglie (site em italiano)
http://www.mondofamiglia.it/

Pastoral Familiar – CNBB (site da Conferência Episcopal do Brasil, em português)
http://www.pastoralfamiliarcnbb.org.br/

La Famiglia.info (site em espanhol)
http://www.lafamilia.info/

The Catholic Family and Human Rights Institute (C-FAM) (site em inglês)
http://www.c-fam.org
John Paul II Institute at The Catholic University of America (site em inglês)
http://www.johnpaulii.edu/

CISF - Centro Internazionale Studi Famiglia (site em italiano)
http://www.sanpaolo.org/cisf/

Movimento Familiare Cristiano (site em italiano)
http://www.mfc-italia.it/

Christian Family Movement (site em inglês)
http://www.cfm.org

Familie: Auf einen Blick (site sobre a família no portal da Conferência Episcopal Alemã)
http://www.katholisch.de/2649.htm

Secretariado Nacional para la Famiglia (site em espanhol da Conferência Episcopal Argentina)
http://www.matrimonioyfamilia.org.ar/

Comision Episcopal de Familia, Infancia y Vida (site em espanhol da Conferência Episcopal Peruana)
http://www.iglesiacatolica.org.pe/cep/cep_comisiones/pagina_inst/familia.htm

Catholic Organization for Life and Family (site em ingles da Conferência Episcopal do Canadá)
http://colf.cccb.ca

Hombre y mujer los creó (site em espanhol da Conferência Episcopal Espanhola)
http://www.Conferênciaepiscopal.es/dossier/familia.htm

USCCB - (FLWY) - Committee on Marriage and Family (site em inglês da Conferência Episcopal dos Estados Unidos da América)
http://www.usccb.org/laity/marriage/

C.E. de Pastoral Familiar (site em espanhol da Conferência Episcopal Mexicana)
http://www.cem.org.mx/comision/familia/index.htm

Departamento de Pastoral Familiar e Infancia de la CEV (site em espanhol da Conferência Episcopal Venezuelana)
http://www.cev.org.ve/dep_03.php


Publicações:

Familia et Vita
Revista quadrimensal do Pontifício Conselho para a Família (italiano)
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/family/documents/rc_pc_family_doc_20031217_review-FV_it.html

________________________________________________________________________
Agência Fides 1/7/2006
Este Dossiê foi edidato por: R.G.,A.P.,C.E.,F.B.G.,P.L.R.,S.L.

 
At 9/17/2007 2:14 da manhã, Anonymous Anónimo escreveu...

“Vós famílias: não tenhais medo!”
V Encontro Mundial das Famílias
Valencia (Espanha) 1-9 de julho de 2006

OS ENCONTROS MUNDIAIS DAS FAMÍLIAS
ENTREVISTA COM O CARD. ALFONSO LÓPEZ TRUJILLO
Presidente do Pontifício Conselho para as Famílias
PAPA BENTO XVI E A FAMÍLIA
O CARD. RATZINGER E A FAMÍLIA
PAPA JOÃO PAULO II E A FAMÍLIA
FAMÍLIA: NATUREZA E DIREITOS
A FAMÍLIA NO MUNDO
Alguns dados estatísticos
A família na Europa
A família na África
A família na Ásia
A família no México
A FAMÍLIA EM MISSÃO
A catequese das Pontifícias Obras Missionárias sobre a “família missionária”
Testemunhos das famílias missionárias “ad intra” e “ad gentes”
A FAMÍLIA NO WEB: LINKS ÚTEIS

Este Dossiê se encontra disponível também no site da Agência Fides www.fides.org



OS ENCONTROS MUNDIAIS DAS FAMÍLIAS

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – “Vós famílias: não tenhais medo!”. Com estas palavras doze anos atrás Papa João Paulo II se dirigiu às famílias de mais de dez países do mundo reunidas na praça S. Pedro. Era o primeiro Encontro Mundial das Famílias, promovido no Ano internacional da Família, que desde então se repete a cada três anos em diferentes lugares do mundo. Em 1981, o mesmo ano da Carta Encíclica Familiaris consortio, João Paulo II havia instituído o Pontifício Conselho para as Famílias, que substituía o Comitê para as Famílias instituído em 1973 pelo Papa Paulo VI. A partir de 1994 o Dicastério torna-se responsável também pela organização dos Encontros Mundiais das Famílias. Se o primeiro Encontro se realizou em Roma, em 1997 o Rio de Janeiro hospedou o segundo Encontro, novamente em Roma no Ano do Grande Jubileu do ano 2000, e posteriormente em Manila, onde em 2003 desenvolveu-se o último Encontro. Coube agora a Valência, na Espanha, hospedar o quinto Encontro, de 1 a 9 de julho de 2006, o qual teve por tema “A transmissão da fé na família”.
“Fui o primeiro a promover instituições similares também graças à minha experiência como padre e Bispo em Cracóvia – disse Papa João Paulo II no Encontro das Famílias em 1994 – tendo sempre dado particular atenção aos jovens e às famílias. É precisamente a partir desta experiência que compreendi a necessidade indispensável de uma profunda formação teológica e intelectual neste campo de modo que se desenvolva um tratamento ético adequado ao valor do corpo, ao significado do matrimônio e da família, e à questão da paternidade responsável”. O tema deste primeiro Encontro foi “Família: coração da civilização do amor”. O Papa propôs a família como modelo principal para afrontar os males do mundo contemporâneo, uma família onde cada um, sobretudo os filhos, sejam formados nos valores do respeito, da solidariedade, do amor e da responsabilidade.
Três anos após, em 1997 no Rio de Janeiro, Papa João Paulo II retomou estas duas últimas palavras, amor e responsabilidade: “Estas duas palavras parecem justas e necessárias: amor e responsabilidade. Cheguei a esta conclusão cinqüenta anos atrás... Sim, cinqüenta anos atrás: amor e responsabilidade – referindo-se a uma sua obra de moral familiar chamada “Amor e Responsabilidade” escrita quando era Bispo em Cracóvia. Este parece ser um princípio válido para harmonizar estas duas arquiteturas, o humano e o divino, do matrimônio e da família”. À época, na América Latina, compareceram mais de dois milhões de pessoas de todos os continentes para assistir à Missa conclusiva presidida pelo Pontífice no Flamengo Park. O motivo deste segundo Encontro das famílias foi “A família: dom, empenho e esperança da humanidade”.
Durante o Grande Jubileu do ano 2000, para o terceiro Encontro, João Paulo II havia escolhido concentrar a sua atenção sobre o tema: “As crianças: família e sociedade no novo milênio”. Tendo tornado há pouco da peregrinação à Terra Santa, o Papa propôs a família de Nazaré como modelo para a família de hoje. “O grande espaço onde nos reunimos – disse João Paulo II – entre a Basílica e o colonnato de Bernini, é como uma casa para nós, uma grande casa a céu aberto. Reunidos juntos como uma grande família, com um só coração e uma só alma, podemos intuir e fazer nosso o sabor doce e íntimo desta humilde casa, onde Maria e José viviam entre a oração e o trabalho, e Jesus submetia-se a eles, tomando parte na vida comum”. As crianças estavam no centro das atenções do Encontro e do Papa mesmo, as crianças como dom da família e jamais como estorvo e fardo, as crianças como uma primavera, como uma esperança que continua a florir, mas que ao mesmo tempo requer exemplos, resposta e afeto: “As crianças – disse o Papa – fazem perguntas mais com os olhos que com o coração, mas que encadeiam os pais à sua grande responsabilidade e são de alguma forma para eles o eco da voz de Deus”.
O último Encontro do qual o Papa João Paulo II tomou parte, não em pessoa, mas via satélite, foi o de 2003 em Manila, nas Filipinas, para explicar o motivo daquela jornada: “A família cristã: boa nova para o terceiro milênio”. Em Manila compareceram famílias de mais de 76 países, por vezes caracterizados por tensões internacionais. Uma vez mais o Papa propôs a família como cura para os males da sociedade, “como a estrada privilegiada para o diálogo além das diferentes culturas e religiões, uma estrada de reconciliação e de paz”. O Pontífice exortou depois as famílias a serem boas novas para o terceiro milênio, com a graça particular do matrimônio: “Este graça que recebestes é a graça do amor que se oferece, do amor que se doa e perdoa; do amor altruísta, que esquece a própria dor; do amor fiel até a morte; do amor fecundo para a vida”.
O último encontro desenvolveu-se em Valência, de 1 a 9 de julho. Foi o primeiro do qual participou o Papa Bento XVI, cuja presença ocorreu nos dias conclusivos, de sábado 8 a domingo 9 de julho. Em um ano de pontificado e uma encíclica, a Deus caritas est que trata justamente do tema do amor, Papa Bento XVI parece já ter definido uma linha diretriz a seguir a fim de que a família redescubra e defenda as suas raízes e a sua identidade. Em 11 de maio passado, encontrando o “Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre o matrimônio e família” por ocasião do vigésimo quinto aniversário de sua fundação, Bento XVI expôs assim aquilo que é o fulcro da família fundada dobre o matrimônio, isto é, o amor entre os esposos, comparando-o ao da vida trinitária: “Deus serviu-se da via do amor para revelar o mistério íntimo da sua vida trinitária. Além disso, o relacionamento estreito que existe entre a imagem de Deus Amor e o amor humano nos permite compreender que a imagem do Deus monoteístico corresponde ao matrimônio monogâmico”. “O Matrimônio – continuou o Papa citando a sua Encíclica Deus caritas est – baseado sobre um amor exclusivo e definitivo torna-se ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e vice-versa: o modo de amar de Deus torna-se a medida do amor humano. [...] Esta impostação nos permite também superar uma concepção privatísta do amor, hoje tão difusa. [...] Evitar a confusão com outros tipos de união baseadas sobre um amor débil apresenta-se hoje com uma especial urgência. Somente a rocha do amor total e irrevogável entre homem e mulher é capaz de fundar a construção de uma sociedade que se torne uma casa para todos os homens”.



ENTREVISTA COM O CARDEAL ALFONSO LOPEZ TRUJILLO
PRESIDENTE DO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – “Família e procriação humana” é o título do último documento do Pontifício Conselho para a Família, publicado um mês antes do Encontro Mundial das Famílias em Valência. A Agência Fides dirigiu algumas perguntas sobre o documento e sobre o Encontro de Valência ao Card. Alfonso López Trujillo, que desde 1990 é Presidente do Pontifício Conselho para a Família, o Dicastério vaticano que entre as suas tarefas tem também o encargo e organizar os Encontros Mundiais.
1) Quais motivações e quais intenções induziram o Pontifício Conselho para a Família a preparar esta novo documento “Família e Procriação humana”?
R. Devo antes de tudo recordar que este nosso documento “Família e procriação humana” foi preparado durante muitos meses por uma equipe de especialistas internacionais, para os 25 anos do Dicastério, tendo sido apresentado na nossa Plenária, que se concluiu com uma bela mensagem do Papa Bento XVI, em 13 de maio passado.
Fala-se do documento “López Trujillo”. Não trabalhei somente eu, mas especialistas muito competentes de todo o mundo. É assinado, como de costume, pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Família e pelo Secretário, S. Ex.ª Karl Josef Romer. Em seguida foi distribuído, a pedido da Sala Stampa, em italiano. As traduções em outras línguas estarão prontas logo mais.
Aqueles que o leram estão realmente muito contentes, como tantos nos exprimiram. O documento tem a vantagem que em 60 páginas pode-se ter com clareza a síntese da doutrina da Igreja, tal qual é expressa nos ensinamentos pontifícios, como base de uma visão pastoral fundada sobre uma antropologia, sobre uma verdade, como deve ser. E esta síntese doutrinal e pastoral foi tomada por alguns como novidade. Foi evidente um fato, com uma visão de conjunto unitária: talvez o pensamento da Igreja não seja muito conhecido por muitos. Hoje as informações são fragmentárias e sobrepostas a um ou outro ponto que são discutidos, mas o aprofundamento do conjunto não é conhecido.
E é este o propósito do nosso documento, que muitos louvam como uma “descoberta”. É a tentação de uma inflação da bio-ética que substitui a espessura teológica e filosófica que, em um tempo de “crise conceitual”, perde-se. O tratamento torna-se muito superficial e tudo é opinável. A mesma fé e o magistério são só uma opinião a mais.
Nos jornais, sob um ponto delicado, são apresentadas diversas opiniões e assim o leitor pensa que se trate de uma livre escolha, como em um mercado. É um fenômeno grave, sobretudo para os cristãos. Deus não nos oferece um “menu”.
Freqüentemente, mesmo pessoas de grande respeitabilidade substituem a doutrina, com todas as suas exigências e a sua obrigatoriedade de uma genuína obediência de fé, com posições subjetivas, não bem fundadas, que passam por posições abertas contra o fechamento a as posturas “dogmáticas”. Por vezes Deus e os seus mandamentos são “evaporados” e as pessoas se assustam quando se recordam de sua Palavra. Tantas vezes o pensamento não emerge, está como que anestesiado e é vítima de um encantamento e da sedução da ciência e da técnica.
Alguns jornalistas, que talvez não tenham lido o documento, falam de uma linguagem dura. Após uma atenta leitura, dão-se conta de que as mesmas expressões são dos Pontífices, e nós simplesmente as repetimos. Estão sob o impacto, por exemplo, da expressão apocalíptica do “Eclipse de Deus”: mas foi João Paulo II a falar com grande vigor sobre a secularização que é um “eclipse do senso de Deus e do homem” (Evangelium Vitae 21). Outros se escandalizam porque falamos do aborto como de um “delito abominável”, que é uma expressão Conciliar e dos Papas de uso comum na teologia e assim por diante.
Nestes 16 anos do meu trabalho no Pontifício Conselho para a Família, publicamos muitos livros e alguns documentos. Os documentos dos Dicastérios não são jamais assinados pelo Papa, mesmo se por vezes foram solicitados pelo Sucessor de Pedro, como o “Vademecum para os confessores”, e são raros aqueles que são expressamente aprovados pelo Papa, como alguns da Doutrina para a Fé. Não é nosso hábito apresentar os nossos documentos na imprensa. O documento não foi preparado para o V Encontro Mundial das Famílias em Valência, mas para refletir em profundidade sobre o que é a procriação humana, assim com um nosso outro documento, que tem como título a “Sexualidade humana”. Portanto não “animal”, não “técnica”, não “produção”, mas procriação como o fruto do amor, de um ato humano de amor, que empenha muito. Uma procriação “integral”, que não termina com o nascimento, mas exige a educação e especialmente aquela da fé.
2) Quais são os conceitos fundamentais que se deseja iluminar no documento?
R. Sobretudo mostrar como o verdadeiro amor entre um homem e uma mulher doa comunhão de vida e de amor, na doação recíproca, tem o seu lugar no matrimônio, fundamento da família. No matrimônio é defendido o significado unitivo e o procretativo (cf. Humanae Vitae 12). A recíproca doação dos esposos é total. Se falta a totalidade não se compreende o que é a fidelidade, na abertura à vida e em uma comunhão até a morte. Se não é total, esta recíproca doação não é plenamente humana e corre o risco da fragmentação e portanto do amor traído. Assim estudam-se questões como a FIVET homóloga e heteróloga, a fecundação assistida, a clonagem, etc.
A contracepção, o aborto, a cultura da morte são temas importantes. Os conceitos de família, dos casais de fato, do aborto provocado estão bem presentes. Mesmo questões demográficas. Uma crítica, da qual fui informado que não é muito respeitosa e demonstra falta de uma mínima informação, protesta contra as nossas afirmações. Recorre-se a caricaturas quando em verdade há um vazio de argumentos. Assim, quando o documento apresenta o sério problema do desmoronamento da população por exemplo na Itália e na Espanha, um verdadeiro “inverno demográfico”, como diz Bento XVI, dizem que é violento ou ao menos equilibrado. Nós dizemos que se os casais têm somente um filho como média (mais exatamente uma taxa de 1,2 de nascimentos), isto mostra que muitos casais não têm filhos e optam por serem casais “estéreis”.
Preparamos um documento para Valência sobre o envelhecimento da população, como uma denúncia do mito demográfico, fato que hoje a ONU reconhece, mas que há 10 ou 15 anos acreditava ser um nosso exagero, como encarregados do tema demográfico. E isto é real: João Paulo II fez esta denúncia ao Parlamento Italiano. Há o medo da paternidade, não somente por hedonismo ou egoísmo, mas por problemas econômicos. Se não esta postura não for modificada não haverá futuro. Pode-se ver o conjunto de questões em meu livro “O grande desafio” que é hoje em sua segunda edição nas livrarias.
É pois quase uma piada este argumento crítico que o lar de Nazaré teve um só filho e não se lhe pode chamar estéril. Imagine este argumento em modo científico. Apresentar a Sagrada Família como ideal demográfico! Não é muito honroso para um jornal aceitar estas posições. O fio de todo o documento é humano, o coração humano, porque o risco, dizia Romano Guardini, é de sermos desumanos. Duas semanas atrás fui a uma conferência na Universidade de Mônaco na Baviera, onde Guardini ensinou e onde se encontra o seu túmulo; ali rezei. O Papa Bento XVI foi ilustre professor desta Universidade. Apresentei a Encíclica Deus caritas est. O homem desumano é nesta degradação pelo trágico vazio de verdade e de liberdade.
3) Como se afirma no Documento, a família está sofrendo uma série de ataques em muitas frontes, em todo o mundo. É possível identificar, nas diversas áreas geográficas continentais, características diversas destes ataques?
R. Nos último anos estes ataques foram mais abertos e sistemáticos, mas a Exortação Apostólica Familiaris Consortio acenava a uma hostilidade difundida contra a família. Tal denúncia era repetida freqüentemente por João Paulo II e ainda hoje por Bento XVI. Não é uma invenção do nosso documento, mas é a invasão do secularismo que, afastando Deus, não aceita a “instituição natural” da família.
Como expliquei diversas vezes, há um conjunto de posições hostis, hoje bem conhecidas, especialmente de legislações injustas (usa-se o termo “leis iníquas”) que se espalham, como por exemplo com relação à via aberta ao divórcio, por vezes extremamente fácil, apresentada com um suposto fundamento jurídico.
Parece curioso o desejo, por parte de alguns, de convencer que estas preocupações sejam uma invenção do Pontifício Conselho para as Famílias, enquanto fazem passar em silêncio as vozes de alarme dos Pontífices.
Estas posições contra a família e a vida têm como fonte uma postura “ideológica”, como é facilmente compreensível, com uma “filosofia” pobre com relação às necessidades e às concepções da democracia, como havia denunciado João Paulo II, do radicalismo político, como expresso por alguns parlamentos e na União Européia, com as suas notas Recomendações. É todo um modo que deve ser revisto, partindo dos conceitos basilares como o bem da pessoa, o bem comum, a verdade, a liberdade, a lei natural, o valor e os limites da ciência, e assim por diante.
4) Diante de um panorama tão preocupante, há sinais de esperança? Que podem fazer os católicos, as famílias cristãs, as organizações e as associações familiares?
R. Há muitos sinais de esperança, sobretudo graças a tantos movimentos nascidos em todo o mundo e à nova organização e estrutura das Conferências Episcopais que têm um escritório central por toda parte, juntamente com as Comissões pela Família e a Vida. Em todas as Conferências o tema é de prioridade absoluta. Nas dioceses, nas paróquias e nos movimentos há um novo ímpeto realizador da Igreja doméstica. Importante é o papel central que terão no futuro as crianças, símbolo da esperança de cada pai e de cada mãe. A Pastoral da Família está em pleno desenvolvimento e renovação. Foram dados até agora passos muito importantes neste sentido e hoje podemos dizer que em pouco tempo cresceram imensamente. Há uma nova consciência de que é preciso formar bem os agentes pastorais. No XXV aniversário da instituição do nosso Pontifício Conselho, o Santo Padre nos estimulou a prosseguir sobre esta estrada.
Na próxima semana, na parte inicial do Convênio, refletir-se-á sobre o tema da V Conferência “A transmissão da fé e da família”; à tarde serão tratadas matérias diversas como economia, saúde, doutrina social, demografia, etc. Logo após o fechamento deste Encontro publicaremos um interessante livro que contará com o apóio dos numerosos especialistas que tomarão parte. O Congresso teológico-pastoral iniciará terça-feira 4 e terminará sexta-feira 7 de julho e contará com a participação de mais de 7 mil pessoas.
5) O Encontro Mundial das Famílias terá por tema “A transmissão da fé na família”. Quais estradas devem percorrer hoje os pais para anunciar Jesus Cristo aos seus filhos e sobretudo para comunicar-lhes a alegria de ser cristãos em um mundo que está fazendo de tudo para obscurecer Deus e todo sinal de fé?
R. Os pais têm freqüentemente medo de educar e transmitir a fé. O seu empenho será aquele de educar na fé como primeiros evangelizadores dos filhos, aspecto central da Igreja. Estes devem empenhar-se com paciência, dedicando tempo, atenção e estando próximos aos filhos para ensinar a eles que a herança maior é a riqueza extraordinária da fé. Nesta missão os pais devem ser ajudados também por outras instituições, como o Estado. A família toda, os avós, podem ajudar a equilibrar os vazios devidos à dificuldade que encontram os lares hoje em dia em razão do trabalho. O conjunto de uma família é um pouco aberto a todas as tentações e provocações do mundo moderno a não cuidar do interior do lar.
6) Que se pode esperar do Encontro de Valência?
R. Todos os nossos Encontros representam um grande passo adiante, uma maior consciência da amplitude daquele bem universal que é a família e aquele dom que são os filhos. Justamente os filhos preenchem aquele vazio que notamos freqüentemente em muitas famílias, mesmo se hoje podemos olhar adiante com otimismo.
A partir deste Encontro acreditamos que as famílias terão novos argumentos para afrontar os novos desafios para atingir a totalidade do amor, uma maior estabilidade e a verdadeira identidade do matrimônio, além de uma maior segurança no diálogo com os parlamentares e os educadores porque juntos se possa ter um horizonte mais claro e para que a família seja a verdadeira protagonista. Uma verdadeira resposta que vem do amor de Deus que é o único projeto e o único modelo.

PAPA BENTO XVI E A FAMÍLIA

17 de maio de 2005: Mensagem à Igreja peruana
Terça-feira, maio, em concomitância como as celebrações pelo Cinqüentenário do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), na Basílica Catedral de Lima, realizou-se uma solene Celebração Eucarística que tinha dois motivos fundamentais: a abertura das celebrações pelo IV Centenário da morte de Santo Toribio de Mogrovejo (1538-1606), segundo Arcebispo de Lima, e a entrega ao Patrono do Episcopado Latino-americano dos trabalhos da XXX Assembléia Ordinária do Conselho Episcopal Latino-americano. Ao fim da Celebração, que foi presidida pelo Card. Juan Luis Cipriani, Arcebispo de Lima e Primaz do Peru, o Card. Giovanni Battista Re, Prefeito da Congregação para os Bispos e Presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, realizou uma leitura da Mensagem que Sua Santidade Bento XVI endereçou à Igreja peruana para exprimir afeto, vizinhança e encorajamento.
Núcleo central da mensagem do Sumo Pontífice é a solicitude paterna com a qual convida os peruanos a amar a sua fé, a alimentá-la com orações, os sacramentos e a escuta atenta à palavra de Deus. O Papa pede depois de transmiti-la no interior das suas famílias como o patrimônio mais precioso: “Se um pai ou uma mãe deixam aos seus filhos uma fé sólida, deixam-no o tesouro maior, porque será a luz que iluminará os seus passos na vida”. Relevando que a fé é um dom que não se vive sozinho, na intimidade, mas que se testemunha na vida de cada dia, O Santo Padre convida a testemunhar a fé, porque assim “a fé se transforma em uma luz esplendente que conduz Cristo, de modo tal a difundir através da vida os valores humanos e cristãos que fazem parte da identidade do povo peruano”.
O Cardeal Primaz da Igreja peruana, na sua homilia, relevou que Santo Toribio de Mogrojevo percorreu por 10 anos o complexo território do Peru realizando três visitas pastorais, posto que o amor de Cristo o impulsionava a uma insaciável sede de salvação das almas. Traços distintivos do ministério pastoral deste santo Pastor, foram a sua vizinhança a Deus e a fidelidade à oração enquanto elemento fundamental do seu ministério apostólico. De fato “uma oração intensa não nos tira do compromisso com a história, porque abre o coração ao amor de Deus e também ao amor dos irmãos, e nos torna capazes de construir a história segundo os desígnios de Deus” sublinhou o Card. Juan Luis Cipriani.
24 de maio de 2005: Mensagem à Igreja espanhola
“Nesta hora de discernimento para muitos corações, vós Bispos espanhóis volvei o olhar Àquele que, com total disponibilidade, acolheu a vida de Deus que irrompia na história”, afirma o Santo Padre Bento XVI na Mensagem enviada à Igreja espanhola, por ocasião da peregrinação nacional ao Santuário do Pilar de Saragoza no cinqüentenário da consagração da Espanha à Virgem Maria. Milhares de peregrinos juntamente aos seus Bispos reuniram-se no domingo 21 de maio no Pilar de Saragoza para celebrar o 150º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição e renovar a consagração da Espanha ao Coração Imaculado de Maria.
“Com esta peregrinação vocês querem aprofundar o admirável mistério de Maria e refletir sobre a sua inexaurível riqueza para a vocação de cada cristão à santidade” escreve o Santo Padre em sua Mensagem. “A Imaculada reflete a misericórdia do Pai... Como Advogada nos ajuda em nossas necessidades e intercede por nós diante de seu Filho... nos convida a nos aproximarmos de Cristo e, nesta aproximação, a experimentar, provar e ver «quanto é bom o Senhor».”
Uma vez que a Espanha se encontra em pleno debate sobre a laicidade do estado e a família está recebendo uma série de ataques como a proposta de reforma do Código Civil, o Papa recorda a Casa de Nazaré como modelo para todas as famílias e afirma que “na convivência doméstica a família realiza a sua vocação de vida humana e cristã, compartilhando as alegrias e as expectativas em um clima de compreensão e de ajuda recíproca. Portanto, o ser humano, que nasce, cresce e se forma na família, é capaz de seguir sem incertezas o caminho do bem, em deixar-se desorientar por modas e ideologias alienantes da pessoa humana”.
Consciente de “que a Igreja Católica na Espanha está disposta a dar passos decisivos nos seus projetos evangelizadores” o Papa pede que esta seja compreendida e aceita na sua verdadeira natureza e missão “posto que esta busca promover o bem comum para todos, com relação seja às pessoas seja à sociedade. Com efeito a fé e a prática religiosa dos fiéis não pode permanecer confinada ao âmbito puramente privado”.
O Santo Padre conclui a sua mensagem confiando a Maria Santíssima inquietudes e esperanças da Igreja espanhola, cada vida humana desde o primeiro instante de sua existência até o seu fim natural, e pedindo à Virgem Maria “de preservar cada família de toda injustiça social, de tudo aquilo que degrada a sua dignidade e ameaça a sua liberdade; e também que se respeite a liberdade religiosa e a liberdade de consciência de cada pessoa”.
30 de maio de 2005: O Papa confirma a convocação do V Encontro Mundial das Famílias
O Santo Padre Bento XVI endereçou uma carta ao Cardeal Afonso López Trujillo, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, na qual confirma a convocação do V Encontro Mundial das Famílias em Valência (Espanha) na primeira emana do mês de julho 2006, com o tema “A transmissão da fé na família”. “Neste sentido – lê-se na carta – proponho-me a encorajar, como fez João Paulo II, a ‘estupenda novidade’, o ‘Evangelho da Família’ cujo valor é central para a Igreja e a sociedade”.
O Santo Padre afirma que “a Igreja não pode deixar de anunciar que, segundo os planos de Deus, o matrimônio e a família são insubstituíveis e não admitem alternativas”. Referindo-se ao tema do Encontro, Bento XVI relembra que “a família tem hoje mais do que nunca uma missão nobilíssima, e que não pode eludir, de transmitir a fé. Os pais são os primeiros evangelizadores dos filhos, dom precioso do Criador”. O Papa conclui a carta elevando suas preces ao Senhor e abençoando todas as famílias que participam ou se uniram espiritualmente ao Encontro. “Que a Virgem Maria, nossa Mãe, que acompanhou seu Filho nas bodas de Caná, possa interceder por todas as famílias do mundo”.
6 de junho: Discurso de abertura do Convênio Eclesial da Diocese de Roma sobre “Família e Comunidade cristã”
Uma das primeiras amplos intervenções do Santo Padre Bento XVI dedicadas ao tema da família foi pronunciada em 6 de junho de 2005 (a pouco mais de um mês da sua eleição à catedra de Pedro) na abertura da Convênio da Dioese de Roma dedicado à família. Bento XVI, indo à Basílica Laternanese onde se realizava o Convênio, na abertura de seu longo discurso, disse ter acolhido «com muito prazer o convite a introduzir com minha reflexão este nosso Convênio Diocesano, antes de tudo porque isto me dá a possibilidade de vos encontrar, de ter um contato direto convosco, e depois porque posso vos ajudar a aprofundar o sentido e escopo do caminho pastoral que a Igreja de Roma está percorrendo». O Papa saldou também «com afeto» os Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosas e as religiosas, e em particular os leigos e as famílias «que assumais conscientemente aquelas tarefas de compromisso e testemunho cristão que têm a sua raiz no sacramento do batismo e, para os casados, no do matrimônio».
«Este Convênio – declarou o Pontífice – e o ano pastoral do qual este fornecerá as linhas guias, constituem uma nova etapa do percurso que a Igreja de Roma iniciou, sobre a base do Sínodo diocesano, com a Missão citadina desejada pelo nosso tanto amado Papa João Paulo II, em preparação ao Grande Jubileu de 2000. Naquela Missão todas as realidades da nossa Diocese – paróquias, comunidades religiosas, associações e movimentos – mobilizaram-se, não somente para uma missão ao povo de Roma, mas para serem si mesmas “povo de Deus em missão”, pondo em prática a feliz expressão de João Paulo II “paróquia, busca a ti mesma e encontra a ti mesma fora de ti mesma”: ou seja, nos lugares nos quais a gente vive. Assim, no curo da Missão citadina, muitos milhares de cristãos de Roma, em grande parte leigos, fizeram-se missionários e levaram a palavra da fé em primeiro lugar nas famílias dos vários bairros da cidade e depois nos diversos locais de trabalho, nos hospitais, nas escolas e nas universidades, nos espaços de cultura e de tempo livre. Após o Ano Santo, o meu amado Predecessor vos pediu que não interrompêsseis este caminho e que não desperdiçásseis as energias apostólicas suscitadas e os frutos da graça recolhidos. Por isso, a partir de 2001, o fundamental endereço pastoral da Diocese foi aquele de dar forma permanente à missão, caracterizando em sentido mais decididamente missionário a vida e a atividade das paróquias e de cada uma das realidades eclesiais. Desejo vos dizer antes de tudo que pretendo confirmar plenamente esta escolha: esta, de fato, revela-se sempre mais necessária e sem alternativas, em um contexto social e cultural no qual agem forças multíplices que tendem a distanciar-nos da fé e da vida cristã. Já por dois anos a Igreja de Roma vem concentrando os seus esforços sobretudo na família, não somente porque esta fundamental realidade humana hoje é submetida a multíplices dificuldades e ameaças e portanto tem particular necessidade de ser evangelizada e concretamente sustentada, mas também porque as famílias cristãs constituem um recurso decisivo para a educação à fé, a edificação da Igreja como comunhão e a sua capacidade de presença missionária nas mais diversas situações de vida, além de fermentar em senso cristão a cultura difusa e as estruturas sociais. Sobre estas linhas prosseguiremos também no próximo ano pastoral e por isso o tema do nosso Convênio é “Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé”. O pressuposto do qual é preciso partir, para poder compreender a missão da família na comunidade cristã e as suas tarefas de formação da pessoa e transmissão da fé, permanece sempre o do significado que o matrimônio e a família revestem do desígnio de Deus, criador e salvador. Este será, portanto, o miolo da minha reflexão desta noite, chamando a vossa atenção ao ensinamento da Exortação Apostólica Familiaris consortio (Parte segunda, nn. 12-16)».
Bento XV dedicou-se em seguida a falar do «fundamento antropológico da família». Matrimônio e família – explicou – não são, na realidade, uma construção sociológica casual, fruto de particulares situações históricas e econômicas. Ao contrário, a questão da justa relação entre o homem e a mulher afunda as suas raízes dentro da essência mais profunda do ser humano e pode encontrar a sua resposta só a partir dela. Isto é, não pode estar separada da pergunta antiga e sempre nova do homem sobre si mesmo: quem sou? O que é o homem? E esta pergunta, por sua vez, não pode ser separada da interrogação acerca de Deus: Deus existe? E quem é Deus? Qual é verdadeiramente o seu rosto? A resposta da Bíblia a estas duas interrogações é unitária e conseqüente: o homem é criado à imagem de Deus, e o próprio Deus é amor. Por isso a vocação para o amor é aquilo que faz com que o homem seja a autêntica imagem de Deus: ele torna-se semelhante a Deus na medida em que ama. Deste vínculo fundamental entre Deus e o homem tem origem outro: o vínculo indissolúvel entre espírito e corpo: de fato, o homem é alma que se exprime no corpo e corpo que é vivificado por um espírito imortal. Também o corpo do homem e da mulher tem, por conseguinte, por assim dizer, um caráter teológico, não é simplesmente corpo, e o que é biológico no homem não é só biológico, mas expressão e cumprimento da nossa humanidade. De igual modo, a sexualidade humana não está ao lado do nosso ser pessoa, mas pertence-lhe. Só quando a sexualidade se integra na pessoa, consegue dar um sentido a si mesma. Assim, dos dois vínculos, do homem com Deus e, no homem, do corpo com o espírito, brota um terceiro: o vínculo entre pessoa e instituição. A totalidade do homem inclui de fato a dimensão do tempo, e o "sim" do homem é um ir além do momento presente: na sua inteireza, o "sim" significa "sempre", constitui o espaço da fidelidade. Só dentro dele pode crescer aquela fé que dá um futuro e permite que os filhos, fruto do amor, creiam no homem e no seu futuro em tempos difíceis. Por conseguinte, a liberdade do "sim" revela-se liberdade capaz de assumir o que é definitivo: a maior expressão da liberdade não é então a busca do prazer, sem jamais alcançar uma verdadeira decisão. Aparentemente esta abertura permanente parece ser a realização da liberdade, mas não é verdade: a verdadeira expressão da liberdade é a capacidade de decidir por uma doação definitiva, na qual a liberdade, doando-se, se reencontra plenamente a si mesma. Em concreto, o "sim" pessoal e recíproco do homem e da mulher abre o espaço para o futuro, para a autêntica humanidade de cada um, e ao mesmo tempo está destinado à doação de uma nova vida. Por isso, este "sim" pessoal não pode deixar de ser um "sim" também publicamente responsável, com o qual os cônjuges assumem a responsabilidade pública da fidelidade que garante também o futuro para a comunidade. Com efeito, nenhum de nós pertence exclusivamente a si mesmo: portanto, cada um está chamado a assumir no mais íntimo de si a própria responsabilidade pública. O matrimônio como instituição não é, por conseguinte, uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, a imposição externa de uma forma na realidade mais privada que é a vida; ao contrário, é exigência intrínseca do pacto de amor conjugal e da profundidade da pessoa humana. As várias formas hodiernas de dissolução do matrimônio, como as uniões livres e o "matrimônio de prova", até ao pseudomatrimônio entre pessoas do mesmo sexo, são ao contrário, expressões de uma liberdade anárquica, que se faz passar indevidamente por verdadeira libertação do homem. Uma tal pseudoliberdade funda-se sobre uma banalização do corpo, que inevitavelmente inclui a banalização do homem. O seu pressuposto é que o homem pode fazer de si o que quer: o seu corpo torna-se assim uma coisa secundária, manipulável sob o ponto de vista humano, a ser utilizado como se deseja. A libertinagem, que se faz passar por descoberta do corpo e do seu valor, é na realidade um dualismo que torna o corpo desprezível, colocando-o por assim dizer fora do ser autêntico e da dignidade da pessoa.»
Ampla a reflexão do Papa também sobre o tema “Matrimônio e família na história da salvação”: «A verdade do matrimônio e da família, que afunda as suas raízes na verdade do homem, encontrou atuação na história da salvação, em cujo centro está a palavra: "Deus ama o seu povo". A revelação bíblica, de fato, é antes de tudo expressão de uma história de amor, a história da aliança de Deus com os homens: por isso, a história do amor e da união de um homem e de uma mulher na aliança do matrimônio pôde ser assumida por Deus como símbolo da história da salvação. O fato inexprimível, o mistério do amor de Deus pelos homens, recebe a sua forma lingüística do vocabulário do matrimônio e da família, em positivo e em negativo: de fato, o aproximar-se de Deus ao seu povo é apresentado na linguagem do amor esponsal, enquanto a infidelidade de Israel, a sua idolatria, é designada como adultério e prostituição. No Novo Testamento Deus radicaliza o seu amor até se tornar Ele mesmo, no seu Filho, carne da nossa carne, verdadeiro homem. Desta forma, a união de Deus com o homem assumiu a sua forma suprema, irreversível e definitiva. Assim, é traçada também para o amor humano a sua forma definitiva, aquele "sim" recíproco que não pode ser revogado: ela não aliena o homem, mas liberta-o das alienações da história para o conduzir à verdade da criação. A sacramentalidade que o matrimônio assume em Cristo significa portanto que o dom da criação foi elevado à graça de redenção. A graça de Cristo não se acrescenta de fora à natureza do homem, não lhe faz violência, mas liberta-a e restaura-a, precisamente ao elevá-la acima dos seus próprios limites. Assim como a encarnação do Filho de Deus revela o seu verdadeiro significado na cruz, também o amor humano autêntico é doação de si, e não pode existir se pretender subtrair-se à cruz. Queridos irmãos e irmãs, este vínculo profundo entre Deus e o homem, entre o amor de Deus e o amor humano, encontra confirmação também em algumas tendências e desenvolvimentos negativos, dos quais todos sentimos o peso. O aviltamento do amor humano, a supressão da autêntica capacidade de amar revela-se de fato, no nosso tempo, a arma mais apropriada e mais eficaz para afastar Deus do homem, para afastar Deus do olhar e do coração do homem. Analogamente, a vontade de "libertar" a natureza de Deus leva a perder de vista a própria realidade da natureza, inclusive da natureza do homem, reduzindo-a a um conjunto de funções, das quais dispor a seu bel-prazer para construir um suposto mundo melhor e uma suposta humanidade mais feliz».
O Papa falou em seguida dos filhos: «Também na geração dos filhos o matrimônio reflete o seu modelo divino, o amor de Deus pelo homem. No homem e na mulher a paternidade e a maternidade, como o corpo e como o amor, não se deixam circunscrever no biológico: a vida só é dada totalmente quando, com o nascimento, são dados também o amor e o sentido que fazem com que seja possível dizer sim a esta vida. Precisamente disto se torna totalmente evidente como é contrário ao amor humano, à vocação profunda do homem e da mulher, fechar sistematicamente a própria união à doação da vida, e ainda mais suprimir ou violar a vida que nasce. Contudo, nenhum homem e nenhuma mulher, sozinhos e unicamente com as próprias forças, podem dar aos filhos de maneira adequada o amor e o sentido da vida. De fato, para poder dizer a alguém "a tua vida é boa, mesmo se eu não conheço o teu futuro", são necessárias uma autoridade e uma credibilidade superiores às que o indivíduo pode ter sozinho. O cristão sabe que esta autoridade é conferida àquela família mais vasta que Deus, através do seu Filho Jesus Cristo e da doação do Espírito Santo, criou na história dos homens, isto é, a Igreja. Aqui ele reconhece a obra daquele amor eterno e indestrutível que garante à vida de cada um de nós um sentido permanente, mesmo se não conhecemos o futuro. Por este motivo, a edificação de cada família cristã individualmente coloca-se no contexto da família mais ampla da Igreja, que a ampara e a leva consigo e garante que existe o sentido e que haverá também no seu futuro o "sim" do Criador. E reciprocamente a Igreja é edificada pelas famílias, "pequenas Igrejas domésticas", como lhes chamou o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, 11; Apostolicam actuositatem, 11), redescobrindo uma antiga expressão patrística (São João Crisóstomo, In Genesim serm. VI, 2; VII, 1). No mesmo sentido a Familiaris consortio afirma que "o matrimônio cristão... constitui o lugar natural onde se cumpre a inserção da pessoa humana na grande família da Igreja" (n. 15)».
Papa Bento XVI concentrou-se então sobre o tema: “Família e Igreja”. « De tudo isto surge uma conseqüência evidente: a família e a Igreja, em concreto, as paróquias e as outras formas de comunidade eclesial, estão chamadas à colaboração mais estreita naquela tarefa fundamental que é constituída, inseparavelmente, pela formação da pessoa e pela transmissão da fé. Sabemos bem que para uma autêntica obra educativa não é suficiente uma teoria justa ou uma doutrina a ser comunicada. Há necessidade de algo muito maior e humano, daquela proximidade, quotidianamente vivida, que é própria do amor e que encontra o seu espaço mais propício na comunidade familiar, e depois também numa paróquia, movimento ou associação eclesial, em que se encontrem pessoas que se ocupam dos irmãos, em particular das crianças, mas também dos adultos, dos idosos, dos doentes, das próprias famílias, porque, em Cristo, os amam. O grande Padroeiro dos educadores, São João Bosco, recordava aos seus filhos espirituais que "a educação é algo do coração e que só Deus é o seu dono" (Epistolário, 4, 209). Central na obra educativa, e especialmente na educação para a fé, que é o vértice da formação da pessoa e o seu horizonte mais adequado, é em concreto a figura da testemunha: ela torna-se ponto de referência precisamente enquanto sabe dizer a razão da esperança que anima a sua vida (cf. 1 Pd 3, 15), e está pessoalmente comprometida com a verdade que propõe. Por outro lado, a testemunha nunca se propõe a si mesma como ponto de referência, mas propõe algo, ou melhor Alguém maior do que ela que encontrou e de quem experimentou a bondade confiante. Assim, cada educador e testemunha encontra o seu modelo insuperável em Jesus Cristo, a grande testemunha do Pai, que nada dizia de si mesmo, mas falava como o Pai lhe tinha ensinado (cf. Jo 8, 28). Este é o motivo pelo qual na base da formação da pessoa cristã e da transmissão da fé está necessariamente a oração, a amizade pessoal com Cristo e a contemplação n'Ele do rosto do Pai. Evidentemente, o mesmo é válido para qualquer nosso compromisso missionário, em particular para a pastoral familiar: a Família de Nazaré seja, portanto, para as nossas famílias e para as nossas comunidades, objeto de oração constante e confiante, além de ser modelo de vida.
Queridos irmãos e irmãs, e sobretudo vós, queridos sacerdotes, conheço a generosidade e a dedicação com que servis o Senhor e a Igreja. O vosso trabalho quotidiano na formação para a fé das novas gerações, em estreita ligação com os sacramentos da iniciação cristã, como também pela preparação para o matrimônio e para o acompanhamento das famílias no seu caminho, com freqüência não fácil, sobretudo na grande tarefa da educação dos filhos, é a via fundamental para regenerar sempre de novo a Igreja e também para vivificar o tecido social desta nossa amada cidade de Roma».
Quanto à ameaça do relativismo, o Papa pediu que não se deixasse «desencorajar pelas dificuldades» que toda família pode encontrar. « A relação educativa é por sua natureza uma coisa delicada: de fato, ela chama em causa a liberdade do outro que, mesmo se docemente, é contudo sempre provocada a uma decisão. Nem os pais, nem os sacerdotes ou os catequistas, nem os outros educadores se podem substituir à liberdade da criança, do adolescente ou do jovem a quem se dirigem. E especialmente a proposta cristã interpela profundamente a liberdade, chamando-a à fé e à conversão. Hoje, um obstáculo particularmente insidioso à obra educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa sozinho, como última medida, o próprio eu com as suas decisões, e sob a aparência da liberdade torna-se para cada um uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do seu "Eu". Dentro de um horizonte relativista como este não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade; mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de fato, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, do valor do seu compromisso para construir com os outros algo em comum. Por conseguinte, é claro que não só devemos procurar superar o relativismo no nosso trabalho de formação das pessoas, mas estamos chamados também a contrastar o seu predomínio destruidor na sociedade e na cultura. Por isso, é muito importante que, paralelamente com a palavra da Igreja, haja o testemunho e o compromisso público das famílias cristãs, especialmente para reafirmar a intangibilidade da vida humana desde a sua concepção até ao seu fim natural, o valor único e insubstituível da família fundada no matrimônio e a necessidade de disposições legislativas e administrativas que defendam as famílias na tarefa de gerar e educar os filhos, tarefa essencial para o nosso futuro comum. Também por este compromisso vos digo um obrigado cordial».
10 de junho de: Audiência aos Bispos de República da Sul-África, Botsuana, Suazilândia, Namíbia e Lesoto em visita Ad Limina
“Os católicos na vossa região constituem uma minoria. Isto representa muitos desafios que requerem dedicação da parte da Igreja no auxílio eficaz à grei e, ao mesmo tempo, na fidelidade ao seu compromisso missionário. Por este motivo é essencial que os Bispos promovam a obra crucial de catequese para garantir que o povo de Deus esteja realmente pronto a testemunhar com as palavras e com as ações o ensinamento autêntico do Evangelho”. É aquilo que recomendou Bento XVI dirigindo-se aos Bispos da República da Sul-África, Botsuana, Suazilândia, Namíbia e Lesoto recebidos em audiência na manhã de sexta-feira 100 de junho, na Sala dos Papas, por ocasião da sua visita «ad limina Apostolorum».
No início do encontro o Santo Padre, saldando os Bispos e com o seu clero, as religiosas e os leigos dos respectivos Países, recordou que a visita ad limina Apostolorum ocorre no ano dedicado à Eucaristia, sacramento que “deve estar sempre ao centro do vosso ministério episcopal e uma inspiração para quantos de vos assistem na vossa tarefa sagrada”. O Papa rendeu depois graças à Deus pelos numerosos sacerdotes, religiosos e leigos, homens e mulheres, que dedicaram a própria vida à evangelização e à catequese, relembrando a particular responsabilidade dos Bispos de garantir a estes “insubstituíveis evangelizadores” a necessária preparação espiritual, doutrinal e moral.
A África sub-saariana é abençoada por Deus com abundantes vocações, ainda que a região tenha necessidade de um número ainda maior de sacerdotes. “Enquanto Pastores do rebanho de Cristo, tendes a grave responsabilidade de ajudá-los a tornarem-se homens da Eucaristia – exortou Bento XVI. Os sacerdotes são chamados a deixar tudo e a tornarem-se sempre mais devotos ao Santíssimo Sacramento, concluindo homens e mulheres a este mistério e à paz que este porta consigo”. O Papa encorajou depois os Bispos “a selecionar conscienciosamente os candidatos ao sacerdócio” e a formá-los adequadamente “para garantir que estejam prontos aos numerosos desafios que deveram enfrentar... Um mundo cheio de tentações tem necessidade de sacerdotes totalmente dedicados à própria missão. Conseqüentemente pede-se a eles em modo especial de abrirem-se completamente ao serviço dos outros como fez Cristo acolhendo o dom do celibato. Os Bispos deveriam assistir-lhes assegurando que tal dom não se torne jamais um fardo, mas permaneça sempre doador de vida”.
Na parte conclusiva de seu discurso, o Papa concentrou-se sobre o tema da família, desde sempre “um elemento unificador da sociedade africana”, hoje infelizmente ameaçada “pelo divórcio, pelo aborto, pela prostituição, pelo tráfico de seres humanos e pela mentalidade a favor da contracepção, que contribuem ao desmoronamento da moral sexual”. Bento XVI disse portanto aos Bispos de compartilhar a sua profunda preocupação “pela devastação causada pelo vírus da Aids e pelas doenças a este ligadas”, e de rezar em particular “pelas viúvas, pelos órfãos, pelas jovens mães e pelas pessoas cuja vida foi feita em pedaços por esta cruel epidemia”. Exortou-os, portanto, a prosseguir em seus esforços pelo combate a este vírus “que não somente mata, mas ameaça seriamente a estabilidade econômica e social do continente. A Igreja católica esteve sempre na primeira linha na prevenção e nos cuidados com esta doença. O ensinamento tradicional da Igreja demonstrou ser o único modo intrinsecamente seguro para prevenir a difusão do HIV/Aids”.
12 de junho: Discurso do Angelus
Enquanto prossegue o Ano da Eucaristia, o Santo Padre Bento XVI quis lembrar antes da oração mariana do Angelus de domingo, 12 de junho, a importância do Domingo, Dia do Senhor, e do compromisso dos pais na educação à fé de seus filhos. Recordando o que destacou no recente Congresso Eucarístico italiano, o Papa reiterou que a participação à Missa dominical dever ser sentida pelo cristão “não como uma imposição ou como um peso, mas como uma necessidade e uma alegria. Reunir-se com os irmãos, escutar a Palavra de Deus, alimentar-se de Cristo, imolado por nós, é uma experiência que dá sentido à vida, que infunde paz no coração. Sem o domingo, nós, os cristãos, não podemos viver”.
O Santo Padre, em seguida, evidenciou o papel dos pais, “chamados a fazer com que seus filhos redescubram o valor e a importância da resposta ao convite de Cristo, que convoca toda a família cristã à missa dominical”. Neste caminho, uma etapa significativa é constituída pela Primeira Comunhão, “uma verdadeira festa para a comunidade paroquial, que acolhe pela primeira vez seus filhos menores à mesa do Senhor”. Justamente para destacar a importância deste evento para a família e para a paróquia, o Papa anunciou que, em 15 de outubro, realizará no Vaticano “um encontro especial de catequese para as crianças, em particular de Roma e do Lácio, que durante este ano receberam a Primeira Comunhão. Esta reunião festiva terá lugar quase no final do Ano da Eucaristia, enquanto se celebrará a assembléia ordinária do Sínodo dos Bispos, centrada no mistério eucarístico. Será uma circunstância oportuna e bela para confirmar o papel essencial que o Sacramento da Eucaristia tem na formação e crescimento das crianças”.
Antes de rezar a oração mariana, o Papa confiou este encontro à Virgem Maria, “para que nos ensine a amar cada vez mais Jesus, meditando constantemente sua Palavra e adorando sua presença eucarística, e nos ajude a fazer com que as jovens gerações descubram a «pérola preciosa» da Eucaristia, que dá autêntico e pleno sentido à vida”.
25 de junho de 2005: Audiência aos Bispos de Papua Nova Guiné e Ilhas Salomão em visita Ad Limina
“Jesus Cristo continua a levar as populações de suas duas ilhas a uma fé e a uma vida mais profundas n’Ele. Enquanto Bispos, respondam à sua voz pedindo de que modo a Igreja pode se tornar um instrumento sempre mais eficaz de Cristo”: foi o que recomendou o Santo Padre Bento XVI aos Bispos da Conferência Episcopal de Papua Nova Guiné e da Ilhas Salomão, recebidos em audiência na manhã de sábado, 25 de junho, por ocasião de sua visita ad limina Apostolorum.
O Papa recordou que da recente Assembléia Geral nacional em Papua Nova Guiné e do Seminário nas Ilhas Salomão, emergiram “sinais claros que incluem a forte participação dos jovens na missão da Igreja, a generosidade excepcional dos missionários e o florescimento de vocações locais”, sem, no entanto, esquecer das dificuldades. “Diante dessas dificuldades, os fiéis olham para vocês para que sejam testemunhas corajosas de Cristo, atentos em buscar novos modos para transmitir a fé, para que a força do Evangelho possa permear o modo de pensar, os modelos de juízo e as normas de comportamento.”
Prosseguindo o seu discurso, Bento XVI falou da relação entre sacerdotes e Bispos, que se expressa “no apoio à identidade única de seus sacerdotes, no encorajamento de sua santificação particular no ministério e na promoção de um aprofundamento de seu empenho pastoral”. O Papa reiterou ainda que “a identidade sacerdotal nunca deve ser comparada a nenhum título secular ou confundida com um trabalho civil ou político… O sacerdote vive uma vida de simplicidade, castidade e humilde serviço que inspira os outros com o exemplo. No centro do sacerdócio, existe a celebração quotidiana e devota da Santa Missa. Neste Ano da Eucaristia, dirijo-me aos seus sacerdotes: sejam fiéis a este compromisso, que é o centro e a missão da vida de cada um de vocês”.
Sobre a formação dos sacerdotes e dos religiosos, “parte integrante de uma evangelização bem feita”, há tempo objeto de reflexão, o Papa exortou os Bispos “a garantir uma seleção atenta dos candidatos, a supervisionar pessoalmente os seminários e a oferecer programas regulares de formação permanente, tão necessária para o aprofundamento da identidade sacerdotal e religiosa e para o enriquecimento do alegre empenho ao celibato”. Por fim, o Santo Padre expressou profunda gratidão “para com aqueles que atuam nos seminários e nas casas de formação”.
A última parte do discurso do Papa foi dedicada aos catequistas: “um número sempre maior de fiéis leigos está apreciando mais profundamente seu dever de participar da missão de evangelização da Igreja”, disse o Santo Padre, recordando o que emergiu durante o Sínodo para a Oceania, e encorajou os Bispos a promover apropriados programas de catequese para adultos, principalmente sobre temas do matrimônio e da vida familiar.
Por fim, o Papa exortou os Bispos: “Unidos na sua proclamação da Boa Nova de Jesus Cristo, vão plenos de esperança! Invocando sobre vocês a intercessão do bem-aventurado Peter To Rot, ofereço de coração a minha Bênção Apostólica a vocês e aos sacerdotes, aos religiosos e aos fiéis leigos de suas Dioceses”
8 de setembro de 2005: Audiência ao primeiro grupo de Bispos do México em visita Ad Limina
“Os momentos de encontro entre os Bispos são uma preciosa ocasião para viver e aprofundar a unidade. Neste sentido, a Conferência do Episcopado do México é também chamada a ser um sinal vivo da comunhão eclesial, com o objetivo de facilitar o ministério dos Bispos e a reforçar a colegialidade. Hoje, mais do que nunca, é necessário unir as forças e trocar experiências”. Esta é a exortação dirigida pelo Santo Padre Bento XVI ao primeiro grupo de Bispos do México («Norte Ocidente»), recebidos em visita Ad limina Apostolorum na quinta-feira, 8 de setembro, no Palácio apostólico de Castel Gandolfo.
Depois de recordar que "a nação mexicana surgiu do encontro de povos e culturas, cuja fisionomia foi marcada pela presença viva de Jesus Cristo e pela mediação de Maria”, o Papa disse: “Hoje o México vive um processo de transição caracterizado pela aparição de grupos que, às vezes, de maneira mais ou menos ordenada, buscam novos espaços de participação e representação. Muitos deles advogam com particular força a reivindicação em favor dos pobres e dos excluídos do desenvolvimento, particularmente dos indígenas. Os profundos desejos de consolidar uma cultura e instituições democráticas, econômicas e sociais, que reconheçam os direitos humanos e os valores culturais do povo, devem encontrar um eco e uma resposta iluminadora na ação pastoral da Igreja.”
O Santo Padre destacou a urgência, para todos os âmbitos da Igreja, de ajudar cada fiel “a viver o Evangelho nas diversas dimensões da vida… As formas tradicionais de viver a fé, transmitidas de modo sincero e espontâneo através de costumes e dos ensinamentos familiares, devem amadurecer em uma opção pessoal e comunitária”. Em particular, tal formação é necessária para os jovens, evidenciou Bento XVI, os quais “quando deixam de freqüentar a comunidade eclesial, depois dos Sacramentos de iniciação, se encontram diante de uma sociedade marcada por um crescente pluralismo cultural e religioso.”
Também as famílias requerem um acompanhamento adequado para descobrir e viver sua dimensão de "igreja doméstica"”. Mas é preciso sempre ter presente que, no entanto, o mero conhecimento dos conteúdos da fé "não supre a experiência do encontro pessoal com o Senhor”.
Entre as luzes que indicam a riqueza eclesial do México, o Santo Padre citou os mais de 400 Institutos de vida consagrada, principalmente femininos, muitos dos quais fundados no México, “que evangelizam todo o país e nos diversos ambientes, culturas e locais”. A estes, acrescentam-se uma maior participação dos fiéis leigos, uma crescente presença de movimentos leigos nacionais e internacionais, uma maior experiência comunitária. “Em relação às realidades locais e regionais, os Bispos têm de favorecer os processos pastorais orgânicos que dêem um maior sentido às manifestações derivadas da tradição e dos costumes. Esses processos devem ter por objetivo, primeiramente, integrar as diretrizes do Concílio com os desafios pastorais que as diversas situações concretas apresentam”.
Por fim, Bento XVI recordou que "a sociedade atual questiona e observa a Igreja, exigindo coerência e intrepidez na fé. Sinais visíveis de credibilidade serão o testemunho de vida, a unidade dos crentes, o serviço aos pobres e a incansável promoção de sua dignidade. Na tarefa evangelizadora, há que ser criativos, sempre em fidelidade à Tradição da Igreja e de seu magistério”. Por encontrarmo-nos em uma nova cultura marcada pelo meios de comunicação social, disse o Papa, a Igreja no México tem de aproveitar a “colaboração de seus fiéis, a preparação de tantos homens de cultura e as oportunidades que as instituições públicas concedem em matéria dos citados meios”.
3 de dezembro: Audiência aos Presidentes das Comissões Episcopais para a Família e para a Vida da América Latina
“Hoje é preciso anunciar com renovado entusiasmo que o Evangelho da família é um caminho de realização humana e espiritual, com a certeza de que o Senhor está sempre presente com a sua graça. Este anúncio é muitas vezes deformado por falsas concepções do matrimônio e da família, que não respeitam o projeto originário de Deus. Neste sentido, chegou-se a propor novas formas de matrimônio, algumas desconhecidas nas culturas dos povos, nas quais se altera a sua natureza específica”. Foi o que reiterou o Santo Padre Bento XVI, recebendo em audiência no sábado, 3 de dezembro, os participantes do III Encontro dos Presidentes das Comissões Episcopais para a Família e a Vida da América Latina, promovido pelo Pontifício Conselho para a Família.
“Também no âmbito da vida, estão surgindo novas impostações que colocam em discussão este direito fundamental - prosseguiu o Papa -. Como conseqüência, se favorece a eliminação do embrião ou o seu uso arbitrário em nome do progresso da ciência que, não reconhecendo os próprios limites e não aceitando todos os princípios morais que permitem tutelar a dignidade da pessoa, se torna uma ameaça para o próprio ser humano, que é reduzido a um objeto ou a um mero instrumento. Quando se chega a tais níveis, a própria sociedade é prejudicada e suas bases são abaladas com todo tipo de risco”.
No seu discurso, o Pontífice agradeceu de modo particular aos Bispos pela sua solicitude pastoral “no intuito de salvaguardar os valores fundamentais do matrimônio e da família, ameaçados pelo fenômeno atual da secularização que impede à consciência social descobrir adequadamente a identidade e a missão da instituição familiar, e ultimamente a pressão de leis injustas que ignoram os seus direitos fundamentais”. Além disso, o Papa Bento XVI recordou o dever dos Pastores de “apresentar em toda a sua riqueza o valor extraordinário do matrimônio que, enquanto instituição natural, é ‘patrimônio da humanidade’”.
O Santo Padre também destacou com prazer o crescimento e a consolidação da obra das Igrejas particulares em favor da família, “que afunda as suas raízes no desígnio amoroso de Deus e representa o modelo insubstituível para o bem comum da humanidade”. Além disso, reiterou que na América Latina, e em qualquer outro lugar, “os filhos têm o direito de nascer e de crescer dentro de uma família fundada no matrimônio, onde os pais sejam os primeiros educadores da fé para os filhos, e estes possam alcançar sua plena maturidade humana e espiritual. Realmente, os filhos são a maior riqueza e o bem mais precioso da família”. É preciso, portanto, ajudar as pessoas “a tomar consciência do mal intrínseco do crime do aborto que, atentando contra a vida humana no seu início, é também uma agressão contra a própria sociedade. Por isso, os políticos e os legisladores, como servidores do bem comum, têm o dever de defender o direito fundamental à vida, fruto do amor de Deus”. Para alcançar esse objetivo, é necessário que os agentes pastorais, sacerdotes e leigos tenham uma sólida preparação neste campo.
No final do seu discurso, o Santo Padre recordou o aproximar-se do V Encontro Mundial das Famílias, que se realizará em Valença, na Espanha, e encorajou os que se ocupam “da difícil tarefa da sua preparação”, auspiciando a presença de numerosas delegações da América Latina. “Da minha parte - concluiu Bento XVI -, apóio resolutamente a celebração deste encontro e o coloco sob a amorosa proteção da Santa Família”
25 de dezembro: a primeira Encíclica, “Deus Caritas est”
Introdução - « Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele » (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a conseqüente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: « Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem ». Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. No seu Evangelho, João tinha expressado este acontecimento com as palavras seguintes: « Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único para que todo o que n'Ele crer (...) tenha a vida eterna » (3, 16). Com a centralidade do amor, a fé cristã acolheu o núcleo da fé de Israel e, ao mesmo tempo, deu a este núcleo uma nova profundidade e amplitude. O crente israelita, de fato, reza todos os dias com as palavras do Livro do Deuteronômio, nas quais sabe que está contido o centro da sua existência: « Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças » (6, 4-5). Jesus uniu — fazendo deles um único preceito — o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo, contido no Livro do Levítico: « Amarás o teu próximo como a ti mesmo » (19, 18; cf. Mc 12, 29-31). Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um « mandamento », mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro.
Num mundo em que ao nome de Deus se associa às vezes a vingança ou mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto. Por isso, na minha primeira Encíclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós. Estão assim indicadas as duas grandes partes que compõem esta Carta, profundamente conexas entre elas. A primeira terá uma índole mais especulativa, pois desejo — ao início do meu Pontificado — especificar nela alguns dados essenciais sobre o amor que Deus oferece de modo misterioso e gratuito ao homem, juntamente com o nexo intrínseco daquele Amor com a realidade do amor humano. A segunda parte terá um caráter mais concreto, porque tratará da prática eclesial do mandamento do amor ao próximo. O argumento aparece demasiado amplo; uma longa explanação, porém, não entra no objetivo da presente Encíclica. O meu desejo é insistir sobre alguns elementos fundamentais, para deste modo suscitar no mundo um renovado dinamismo de empenhamento na resposta humana ao amor divino.”
“O amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam”. (Deus Caritas est, 2)
“O eros está de certo modo enraizado na própria natureza do homem; Adão anda à procura e « deixa o pai e a mãe » para encontrar a mulher; só no seu conjunto é que representam a totalidade humana, tornam-se « uma só carne ». Não menos importante é o segundo aspecto: numa orientação baseada na criação, o eros impele o homem ao matrimônio, a uma ligação caracterizada pela unicidade e para sempre; deste modo, e somente assim, é que se realiza a sua finalidade íntima. À imagem do Deus monoteísta corresponde o matrimônio monogâmico. O matrimônio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano. Esta estreita ligação entre eros e matrimônio na Bíblia quase não encontra paralelos literários fora da mesma”. (Deus Caritas est, 11)
31 de dezembro – Homilia durante o “Te Deum” de fim de ano
Um aceno à família e ao Programa Pastoral da Diocese de Roma, Papa Bento XVI quis fazer também no último dia do ano de 2005, durante a homilia para o Te Deum de agradecimento pelo fim do ano civil. «No que diz respeito ao caminho da Diocese de Roma, agrada-me deter-me brevemente sobre o programa pastoral diocesano, que este ano fixou a sua atenção na família, escolhendo como tema: "Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé". A família sempre esteve no centro da atenção dos meus venerados Predecessores, em particular de João Paulo II, que a ela dedicou múltiplas intervenções. Ele estava convicto, e em muitas ocasiões repetiu, que a crise da família constitui um grave dano para a nossa civilização. Precisamente para acentuar a importância da família fundada sobre o matrimônio na vida da Igreja e da sociedade, também eu quis oferecer a minha contribuição intervindo, na tarde de 6 de Junho passado, no Congresso diocesano de São João de Latrão. Estou feliz porque o programa da Diocese está a desenvolver-se positivamente com uma minuciosa acção apostólica, que é realizada nas paróquias, nas prefeituras e nas várias agregações eclesiais. Permita o Senhor que o esforço comum conduza a uma renovação autêntica das famílias cristãs. Aproveito a ocasião para saudar os representantes da Comunidade religiosa e civil de Roma presentes nesta celebração de fim de ano. Em primeiro lugar saúdo o Cardeal Vigário, os Bispos Auxiliares, os sacerdotes, os religiosos e os fiéis leigos provenientes das várias paróquias; saúdo também o Presidente da Câmara Municipal da Cidade e as demais Autoridades. Estendo o meu pensamento à inteira comunidade romana, da qual o Senhor me chamou para ser Pastor, e renovo a todos a expressão da minha proximidade espiritual».
12 de janeiro: Audiência a algumas comunidades do Caminho Neocatecumenal e a duzentas famílias a espera de sair em missão
“Queridas famílias, o crucifixo que recebem será seu inseparável companheiro de caminho, enquanto proclamam com sua ação missionária que somente em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, há salvação. Dele vocês serão testemunhas bondosas e gozosas, percorrendo com simplicidade e pobreza os caminhos de todos os continentes, sustentados pela incessante oração, atentos à palavra de Deus e alimentados pela participação na vida litúrgica das Igrejas particulares às quais serão enviados”. Com essas palavras, o Santo Padre Bento XVI se dirigiu a cerca de 200 famílias do Caminho Neocatecumenal, que recebeu em audiência esta manhã juntos aos responsáveis do Caminho: Kiko Argüello, Carmen Hernández e Padre Mario Pezzi.
O Santo Padre destacou no seu discurso que o especial “envio” missionário das famílias que irão a diversas nações, principalmente na América Latina, “se insere no contexto da nova evangelização, na qual desempenha um papel muito importante a própria família”. Em especial, o envio conferido pelo Sucessor de Pedro significa que “sua ação apostólica tende a integrar-se no coração da Igreja, em plena sintonia com suas diretrizes e em comunhão com as Igrejas particulares nas quais atuarão”.
O Papa Bento XVI reiterou “importância da liturgia e, em particular, a da santa missa na evangelização” e como “a centralidade do mistério de Cristo, celebrado nos ritos litúrgicos, constitui um caminho privilegiado e indispensável para construir comunidades cristãs vivas e perseverantes”. A este propósito, citou uma recente carta da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em que, a seu nome, foram disponibilizadas algumas normas concernentes à Celebração eucarística: “Estou seguro - disse o Pontífice - de que observarão atentamente estas normas que recolhem o que está previsto nos livros litúrgicos aprovados pela Igreja. Graças à adesão fiel a todas as diretrizes da Igreja, vocês realizarão de modo ainda mais eficaz seu apostolado, em sintonia e comunhão plena com o Papa e com os pastores de cada diocese”.
Entre os abundantes frutos pastorais colhidos pelo Caminho Neocatecumenal, o Santo Padre citou as numerosas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. “Hoje, nossa atenção dirige-se especialmente às famílias. Mais de duzentas estão dispostas a serem enviadas em missão; são famílias que partem sem grandes apoios humanos, mas que contam, antes de tudo, com o apoio da Providência divina. Queridas famílias, testemunhem com sua história que o Senhor não abandona quem confia nele. Sigam difundindo o Evangelho da vida. Ali onde os levar sua missão, deixem-se iluminar pelas consoladoras palavras de Jesus: «Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo». Em um mundo que busca a certeza humana e a segurança, mostrem que Cristo é a rocha segura sobre a qual há de se construir o edifício da própria existência, e que a confiança posta nele nunca é vã”.
12 de janeiro de 2006: Audiência aos representantes das Administrações da cidade e da província de Roma e da Região Lazio
Papa Bento XVI, encontrando no Vaticano os representantes das administrações das cidades e da província de Roma e da Região Lazio para a apresentação das felicitações para o início do ano novo, quis defender abertamente a família «fundada sobre o matrimônio» (sem atribuir «a outras formas de união impróprios reconhecimentos jurídicos») e dizer o «próprio ‘não’ à pílula abortiva Ru486, embora não a nomeando diretamente: é necessário «evitar – disse o Papa – a introdução de fármacos que escondam em qualquer modo a gravidade do aborto, como escolha contra a vida». «Penso em particular – disse ainda Bento XVI falando sobre a família – naquele terreno por demais sensível, e decisivo para o futuro da sociedade, que é representado pela família». Dúplice o empenho: «De um lado são oportunos todos aquelas providências que possam ser de auxílio aos jovens casais na formação de uma família e à família mesma na geração e educação dos filhos: a este respeito vem logo à mente problemas como o dos custos das residências, dos berçários e das escolas para crianças menores. De outro lado, é um grave erro obscurecer o valor e as funções da família legítima fundada sobre o matrimônio, atribuindo a outras formas de união impróprios reconhecimentos jurídicos, dos quais não há, em realidade, alguma efetiva exigência social».
24 de janeiro de 2006: Mensagem para a Jornada Mundial das Comunicações Sociais de 2006
“Em continuidade com o quadragésimo aniversário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II, desejo recordar o Decreto sobre os Meios de Comunicação Social, Inter Mirifica, que reconheceu aos mass media o poder de influenciar toda a sociedade humana. A necessidade de usufruir do melhor modo possível de tais potencialidades, em benefício da humanidade inteira, estimulou-me, nesta minha primeira mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, a refletir acerca do conceito de que a mídia se pode configurar como uma rede capaz de facilitar a comunicação, a comunhão e a cooperação”. Inicia-se com essas palavras a Mensagem do Santo Padre Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais 2006, que se celebrará na solenidade da Ascensão do Senhor, em 28 de maio. Como é tradição, a Mensagem foi publicada na festa litúrgica de S. Francisco de Sales, Padroeiro dos jornalistas.
Mesmo que os progressos tecnológicos no campo da mídia permitem às pessoas separadas por longas distâncias de entrar em comunicação instantânea e direta, “verificamos quotidianamente que a rapidez da comunicação nem sempre consegue criar um espírito de colaboração e de comunhão no âmbito da sociedade”, destaca o Santo Padre. “A comunicação autêntica deve basear-se na coragem e na decisão. Quantos trabalham na mídia devem estar determinados a não se deixarem subjugar pela grande quantidade de informações e não devem contentar-se com verdades parciais ou transitórias”.
Relançando o apelo para que a mídia de hoje “seja responsável, para se tornar protagonista da verdade e promotora da paz que dela deriva”, o Santo Padre evidencia que “os meios de comunicação social são uma «grande mesa-redonda» para o diálogo da humanidade, mas algumas atitudes no seu interior podem gerar uma monocultura que ofusca o gênio criativo, reduz a subtileza de um pensamento complexo e desvaloriza as peculiaridades das práticas culturais e a individualidade do credo religioso. Estas degenerações verificam-se quando a indústria da mídia se torna fim em si mesma, tendo unicamente por finalidade o lucro, perdendo de vista o sentido de responsabilidade no serviço ao bem comum”. A Mensagem, portanto, destaca a necessidade de garantir sempre “uma cuidadosa crônica dos acontecimentos, uma explicação satisfatória dos assuntos de interesse público, uma apresentação honesta dos diversos pontos de vista”. De particular atualidade e importância é “apoiar e encorajar a vida matrimonial e familiar”, assim como a educação das crianças e dos jovens propondo-lhes modelos válidos.
A Mensagem, portanto, sublinha três pontos, identificados pelo Papa João Paulo II, “indispensáveis para um serviço destinado ao bem comum: formação, participação e diálogo”. “A formação para um uso responsável e crítico da mídia ajuda a pessoa a servir-se dela de modo inteligente e apropriado… Como serviço público, a comunicação social exige um espírito de cooperação e co-responsabilidade, exige um uso dos recursos públicos sábio como nunca e um sério compromisso da parte de quantos desempenham papéis de responsabilidade pública, recorrendo também a normas de regulação e a outras providências ou estruturas designadas para tal finalidade. Por fim, a promoção do diálogo através do intercâmbio de cultura, a expressão de solidariedade e a adesão à paz oferecem uma grande oportunidade à mídia que necessita ser revalorizada e usada”.
O Papa Bento XVI conclui declarando-se certo de que os esforços para aplicar essas indicações vão ajudar “homens, mulheres e crianças a tornarem-se mais conscientes da dignidade da pessoa humana, mais responsáveis e mais abertos aos outros, sobretudo aos membros da sociedade mais necessitados e mais débeis”.
6 de fevereiro de 2006: Audiência ao segundo grupo de Bispos Congolenses em visita Ad Limina
“Caros Irmãos no Episcopado, ao final do nosso encontro como não reiterar a fundada esperança que compartilho com vocês de ver a reconciliação e a paz triunfar no país e em toda a Região dos Grandes Lagos! Que todos aqueles que presidem ao destino da nação ajam de modo harmonioso e responsável para alcançar uma paz duradoura! Também apelo à comunidade internacional para que não esqueça a África, levando adiante, em particular, ações corajosas e determinadas a consolidar a estabilidade política e econômica do país”. Foi a exortação conclusiva dirigida pelo Santo Padre Bento XVI ao segundo grupo de Bispos da Conferência Episcopal da República Democrática do Congo, recebido em audiência na segunda-feira, 6 de fevereiro, por ocasião de sua visita ad limina Apostolorum. Agradecendo aos Bispos pelos encontros realizados singularmente, o Santo Padre os convidou a garantir a seus diocesanos a sua solidariedade, “agora que são convidados, com todos os habitantes do país, a mobilizarem-se para obter a paz e a reconciliação, depois de anos de guerra que causaram, principalmente em sua região, milhões de vítimas. Que vocês sejam corajosos defensores da dignidade de cada ser humano e testemunhas audazes da caridade de Cristo, para edificar uma sociedade sempre mais justa e mais fraterna!”
O Santo Padre, em seguida, voltou ao tema da paz (“o compromisso pela paz é um desafio lançado à missão evangelizadora do Bispo”) e das trágicas conseqüências da guerra: “Neste ano, que a Igreja local dedica à bem-aventurada Anuarite Nengapeta, faço votos que o imperativo da caridade os mobilize e que, mediante a santidade de suas vidas e o dinamismo missionário que os anima, vocês sejam realmente profetas da justiça e da paz”. Satisfeito com o trabalho pastoral desenvolvido nas Comunidades eclesiais vivas por sacerdotes, pessoas consagradas e diversos organismos caritativos ao serviço dos mais necessitados, o Papa convidou os Bispos a trabalharem sem reservas para construir a unidade do povo de Deus.
Entre as prioridades que aguardam os Bispos congoleses, Bento XVI recordou “a difícil tarefa” de radicar o Evangelho na cultura africana, dar “nova vitalidade” ao sacramento da Penitência, redescobrir a Eucaristia como centro da existência de sacerdotes e fiéis e edificar a Igreja Família de Deus. O Papa também louvou o empenho da Conferência Episcopal “em abrir nos corações e nas consciências caminhos de reconciliação e de comunhão fraterna”, fazendo votos que traga bons frutos a campanha para propor a todos os cidadãos uma educação cívica. “A Igreja é chamada a participar desta obra - prosseguiu o Papa -, no lugar que lhe corresponde e segundo a vocação que lhe é própria, e a oferecer uma contribuição específica ao bem comum e à consolidação do Estado de direito, mostrando o seu empenho quotidiano pelo bem-estar material e espiritual de todos os congoleses”. Em particular, o Papa recomendou a formação específica dos políticos, “aprofundando o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja”.
O uso dos meios de comunicação social, em particular o rádio e a televisão, é hoje necessário “para que a Palavra do Evangelho seja ouvida em todos os pontos do país e para que o ensinamento da Igreja influa profundamente sobre as consciências, sobre a mentalidade e sobre os costumes”, também para limitar a ação das seitas, “que utilizam abundantemente as novas tecnologias para atrair e confundir os fiéis”. Uma outra prioridade pastoral é constituída pela evangelização da família, desagregada pelo movimento dos refugiados e deslocados, pela pandemia da Aids e pelas mudanças da sociedade contemporânea. “Neste espírito, é oportuno prestar atenção à preparação humana e espiritual dos casais e ao acompanhamento pastoral das famílias, recordando a dignidade do matrimônio cristão, único e indissolúvel, e propondo uma espiritualidade conjugal forte, para que as famílias cresçam em santidade”.
O Papa dirigiu uma particular saudação a todas as pessoas consagradas, homenageando “aqueles, homens e mulheres que, em condições extremas, escolheram permanecer entre as populações provadas para oferecer-lhes a assistência, o conforto e o apoio espiritual necessários”. Por fim, os jovens, “verdadeira riqueza para a Igreja e para todo o país”, necessitam fortalecer sua fé e sua esperança, através de uma formação cristã vigorosa. Não faltam iniciativas pastorais para a recuperação dos meninos de rua e das crianças-soldado, e seja as escolas católicas, como todas as pessoas que se preocupam com a formação e a educação dos jovens, são convidadas a oferecer aos jovens “os meios para crescer na caridade, para cultivar o prazer do compromisso e para praticar o respeito recíproco, o aprendizado do diálogo e o serviço à comunidade, para que sejam membros ativos da evangelização e da renovação do tecido social”.
20 de fevereiro de 2006: Audiência aos Bispos do Senegal, Mauritânia, Cabo Verde e Guiné-Bissau em visita Ad Limina
“Através de vocês, Pastores da Igreja em Senegal, Mauritânia, Guiné-Bissau e Cabo Verde, uno-me com o coração e a oração aos povos dos quais vocês têm a responsabilidade pastoral. Que Deus abençoe os artífices de paz e fraternidade que, em seus Países, constroem relações de confiança e colaboração recíprocas entre as comunidades humanas e religiosas!”. Assim, o Santo Padre Bento XVI saudou os Bispos da Conferência Episcopal que reúne os quatro Países africanos, recebidos em audiência segunda-feira, 20 de fevereiro, no contexto de sua visita Ad limina Apostolorum.
As Igrejas particulares destas nações “apresentam uma grande diversidade de situações humanas e eclesiais, que por vezes dificulta a boa coordenação do trabalho dos Pastores”. Por este motivo, o Santo Padre destacou que “os vínculos de comunhão efetivos continuam essenciais...” “Caminhando com o seu povo, o Bispo deve suscitar, guiar e coordenar a ação evangelizadora, para que a fé aumente e se difunda entre os homens. Nesta perspectiva, o Evangelho deve ser plenamente enraizado na cultura de seus povos”. O retorno à religião tradicional por parte de alguns “deve incentivar a busca de meios apropriados para despertar e reforçar a fé à luz do Evangelho, e consolidar os fundamentos teológicos das Igrejas particulares, assumindo, ao mesmo tempo, o melhor da identidade africana”. O Papa também ressaltou que “para viver em fidelidade os compromissos batismais, é preciso ter uma sólida formação da fé, a fim de enfrentamos novos fenômenos da vida contemporânea”.
Na difícil obra de evangelização, os sacerdotes são colaboradores generosos do Bispo. Por isso, é preciso cuidar de sua formação inicial e permanente, fazendo deles “homens equilibrados do ponto de vista humano e espiritual, capazes de responder aos desafios que devem enfrentar, seja na vida pessoal, como pastoral”.
Em seguida, o Santo Padre evocou a contribuição generosa e constante dos institutos de vida consagrada para construir a harmonia na Igreja e contribuir em seu dinamismo missionário, auspiciando que os membros dos Institutos “mantenham relações de confiança e colaboração com os Pastores, vivendo uma comunhão profunda, não somente no âmbito de cada comunidade, mas também com a Igreja diocesana e universal”.
Um dos campos em que a Igreja é mais engajada é o desenvolvimento social. “O cristianismo não deve se reduzir a uma sabedoria puramente humana - reiterou o Santo Padre - e nem se deve confundir com um serviço social, pois se trata de um serviço também espiritual. Todavia, para o discípulo de Cristo, o exercício da caridade não pode ser um meio a serviço do proselitismo, visto que o amor é gratuito. Vocês exercem o serviço ao homem muitas vezes em colaboração com homens e mulheres que não compartilham a fé cristã, e, em especial, com muçulmanos. Os esforços realizados para o encontro na verdade dos fiéis de diversas tradições religiosas contribuem para a realização concreta do bem autêntico das pessoas e da sociedade. É imperativo aprofundar cada vez mais as relações fraternas entre as comunidades, a fim de favorecer um desenvolvimento harmonioso da sociedade, reconhecendo a dignidade de cada pessoa, e permitindo o livre exercício da própria religião a todos”.
Em especial, na Guiné-Bissau, a Igreja local “encontra-se na linha de frente na promoção do diálogo e da cooperação entre todos os componentes da Nação”; e o Papa exortou os Bispos a continuarem a ser “pontos de referência seguros e de orientação para todos os cidadãos”. Enfim, entre as prioridades pastorais das respectivas Dioceses, o Papa Bento XVI destacou o tema da família cristã: “Sem ela, faltaria a unidade basilar de vida e de construção da “Família de Deus”, proposta pela Igreja, em nosso continente, na Assembléia Sinodal de 1994. Ela não pode se considerar realmente inserida o encarnada se o ideal cristão de vida familiar não estiver enraizado em meio ao povo africano”.
17 de março de 2006: Audiência à Plenária do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais
“Eu os exorto a renovar seus esforços dirigidos a ajudar aqueles que atuam no mundo dos meios da comunicação social “a promoverem aquilo que é bom e autêntico, em particular a propósito do significado da existência humana e social, e a denunciarem aquilo que é falso, principalmente tendências que prejudicam o tecido de uma sociedade civil digna da pessoa humana.” Este é o convite que o Santo Padre Bento XVI dirigiu aos participantes da Plenária do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, recebidos em audiência na manhã de 17 de março, na Sala Clementina, no Vaticano.
“Desejo agradecer a todos vocês pelo empenho no importante apostolado das comunicações sociais - disse o Santo Padre no início do seu discurso - seja como forma direta de evangelização, seja como contribuição à promoção de tudo aquilo que é bom e autêntico para cada sociedade humana”. O Papa Bento XVI citou a sua primeira Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, sobre os meios de comunicação “como rede que facilita a comunicação, a comunhão e a cooperação”. Quarenta anos depois do Decreto do Concílio Vaticano II, “Inter Mirifica”, que já havia reconhecido o enorme poder dos meios de comunicação social ao inspirar a mente dos indivíduos e ao plasmar seu pensamento, hoje compreendemos mais do que nunca “a exigência de utilizar aquele poder em benefício da humanidade”.
O Papa Bento XVI indicou aos presentes o desafio de encorajar as comunicações sociais e a indústria do entretenimento a serem protagonistas da verdade e promotores de paz: “Este empenho requer coragem e determinação de princípio àqueles que possuem a influente indústria da comunicação social ou trabalham nela, a fim de garantir que a promoção do bem comum nunca seja sacrificada a um desejo egoístico de lucro ou a um programa ideológico de escassa responsabilidade pública”.
Uma outra urgência identificada pelo Santo Padre na Mensagem deste ano para o Dia Mundial das Comunicações Sociais diz respeito à necessidade de apoiar o matrimônio e a vida familiar, “fundamento de cada cultura e sociedade. Em cooperação com os pais, as comunicações sociais e a indústria do entretenimento podem ser de ajuda na vocação difícil, mas satisfatória, de criar os filhos, apresentando modelos edificantes de vida e de amor. Quanto é desencorajador e destrutivo para todos nós quando acontece o contrário!”. O Papa Bento XVI concluiu o seu discurso citando as palavras de S. Paulo - “Cristo é a nossa paz: n’Ele somos um único povo (cf Ef 2, 14)” - e com uma exortação: “Trabalhemos juntos para edificar a comunhão de amor segundo os planos que o Criador evidenciou através do seu Filho!”
18 de março 2006: Audiência aos Bispos de Camarões em visita Ad Limina
O décimo aniversário da Exortação Apostólica pós-sinodal “Ecclesia in Africa”, assinada em Yaoundé em setembro de 1995 pelo Papa João Paulo II, caracterizou a vida da Igreja em Camarões no ano passado. Por esse motivo, o Papa Bento XVI fez votos para que “as instituições eclesiológicas e espirituais contidas neste texto, verdadeiros antídotos contra o desencorajamento e a resignação”, suscitem “um ímpeto novo, para realizar a missão salvífica que a Igreja recebeu de Cristo”. Recebendo em audiência os Bispos de Camarões em visita Ad limina apostolorum, no sábado, 18 de março, o Santo Padre destacou: “Trata-se de fazer penetrar o Evangelho no mais profundo das culturas e das tradições de seu povo, caracterizadas pela riqueza de seus valores humanos, espirituais e morais, sem deixar de purificar tais culturas, através de uma necessária conversão daquilo que nelas se opõe à plenitude de verdade e de vida que se manifesta em Cristo Jesus. Isso requer também anunciar e viver a Boa Nova iniciando, sem medo, um diálogo crítico com as novas culturas ligadas ao emergir da mundialização, para que a Igreja contribua com uma mensagem sempre mais pertinente e crível, permanecendo fiel ao mandamento que recebeu do seu Senhor.”
Dos relatórios qüinqüenais dos Bispos, emerge um “contexto econômico e social desfavorável, que faz aumentar o número de pessoas em condição de grande precariedade, enfraquecendo o laço social e comportando a perda de um certo número de valores tradicionais…”. Entre os outros motivos de preocupação e desafio para a Igreja, o Papa Bento XVI recordou a ofensiva das seitas, as diversas práticas de religiosidade popular que devem ser constantemente purificadas e as devastações da Aids. “Nesta perspectiva - prosseguiu o Papa - é oportuno ajudar todos os membros da Igreja, sem exceções, a desenvolver uma intimidade sempre maior com Cristo, alimentada pela Palavra de Deus, através de uma vida de oração intensa e de uma vida sacramental regular”.
Os Bispos são chamados “através da palavra e do testemunho de vida”, a “convidar os homens e descobrirem Cristo na força do Espírito e a confirmá-los na fé viva”. Em particular, que a riqueza das homilias, uma catequese estruturada, a formação inicial e permanente dos catequistas e o apoio à pesquisa teológica, “possam suscitar um novo ímpeto de santidade nas comunidades. Os cristãos poderão, então, ocupar seu lugar e agir com competência nos âmbitos da vida social, da política e da economia”. O Papa Bento XVI exortou os Bispos a prosseguirem no caminho da colaboração pastoral e da unidade, que “ajuda a levar adiante a evangelização de seu povo marcado por diferenças étnicas”, e os encorajou a mostrar com as palavras e os escritos que “a Igreja católica dá muita importância ao bem-estar e à dignidade de todos os habitantes de Camarões, sem exceções, e à realização de suas aspirações profundas à unidade, à justiça e à fraternidade”.
Alegrando-se com o crescente número de sacerdotes e de seminaristas, e agradecendo também “o trabalho paciente dos missionários que os precederam, que se doaram com generosidade e espírito apostólico para edificar comunidades capazes de suscitar no seu interior vocações sacerdotais”, o Santo Padre evidenciou a necessidade de que os Bispos estejam atentos “aos vínculos de comunhão fraterna” com os seus sacerdotes e que estes meditem “sobre o dom total que fizeram de si a Deus e à Igreja, semelhante ao dom de Cristo, e sobre as exigências que a caridade pastoral comporta, em particular sobre a necessidade de uma vida casta vivida no celibato, em conformidade com a lei da Igreja, sobre um justo exercício da autoridade e de uma relação saudável com os bens materiais”. “Não são as nossas ações pastorais, mas o dom de nós mesmos e o testemunho de vida - evidenciou o Papa - a revelar o amor de Cristo pelo rebanho”.
Na parte conclusiva do seu discurso, o Santo Padre exortou os Bispos a promoverem uma adequada pastoral familiar, e apreciou as muitas iniciativas através das quais “a Igreja em Camarões se preocupa constantemente em manifestar de maneira específica e eficaz a caridade de Cristo para com todos”. Por fim, o Papa Bento XVI exortou os Bispos de Camarões “a prosseguirem a obra de evangelização... a consolidarem relações fraternas com as outras confissões cristãs e com os fiéis de outras religiões, para manifestar o amor de Cristo Salvador, que faz nascer entre os homens o desejo de viver em paz e de formar um povo de irmãos”.
3 de abril de 2006: Audiência aos Bispos da Costa do Marfim em visita Ad Limina
As responsabilidades dos católicos na construção de uma nação e de um mundo de paz e reconciliado foram um dos argumentos principais tratados pelo Santo Padre Bento XVI no seu discurso aos Bispos da Costa do Marfim, recebidos em visita Ad Limina Apostolorum segunda-feira, 3 de abril. “A crise que o país vive infelizmente evidenciou as divisões que constituem uma ferida profunda nas relações entre os diversos membros da sociedade - disse o Papa Bento XVI -. As violências que derivaram minaram gravemente a confiança entre as pessoas e a estabilidade do país, deixando atrás de si sofrimentos difíceis de serem sanados. O restabelecimento de uma verdadeira paz será possível somente através do perdão generosamente concedido e da reconciliação efetivamente realizada entre as pessoas e entre os grupos envolvidos”. Para alcançar este objetivo, é necessário prosseguir corajosamente no diálogo para examinar as causas que levaram a esta situação, e encontrar soluções aceitáveis por todos, na justiça e na verdade. “O caminho da paz é longo e difícil, mas nunca é impossível”, exortou o Santo Padre, recordando que os católicos tiveram um papel importante neste processo, “enquanto a construção de um mundo reconciliado nunca pode ser para eles indiferente”.
O Papa Bento XVI recordou a necessidade primária de “recriar a confiança entre os discípulos de Cristo, apesar das divergências de opiniões que podem manifestar-se entre eles. De fato, é primeiramente dentro da Igreja que deve ser vivido um autêntico amor, na unidade e na reconciliação”. Os cristãos devem deixar-se transformar pela força do Espírito, “para serem verdadeiras testemunhas do amor do Pai”. “Em suas Igrejas diocesanas, diante das tensões políticas ou étnicas, Bispos, sacerdotes e pessoas consagradas devem ser para todos modelos de fraternidade e de caridade, e contribuir com suas palavras e comportamentos para a edificação de uma sociedade unida e reconciliada”.
Outra “preocupação principal” indicada pelo Santo Padre diz respeito à formação inicial e permanente dos sacerdotes, com um destaque para a vida espiritual: “O sacerdote tem como missão ajudar os fiéis a descobrirem o mistério de Deus e a abrirem-se aos outros. Para tal fim, é chamado a ser um autêntico homem em busca de Deus, permanecendo ao mesmo tempo próximo das preocupações dos homens”… “Além disso, vivendo fielmente a castidade no celibato, o sacerdote mostrará que todo o seu ser é dom de si mesmo a Deus e a seus irmãos”. Também os leigos necessitam de uma adequada formação e de um aprofundamento da fé, “para poder resistir ao retorno das práticas antigas e das solicitações das seitas, e principalmente para testemunhar a esperança cristã em um mundo complexo que conhece novos e graves problemas”. Em particular, os catequistas devem receber “uma formação que os torne capazes de desempenhar a missão que lhes foi confiada, vivendo ao mesmo tempo sua fé de modo coerente”.
O Papa Bento XVI evidenciou a necessidade de prosseguir a obra de inculturação da fé, tão importante para o anúncio do Evangelho a todas as culturas, que “não deve comprometer a especificidade e a integridade da fé, mas deve ajudar os cristãos a compreender melhor e a viver melhor a mensagem evangélica na própria cultura, e a saber renunciar às práticas que estão em contradição com os compromissos batismais”. Um outro tema importante diz respeito ao sacramento do matrimônio, enquanto são difusas a poligamia e as convivências: “É necessário, portanto, prosseguir sem descanso o esforço que realizaram para que, principalmente os jovens, aceitassem o fato de que o matrimônio é, para os cristãos, uma vida de santidade”.
Por fim, o Santo Padre se congratulou com o desenvolvimento dos movimentos eclesiais, “que contribuem para conferir um impulso missionário renovado às comunidades cristãs”, e convidou os membros desses grupos “a aprofundarem sempre mais seu conhecimento pessoal de Cristo”, e os Bispos a exercitarem “um discernimento iluminado e constante” dessas realidades eclesiais.
7 de abril 2006: Encontro com os jovens em preparação à XXI Jornada Mundial da Juventude
No curso do encontro em preparação à celebração da XXI Jornada Mundial da Juventude, o Santo Padre Bento XVI respondeu a algumas perguntas colocadas pelos jovens presentes na Praça S. Pedro. Uma destas tinha por tema o matrimônio e a família.
Eis pergunta: “Santo Padre, sou Anna, tenho 19 anos, estudo Letras e pertenço à Paróquia de S. Maria do Carmelo. Um dos problemas com os quais temos mais trabalho é o afetivo. Freqüentemente temos dificuldade em amar. Dificuldade, sim: porque é fácil confundir o amor com o egoísmo, sobretudo hoje, onde grande parte dos meios de comunicação quase nos impõem uma visão da sexualidade individualista, secularizada, onde tudo parece lícito, e tudo é válido em nome da liberdade de consciência dos indivíduos. A família fundada sobre o matrimônio parece hoje pouco mais do que uma invenção da Igreja, para não falar, depois, dos relacionamentos pré-matrimoniais, cujo veto parece, mesmo para muitos de nós crentes, coisa incompreensível e fora do tempo... Bem sabendo que tantos de nós buscam viver responsavelmente a sua vida afetiva, poderia ilustrar que coisa nos diz a este propósito a Palavra de Deus? Obrigado”.
A resposta do Santo Padre: “Trata-se de uma grande questão, e responder em poucos minutos certamente não é possível, mas tentarei dizer alguma coisa. A mesma Anna deu já muitas respostas quando dizia que o amor hoje é freqüentemente mal interpretado, em quanto é apresentado como uma experiência egoística, quando em verdade é um abandono de si, tornando-se assim um encontrar-se. Ela disse que uma cultura consumista falsifica a nossa vida com um relativismo que parece nos dar tudo e em realidade nos esvazia. Mas então escutemos a Palavra de Deus a este respeito. Anna queria justamente saber que coisa diz a palavra de Deus. Para mim é algo muito belo constatar que já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, logo após o relato da Criação do homem, encontramos a definição do amor e do matrimônio. O autor sagrado nos diz: “O homem abandonará pai e mãe, seguirá a sua mulher e ambos serão uma só carne, uma única existência”. Estamos ao início e já é dada uma profecia sobre que coisa seja o matrimônio; e esta definição permanece idêntica também no Novo Testamento. O matrimônio é este seguir o outro no amor e assim tornar-se uma única existência, uma só carne, e por isso inseparáveis; uma nova existência que nasce desta comunhão de amor, que une e assim cria o futuro. Os teólogos medievais, interpretando esta afirmação que se encontra ao início da Sagrada Escritura, disseram que entre os sete Sacramentos, o matrimônio é a primeiro instituição de Deus, tendo sido instituído já ao momento da criação, no Paraíso, o início da história, e antes de toda história humana. É uma sacramento do Criador do universo, inscrito portanto diretamente no ser humano mesmo – naqueles que são orientados a este caminho –, no qual o homem abandona sua mulher para formar uma só carne, porque os dois se tornem uma única existência.
Portanto o sacramento do matrimônio não é uma invenção da Igreja, é realmente “co-creado” com o homem como tal, como fruto do dinamismo do amor, no qual o homem e a mulher encontram-se um ao outro, e assim encontram também o Criador que os chamou ao amor. É verdade que o homem caiu e foi expulso do Paraíso, ou em outras palavras, palavras mais modernas, é verdade que todas as culturas são inclinadas ao pecado pelos erros do homem em sua história, e assim o desígnio inicial inscrito na nossa natureza permanece obscurecido. De fato, nas culturas humanas encontramos este obscurecimento do desígnio original de Deus. Ao mesmo tempo, porém, observando as culturas, toda a história cultural da humanidade, constatamos também que o homem jamais pode esquecer totalmente este desígnio que existe na profundidade do seu ser. Sempre soube, de uma certa forma, que as outras formas de relacionamento entre homem e mulher não correspondiam realmente ao desígnio original do seu ser. E assim nas culturas, sobretudo nas grandes culturas, vemos sempre de novo como estes se orientam a esta realidade, a monogamia, o ser homem e mulher uma só carne. É assim, na fidelidade, que pode crescer uma nova geração, pode continuar-se uma tradição cultural, renovando-se e realizando, na continuidade, um autêntico progresso.
O Senhor, que falou disto na língua dos profetas de Israel, acenando à concessão da parte de Moisés ao divórcio, disse: Moises vos concedeu “pela dureza de vossos corações”. O coração após o pecado tornou-se “duro”, mas este não era o desígnio do Criador e os Profetas com clareza crescente insistiram sobre este desígnio originário. Para renovar o homem, o Senhor – aludindo a estas vozes proféticas que sempre guiaram Israel à clareza da monogamia – reconheceu com Ezequiel que temos necessidade, para viver esta vocação, de um coração novo; ao contrário do coração de pedra – como diz Ezequiel – temos necessidade de um coração de carne, de um coração realmente humano. E o Senhor, no Batismo, mediante a fé “implanta” em nós este coração novo. Não é um transplante físico, mas talvez possamos servirmo-nos desta comparação: após o transplante, é necessário que o organismo seja tratado, que receba os remédios necessários para poder viver com o novo coração, de tal modo que este se torne o “seu coração” e não o “coração de um outro”. Tanto mais neste “transplante espiritual”, onde o Senhor nos implanta um coração novo, um coração aberto ao Criador, à vocação de Deus, à vocação de Deus, para poder viver com este coração novo, são necessários tratamentos adequados, é preciso recorrer aos remédios oportunos, para que este se torne realmente “coração nosso”. Vivendo assim na comunhão com Cristo, com a sua Igreja, o novo coração torna-se realmente “coração nosso” e torna-se possível o matrimônio. O amor exclusivo entre um homem e uma mulher, a vida a dois designada pelo Criador torna-se possível, mesmo se o clima do nosso mundo a torna tão difícil, até o ponto de fazê-la parecer impossível.
O Senhor nos dá um coração novo e nós devemos viver com este coração novo, usando as oportunas terapias para que seja realmente “nosso”. É assim que vivemos quando o Criador nos doou e isto cria uma vida realmente feliz. De fato, podemos vê-lo também neste mundo, não obstante tantos outros modelos de vida: são tantas famílias cristãs que vivem com fidelidade e com alegria a vida e o amor indicados pelo Criador e assim cresce uma nova humanidade.
E por fim acrescentaria: sabemos todos que para atingir um objetivo no esporte ou na profissão é preciso disciplina e renúncia, mas depois tudo isto é coroado pelo sucesso, pela conquista da meta desejada. Assim também com a vida mesma, isto é o tornar-se homem segundo o desígnio de Jesus, exige renúncias; estas porém não são uma coisa negativa, ao contrário ajudam a viver como homens com um coração novo, a viver uma vida realmente humana e feliz. Posto que existe uma cultura consumista que quer nos impedir de viver segundo o desígnio do Criador, devemos ter a coragem de criar ilhas, oásis, e depois grandes terrenos de cultura católica, nos quais se viva o projeto do Criador”.
24 de abril de 2006: Audiência aos Bispos de Gana em visita Ad Limina
“Sei que este ano é um jubileu especial para a Igreja em Gana. De fato, justamente ontem, 23 de abril, se celebrou o centenário da chegada dos missionários à parte setentrional do país. Rezo em particular para que o zelo missionário continue a preencher vocês e seu amado povo, reforçando-os em seus esforços para difundir o Evangelho”. Esta é a exortação que o Santo Padre Bento XVI dirigiu aos Bispos de Gana recebidos em visita Ad Limina apostolorum segunda-feira, 24 de abril, na Sala do Consistório do Palácio Apostólico.
“Nos últimos anos, o país realizou grandes passos adiante ao enfrentar a chaga da pobreza e ao reforçar a economia - disse o Santo Padre no seu discurso -. Apesar deste louvável progresso, ainda permanece muito a ser feito para superar esta condição que cria obstáculos para uma vasta porção da população. A pobreza extrema e difundida muitas vezes produz um declínio moral geral, que conduz ao crime, à corrupção, a ataques à santidade da vida humana ou até mesmo a um retorno às práticas de superstição do passado”. Nesta situação, a Igreja é chamada a resplandecer “como farol de esperança na vida do cristão”, ajudando os fiéis a compreenderem melhor as promessas de Jesus Cristo, intensificando os programas de formação que ajudem os fiéis a aprofundar sua fé cristã e a assumir seu justo lugar na Igreja de Cristo e na sociedade.
O Santo Padre destacou a importância do papel do catequista, expressando gratidão “aos numerosos leigos, homens e mulheres, que servem com abnegação a Igreja local deste modo”, permanecendo “mensageiros corajosos da alegria de Cristo” inclusive diante dos obstáculos que, muitas vezes, encontram em seu ministério. E exortou os Bispos a trabalharem para que “esses evangelizadores recebam o apoio espiritual, doutrinal, moral e material de que necessitam para realizarem corretamente sua missão”.
A alta porcentagem de jovens na população de Gana requer que a Igreja enfrente os seus problemas “de modo sincero e amoroso”, elaborando adequados programas juvenis que respondam a suas expectativas e os ajudem a reforçar sua identidade católica, fornecendo-lhes “os instrumentos necessários para enfrentar os desafios das realidades econômicas em mutação, da globalização e da doença. Isso os ajudará também a rebater as argumentações muitas vezes apresentadas pelas seitas religiosas”.
Um outro tema tocado pelo Santo Padre durante o seu discurso foi a família e o matrimônio cristão. “Muitos de vocês estão preocupados com a correta celebração do matrimônio cristão em Gana - disse o Papa Bento XVI -. Compartilho esta preocupação e convido os fiéis a colocarem o Sacramento do Matrimônio no centro de sua vida familiar. Mesmo que o cristianismo busque sempre respeitar as veneráveis tradições das culturas e dos povos, busca também purificar aquelas práticas que são o contrário do Evangelho. Por este motivo, é essencial que toda a comunidade eclesial continue a destacar a importância da união monogâmica e indissolúvel entre homem e mulher, consagrada no santo matrimônio. Para o cristão, as formas tradicionais de matrimônio nunca podem substituir o matrimonio sacramental”.
Por fim, o Papa se deteve sobre a formação dos futuros sacerdotes: “O sacerdócio nunca deve ser considerado como um modo para melhorar a própria posição social ou a própria qualidade de vida. Se assim fosse, o dom sacerdotal de si e a disponibilidade para com o desígnio de Deus dariam livre desafogo a desejos pessoais, tornando o sacerdote ineficaz e irrealizado. Por isso, eu os encorajo em seus esforços constantes voltados para garantir a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e a uma correta formação sacerdotal para aqueles que estudam para o ministério sagrado.”
11 de maio de 2006: Audiência aos participantes ao Congresso promovido pelo Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e Família
“A comunhão de vida e de amor, que é o matrimônio, se configura como um autêntico bem para a sociedade. Evitar a confusão com outros tipos de uniões baseadas em um amor frágil se apresenta hoje com uma especial urgência. Somente a rocha do amor total e irrevogável entre homem e mulher é capaz de fundar a construção de uma sociedade que se torne uma casa para todos os homens”: foi o que reiterou o Santo Padre Bento XVI recebendo em audiência, em 11 de maio, os participantes do Congresso Internacional promovido pelo Pontifício Instituto João Paulo II para o Estudo sobre Matrimônio e Família da Pontifícia Universidade Lateranense, sobre o tema: "A herança de João Paulo II sobre o matrimônio e a família: amar o amor humano".
No seu discurso, o Papa destacou que o Instituto foi firmemente desejado pelo Papa João Paulo II: “Justamente vocês sentem própria esta herança, porque são os destinatários e os perpetuadores da visão que constituiu um dos centros da sua missão e das suas reflexões: o plano de Deus sobre matrimônio e família. Trata-se de uma herança que não é simplesmente um conjunto de doutrinas ou de idéias, mas primeiramente um ensinamento dotado de uma luminosa unidade sobre o sentido do amor humano e da vida”.
O Papa Bento XVI recordou que a idéia de "ensinar a amar" acompanhou o então jovem sacerdote e sucessivamente o jovem Bispo Wojtyla, principalmente quando foi publicada a Encíclica “Humanae vitae”, que deu vida a amplos debates e a sucessivos aprofundamentos sobre este tema. O Papa Bento XVI citou dois elementos fundamentais que, no decorrer dos anos, o Instituto buscou aprofundar: “O primeiro elemento é que o matrimônio e a família estão radicados no núcleo mais íntimo da verdade sobre o homem e sobre o seu destino. A Sagrada Escritura revela que a vocação ao amor faz parte daquela autêntica imagem de Deus que o Criador quis imprimir na sua criatura, chamando-a a tornar-se semelhante a Ele justamente na medida em que é aberta ao amor. A diferença sexual que conota o corpo do homem e da mulher não é, portanto, um simples dado biológico, mas reveste um significado bem mais profundo: expressa aquela forma de amor com o qual o homem e a mulher, tornando-se uma só carne, podem realizar uma autêntica comunhão de pessoas aberta à transmissão da vida e cooperam, assim, com Deus, à geração de novos seres humanos. Um segundo elemento caracteriza a novidade do ensinamento de João Paulo II sobre o amor humano: o seu modo original de ler o plano de Deus justamente na confluência da revelação com a experiência humana. Em Cristo, com efeito, a plenitude da revelação do amor do Pai se manifesta também na verdade plena da vocação ao amor do homem, que pode encontrar-se realizado somente no dom sincero de si”.
Na parte conclusiva do seu discurso, o Papa Bento XVI indicou a tarefa que cabe ao Instituto no conjunto das estruturas acadêmicas: “iluminar a verdade do amor como caminho de plenitude em toda forma de existência humana. O grande desafio da nova evangelização, que João Paulo II propôs com tanto ímpeto, necessita ser apoiado com uma reflexão realmente aprofundada sobre o amor humano, pois é justamente este amor uma via privilegiada que Deus escolheu para revelar-se ao homem e é neste amor que o chama a uma comunhão na vida trinitária”.
13 de maio de 2006: Audiência aos participantes da Assembléia Planária do Pontifício Conselho para a Família
Em 13 de maio de 2006 Bento XVI recebeu na Sala Clementina do Vaticano os participantes da Assembléia Plenária do Pontifício Conselho para a Família. «Dirijo a cada um de vós a minha cordial saudação – disse Bento XVI –, com um pensamento particular ao Cardeal Alfonso López Trujillo, a quem agradeço ter-se feito intérprete dos sentimentos comuns.
Esta vossa reunião ofereceu-vos a ocasião de examinar os desafios e os projetos pastorais relativos à família, justamente considerada como "igreja doméstica" e santuário da vida. Trata-se de um campo apostólico vasto, complexo e delicado, ao quais vós dedicais energia e entusiasmo, com a intenção de promover o "Evangelho da família e da vida". Como deixar de recordar, a este propósito, a visão ampla e clarividente dos meus Predecessores, e de maneira particular do Papa João Paulo II, que promoveram com coragem a causa da família, considerando-a como realidade determinante e insubstituível para o bem comum dos povos?
A família fundamentada no matrimônio constitui um "patrimônio da humanidade", uma instituição social fundamental; é a célula vital e o pilar da sociedade, e isto diz respeito tanto aos crentes como aos não-crentes. Trata-se de uma realidade que todos os Estados devem ter na máxima consideração porque, como João Paulo II gostava de reiterar, "o futuro da humanidade passa através da família" (Familiaris consortio, 86).
Além disso, na visão cristã o matrimônio, elevado por Cristo à altíssima dignidade de sacramento, confere maior esplendor e profundidade ao vínculo conjugal e compromete mais vigorosamente os esposos que, abençoados pelo Senhor da Aliança, se prometem fidelidade recíproca até à morte, no amor aberto à vida. Para eles, o cerne e o coração da família é o Senhor, que os acompanha na missão de educar os filhos rumo à maturidade. De tal maneira, a família cristã coopera com Deus não somente na geração da vida natural, mas inclusive na cultivação dos germes da vida divina recebida mediante o Batismo. Estes são os conhecidos princípios da visão cristã do matrimônio e da família. Recordei-os uma vez mais na quinta-feira passada, quando falei aos membros do Pontifício Instituto "João Paulo II" para os Estudos sobre Matrimônio e Família.
No mundo contemporâneo, em que se vão difundindo algumas concepções equívocas sobre o homem, a liberdade e o amor humano, nunca nos devemos cansar de apresentar sempre de novo a verdade sobre a instituição familiar, como foi desejada por Deus desde a criação. Infelizmente, continua a aumentar o número de separações e de divórcios, que fragmentam a unidade familiar e criam não poucos problemas para os filhos, vítimas inocentes de tais situações. Hoje em dia, a estabilidade da família está particularmente em perigo; para a salvaguardar, é necessário ir com freqüência contra a corrente, em relação à cultura predominante, e isto exige paciência, esforço, sacrifício e busca incessante de compreensão mútua.
Mas também nos dias de hoje os cônjuges podem superar as dificuldades e conservar-se fiéis à sua vocação, recorrendo ao auxílio de Deus através da oração e participando assiduamente nos sacramentos, de maneira particular na Eucaristia. A unidade e a solidez das famílias ajuda a sociedade a respirar os valores humanos autênticos e a abrir-se ao Evangelho. Para isto contribui o apostolado de não poucos Movimentos, chamados a trabalhar neste campo em harmoniosa sintonia com as Dioceses e as paróquias.
Além disso, atualmente um tema mais delicado do que nunca é o respeito devido ao embrião humano, que deveria nascer sempre de um ato de amor e ser já tratado como pessoa (cf. Evangelium vitae, 60). Os progressos da ciência e da técnica, alcançados no âmbito da bioética, transformam-se em ameaças quando o homem perde o sentido dos seus limites e, a nível prático, pretende subsituir-se a Deus Criador. A Carta Encíclica Humanae vitae confirma com clarividência que a procriação humana deve ser sempre o fruto do ato conjugal, com o seu dúplice significado unitivo e procriativo (cf. n. 12). Exige-o a grandeza do amor conjugal, segundo o projeto divino, como recordei na Encíclica Deus caritas est: "O eros degradado a puro "sexo" torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma "coisa" que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria... Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano" (n. 5).
Graças a Deus não poucas pessoas, especialmente no meio dos jovens, continuam a descobrir o valor da castidade, que se manifesta cada vez mais como uma garantia segura do amor genuíno. O momento histórico que estamos a viver exige que as famílias cristãs dêem com corajosa coerência o testemunho de que a procriação é fruto do amor. Este testemunho não deixará de estimular os políticos e os legisladores a salvaguardarem os direitos da família. Com efeito, sabe-se que se estão a acreditar soluções jurídicas para as chamadas "uniões de fato" que, embora rejeitem as obrigações do matrimônio, pretendem gozar de direitos equivalentes. Além disso, às vezes deseja-se mesmo chegar a uma nova definição do matrimônio para legalizar uniões homossexuais, atribuindo-lhes também o direito à adoção de filhos. Vastas áreas do mundo estão a padecer o chamado "inverno demográfico", com o conseqüente progressivo envelhecimento da população; por vezes parece que as famílias são ameaçadas pelo medo da vida, da paternidade e da maternidade. É necessário dar-lhes nova confiança, para que possam continuar a cumprir a sua nobre missão de procriar no amor.
Estou grato ao vosso Pontifício Conselho porque, em vários encontros continentais e nacionais, procura dialogar com aqueles que têm responsabilidades políticas e legislativas a este propósito, e também se esforça por tecer uma vasta rede de colóquios com os Bispos, oferecendo às Igrejas locais a oportunidade de cursos abertos aos responsáveis pela pastoral. Depois, aproveito este ensejo para reiterar a todas as comunidades diocesanas o convite a participar com as suas delegações no V Encontro Mundial das Famílias, que terá lugar no próximo mês de Julho em Valença, na Espanha e no qual, se Deus quiser, também eu terei a alegria de participar pessoalmente. Obrigado, uma vez mais, pelo trabalho que estais a levar a cabo; que o Senhor continue a torná-lo fecundo! Asseguro para isto a minha lembrança na oração enquanto, invocando a proteção materna de Maria, concedo a todos vós a minha Bênção, que de bom grado faço extensiva às famílias, a fim de que continuem a construir o seu lar seguindo o exemplo da Sagrada Família de Nazaré.
31 de maio de 2006: Mensagem ao Congresso mundial dos Movimentos eclesiais e das novas Comunidades
“Aguardando o encontro previsto para sábado, 3 de junho, na Praça S. Pedro, com os membros de mais de 100 Movimentos eclesiais e novas Comunidades, estou contente de enviar a vocês, representantes de todas essas realidades eclesiais e novas Comunidades, reunidos em Rocca di Papa para o Congresso Mundial, uma calorosa saudação com as palavras do Apóstolo: «Que o Deus da esperança vos cumule de toda alegria e paz em vossa fé, a fim de que pela ação do Espírito Santo a vossa esperança transborde» (Rm 15,13).” Abre-se assim a Mensagem do Santo Padre Bento XVI aos participantes do segundo Congresso mundial dos Movimentos eclesiais e das novas Comunidades, que foi lido no início do trabalhos, em 31 de maio, por Dom Josef Clemens, Secretário do Pontifício Conselho para os Leigos.
O Papa Bento XVI recorda a sua intervenção como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no Congresso dos Movimentos, em 1998, e as palavras de João Paulo II, que então definiu os Movimentos “sinais de esperança para o bem da Igreja e dos homens”. O Papa Bento XVI convida a refletir “sobre aquilo que caracteriza essencialmente o acontecimento cristão: nele, com efeito, nos vem ao encontro Aquele que, em carne e sangue, visivelmente, historicamente, trouxe o esplendor da glória de Deus sobre a terra”.
Em uma época na qual a razão do homem é seriamente ameaçada pelo relativismo e pelo niilismo, o Papa observa que “Cristo se torna presente no coração do homem e o atrai. É graças a esta extraordinária atração que a razão é subtraída à sua sonolência e aberta ao Mistério”. Isso “colocou tantas pessoas em ‘movimento’. Através dos fundadores e dos iniciadores dos Movimentos e comunidades, vocês entreviram com singular luminosidade a face de Cristo e colocaram-se a caminho”.
A Mensagem do Santo Padre prossegue com uma recomendação aos Movimentos: “Façam de modo que sejam sempre escolas de comunhão, companhias a caminho nas quais se aprende a viver na verdade e no amor que Cristo nos revelou e comunicou por meio do testemunho dos Apóstolos, dentro da grande família dos seus discípulos”. E dirige um apelo: “Levem a luz de Cristo a todos os ambientes sociais e culturais nos quais vivem... Iluminem a escuridão de um mundo transtornado pelas mensagens contraditórias das ideologias! Não há beleza que valha se não há uma verdade a ser reconhecida e seguida, se o amor se torna sentimento passageiro, se a felicidade se torna miragem inalcançável, se a liberdade degenera em instintividade… Levem a este mundo turbado o testemunho da liberdade com o qual Cristo nos libertou. A extraordinária fusão entre o amor de Deus e o amor do próximo torna bela a vida e faz reflorescer o deserto no qual muitas vezes nos encontramos a viver”.
Na parte conclusiva, o Papa destaca que os Movimentos eclesiais e as novas Comunidades “são hoje sinal luminoso da beleza de Cristo e da Igreja, sua Esposa” e pertencem “à estrutura viva da Igreja”. E lhes agradece pelo compromisso missionário, pela ação formativa das famílias cristãs, pela promoção das vocações e pela disponibilidade com a qual são acolhidas as indicações do Sucessor de Pedro e dos Bispos das diversas Igrejas locais. “Confio na sua pronta obediência - disse ainda o Papa Bento XVI -. Para além da afirmação do direito à própria existência, deve sempre prevalecer, com indiscutível prioridade, a edificação do Corpo de Cristo em meio dos homens. Cada problema deve ser enfrentado pelos movimentos com sentimentos de profunda comunhão, em espírito de adesão aos legítimos Pastores”.
11 de junho de 2006 – Discurso do Angelus
Deus «não é solidão infinita, mas comunhão de luz e Pai e o Filho no Espírito Santo», um amor do qual se tem uma “analogia” na família. É aquilo que disse Bento XVI durante o Ângelus no domingo dedicado à Ssa. Trindade, 11 de junho de 2006. O Papa quis comparar a Santíssima Trindade às famílias e sublinhou como «graças ao Espírito Santo, que ajuda a compreender as palavras de Jesus e guia à verdade integral (cf. Jo 14,26; 16,13), os crentes podem conhecer, por assim dizer, a intimidade de Deus mesmo descobrindo que Ele não é solidão infinita, mas comunhão de luz e de amor, vida doada e recebida em um eterno diálogo entre o Pai e o Filho no Espírito Santo – Amante, Amado e Amor, para retomar S. Agostinho». E mesmo se os homens, agora, não pudessem vê-lo, «todo o universo, para quem tem fé, fala de Deus Uno e Trino. Desde os espaços interestelares até às partículas microscópicas, tudo o que existe remete a um Ser que se comunica na multiplicidade e variedade dos elementos, como numa imensa sinfonia. Todos os seres são ordenados segundo um dinamismo harmonioso que, analogicamente, podemos definir: "amor". Mas é somente na pessoa humana, livre e racional, que este dinamismo se torna espiritual, se faz amor responsável, como resposta a Deus e ao próximo, num dom sincero de si. Neste amor o ser humano encontra a sua verdade e a sua felicidade. Entre as diferentes analogias do mistério inefável de Deus Uno e Trino, que os fiéis são capazes de entrever, gostaria de citar a da família. Ela é chamada a ser uma comunidade de amor e de vida, em que as diversidades devem concorrer para formar uma "parábola de comunhão". Entre todas as criaturas, a obra-prima da Santíssima Trindade é a Virgem Maria: no seu Coração humilde e repleto de fé, Deus preparou para si uma morada digna, para completar o mistério da salvação».
23 de junho de 2006: Audiência aos Bispos da Lituânia, Letônia, Estônia in Visita Ad Limina
Em 23 de junho de 2006 o Santo Padre Bento XVI recebeu em audiência os Bispos das Conferências Episcopais de Lituânia, Letônia, Estônia, por ocasião da Visita “ad Limina Apostolorum”. Em particular o Santo Padre concentrou-se com eles sobre o tema da família. O Papa disse: “Entre tantos temas que gostaria de tratar com vocês, detenho-me sobre um de grande atualidade também em seus Países, ou seja o da família. Ao lado dos núcleos familiares exemplares, há freqüentemente outros marcados pela fragilidade dos laços conjugais, pela praga do aborto e pela crise demográfica, pela pouca atenção à transmissão de valores autênticos aos filhos, pela precariedade do trabalho, pela mobilidade social que afrouxa o laço entre as gerações, e por um crescente senso de desorientação interior dos jovens. Uma modernidade que não é radicada em autênticos valores humanos está destinada a ser dominada pela tirania da instabilidade e da desordem. Por isto cada comunidade eclesial, rica da própria fé e sustentada pela graça de Deus, é chamada a ser ponto de referência e a dialogar com a sociedade na qual está inserida. A Igreja, mestra de vida, atinge pela lei natural e pela Palavra de Deus aqueles princípios que indicam as bases irrenunciáveis para edificar a família segundo o desígnio do Criador. Caros e venerados Irmãos, não vos canseis de ser sempre corajosos defensores da vida e da família; prossegui com os esforços realizados pela formação humana e religiosa dos esposos e das jovens famílias. É esta uma obra altamente meritória, que espero seja apreciada e sustentada também pelas instituições da sociedade civil”.

30 de junho de 2006: Audiência ao Embaixador do Uruguai junto à Santa Sé
O Santo Padre Bento XVI, recebendo em Audiência S.E. o Senhor Mario Juan Bosco Cayota Zappettini, Embaixador do Uruguai junto à Santa Sé, por ocasião da apresentação das Cartas Credenciais, dirigiu-lhe, como de costume, um discurso no qual tocou em particular o tema da família. Reproduzimos as palavras do Santo Padre a este respeito:
“Os valores mais nobres, arraigados no coração das pessoas e no tecido social, são como a alma dos povos, que os torna fortes nas adversidades, generosos na colaboração leal e esperançosos na construção de um futuro melhor e cheio de vida, na qual todos sem exceção tenham a oportunidade de desenvolver a plena dignidade do ser humano. Por isso, se vêem com preocupação algumas tendências que procuram limitar o valor inviolável da própria vida humana, desde a sua concepção até ao seu fim natural, ou de a separar do seu ambiente natural, como o amor humano no matrimônio e na família. A Igreja promove sem dúvida uma "cultura da vida", generosa e criadora de esperança, e não só por motivos estritamente confessionais. Como sabe, Senhor Embaixador, há muitas pessoas eminentes, também no seu País, que partilham preocupações semelhantes por motivos éticos e racionais.
Com isso está relacionado, pela sua própria natureza, a questão da família, estrutura fundamental da sociedade, e da união em matrimônio de um homem com uma mulher, segundo o desígnio impresso pelo Criador na natureza humana. Não faltam aqueles que, através de alguns meios de comunicação social, difamam ou ridicularizam o nobre valor do matrimônio e da família, favorecendo desta forma o egoísmo e a desorientação, em vez da generosidade e do sacrifício necessários para manter vigorosa esta autêntica "célula primária" da comunidade humana. Fomentar a família, ajudá-la a cumprir as suas incumbências indispensáveis, significa também unidade social e, sobretudo, respeitar os seus próprios direitos, que não podem ser dissipados perante outras formas de união que os pretendem usurpar”.

O CARD. RATZINGER E A FAMÍLIA

1987 – Instrução “Donum vitae”
O Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu a Instrução “Donum Vitae” sobre o respeito da vida nascente e a dignidade da procriação com premissa Ad congregationem. Nessa ele falou também da família e o fez em particular na segunda parte da Instrução, dedicada às “intervenções sobre a procriação humana”. Aqui, em um capítulo intitulado “Porque a procriação humana deve ter lugar no matrimônio?” falou da família como lugar em que cada criança deve ter direito a nascer: «Todo ser humano deve ser acolhido como um dom e uma bênção de Deus. Todavia, do ponto de vista moral, uma procriação verdadeiramente responsável com relação ao nascituro deve ser fruto do matrimônio. Com efeito, a procriação humana possui características específicas, por força da dignidade pessoal dos pais e dos filhos: a procriação de uma nova peso soa, mediante a qual o homem e a mulher colaboram com a potência do Criador, deverá ser fruto e sinal da mútua doação pessoal dos esposos, do seu amor e da sua fidelidade. A fidelidade dos esposos, na unidade do matrimônio, comporta o respeito recíproco do seu direito a se tornarem pai e mãe somente através um do outro. O filho tem direito a ser concebido, levado no seio, posto no mundo e educado no matrimônio: é através da referência segura e reconhecida aos próprios pais que ele pode descobrir a própria identidade e amadurecer a própria formação humana. Os pais encontram no filho uma confirmação e um complemento da sua doação recíproca: ele é a imagem viva do seu amor, o sinal permanente da sua união conjugal, a síntese vivente e indissolúvel da sua dimensão paterna e materna.
Por força da vocação e das responsabilidades sociais da pessoa, o bem dos filhos e dos pais contribui para o bem da sociedade civil; a vitalidade e o equilíbrio da sociedade exigem que os filhos venham ao mundo no seio de uma família e que esta seja estavelmente fundada no matrimônio.
A tradição da Igreja e a reflexão antropológica reconhecem no matrimônio e na sua unidade indissolúvel o único lugar digno de uma procriação verdadeiramente responsável.
E ainda: «A fecundação artificial heteróloga é conforme com a dignidade dos esposos e com a verdade do matrimônio?” perguntou-se o Card. Ratzinger. «Através do FIVET e da inseminação artificial heteróloga, a concepção humana é obtida mediante o encontro dos gametas de ao menos um doador diverso dos esposos que são unidos pelo matrimônio. A fecundação artificial heteróloga é contrária à unidade do matrimônio, à dignidade dos esposos, à vocação própria dos pais e ao direito do filho a ser concebido e posto no mundo no matrimônio e pelo matrimônio. O respeito à unidade do matrimônio e à fidelidade conjugal exige que o filho seja concebido no matrimônio; o liame existente entre os cônjuges atribui aos esposos, de maneira objetiva e inalienável, o direito exclusivo a se tornarem pai e mãe somente através um do outro. O recurso aos gametas de uma terceira pessoa, para se ter à disposição o esperma ou o óvulo, constitui uma violação do compromisso recíproco dos esposos e uma falta grave para com aquela propriedade essencial do matrimônio, que é a sua unidade. A fecundação artificial heteróloga lesa os direitos do filho, priva-o da relação filial com as suas origens parentais e pode obstar o amadurecimento da sua identidade pessoal. Além disso, ela constitui uma ofensa à vocação comum dos esposos que são chamados à paternidade e à maternidade: priva objetivamente a fecundidade conjugal da sua unidade e da sua integridade; realiza e manifesta uma ruptura entre função parental genética, função parental de gestação e responsabilidade educativa. Tal alteração das relações pessoais dentro da família repercute na sociedade civil: aquilo que ameaça a unidade e a estabilidade da família é fonte de dissensão, de desordem e de injustiças em toda a vida social. Estas razões levam a um juízo moral negativo acerca da fecundação artificial heteróloga: é, portanto, moralmente ilícita a fecundação de uma esposa com o esperma de um doador que não seja o seu marido e a fecundação com o esperma do marido de um óvulo que não provém da sua mulher. Além disso, a fecundação artificial de uma mulher não casada, solteira ou viúva, seja quem for o doador, não pode ser justificada moralmente. O desejo de ter um filho e o amor entre os esposos que desejam solucionar uma esterilidade não superável de outra forma, constituem motivos que merecem compreensão; mas as intenções subjetivamente boas não tornam a fecundação artificial heteróloga nem conforme com as propriedades objetivas e inalienáveis do matrimônio nem respeitosa dos direitos do filho e dos esposos».
1994 – Carta aos Bispos sobre a comunhão eucarística dos divorciados casados novamente
Em 1994, o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por ocasião do Ano Internacional da Família, escreveu uma carta aos Bispos da Igreja católica na qual repropõe o amor e a solicitude da Igreja para com a família e, ao mesmo tempo, repropõe as inestimáveis riquezas do matrimônio cristão que constitui o fundamento da família.
«Neste contexto – escreveu o Cardeal Ratzinger – merecem uma especial atenção as dificuldades e os sofrimentos dos fiéis que se encontram em situações matrimoniais irregulares. De fato, os pastores são chamados a fazer sentir a caridade de Cristo e a materna solicitude da Igreja, acolhendo-os com amor, exortando-os a confiar na misericórdia de Deus e, com prudência e respeito, sugerindo-lhes caminhos concretos de conversão e participação na vida da comunidade eclesial. Cientes, porém, de que a compreensão autêntica e a genuína misericórdia nunca andam separadas da verdade, os pastores têm o dever de recordar a estes fiéis a doutrina da Igreja a propósito da celebração dos sacramentos e em particular da recepção da Eucaristia. Sobre este ponto, nos últimos anos em várias regiões foram propostas diversas soluções pastorais segundo as quais certamente não seria possível uma admissão geral dos divorciados novamente casados à comunhão eucarística, mas poderiam aproximar-se desta em determinados casos, quando segundo a sua consciência a tal se considerassem autorizados. Assim, por exemplo, quando tivessem sido abandonados de modo totalmente injusto, embora se tivessem esforçado sinceramente para salvar o matrimônio precedente ou quando estivessem convencidos da nulidade do matrimônio anterior, mesmo não podendo demonstrá-la no foro externo, ou então quando tivessem já transcorrido um longo período de reflexão e de penitência ou mesmo quando não pudessem, por motivos moralmente válidos, satisfazer a obrigação da separação. Em alguns lugares também se propôs que, para examinar objetivamente a sua efetiva situação, os divorciados novamente casados deveriam encetar um colóquio com um sacerdote criterioso e entendido. Mas este sacerdote teria de respeitar a eventual decisão de consciência deles de se abeirarem da Eucaristia, sem que isso implicasse uma autorização oficial. Nestes e em semelhantes casos tratar-se-ia de uma solução pastoral tolerante e benévola para poder fazer justiça às diversas situações dos divorciados novamente casados. Mesmo sabendo-se que soluções pastorais análogas foram propostas por alguns Padres da Igreja e entrarem em alguma medida também na prática, contudo elas jamais obtiveram o consenso dos Padres e de nenhum modo vieram a constituir a doutrina comum da Igreja nem a determinar a sua disciplina. Compete ao Magistério universal da Igreja, na fidelidade à Escritura e à Tradição, ensinar e interpretar autenticamente o depositum fidei.
Face às novas propostas pastorais acima mencionadas, esta Congregação considera pois seu dever reafirmar a doutrina e a disciplina da Igreja nesta matéria. Por fidelidade à palavra de Jesus Cristo, a Igreja sustenta que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro matrimônio foi válido. Se os divorciados se casam civilmente, ficam numa situação objetivamente contrária à lei de Deus. Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persiste tal situação. Esta norma não tem, de forma alguma, um caráter punitivo ou então discriminatório para com os divorciados novamente casados, mas exprime antes uma situação objetiva que por si torna impossível o acesso à comunhão eucarística: «Não podem ser admitidos, já que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio». Para os fiéis que permanecem em tal situação matrimonial, o acesso à comunhão eucarística é aberto unicamente pela absolvição sacramental, que pode ser dada «só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. Isto tem como conseqüência, concretamente, que, quando o homem e a mulher, por motivos sérios - como, por exemplo, a educação dos filhos - não se podem separar, "assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges"». Neste caso podem aproximar-se da comunhão eucarística, permanecendo firme todavia a obrigação de evitar o escândalo.
A doutrina e a disciplina da Igreja sobre esta matéria foram expostas amplamente no período pós-conciliar pela Exortação Apostólica Familiaris consortio. Entre outras coisas, a Exortação recorda aos pastores que, por amor da verdade, são obrigados a um cuidadoso discernimento das diversas situações e anima-os a encorajarem a participação dos divorciados novamente casados em diversos momentos da vida da Igreja. Ao mesmo tempo, reafirma a prática constante e universal, «fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união», indicando os motivos da mesma. A estrutura da Exortação e o teor das suas palavras deixam entender claramente que tal prática, apresentada como vinculante, não pode ser modificada com base nas diferentes situações. O fiel que convive habitualmente more uxorio com uma pessoa que não é a legítima esposa ou o legítimo marido, não pode receber a comunhão eucarística. Caso aquele o considerasse possível, os pastores e os confessores - dada a gravidade da matéria e as exigências do bem espiritual da pessoa e do bem comum da Igreja - têm o grave dever de adverti-lo que tal juízo de consciência está em evidente contraste com a doutrina da Igreja. Devem também recordar esta doutrina no ensinamento a todos os fiéis que lhes estão confiados. Isto não significa que a Igreja não tenha a peito a situação destes fieis que, aliás, de fato não estão excluídas da comunhão eclesial. Preocupa-se por acompanhá-las pastoralmente e convidá-las a participar na vida eclesial na medida em que isso seja compatível com as disposições do direito divino, sobre as quais a Igreja não possui qualquer poder de dispensa. Por outro lado, é necessário esclarecer os fiéis interessados para que não considerem a sua participação na vida da Igreja reduzida exclusivamente à questão da recepção da Eucaristia. Os fiéis hão-de ser ajudados a aprofundar a sua compreensão do valor da participação no sacrifício de Cristo na Missa, da comunhão espiritual, da oração, da meditação da palavra de Deus, das obras de caridade e de justiça. A convicção errada de poder um divorciado novamente casado receber a comunhão eucarística pressupõe normalmente que se atribui à consciência pessoal o poder de decidir, em última instância, com base na própria convicção, sobre a existência ou não do matrimônio anterior e do valor da nova união. Mas tal atribuição é inadmissível. Efetivamente o matrimônio, enquanto imagem da união esponsal entro Cristo e a sua Igreja, e núcleo de base e fator importante na vida da sociedade civil, constitui essencialmente uma realidade pública.
Certamente é verdade que o juízo sobre as próprias disposições para o acesso à Eucaristia deve ser formulado pela consciência moral adequadamente formada. Mas, é igualmente verdade que o consentimento, pelo qual é constituído o matrimônio, não é uma simples decisão privada, visto que cria para cada um dos esposos e para o casal uma situação especificamente eclesial e social. Portanto o juízo da consciência sobre a própria situação matrimonial não diz respeito apenas a uma relação imediata entre o homem e Deus, como se se pudesse prescindir daquela mediação eclesial, que inclui também as leis canônicas que obrigam em consciência. Não reconhecer este aspecto essencial significaria negar, de fato, que o matrimônio existe como realidade da Igreja, quer dizer, como sacramento. De outra parte, a Exortação Apostólica Familiaris Consortio, quando convida os pastores a distinguir bem as várias situações dos divorciados novamente casados, recorda também o caso daqueles que estão subjetivamente certos em consciência que o matrimônio anterior, irremediavelmente destruído, jamais fora válido.
Deve-se certamente discernir, através da via de foro externo estabelecida pela Igreja, se objetivamente existe tal nulidade do matrimônio. A disciplina da Igreja, enquanto confirma a competência exclusiva dos tribunais eclesiásticos no exame da validade do matrimônio dos católicos, oferece agora novos caminhos para demonstrar a nulidade do matrimônio precedente, procurando assim excluir, quanto possível, qualquer distância entre a verdade verificável no processo e a verdade objetiva conhecida pela reta consciência. Ater-se ao juízo da Igreja e observar a disciplina vigente acerca da obrigatoriedade da forma canônica como condição necessária para a validade dos matrimônios dos católicos, é o que verdadeiramente aproveita ao bem espiritual dos fiéis interessados. Com efeito, a Igreja é o Corpo de Cristo, e viver a comunhão eclesial é viver no Corpo de Cristo e nutrir-se do Corpo de Cristo. Ao receber o sacramento da Eucaristia, a comunhão com Cristo Cabeça não pode jamais ser separada da comunhão com seus membros, isto é, com sua Igreja. Por isso, o sacramento da nossa união com Cristo è também o sacramento da unidade da Igreja. Receber a comunhão eucarística em contraste com a comunhão eclesial é, pois, algo de contraditório em si mesmo. A comunhão sacramental com Cristo inclui e pressupõe a observância, mesmo se às vezes pode ser difícil, das exigências da comunhão eclesial, e não pode ser justa e frutífera se o fiel, mesmo querendo aproximar-se diretamente de Cristo, não observa estas exigências. Em harmonia com o que ficou dito até agora, há que realizar plenamente o desejo expresso pelo Sínodo dos Bispos, assumido pelo Santo Padre João Paulo II e atuado com empenhamento e com louváveis iniciativas por parte de bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos: com solícita caridade, fazer tudo quanto possa fortificar no amor de Cristo e da Igreja os fiéis que se encontram em situação matrimonial irregular. Só assim será possível para eles acolherem plenamente a mensagem do matrimônio cristão e suportarem na fé o sofrimento da sua situação. Na ação pastoral, dever-se-á realizar todo o esforço para que seja bem compreendido que não se trata de nenhuma discriminação, mas apenas de fidelidade absoluta à vontade de Cristo que restabeleceu e de novo nos confiou a indissolubilidade do matrimônio como dom do Criador. Será necessário que os pastores e a comunidade dos fiéis sofram e amem unidos às pessoas interessadas, para que possam reconhecer também no seu fardo o jugo suave e o fardo leve de Jesus. O seu fardo não é suave e leve enquanto pequeno ou insignificante, mas torna-se leve porque o Senhor - e juntamente com Ele toda a Igreja - o compartilha. É dever da ação pastoral, que há-de ser desempenhada com total dedicação, oferecer esta ajuda fundada conjuntamente na verdade e no amor.
2004 – Carta aos Bispos da Igreja católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo
Em 2004 o Card. Joseph Ratzinger escreveu uma carta aos Bispos centrada sobre a recíproca colaboração do homem e da mulher para a missão da Igreja. «Perita em humanidade – escreveu o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé –, a Igreja está sempre interessada por tudo o que diz respeito ao homem e à mulher. Nestes últimos tempos, tem-se refletido muito sobre a dignidade da mulher, sobre os seus direitos e deveres nos diversos âmbitos da comunidade civil e eclesial. Havendo contribuído para o aprofundamento desta temática fundamental, sobretudo com o ensinamento de João Paulo II, a Igreja sente-se hoje interpelada por algumas correntes de pensamento, cujas teses muitas vezes não coincidem com as finalidades genuínas da promoção da mulher. O presente documento, depois de uma breve apresentação e apreciação crítica de certas concepções antropológicas hodiernas, entende propor algumas reflexões inspiradas pelos dados doutrinais da antropologia bíblica — aliás indispensáveis para a salvaguarda da identidade da pessoa humana — sobre alguns pressupostos em ordem a uma reta compreensão da colaboração ativa do homem e da mulher na Igreja e no mundo, a partir dessa sua mesma diferença. Pretendem estas reflexões, ao mesmo tempo, propor-se como ponto de partida para um caminho de aprofundamento no seio da Igreja e para instaurar um diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade, na busca sincera da verdade e no esforço comum de promover relações cada vez mais autênticas».
«Nestes últimos anos – explicou ainda o Card. Ratzinger – têm-se delineado novas tendências na abordagem do tema da mulher. Uma primeira tendência sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela mesma, apresenta-se como antagônica do homem. Aos abusos de poder, responde com uma estratégia de busca do poder. Um tal processo leva a uma rivalidade entre os sexos, onde a identidade e o papel de um são assumidos em prejuízo do outro, com a conseqüência de introduzir na antropologia uma perniciosa confusão, que tem o seu revés mais imediato e nefasto na estrutura da família. Uma segunda tendência emerge no sulco da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou de outro sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente cultural, chamada gênero, é sublinhada ao máximo e considerada primária. O obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é grávido de enormes conseqüências a diversos níveis. Uma tal antropologia, que entendia favorecer perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico, acabou de fato por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o questionamento da família, por sua índole natural bi-parental, ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica.
A raiz imediata da sobredita tendência coloca-se no contexto da questão da mulher, mas a sua motivação mais profunda deve procurar-se na tentativa da pessoa humana de libertar-se dos próprios condicionamentos biológicos. De acordo com tal perspectiva antropológica, a natureza humana não teria em si mesma características que se imporiam de forma absoluta: cada pessoa poderia e deveria modelar-se a seu gosto, uma vez que estaria livre de toda a predeterminação ligada à sua constituição essencial. Muitas são as conseqüências de uma tal perspectiva. Antes de mais, consolida-se a idéia de que a libertação da mulher comporta uma crítica à Sagrada Escritura, que transmitiria uma concepção patriarcal de Deus, alimentada por uma cultura essencialmente machista. Em segundo lugar, semelhante tendência consideraria sem importância e sem influência o fato de o Filho de Deus ter assumido a natureza humana na sua forma masculina. Perante tais correntes de pensamento, a Igreja, iluminada pela fé em Jesus Cristo, fala ao invés de colaboração ativa, precisamente no reconhecimento da própria diferença entre homem e mulher. Para melhor compreender o fundamento, o sentido e as conseqüências desta resposta, convém voltar, ainda que brevemente, à Sagrada Escritura, que é rica também de sabedoria humana, e onde esta resposta se manifestou progressivamente, graças à intervenção de Deus em favor da humanidade.
O Card. Ratzinger dedicou-se então a descrever os dados fundamentais da antropologia bíblica: «Uma primeira série de textos bíblicos a examinar são os primeiros três capítulos do Gênesis. Colocam-nos eles «no contexto do “princípio” bíblico, no qual a verdade revelada sobre o homem como “imagem e semelhança de Deus” constitui a base imutável de toda a antropologia cristã». No primeiro texto (Gen 1,1-2,4) descreve-se o poder criador da Palavra de Deus que estabelece distinções no caos primigênio. Aparecem a luz e as trevas, o mar e a terra firme, o dia e a noite, as ervas e as árvores, os peixes e as aves, todos «segundo a própria espécie». Nasce um mundo ordenado a partir de diferenças que, por sua vez, são outras tantas promessas de relações. Eis, assim, esboçado o quadro geral em que se coloca a criação da humanidade. «Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança... Deus criou o ser humano à sua imagem; criou-o à imagem de Deus; criou-o homem e mulher» (Gen 1, 26-27). A humanidade aqui é descrita como articulada, desde a sua primeira origem, na relação do masculino e do feminino. É esta humanidade sexuada que é explicitamente declarada «imagem de Deus». O segundo relato da criação (Gen 2,4-25) confirma inequivocavelmente a importância da diferença sexual. Uma vez plasmado por Deus e colocado no jardim, de que recebe a gestão, aquele que é designado ainda com o termo genérico de Adam sente uma solidão que a presença dos animais não consegue preencher. Precisa de uma ajuda que lhe seja correspondente. O termo indica, aqui, não um papel subalterno, mas uma ajuda vital. A finalidade é, efetivamente, a de permitir que a vida de Adam não se afunde num confronto estéril, e por fim mortal, apenas consigo mesmo. É necessário que entre em relação com um outro ser que esteja ao seu nível. Só a mulher, criada da mesma «carne» e envolvida no mesmo mistério, dá um futuro à vida do homem. Isso dá-se a nível ontológico, no sentido que a criação da mulher da parte de Deus caracteriza a humanidade como realidade relacional. Neste encontro brota também a palavra que abre, pela primeira vez, a boca do homem numa expressão de maravilha: «Esta é realmente carne da minha carne e osso dos meus ossos» (Gen 2,23). «A mulher — escreveu o Santo Padre em referência a este texto do Gênesis — é um outro “eu” na comum humanidade. Desde o início, [o homem e a mulher] aparecem como “unidade dos dois”, e isto significa a superação da solidão originária, na qual o homem não encontra “um auxiliar que lhe seja semelhante” (Gen 2,20). Tratar-se-á aqui do “auxiliar” só na ação, no “dominar a terra”? (cf Gen 1,28). Certamente se trata da companheira da vida, com a qual o homem pode unir-se como se une com a esposa, tornando-se com ela “uma só carne” e abandonando, por isso, o “seu pai e a sua mãe” (cf Gen 2,24)». A diferença vital é orientada à comunhão e é vivida de forma pacífica, expressa no tema da nudez: «Ora ambos andavam nus, o homem e a sua mulher, e não sentiam vergonha» (Gen 2,25). Assim, o corpo humano, marcado pelo selo da masculinidade ou da feminilidade, «comporta “desde o princípio” o atributo “esponsal”, ou seja a capacidade de exprimir o amor: aquele amor precisamente no qual o homem-pessoa se torna dom e — mediante esse dom — realiza o próprio sentido do seu ser e existir».
«Ainda comentando estes versículos do Gênesis, o Santo Padre continua: «Nesta sua particularidade, o corpo é a expressão do espírito, e é chamado, no próprio mistério da criação, a existir na comunhão das pessoas, “à imagem de Deus”». Na mesma perspectiva esponsal, compreende-se em que sentido o antigo relato do Gênesis dê a entender como a mulher, no seu ser mais profundo e originário, exista «para o outro» (cf 1Cor 11,9): é uma afirmação que, bem longe de evocar alienação, exprime um aspecto fundamental da semelhança com a Santíssima Trindade, cujas Pessoas, com a vinda de Cristo, revelam estar em comunhão de amor, umas para as outras. «Na “unidade dos dois”, o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir “um ao lado do outro” ou “juntos”, mas também a existir reciprocamente “um para o outro”... O texto de Gênesis 2,18-25 indica que o matrimônio é a primeira e, num certo sentido, a fundamental dimensão desta chamada. Não é, porém, a única. Toda a história do homem sobre a terra realiza-se no âmbito desta chamada. Na base do princípio do recíproco ser “para” o outro, na “comunhão” interpessoal, desenvolve-se nesta história a integração na própria humanidade, querida por Deus, daquilo que é “masculino” e daquilo que é “feminino”». A visão pacífica com que termina o segundo relato da criação ecoa no «muito bom» que, no primeiro relato, encerrava a criação do primeiro casal humano. É aqui que se encontra o coração do plano originário de Deus e da verdade mais profunda do homem e da mulher, como Deus os quis e criou. Por mais perturbadas e obscurecidas que sejam pelo pecado, tais disposições originárias do Criador jamais poderão ser anuladas. O pecado original altera a maneira como o homem e a mulher acolhem e vivem a Palavra de Deus e a sua relação com o Criador. Logo a seguir à entrega do dom do jardim, Deus dá um mandamento positivo (cf Gen 2,16), seguido de outro negativo (cf Gen 2,17), em que implicitamente se afirma a diferença essencial entre Deus e a humanidade. Sob a insinuação da Serpente, essa diferença é contestada pelo homem e pela mulher. Em conseqüência, é também alterada a maneira de viver a sua diferença sexual».
«O relato do Gênesis estabelece assim uma relação de causa e efeito entre as duas diferenças: quando a humanidade considera Deus como seu inimigo, a própria relação do homem e da mulher é pervertida. Quando esta última relação se deteriora, o acesso ao rosto de Deus corre, por sua vez, o perigo de ficar comprometido. Nas palavras que Deus dirige à mulher a seguir ao pecado, é expressa de forma lapidar, mas não menos impressionante, o tipo de relações que passarão a instaurar-se entre o homem e a mulher: «Sentir-te-ás atraída para o teu marido e ele te dominará» (Gen 3,16). Será uma relação em que freqüentemente se desnaturará o amor na mera busca de si mesmo, numa relação que ignora e mata o amor, substituindo-o com o jogo do domínio de um sexo sobre o outro. A história da humanidade reproduz de fato tais situações, em que se exprime claramente a tríplice concupiscência que São João recorda, ao falar da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida (cf 1Jo 2,16)».
«Nesta trágica situação, perdem-se a igualdade, o respeito e o amor, que no plano originário de Deus a relação do homem e da mulher exige. Repassar estes textos fundamentais permite reafirmar alguns dados capitais da antropologia bíblica. Antes de mais, há que sublinhar o caráter pessoal do ser humano. «O homem é uma pessoa, em igual medida o homem e a mulher: os dois, na verdade, foram criados à imagem e semelhança do Deus pessoal». A igual dignidade das pessoas realiza-se como complementaridade física, psicológica e ontológica, dando lugar a uma harmoniosa «unidualidade» relacional, que só o pecado e as “estruturas do pecado” inscritas na cultura tornaram potencialmente conflituosa. A antropologia bíblica convida a enfrentar com uma atitude relacional, não concorrencial nem de desforra, os problemas que, a nível público ou privado, envolvem a diferença de sexo. Há que salientar, por outro lado, a importância e o sentido da diferença dos sexos como realidade profundamente inscrita no homem e na mulher: «a sexualidade caracteriza o homem e a mulher, não apenas no plano físico, mas também no psicológico e espiritual, marcando todas as suas expressões». Não se pode reduzi-la a puro e insignificante dado biológico, mas é «uma componente fundamental da personalidade, uma sua maneira de ser, de se manifestar, de comunicar com os outros, de sentir, exprimir e viver o amor humano». Esta capacidade de amar, reflexo e imagem de Deus Amor, tem uma sua expressão no caráter esponsal do corpo, em que se inscreve a masculinidade e a feminilidade da pessoa. A dimensão antropológica da sexualidade é inseparável da teológica. A criatura humana, na sua unidade de alma e corpo, é desde o princípio qualificada pela relação com o outro-de-si».
«É uma relação que se apresenta sempre boa e, ao mesmo tempo, alterada. É boa, de uma bondade originária declarada por Deus desde o primeiro momento da criação; mas é também alterada pela desarmonia entre Deus e a humanidade provocada pelo pecado. Esta alteração não corresponde, porém, nem ao projeto inicial de Deus sobre o homem e sobre a mulher, nem à verdade da relação dos sexos. Daí que, portanto, esta relação boa, mas ferida, precise de ser curada. Quais podem ser os caminhos dessa cura? Considerar e analisar os problemas inerentes à relação dos sexos, só a partir de uma situação marcada pelo pecado, levaria necessariamente o pensamento a regredir aos erros acima acenados. Há portanto que romper esta lógica de pecado e procurar uma saída que permita extirpá-la do coração do homem pecador. Uma orientação clara nesse sentido encontra-se na promessa divina de um Salvador, em que aparecem empenhadas a «mulher» e a sua «descendência» (cf Gen 3,15). É uma promessa que, antes de se cumprir, terá uma longa preparação na história. Uma primeira vitória sobre o mal está representada na história de Noé, homem justo, que, guiado por Deus, escapa ao dilúvio com a sua família e com as diversas espécies de animais (cf Gen 6-9). Mas é sobretudo na escolha divina de Abraão e da sua descendência (cf Gen 12,1ss) que a esperança de salvação se confirma. Deus começa assim a revelar o seu rosto, para que, através do povo escolhido, a humanidade aprenda a estrada da semelhança divina, ou seja, da santidade e, por conseguinte, da mudança do coração. Entre as muitas maneiras com que Deus se revela ao seu povo (cf Heb 1,1), segundo uma longa e paciente pedagogia, encontra-se também a referência ao tema comum da aliança do homem e da mulher. É paradoxal, se se considera o drama evocado pelo Gênesis e a sua réplica muito concreta no tempo dos profetas, bem como a mistura entre o sagrado e a sexualidade presente nas religiões que circundam Israel. Mesmo assim, tal simbolismo afigura-se indispensável para se compreender o modo com que Deus ama o seu povo: Deus faz-se conhecer como Esposo que ama Israel, sua Esposa. Se nesta relação Deus é descrito como «Deus ciumento» (cf Ex 20,5; Naum 1,2) e Israel denunciado como Esposa «adúltera» ou «prostituta» (cf Os 2,4-15; Ez 16,15-34), é porque a esperança, reforçada pela palavra dos profetas, está precisamente em ver a nova Jerusalém tornar-se a esposa perfeita: «tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus» (Is 62,5)».
«Recriada «na justiça e no direito, na benevolência e no amor» (Os 2,21), aquela que se afastara para procurar a vida e a felicidade entre os falsos deuses há-de voltar, e Àquele que lhe falará ao coração «cantará como nos dias da sua juventude» (Os 2,17); e ouvi-lo-á declarar: «o teu esposo é o teu criador» (Is 54,5). Substancialmente, é o mesmo dado que se afirma, quando, paralelamente ao mistério da obra que Deus realiza através da figura masculina do Servo sofredor, o livro de Isaías evoca a figura feminina de Sião, ornada de uma transcendência e de uma santidade que prefiguram o dom da salvação destinada a Israel. O Cântico dos Cânticos representa, sem dúvida, um momento privilegiado no uso desta modalidade de revelação. Nas palavras de um amor muito humano que celebra a beleza dos corpos e a felicidade do procurar-se um ao outro, exprime-se também o amor de Deus para com o seu povo. A Igreja, portanto, não se enganou, quando, usando as mesmas expressões, descobriu na audaciosa união do que há de mais humano com o que há de mais divino, o mistério da sua relação com Cristo. Ao longo de todo o Antigo Testamento, configura-se uma história de salvação que joga simultaneamente com a participação do masculino e do feminino. Os termos esposo e esposa, e também aliança, com que se caracteriza a dinâmica da salvação, embora possuindo uma evidente dimensão metafórica, são muito mais que simples metáforas. Tal vocabulário nupcial atinge a própria natureza da relação que Deus estabelece com o seu povo, mesmo se essa relação é mais vasta do que se possa provar na experiência nupcial humana. Igualmente, as mesmas condições concretas da redenção estão em jogo, na forma como oráculos, do tipo dos de Isaías, associam papéis masculinos e femininos no anúncio e na prefiguração da obra de salvação que Deus está para realizar. Tal salvação orienta o leitor, tanto para a figura masculina do Servo sofredor, como para a figura feminina de Sião. Os oráculos de Isaías, de fato, alternam esta figura com a do Servo de Deus, antes de culminar, no fim do livro, com a visão misteriosa de Jerusalém que dá à luz um povo num só dia (cf Is 66,7-14), profecia da grande novidade que Deus está para realizar (cf Is 48,6-8)».
«No Novo Testamento, todas estas prefigurações encontram a sua realização. Por um lado, Maria, como filha eleita de Sião, na sua feminilidade, recapitula e transfigura a condição de Israel/Esposa à espera do dia da sua salvação. Por outro, a masculinidade do Filho permite reconhecer como Jesus assume na sua pessoa tudo o que o simbolismo veterotestamentário aplicou ao amor de Deus para com o seu povo, descrito como o amor de um esposo para com a sua esposa. As figuras de Jesus e de Maria, sua Mãe, não só asseguram a continuidade do Antigo Testamento com o Novo, mas superam-no, a partir do momento que, com Jesus Cristo, aparece — como diz Santo Ireneu — «a novidade toda». Tal aspecto é posto em particular evidência pelo Evangelho de João. Na cena das núpcias de Caná, por exemplo, Jesus é solicitado pela mãe, chamada “mulher”, a dar como sinal o vinho novo das futuras núpcias com a humanidade (cf Jo 2,1-12). Tais núpcias messiânicas realizar-se-ão sobre a cruz, onde, ainda na presença da mãe, indicada como “mulher”, brotará do coração aberto do Crucificado o sangue/vinho da Nova Aliança (cf Jo 19,25-27.34). Nada surpreende, portanto, se João Baptista, interrogado sobre a sua identidade, se apresenta como «o amigo do esposo», que se alegra ao ouvir a voz do esposo e que deve eclipsar-se à sua chegada: «Quem tem a esposa é o esposo; e o amigo do esposo, que o acompanha e escuta, sente muita alegria ao ouvir a sua voz. Essa é a minha alegria, que agora é completa: Ele deve crescer e eu diminuir» (Jo 3,29-30)».
«Na sua atividade apostólica, Paulo desenvolve todo o sentido nupcial da redenção, concebendo a vida cristã como um mistério nupcial. Escreve à Igreja de Corinto, por ele fundada: «Sinto por vós um ciúme semelhante ao ciúme de Deus, porque vos desposei com um só esposo, que é Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura» (2Cor 11,2). Na Carta aos Efésios, a relação esponsal entre Cristo e a Igreja é retomada e amplamente aprofundada. Na Nova Aliança, a Esposa amada é a Igreja, e — como ensina o Santo Padre na Carta às famílias — «esta esposa, de que fala a Carta aos Efésios, faz-se presente em cada batizado e é como uma pessoa em quem o olhar do seu Esposo se compraz: “Amou a Igreja e por ela Se entregou... para a apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada” (Ef 5,25-27)». Meditando, portanto, sobre a união do homem e da mulher, como é descrita no momento da criação do mundo (cf Gen 2,24), o Apóstolo exclama: «É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja!» (Ef 5,32). O amor do homem e da mulher, vivido na força da vida batismal, passa a ser sacramento do amor de Cristo e da Igreja, testemunho dado ao mistério de fidelidade e de unidade, donde nasce a «nova Eva», e de que esta vive na sua peregrinação sobre a terra à espera da plenitude das núpcias eternas. Inseridos no mistério pascal e tornados sinais vivos do amor de Cristo e da Igreja, os esposos cristãos são renovados no seu coração, podendo evitar as relações marcadas pela concupiscência e pela tendência a subjugar, que a ruptura com Deus por causa do pecado havia introduzido no casal primitivo. Para eles, a bondade do amor, de que o desejo humano ferido sentia saudade, revela-se com novas acentuações e possibilidades. É nesta luz que Jesus, perante a pergunta sobre o divórcio (cf Mt 19,3-9), pode recordar as exigências da aliança entre o homem e a mulher, como Deus as quisera nas origens, ou seja, antes da aparição do pecado que justificaria as sucessivas acomodações da lei de Moisés. Longe de ser a imposição de uma ordem dura e intransigente, essa palavra de Jesus é, na verdade, o anúncio de uma «boa nova»: a da fidelidade mais forte que o pecado. Na força da ressurreição, torna-se possível a vitória da fidelidade sobre as fraquezas, sobre as feridas recebidas e sobre os pecados do casal».
«Na graça de Cristo que renova o seu coração, o homem e a mulher tornam-se capazes de se libertar do pecado e de conhecer a alegria do dom recíproco. «Vós que fostes batizados em Cristo fostes revestidos de Cristo... não há mais homem nem mulher» — escreve São Paulo aos Gálatas (3,27-28). O Apóstolo não declara aqui que deixou de existir a distinção homem-mulher, distinção que alhures diz pertencer ao projeto de Deus. O que, ao invés, quer dizer é o seguinte: em Cristo, a rivalidade, a inimizade e a violência, que desfiguravam a relação do homem e da mulher, são superáveis e estão superadas. Neste sentido, mais do que nunca é reafirmada a distinção do homem e da mulher, que aliás acompanha até ao fim a revelação bíblica. Na hora final da história presente, quando se vislumbram no Apocalipse de João «um novo céu» e «uma nova terra» (Ap 21,1), é apresentada em visão uma Jerusalém feminina «bela como noiva adornada para o seu esposo» (Ap 21,2). A própria revelação termina com a palavra da Esposa e do Espírito que imploram a vinda do Esposo: «Vem, Senhor Jesus» (Ap 22,20). O masculino e o feminino são, portanto, revelados como pertencentes ontologicamente à criação e, por conseguinte, destinados a perdurar além do tempo presente, evidentemente numa forma transfigurada. Desse modo caracterizam o amor que «não terá fim» (1Cor 13,8), embora se torne caduca a expressão temporal e terrena da sexualidade, ordenada para um regime de vida marcado pela geração e pela morte. Dessa forma de existência futura do masculino e feminino, o celibato pelo Reino quer ser profecia. Para os que o vivem, antecipa a realidade de uma vida que, embora permanecendo a de um homem e de uma mulher, deixará de estar sujeita às limitações presentes da relação conjugal (cf Mt 22,30). Para os que vivem a vida conjugal, também o seu estado constitui referência e profecia da perfeição que a sua relação encontrará no encontro face a face com Deus. Distintos desde o início da criação e permanecendo tais no próprio coração da eternidade, o homem e a mulher, inseridos no mistério pascal de Cristo, deixam de conceber a sua diferença como fonte de discórdia, a superar com a negação ou com o nivelamento, mas como uma possibilidade de colaboração, que devem cultivar no recíproco respeito da distinção. Daqui se abrem novas perspectivas para uma compreensão mais profunda da dignidade da mulher e do seu papel na sociedade humana e na Igreja».
Mais especificamente, em seguida, o Card. Joseph Ratzinger dedicou-se a enuclear a função materna da mulher na família: «Entre os valores fundamentais relacionados com a vida concreta da mulher, existe o que se chama a sua «capacidade para o outro». Não obstante o fato de um certo discurso feminista reivindicar as exigências «para ela mesma», a mulher conserva a intuição profunda de que o melhor da sua vida é feito de atividades orientadas para o despertar do outro, para o seu crescimento, a sua proteção. Uma tal intuição é ligada à sua capacidade física de dar a vida. Vivida ou potencial, essa capacidade é uma realidade que estrutura em profundidade a personalidade feminina. Permite-lhe alcançar muito cedo a maturidade, sentido da gravidade da vida e das responsabilidades que a mesma implica. Desenvolve em si o sentido e o respeito do concreto, que se opõe às abstrações, muitas vezes mortais para a existência dos indivíduos e da sociedade. É ela, enfim, que, mesmo nas situações mais desesperadas — a história passada e presente são testemunho disso —, possui uma capacidade única de resistir nas adversidades; de tornar a vida ainda possível, mesmo em situações extremas; de conservar um sentido tenaz do futuro e, por último, recordar com as lágrimas o preço de cada vida humana. Embora a maternidade seja um elemento chave da identidade feminina, isso não autoriza absolutamente a considerar a mulher apenas sob o perfil da procriação biológica.
Pode haver nesse sentido graves exageros que exaltam uma fecundidade biológica em termos vitalistas e que freqüentemente são acompanhados de um perigoso desprezo da mulher. A existência da vocação cristã à virgindade, audaciosa em relação à tradição veterotestamentária e às exigências de muitas sociedades humanas, é neste campo de grandíssima importância. Nega ela de forma radical toda a pretensão de fechar as mulheres num destino que seria simplesmente biológico. Como a virgindade recebe da maternidade física a advertência de que não existe vocação cristã senão no dom concreto de si ao outro, do mesmo modo a maternidade física recebe da virgindade o apelo à sua dimensão fundamentalmente espiritual: não é contentando-se em dar a vida física que se gera verdadeiramente o outro. Isto quer dizer que a maternidade pode encontrar formas de realização plena também onde não há geração física. Numa tal perspectiva, compreende-se o papel insubstituível da mulher em todos os aspectos da vida familiar e social que envolvam relações humanas e o cuidado do outro. Aqui se manifesta com clareza o que João Paulo II chamou gênio da mulher. Implica isto, antes de mais, que as mulheres estejam presentes, ativamente e até com firmeza, na família, que é «sociedade primordial e, em certo sentido, “soberana”», porque é nesta que, em primeiro lugar, se plasma o rosto de um povo; é nesta onde os seus membros adquirem os ensinamentos fundamentais. Nela aprendem a amar, enquanto são amados gratuitamente; aprendem o respeito por toda a outra pessoa, enquanto são respeitados; aprendem a conhecer o rosto de Deus, enquanto recebem a sua primeira revelação de um pai e de uma mãe cheios de atenção».
«Todas as vezes que venham a faltar estas experiências fundantes, é a sociedade no seu conjunto que sofre violência e se torna, por sua vez, geradora de múltiplas violências. Isso implica também que as mulheres estejam presentes no mundo do trabalho e da organização social e que tenham acesso a lugares de responsabilidade, que lhes dêem a possibilidade de inspirar as políticas das nações e promover soluções inovadoras para os problemas econômicos e sociais. A este respeito, não se pode, porém, esquecer que a interligação das duas atividades — família e trabalho — assume, no caso da mulher, características diferentes das do homem. Põe-se, portanto, o problema de harmonizar a legislação e a organização do trabalho com as exigências da missão da mulher no seio da família. O problema não é só jurídico, econômico e organizativo; é antes de mais um problema de mentalidade, de cultura e de respeito. Exige-se, de fato, uma justa valorização do trabalho realizado pela mulher na família. Assim, as mulheres que livremente o desejam poderão dedicar a totalidade do seu tempo ao trabalho doméstico, sem ser socialmente estigmatizadas e economicamente penalizadas. As que, por usa vez, desejarem realizar também outros trabalhos poderão fazê-lo com horários adequados, sem serem confrontadas com a alternativa de mortificar a sua vida familiar ou então arcar com uma situação habitual de stress que não favorece nem o equilíbrio pessoal nem a harmonia familiar».
«Como escreve João Paulo II, «reverterá em honra para a sociedade o tornar possível à mãe — sem pôr obstáculos à sua liberdade, sem discriminação psicológica ou prática e sem que ela fique numa situação de desdouro em relação às outras mulheres — cuidar dos seus filhos e dedicar-se à educação deles, segundo as diferentes necessidades da sua idade». É, em todo o caso, oportuno lembrar que os valores femininos, a que se acenou, são antes de mais valores humanos: a condição humana, do homem e da mulher, criados à imagem de Deus, é una e indivisível. É só por estarem em sintonia mais imediata com estes valores que as mulheres podem ajudar a lembrá-los ou ser o seu sinal privilegiado. Mas, em última análise, todo o ser humano, homem e mulher, é destinado a ser «para o outro». Nessa perspectiva, o que se chama «feminilidade» é mais do que um simples atributo do sexo feminino. A palavra designa, com efeito, a capacidade fundamentalmente humana de viver para o outro e graças ao outro. Portanto, a promoção da mulher no seio da sociedade deve ser compreendida e querida como uma humanização, realizada através daqueles valores que foram redescobertos graças às mulheres. Qualquer perspectiva que pretenda propor-se como luta dos sexos não passa de uma ilusão e perigo: desembocaria em situações de segregação e de competição entre homens e mulheres e promoveria um solipsismo que se nutre de uma falsa concepção da liberdade. Sem prejuízo dos esforços que são feitos na promoção dos direitos que as mulheres podem aspirar na sociedade e na família, estas observações querem, ao invés, corrigir a perspectiva que considera os homens inimigos a vencer. A relação homem-mulher não pode pretender encontrar a sua justa condição numa espécie de contraposição, desconfiada e defensiva. Tal relação tem de ser vivida na paz e na felicidade do amor partilhado. A um nível mais concreto, as políticas sociais —educativas, familiares, laborais, de acesso aos serviços, de participação cívica, — se, por um lado, devem combater toda a discriminação sexual injusta, por outro, devem saber escutar as aspirações e assinalar as necessidades de cada um. A defesa e promoção da igual dignidade e dos comuns valores pessoais devem harmonizar-se com o atento reconhecimento da diferença e da reciprocidade, onde a realização da própria humanidade masculina e feminina o exija».


JOÃO PAULO II E A FAMÍLIA
1981: a Instituição do Pontifício Conselho para a Família
O Pontifício Conselho para a Família foi instituído pelo Papa João Paulo II com o Motu proprio Familia a Deo instituta de 9 de maio de 1981, em substituição do Comitê para a Família criado pelo Papa Paulo VI em 11 de janeiro de 1973. O organismo é encarregado da pastoral e do apostolado em campo familiar, em aplicação dos ensinamentos e das orientações do Magistério eclesiástico, para que as famílias cristãs sejam ajudadas a realizar a missão educadora e apostólica a que são chamadas. Entre as numerosas tarefas confiadas a este Conselho, figura também a promoção e a coordenação dos esforços pastorais em ordem à procriação responsável segundo os ensinamentos da Igreja, como encorajar, sustentar e coordenar os esforços em defesa da vida humana em todo o arco da sua existência, da concepção à morte.
João Paulo II no Motu proprio Família a Deo instituta explica: «A família, instituída por Deus para que fosse a primeira e vital célula da sociedade humana, por Cristo redentor, que se dignou a nascer na família de Nazaré, foi tão grandemente honrada, que o matrimônio, íntima comunidade de amor e de vida, do qual a família traz suas origens, foi por ele elevado à dignidade de sacramento, de modo a significar eficazmente o místico pacto de amor entre Cristo e a Igreja (cf. GS 48). Com justa razão, portanto, o Conselho Ecumênico Vaticano II qualificou a família como “Igreja doméstica” (LG 11; cf. também AA 11), mostrando com tal ensinamento quão peculiar papel a família seja chamada a realizar no interior do plano de salvação e quão comprometedor seja portanto o dever que obriga os membros da família a atuar, cada um segundo a própria missão, o tríplice aspecto profético, sacerdotal e real, que Cristo confiou à Igreja.
Não deve, portanto, surpreender que a Igreja, sempre solícita ao longo dos séculos à família e aos seus problemas, tendo hoje crescido sejam os meios aptos a promover a família sejam os perigos de todo gênero que a ameaçam, dirija a essa os olhos com atenção também maior. Testemunho significativo de tal apostólica solicitude é o passo tomado por meu grande predecessor de v.m., o Papa Paulo VI, o qual em 11 de janeiro de 1973 decidiu constituir um especial “Comitê para a Família” com o encargo de estudar os problemas espirituais, morais e sociais da família, em uma visão pastoral. Este havia sido concebido como organismo de estudos e de pesquisas pastorais ao serviço da missão da Igreja e em particular da Santa Sé. Com o motuproprio Apostolatus peragendi foi disposto que o “Comitê para a família”, embora conservando sua estrutura e a composição sua própria, estivesse à frente do “Pontifício Conselho para os Leigos”.
Uma atenta reflexão sobre a experiência destes anos, mas sobretudo o desejo de dar uma resposta sempre mais adequada às expectativas do povo cristão, recolhidas pelo episcopado de todo o mundo e manifestadas pelo recente Sínodo dos Bispos, dedicado à família, induziram a dar ao Comitê para a família uma nova própria fisionomia e uma nova própria estrutura organizativa de modo que esta possa afrontar a problemática específica da realidade familiar em ordem aos cuidados pastorais e à atividade apostólica relativa a este nevrálgico setor da vida humana».
Feitas tais premissas, João Paulo II dispôs o quanto se segue: «I. É constituído o “Pontifício conselho para a família” que sucede, substituindo-o, o Comitê para a família, o qual cessa, portanto. II. Este é presidido por um Cardeal, assistido por um “Comitê de presidência” composto por Bispos de diversos continentes, e pelo Secretário do mesmo Pontifício conselho para a família, como também pelo presidente do Pontifício conselho para os leigos. O Cardeal presidente é coadjuvado por um Secretário e por um Subsecretário. Um congruente número de oficiais escolhido de vários países entre aqueles que têm competência e uma experiência pastoral específica na matéria, assegura o trabalho nos escritórios. III. Membros do Pontifício Conselho são pessoas, na maioria leigos conjugados, homens e mulheres chamados de todas as partes do mundo e expressivas das várias áreas culturais. Os membros são nomeados pelo Santo Padre. Os membros reúnem-se em plenária ao menos uma vez por ano. IV. O pontifício Conselho serve-se da colaboração de consultores especialistas nas várias disciplinas com particular referimento à problemática da família. Podem ser chamados a integrar o grupo dos consultores também sacerdotes e religiosos. Os consultores compõem a consulta, que tem a tarefa de exprimir conselhos e pareceres acerca de questões propostas pelo presidente e pelos membros. Estes poderão ser ouvidos individualmente ou coletivamente em encontros periódicos. V. Competência: É encargo do Pontifício Conselho para a Família a promoção pastoral das famílias e do apostolado específico em campo familiar, na aplicação dos ensinamentos e das orientações expressas pelas competentes instâncias do magistério eclesiástico, de modo que as famílias cristãs possam realizar a missão educativa, evangelizadora e apostólica, à qual são chamadas.
Em particular: a) em espírito de serviço e de colaboração e no respeito da ação sua própria, preparação de relatórios de informações, e trocas de experiências e de orientações inspiradoras da postoral familiar com os bispos, as conferências episcopais e os seus organismos, prepostos à pastoral familiar; b) difusão da doutrina da Igreja acerca dos problemas familiares de modo que esta possa ser integralmente conhecida e corretamente proposta ao povo cristão, seja na catequese seja no conhecimento científico; c) promove e coordena os esforços pastorais em ordem ao problema da procriação responsável segundo os ensinamentos da Igreja; d) estimular a elaboração de estudos relativos à espiritualidade matrimonial e familiar; e) encorajar, sustentar e coordenar os esforços em defesa da vida humana em todo o arco de sua existência desde a concepção; f) promover, também através da obra de institutos científicos especializados (teológicos e pastorais), os estudos finalizados a integrar, sobre os temas da família, as ciências teológicas e as ciências humanas a fim que toda a doutrina da Igreja seja sempre melhor compreendida pelos homens de boa vontade; g) cuidados das relações com os movimentos inspirados nas diversas confissões religiosas (ou em diversas concepções ideais), respeitosos da lei natural e de um saudável humanismo; h) com relação à competência do próprio Conselho para os leigos e em colaboração com este, o cuidado da específica preparação dos leigos empenhados no apostolado familiar desenvolvido enquanto indivíduos ou associações, inspirar, sustentar e regular a atividade das organizações internacionais católicas familiares seja nacionais seja internacionais, e de vários grupos de apostolado dos leigos com específico referimento aos problemas da família. A tal fim empreender relacionamentos especiais com o mesmo Pontifício Conselho para os leigos, com uma troca periódica de informações em vista de reflexões e programas comuns; i) prestar a sua colaboração aos dicastérios e aos organismos da cúria romana nas matérias de sua competência, que têm qualquer reflexo sobre a vida e a pastoral das famílias – recebendo por sua vez a colaboração destes – especialmente naquilo que diz respeito à catequese das famílias, à formação dos jovens sobre problemas familiares nos seminários e nas universidades católicas, a formação teológico-pastoral no campo familiar dos futuros missionários e das futuras missionárias, dos religiosas e das religiosas, a ação da Santa Sé em relação às competentes instâncias internacionais e junto aos estados em particular, para que os direitos da família sejam sempre mais reconhecidos e tutelados; 1) promover o recolhimento – através da representação pontifícia – das notícias sobre a situação humana, social e pastoral das famílias nos vários países.
1981: Exortação Apostólica Familiaris Consortio
Em 1981 João Paulo II assina um de seus documentos mais importantes entre aqueles dedicados à família: a Exortação Apostólica Familiaris Consortio dedicada às tarefas da família cristã no mundo de hoje. « A FAMÍLIA nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura. Muitas famílias vivem esta situação na fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento do instituto familiar. Outras tornaram-se incertas e perdidas frente a seus deveres, ou ainda mais, duvidosas e quase esquecidas do significado último e da verdade da vida conjugal e familiar. Outras, por fim, estão impedidas por variadas situações de injustiça de realizarem os seus direitos fundamenta. Consciente de que o matrimônio e a família constituem um dos bens mais preciosos da humanidade, a Igreja quer fazer chegar a sua voz e oferecer a sua ajuda a quem, conhecendo já o valor do matrimônio e da família, procura vivê-lo fielmente, a quem, incerto e ansioso, anda à procura da verdade e a quem está impedido de viver livremente o próprio projeto familiar. Sustentando os primeiros, iluminando os segundos e ajudando os outros, a Igreja oferece o seu serviço a cada homem interessado nos caminhos do matrimônio e da família. Dirige-se particularmente aos jovens, que estão para encetar o seu caminho para o matrimônio e para a família, abrindo-lhes novos horizontes, ajudando-os a descobrir a beleza e a grandeza da vocação ao amor e ao serviço da vida».
João Paulo II não tem dúvidas em reconhecer o valor do matrimônio e da família para a sociedade atual, valor que a Igreja sempre reconheceu a valorizou: « A Igreja, iluminada pela fé, que lhe faz conhecer toda a verdade sobre o precioso bem do matrimônio e da família e sobre os seus significados mais profundos, sente mais uma vez a urgência de anunciar o Evangelho, isto é, a «Boa Nova» a todos indistintamente, em particular a todos aqueles que são chamados ao matrimônio e para ele se preparam, a todos os esposos e pais do mundo. Ela está profundamente convencida de que só com o acolhimento do Evangelho encontra realização plena toda a esperança que o homem põe legitimamente no matrimônio e na família. Queridos por Deus com a própria criação, o matrimônio e a família estão interiormente ordenados a complementarem-se em Cristo e têm necessidade da sua graça para serem curados das feridas do pecado e conduzidos ao seu «princípio», isto é, ao conhecimento pleno e à realização integral do desígnio de Deus. Num momento histórico em que a família é alvo de numerosas forças que a procuram destruir ou de qualquer modo deformar, a Igreja, sabedora de que o bem da sociedade e de si mesma está profundamente ligado ao bem da família, sente de modo mais vivo e veemente a sua missão de proclamar a todos o desígnio de Deus sobre o matrimônio e sobre a família, para lhes assegurar a plena vitalidade e promoção humana e cristã, contribuindo assim para a renovação da sociedade e do próprio Povo de Deus».
Para o Santo Padre, « A situação em que se encontra a família apresenta aspectos positivos e aspectos negativos: sinal, naqueles, da salvação de Cristo operante no mundo; sinal, nestes, da recusa que o homem faz ao amor de Deus. Por um lado, de fato, existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimônio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos; há, além disso, a consciência da necessidade de que se desenvolvam relações entre as famílias por uma ajuda recíproca espiritual e material, a descoberta de novo da missão eclesial própria da família e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa. Por outro lado, contudo, não faltam sinais de degradação preocupante de alguns valores fundamentais: uma errada concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves ambigüidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais freqüente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva. Na raiz destes fenômenos negativos está muitas vezes uma corrupção da idéia e da experiência de liberdade concebida não como capacidade de realizar a verdade do projeto de Deus sobre o matrimônio e a família, mas como força autônoma de afirmação, não raramente contra os outros, para o próprio bem-estar egoístico. Merece também a nossa atenção o fato de que, nos países do assim chamado Terceiro Mundo, faltem muitas vezes às famílias quer os meios fundamentais para a sobrevivência, como o alimento, o trabalho, a habitação, os medicamentos, quer as mais elementares liberdades. Nos países mais ricos, pelo contrário, o bem-estar excessivo e a mentalidade consumista, paradoxalmente unida a uma certa angústia e incerteza sobre o futuro, roubam aos esposos a generosidade e a coragem de suscitarem novas vidas humanas: assim a vida é muitas vezes entendida não como uma bênção, mas como um perigo de que é preciso defender-se. A situação histórica em que vive a família apresenta-se, portanto, como um conjunto de luzes e sombras. Isto revela que a história não é simplesmente um progresso necessário para o melhor, mas antes um acontecimento de liberdade, e ainda um combate entre liberdades que se opõem entre si; segundo a conhecida expressão de Santo Agostinho, um conflito entre dois amores: o amor de Deus impelido até ao desprezo de si, e o amor de si impelido até ao desprezo de Deus. Segue-se que só a educação para o amor, radicada na fé, pode levar a adquirir a capacidade de interpretar «os sinais dos tempos», que são a expressão histórica deste duplo amor».
Mais adiante Papa João Paulo II fala de desígnio de Deus sobre o matrimônio e sobre a família: « Deus criou o homem à sua imagem e semelhança: chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor. Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano. Enquanto espírito encarnado, isto é, alma que se exprime no corpo informado por um espírito imortal, o homem é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O amor abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do amor espiritual.
A Revelação cristã conhece dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na sua totalidade ao amor: o Matrimônio e a Virgindade. Quer um quer outro, na sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do homem, do seu «ser à imagem de Deus». Por conseqüência a sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os atos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal. Esta se realiza de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte. A doação física total seria falsa se não fosse sinal e fruto da doação pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente. Esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais. O «lugar» único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimônio, ou seja o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus, que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjectivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora».
A terceira parte da Exortação apostólica é inteiramente dedicada às tarefas da família cristã. Tarefas que podem ser resumidas à necessidade de que a família ajude a criação de «uma comunidade de pessoas», que esta ajude a vida e seja um serviço à vida, que participe «ao desenvolvimento da sociedade», que participe «da vida e da missão da Igreja».
Mais adiante o Papa entra no tema específico da pastoral familiar, refletindo sobre seu tempo, estruturas, agentes e situações. Dedica um capítulo à ação pastoral diante de algumas situações irregulares. «Na sua solicitude pela tutela da família em todas as suas dimensões, não somente na dimensão religiosa, o Sínodo dos Bispos não deixou de prestar atenta consideração a algumas situações irregulares, religiosa e muitas vezes também civilmente, que - nas rápidas mudanças culturais hodiernas - se vão infelizmente difundindo mesmo entre os católicos, com não pequeno dano do instituto familiar e da sociedade, de que constitui a célula fundamental.
a) O matrimônio à experiência:
«Uma primeira situação irregular é dada pelo que se chama «matrimônio à experiência», que hoje muitos querem justificar, atribuindo-lhe um certo valor. A razão humana insinua já a sua não aceitação, mostrando quanto seja pouco convincente que se faça uma «experiência» em relação a pessoas humanas, cuja dignidade exige que sejam elas só e sempre, o termo do amor de doação sem limite algum nem de tempo nem de qualquer outra circunstância. Por sua parte, a Igreja não pode admitir um tal tipo de união por ulteriores motivos, originais, derivantes da fé. Por um lado, com efeito, o dom do corpo na relação sexual é símbolo real da doação de toda a pessoa: uma doação tal que, além do mais, na atual economia da salvação não pode atuar-se com verdade plena sem o concurso do amor de caridade, dado por Cristo. Por outro lado, o matrimônio entre duas pessoas batizadas é o símbolo real da união de Cristo com a Igreja, uma união não temporária ou «à experiência», mas eternamente fiel; entre dois batizados, portanto, não pode existir senão um matrimônio indissolúvel. Ordinariamente tal situação não poder ser superada se a pessoa humana, desde a infância, com a ajuda da graça de Cristo e sem temores, não for educada para o domínio da concupiscência nascente e para estabelecer com os outros relações de amor genuíno. Isso não se consegue sem uma verdadeira educação para o amor autêntico e para o reto uso da sexualidade, de modo a introduzir a pessoa humana em todas as suas dimensões, mesmo no referente ao próprio corpo, na plenitude do mistério de Cristo. Seria muito útil indagar sobre as causas deste fenômeno, também no seu aspecto psicológico e sociológico, para chegar a uma terapia adequada.
b) Uniões livres de fato
«Trata-se de uniões sem nenhum vínculo institucional, civil ou religioso, publicamente reconhecido. Este fenômeno - cada vez mais freqüente - não deixará de chamar a atenção dos pastores, exatamente porque existindo na sua base elementos muito diversos, será possível atuar sobre eles e limitar-lhes as conseqüências. Alguns, com efeito, consideram-se quase constrangidos a tais uniões por situações difíceis de caráter econômico, cultural e religioso, já que contraindo um matrimônio regular, seriam expostos a um dano, à perda de vantagens econômicas, à discriminação, etc. Outras, pelo contrário, fazem-no numa atitude de desprezo, de contestação ou de rejeição da sociedade, do instituto familiar, do ordenamento socio-político, ou numa busca única de prazer. Outros, enfim, são obrigados pela extrema ignorância e pobreza, às vezes por condicionamentos verificados por situações de verdadeira injustiça, ou também de uma certa imaturidade psicológica, que os torna incertos e duvidosos na contração de um vínculo estável e definitivo. Em alguns países os costumes tradicionais prevêem o matrimônio verdadeiro e próprio só depois de um período de coabitação e depois do nascimento do primeiro filho. Cada um destes elementos põe à Igreja árduos problemas pastorais, pelas graves conseqüências quer religiosas e morais (perda do sentido religioso do matrimônio à luz da Aliança de Deus com o seu Povo; privação da graça do sacramento; escândalo grave), quer também sociais (destruição do conceito de família; enfraquecimento do sentido de fidelidade mesmo para com a sociedade; possíveis traumas psicológicos nos filhos; afirmação do egoísmo). Os pastores e a comunidade eclesial serão diligentes em conhecer tais situações e as suas causas concretas, caso por caso; em aproximar-se dos conviventes com discrição e respeito; em esforçar-se com uma ação de esclarecimento paciente, de caridosa correção, de testemunho familiar cristão, que lhes possa aplanar o caminho para regularizar a situação. Faça-se, sobretudo, obra de prevenção, cultivando o sentido da fidelidade na educação moral e religiosa dos jovens, instruindo-os acerca das condições e das estruturas que favorecem tal fidelidade, sem a qual não há verdadeira liberdade, ajudando-os a amadurecer espiritualmente e fazendo-lhes compreender a riqueza da realidade humana e sobrenatural do matrimônio-sacramento. O Povo de Deus atue também junto das autoridades públicas, para que, resistindo a estas tendências desagregadoras da própria sociedade e prejudiciais à dignidade, segurança e bem-estar dos cidadãos, a opinião pública não seja induzida a menosprezar a importância institucional do matrimônio e da família. E já que em muitas regiões, pela pobreza extrema derivante de estruturas sócio-econômicas injustas ou inadequadas, os jovens não estão em condições de se casarem como convém, a sociedade e as autoridades públicas favoreçam o matrimônio legítimo mediante uma série de intervenções sociais e políticas, garantindo o salário familiar, emanando disposições para uma habitação adaptada à vida familiar, criando possibilidades adequadas de trabalho e de vida.
c) Católicos unidos só em matrimônio civil
«Difunde-se sempre mais o caso de católicos que, por motivos ideológicos e práticos, preferem contrair só matrimônio civil, rejeitando ou pelo menos adiando o religioso. A sua situação não se pode equiparar certamente à dos simples conviventes sem nenhum vinculo, pois que ali se encontra ao menos um empenhamento relativo a um preciso e provavelmente estável estado de vida, mesmo se muitas vezes não está afastada deste passo a perspectiva de um eventual divórcio. Procurando o reconhecimento público do vínculo da parte do Estado, tais casais mostram que estão dispostos a assumir, com as vantagens também as obrigações. Não obstante, tal situação não é aceitável por parte da Igreja. A ação pastoral procurará fazer compreender a necessidade da coerência entre a escolha de um estado de vida e a fé que se professa, e tentará todo o possível para levar tais pessoas a regularizar a sua situação à luz dos princípios cristãos. Tratando-as embora com muita caridade, e interessando-as na vida das respectivas comunidades, os pastores da Igreja não poderão infelizmente admiti-las aos sacramentos.
d) Separados e divorciados sem segunda união
«Motivos diversos, quais incompreensões recíprocas, incapacidade de abertura a relações interpessoais, etc. podem conduzir dolorosamente o matrimônio válido a uma fratura muitas vezes irreparável. Obviamente que a separação deve ser considerada remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis. A solidão e outras dificuldades são muitas vezes herança para o cônjuge separado, especialmente se inocente. Em tal caso, a comunidade eclesial deve ajudá-lo mais que nunca; demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão e ajuda concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade mesmo na situação difícil em que se encontra; ajudá-lo a cultivar a exigência do perdão própria do amor cristão e a disponibilidade para retomar eventualmente a vida conjugal anterior. Análogo é o caso do cônjuge que foi vítima de divórcio, mas que - conhecendo bem a indissolubilidade do vínculo matrimonial válido - não se deixa arrastar para uma nova união, empenhando-se, ao contrário, unicamente no cumprimento dos deveres familiares e na responsabilidade da vida cristã. Em tal caso, o seu exemplo de fidelidade e de coerência cristã assume um valor particular de testemunho diante do mundo e da Igreja, tornando mais necessária ainda, da parte desta, uma acção contínua de amor e de ajuda, sem algum obstáculo à admissão aos sacramentos.
e) Divorciados que contraem nova união
«A experiência quotidiana mostra, infelizmente, que quem recorreu ao divórcio tem normalmente em vista a passagem a uma nova união, obviamente não com o rito religioso católico. Pois que se trata de uma praga que vai, juntamente com as outras, afetando sempre mais largamente mesmo os ambientes católicos, o problema deve ser enfrentado com urgência inadiável. Os Padres Sinodais estudaram-no expressamente. A Igreja, com efeito, instituída para conduzir à salvação todos os homens e sobretudo os batizados, não pode abandonar aqueles que - unidos já pelo vínculo matrimonial sacramental - procuraram passar a novas núpcias. Por isso, esforçar-se-á infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação. Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimônio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimônio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o prece dente matrimônio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido. Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança. A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio. A reconciliação pelo sacramento da penitência - que abriria o caminho ao sacramento eucarístico - pode ser concedida só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. Isto tem como conseqüência, concretamente, que quando o homem e a mulher, por motivos sérios - quais, por exemplo, a educação dos filhos - não se podem separar, «assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges». Igualmente o respeito devido quer ao sacramento do matrimônio quer aos próprios cônjuges e aos seus familiares, quer ainda à comunidade dos fiéis proíbe os pastores, por qualquer motivo ou pretexto mesmo pastoral, de fazer em favor dos divorciados que contraem uma nova união, cerimônias de qualquer gênero. Estas dariam a impressão de celebração de novas núpcias sacramentais válidas, e conseqüentemente induziriam em erro sobre a indissolubilidade do matrimônio contraído validamente. Agindo de tal maneira, a Igreja professa a própria fidelidade a Cristo e à sua verdade; ao mesmo tempo comporta-se com espírito materno para com estes seus filhos, especialmente para com aqueles que sem culpa, foram abandonados pelo legítimo cônjuge. Com firme confiança ela vê que, mesmo aqueles que se afastaram do mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado, poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade.
f) Os sem-família
«Desejo ainda acrescentar uma palavra para uma categoria de pessoas que, pela situação concreta em que se encontram - e muitas vezes não por sua vontade deliberada - eu considero particularmente junto do Coração de Cristo e dignas do afeto e da solicitude da Igreja e dos pastores. Infelizmente há no mundo muitíssimas pessoas que não podem referir-se de modo algum ao que poderia definir-se em sentido próprio uma família. Grandes sectores da humanidade vivem em condições de enorme pobreza, em que a promiscuidade, a carência de habitações, a irregularidade e instabilidade das relações, a falta extrema de cultura não permitem praticamente poder falar de verdadeira família. Há outras pessoas que, por motivos diversos, ficaram sós no mundo. Também para todos estes há um «bom anúncio da família». Em favor de quantos vivem na pobreza extrema, já falei da necessidade urgente de trabalhar com coragem para se encontrarem soluções mesmo a nível político, que consintam ajudar a superar estas condições desumanas de prostração. É um dever que incumbe, solidariamente, à sociedade inteira, mas de uma maneira especial às autoridades pela força do seu cargo e das responsabilidades conseqüentes, assim como às famílias, que devem demonstrar grande compreensão e vontade de ajudar. Àqueles que não têm uma família natural, é preciso abrir ainda mais as portas da grande família que é a Igreja, concretizada na família diocesana e paroquial, nas comunidades eclesiais de base ou nos movimentos apostólicos. Ninguém está privado da família neste mundo: a Igreja é casa e família para todos, especialmente para quantos estão «cansados e oprimidos» (cf. Mt 11,28)».
A conclusão da Familiaris Consortio é caracterizada por uma série de declarações solenes: «A vós esposos, a vós pais e mães de família; a vós, jovens e donzelas, que sois o futuro e a esperança da Igreja e do mundo e construireis o núcleo que garantirá e dinamizará a família no terceiro milênio que se aproxima; a vós, veneráveis e caros Irmãos no episcopado e no sacerdócio, queridos filhos religiosos e religiosas, almas consagradas ao Senhor, que testemunhais aos esposos a realidade última do amor de Deus; a vós, homens todos de coração reto, que por razões diversas vos preocupais da situação da família, dirige-se com trepidante solicitude, a minha atenção ao final desta Exortação Apostólica. É pois indispensável e urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e promover os valores e as exigências da família. Sinto-me no dever de pedir aos filhos da Igreja um esforço especial neste campo. Conhecendo plenamente, pela fé, o maravilhoso plano de Deus, eles têm uma razão mais para se dedicar à realidade da família neste nosso tempo de prova e de graça. Devem amar particularmente a família. É o que concreta e exigentemente vos confio. Amar a família significa saber estimar os seus valores e possibilidades, promovendo-os sempre. Amar a família significa descobrir os perigos e os males que a ameaçam, para poder superá-los. Amar a família significa empenhar-se em criar um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. E, por fim, forma eminente de amor à família cristã de hoje, muitas vezes tentada por incômodos e angustiada por crescentes dificuldades, é dar-lhe novamente razões de confiança em si mesma, nas riquezas próprias que lhe advém da natureza e da graça e na missão que Deus lhe confiou. «É necessário que as famílias do nosso tempo tomem novamente altura! É necessário que sigam a Cristo». (João Paulo PP. II, Carta Appropinaquat iam, 1 [15 de agosto de 1980]: ASS 72 [1980], 791). Compete ainda aos cristãos a tarefa de anunciar com alegria e convicção a «boa nova» acerca da família, que tem necessidade absoluta de ouvir e de compreender sempre mais profundamente as palavras autênticas que lhe revelam a sua identidade, os seus recursos interiores, a importância da sua missão na Cidade dos homens e na de Deus. A Igreja conhece o caminho pelo qual a família pode chegar ao coração da sua verdade profunda. Este caminho, que a Igreja aprendeu na escola de Cristo e da história interpretada à luz do Espírito, não o impõe, mas sente a exigência indeclinável de o propor a todos sem medo, com grande confiança e esperança, sabendo, porém, que a «boa nova» conhece a linguagem da Cruz. É, no entanto, através da Cruz que a família pode atingir a plenitude do seu ser e a perfeição do seu amor. Desejo, por fim, convidar todos os cristãos a colaborar, carinhosa e corajosamente, com todos os homens de boa vontade, que vivem a responsabilidade própria no serviço à família. Os que dentro da Igreja, em seu nome e sob a sua inspiração, quer individualmente quer em grupos, movimentos ou associações, se consagram ao bem da família, encontram muitas vezes a seu lado pessoas e instituições empenhadas no mesmo ideal. Na fidelidade aos valores do Evangelho e do homem e no respeito a um legítimo pluralismo de iniciativas, esta colaboração poderá favorecer uma mais rápida e integral promoção da família. E agora, ao concluir esta mensagem pastoral, que visa chamar a atenção de todos sobre as pesadas mas fascinantes tarefas da família cristã, desejo invocar a proteção da Família de Nazaré. Por misterioso desígnio de Deus, nela viveu o Filho de Deus escondido por muitos anos: é, pois, protótipo e exemplo de todas as famílias cristãs. E aquela Família, única no mundo, que passou uma existência anônima e silenciosa numa pequena localidade da Palestina; que foi provada pela pobreza, pela perseguição, pelo exílio; que glorificou a Deus de modo incomparavelmente alto e puro, não deixará de ajudar as famílias cristãs, ou melhor, todas as famílias do mundo, na fidelidade aos deveres quotidianos, no suportar as ansias e as tribulações da vida, na generosa abertura às necessidades dos outros, no feliz cumprimento do plano de Deus a seu respeito. Que São José, «homem justo», trabalhador incansável, guarda integérrimo dos penhores que lhe foram confiados, as guarde, proteja e ilumine. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja também a Mãe da «Igreja doméstica» e, graças ao seu auxílio materno, cada família cristã possa tornar-se verdadeiramente uma «pequena Igreja», na qual se manifeste e reviva o mistério da Igreja de Cristo. Seja Ela, a Escrava do Senhor, o exemplo de acolhimento humilde e generoso da vontade de Deus; seja Ela, Mãe das Dores aos pés da Cruz, a confortar e a enxugar as lágrimas dos que sofrem pelas dificuldades das suas famílias. E Cristo Senhor, Rei do Universo, Rei das famílias, como em Caná, esteja presente em cada lar cristão a conceder-lhe luz, felicidade, serenidade, fortaleza. No dia solene dedicado à sua Realeza, peço que cada família Lhe ofereça um contributo próprio, original para a vinda no mundo do seu Reino, «Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz», para o qual se encaminha a história. A Ele, a Maria e a José confio cada família. Nas suas mãos e no seu coração ponho esta Exortação: sejam Eles a transmiti-la a vós, veneráveis Irmãos e diletos filhos, e a abrir os vossos corações à luz que o Evangelho irradia sobre cada família. A todos e a cada um, assegurando a minha constante prece, concedo de coração a Bênção Apostólica em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo».
1982: Instituição do Pontifício Instituto “João Paulo II” para estudos sobre o Matrimônio e Família
Com a Constituição Apostólica “Magnum Matrimonii Sacramentum” de 7 de outubro de 1982, é fundado este Pontifício Instituto com o poder de conferir a Licença e o Doutorado em Sagrada Teologia e o Mestrado em Ciências do Matrimônio e da Família. Erigido junto à Pontifícia Universidade Lateranense, com os Estatutos aprovados pelo Papa João Paulo II em 1992, 1993 e 2000, o Instituto tornou-se autônomo. Através dos Decretos emanados em datas diversas, foram erigidas Seções do Instituto em Washington (Estados Unidos da América), Cidade do México (México), Valência (Espanha), São Salvador (Brasil), Cotonou (Benin), Thuruthy (Índia).
A intenção com o qual foi fundado o Instituto é o de oferecer à Igreja um aprofundamento do desígnio de Deus sobre a pessoa, o matrimônio e a família. O Instituto de fato se propõe a (1) oferecer aos sacerdotes, religiosos e leigos uma formação teológica, filosófica e ética completa para uma visão integral do homem e um olhar cristão sobre o amor humano e a vida nascente, como suporte a um serviço pastoral sempre mais qualificado; (2) promover a família como essencial sujeito e objeto da nova evangelização para gerar uma nova cultura da vida, com ensinamentos competentes e específicos sobretudo sobre questões de atualidade tais como a bioética; (3) realizar um percurso de estudos que observa a família também em chave sociológica, psicológica e jurídica como suporte às diversas profissões (ensinamento, coordenação pastoral familiar, consulta familiar na diocese, mundo empresarial...)
Programas de Estudo: Doutorado em S. Teologia do Matrimônio e da Família, Licença em S. Teologia do Matrimônio e da Família; Mestrado em Ciências do Matrimônio e da Família; Mestrado em Bioética e formação.
1988: A Carta Apostólica “Mulieris dignitatem”
A Carta Apostólica “Mulieris dignitatem”escrita pelo Papa João Paulo II em 1988 concentra-se sobre a dignidade e sobre a vocação da mulher. O Santo Padre dedica amplos parágrafos à missão da mulher quando decide de casar-se e, unindo-se a um homem, dar a vida a uma família. «A passagem já citada da Carta aos Efésios (5, 21-33), na qual a relação entre Cristo e a Igreja é apresentada como vínculo entre o Esposo e a Esposa, faz referência também à instituição do matrimônio segundo as palavras do Livro do Gênesis (cf. 2, 24). Ela une a verdade sobre o matrimônio como sacramento primordial com a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança de Deus (cf. Gên 1, 27; 5, 1). Graças ao significativo confronto presente na Carta aos Efésios, adquire plena clareza aquilo que decide da dignidade da mulher, quer aos olhos de Deus, Criador e Redentor, quer aos olhos do homem: do homem e da mulher. No fundamento do desígnio eterno de Deus, a mulher é aquela na qual a ordem do amor no mundo criado das pessoas encontra um terreno para deitar a sua primeira raiz. A ordem do amor pertence à vida íntima do próprio Deus, à vida trinitária. Na vida íntima de Deus, o Espírito Santo é a hipóstase pessoal do amor. Mediante o Espírito, Dom incriado, o amor se torna um dom para as pessoas criadas. O amor, que vem de Deus, comunica-se às criaturas: « O amor de Deus é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado » (cf. Rom 5, 5).
«O chamamento da mulher à existência junto ao homem (« um auxiliar que lhe seja semelhante »: cf. Gên 2, 18) na « unidade dos dois » oferece, no mundo visível das criaturas, condições particulares a fim de que « o amor de Deus seja derramado nos corações » dos seres criados à sua imagem. Se o autor da Carta aos Efésios chama Cristo Esposo e a Igreja Esposa, ele confirma indiretamente, com tal analogia, a verdade sobre a mulher como esposa. O Esposo é aquele que ama. A Esposa é amada: é aquela que recebe o amor para, por sua vez, amar. A citação do Gênesis — relida à luz do símbolo esponsal da Carta aos Efésios — permite-nos intuir uma verdade que parece decidir essencialmente a questão da dignidade da mulher e, em seguida, também a da sua vocação: a dignidade da mulher é medida pela ordem do amor, que é essencialmente ordem de justiça e de caridade. Só a pessoa pode amar e só a pessoa pode ser amada. Esta é uma afirmação, em primeiro lugar, de natureza ontológica, da qual emerge depois uma afirmação de natureza ética. O amor é uma exigência ontológica e ética da pessoa. A pessoa deve ser amada, pois só o amor corresponde àquilo que é a pessoa. Assim se explica o mandamento do amor, conhecido já no Antigo Testamento (cf. Dt 6, 5; Lev 19, 18) e colocado por Cristo no próprio centro do « ethos » evangélico (cf. Mt 22, 36-40; Mc 12, 28-34). Assim se explica também o primado do amor expresso nas palavras de São Paulo na Carta aos Coríntios: « maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13). Se não se recorre a essa ordem e a esse primado, não se pode dar uma resposta completa e adequada à interrogação sobre a dignidade da mulher e sobre a sua vocação».
«Quando dizemos que a mulher é aquela que recebe amor para, por sua vez, amar, não entendemos só ou antes de tudo a relação esponsal específica do matrimônio. Entendemos algo mais universal, fundado no próprio fato de ser mulher no conjunto das relações interpessoais, que nas formas mais diversas estruturam a convivência e a colaboração entre as pessoas, homens e mulheres. Neste contexto, amplo e diversificado, a mulher representa um valor particular como pessoa humana e, ao mesmo tempo, como pessoa concreta, pelo fato da sua feminilidade. Isto se refere a todas as mulheres e a cada uma delas, independentemente do contexto cultural em que cada uma se encontra e das suas características espirituais, psíquicas e corporais, como, por exemplo, a idade, a instrução, a saúde, o trabalho, o fato de ser casada ou solteira. A citação da Carta aos Efésios, que consideramos, leva-nos a pensar numa espécie de « profetismo » particular da mulher na sua feminilidade. A analogia do Esposo e da Esposa fala do amor com que todo homem é amado por Deus em Cristo, todo homem e toda mulher. Todavia, no contexto da analogia bíblica e na base da lógica interna do texto, é precisamente a mulher aquela que manifesta a todos esta verdade: a esposa. Esta característica « profética » da mulher na sua feminilidade encontra a sua mais alta expressão na Virgem Mãe de Deus. É em relação a ela que se coloca em relevo, do modo mais pleno e direto, o elo íntimo que une a ordem do amor — que entra no âmbito do mundo das pessoas humanas através de uma Mulher — com o Espírito Santo. Maria escuta na Anunciação: « Virá sobre ti o Espírito Santo » (Lc 1, 35)».
E ainda «A dignidade da mulher está intimamente ligada com o amor que ela recebe pelo próprio fato da sua feminilidade e também com o amor que ela, por sua vez, doa. Confirma-se assim a verdade sobre a pessoa e sobre o amor. Acerca da verdade da pessoa, deve-se uma vez mais recorrer ao Concílio Vaticano II: « O homem, a única criatura na terra que Deus quis por si mesma, não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesmo ». Isto se refere a todo homem, como pessoa criada à imagem de Deus, quer homem quer mulher. A afirmação de natureza ontológica aqui contida está a indicar também a dimensão ética da vocação da pessoa. A mulher não pode se encontrar a si mesma senão doando amor aos outros. Desde o « princípio » a mulher — como o homem — foi criada e «colocada» por Deus precisamente nesta ordem de amor. O pecado das origens não anulou esta ordem, não a apagou de modo irreversível. Provam-no as palavras bíblicas do Proto-Evangelho» (cf. Gen 3, 15).
«Nas presentes reflexões observamos o lugar singular da « mulher » nesse texto chave da Revelação. Além disso, é preciso observar como a própria mulher, que chega a ser « paradigma » bíblico, se encontra também na perspectiva escatológica do mundo e do homem, expressa no Apocalipse. (60) é « uma mulher vestida de sol », com a lua debaixo dos pés e uma coroa de estrelas sobre a cabeça (cf. Apoc 12, 1). Pode-se dizer: uma mulher à medida do cosmos, à medida de toda a obra da criação. Ao mesmo tempo, ela sofre « as dores e o tormento do parto » (Apoc 12, 2), como Eva « mãe de todos os viventes » (Gen 3, 20). Sofre também porque, « diante da mulher que está para dar à luz » (cf. Apoc 12, 4), se põe o « grande dragão, a serpente antiga » (Apoc 12, 9), conhecido já no Proto-Evangelho: o Maligno, « pai da mentira » e do pecado (cf. Jo 8, 44). De fato, a « serpente antiga » quer devorar « o filho ». Se vemos neste texto o reflexo do Evangelho da infância (cf. Mt 2, 13. 16), podemos pensar que no paradigma bíblico da « mulher » está inscrita, desde o início a até ao fim da história, a luta contra o mal e contra o Maligno. Esta é também a luta pelo homem, pelo seu verdadeiro bem, pela sua salvação. Não quererá a Bíblia dizer-nos que precisamente na « mulher », Eva-Maria, a história registra uma luta dramática em favor de todo homem, a luta pelo seu fundamental « sim » ou « não » a Deus e ao seu desígnio eterno sobre o homem?»
«Se a dignidade da mulher testemunha o amor que ela recebe para, por sua vez, amar, o paradigma bíblico da « mulher » parece desvelar também qual seja a verdadeira ordem do amor que constitui a vocação da mesma mulher. Trata-se aqui da vocação no seu significado fundamental, pode-se dizer universal, que depois se concretiza e se exprime nas múltiplas « vocações » da mulher na Igreja e no mundo. A força moral da mulher, a sua força espiritual une-se à consciência de que Deus lhe confia de uma maneira especial o bomem, o ser humano. Naturalmente, Deus confia todo homem a todos e a cada um. Todavia, este ato de confiar refere-se de modo especial à mulher — precisamente pelo fato da sua feminilidade — e isso decide particularmente da sua vocação. Inspirando-se nesta consciência e neste ato de confiança, a força moral da mulher exprime-se em numerosíssimas figuras femininas do Antigo Testamento, do tempo de Cristo, das épocas sucessivas, até aos nossos dias».
«A mulher é forte pela consciência dessa missão, forte pelo fato de que Deus « lhe confia o homem », sempre e em todos os casos, até nas condições de discriminação social em que ela se possa encontrar. Esta consciência e esta vocação fundamental falam à mulher da dignidade que ela recebe de Deus mesmo, e isto a torna « forte » e consolida a sua vocação. Deste modo, a « mulher perfeita » (cf. Prov 31, 10) torna-se um amparo insubstituível e uma fonte de força espiritual para os outros, que percebem as grandes energias do seu espírito. A estas « mulheres perfeitas » muito devem as suas famílias e, por vezes, inteiras Nações. Na nossa época, os sucessos da ciência e da técnica consentem alcançar, num grau até agora desconhecido, um bem-estar material que, enquanto favorece alguns, conduz outros à marginalização. Desse modo, este progresso unilateral pode comportar também um gradual desaparecimento da sensibilidade pelo homem, por aquilo que é essencialmente humano. Neste sentido, sobretudo os nossos dias aguardam a manifestação daquele « gênio » da mulher que assegure a sensibilidade pelo homem em toda circunstância: pelo fato de ser homem! E porque a maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13). Portanto, uma leitura atenta do paradigma bíblico da « mulher » — desde o Livro do Gênesis até ao Apocalipse — confirma em que consistem a dignidade e a vocação da mulher e o que nelas é imutável e não se desatualiza, tendo o seu « fundamento último em Cristo, o mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade ». (61) Se o homem é por Deus confiado de modo especial à mulher, isto não significará talvez que Cristo espera dela a realização do « sacerdócio real » (1 Pdr 2, 9), que é a riqueza que ele deu aos homens? Esta mesma herança Cristo, sumo e único sacerdote da nova e eterna Aliança e Esposo da Igreja, não cessa de submeter ao Pai, mediante o Espírito Santo, para que Deus seja « tudo em todos » (1 Cor 15, 28). Então chegará ao cumprimento definitivo a verdade que « maior é a caridade » (cf. 1 Cor 13, 13).
1992: O sacramento do Matrimônio no Catecismo da Igreja Católica
Na edição redigida durante o pontificado de João Paulo II (1992) do Catecismo da Igreja Católica, fala-se da família e do sacramento do matrimônio. O Catecismo parte nas suas considerações relembrando as palavras de São Paulo que na Epístola aos Efésios diz: «Vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja... Este mistério é grande; digo-o em referimento a Cristo e à Igreja (Ef 5,25; Ef 5,32)».
Para o catecismo, «O pacto matrimonial, pelo qual um homem e uma mulher constituem entre si uma íntima comunidade de vida e de amor, foi fundado e dotado de suas leis próprias pelo Criador. Por sua natureza, é ordenado ao bem dos cônjuges, como também à geração e educação dos filhos. Entre os batizados, foi elevado, por Cristo Senhor, à dignidade de sacramento. O sacramento do Matrimônio significa a união de Cristo com a Igreja. Concede aos esposos a graça de amarem-se com o mesmo amor com que Cristo amou sua Igreja; a graça do sacramento leva à perfeição o amor humano dos esposos, consolida sua unidade indissolúvel e os santifica no caminho da vida eterna».
«O Matrimônio se baseia no consentimento dos contraentes, isto é, na vontade de doar-se mútua e definitivamente para viver uma aliança de amor fiel e fecundo. Como o Matrimônio estabelece os cônjuges num estado público de vida na Igreja, convém que sua celebração seja pública no quadro de uma celebração litúrgica diante do sacerdote (ou de testemunha qualificada da Igreja), das testemunhas e da assembléia dos fiéis. A unidade, a indissolubilidade e a abertura à fecundidade são essenciais ao Matrimônio. A poligamia é incompatível com a unidade do matrimônio; o divórcio separa o que Deus uniu; a recusa da fecundidade desvia a vida conjugal de seu "dom mais excelente": a prole».
«O novo casamento dos divorciados ainda em vida do legítimo cônjuge contraria o desígnio e a lei de Deus que Cristo nos ensinou. Eles não estão separados da Igreja, mas não têm acesso à comunhão eucarística. Levarão vida cristã principalmente educando seus filhos na fé. O lar cristão é o lugar em que os filhos recebem o primeiro anúncio da fé. Por isso, o lar é chamado, com toda razão, de "Igreja doméstica", comunidade de graça e de oração, escola das virtudes humanas e da caridade cristã».
1993/1994: O Ano Internacional da Família
Em 6 de junho de 1993 João Paulo II anuncia na praça São Pedro a celebração do Ano Internacional da Família (AIF) que tem início com a Festa da Sagrada Família do mesmo ano 1993 e termina com a mesma Festa de 1994. A iniciativa do Papa se dá em sintonia com o Ano internacional da Família decretado pela ONU. «A Igreja saúda cordialmente esta iniciativa e a esta se associa com todo o amor que tem por cada família humana» diz o Santo Padre em 6 de junho de 1993. «Gostaria antes de anunciar, justamente no curso deste encontro Internacional da família, uma convocação especial para o inteiro povo cristão. Da Festa da Sagrada Família deste ano, até a mesma Festa de 1994 celebraremos também no interior da Igreja católica o Ano internacional da família. O Pontifício Conselho para a Família, conjuntamente aos outros órgãos competentes, seguirá a iniciativa das Nações Unidas com espírito de diálogo e colaboração, preparando a coordenando as celebrações a as manifestações que serão promovidas no interior da Igreja católica. O Ano internacional da família oferecerá sem dúvida uma oportunidade providencial para aprofundar os valores constitutivos desta instituição natural. Estou certa que um conhecimento e uma valorização melhores ajudará a construir um mundo mais fraterno e solidário, reconhecendo a família como célula fundamental da sociedade. Convido portanto as conferências episcopais, os bispos, as comunidades diocesanas e paroquiais, os movimentos, os grupos e as associações, especialmente aquelas quotidianamente empenhadas nas pastorais familiares, a colher este singular momento de graça por um trabalho que se impulsione ainda mais em profundidade».


1993: Os principais objetivos do Ano Internacional da Família
Papa João Paulo II com a instituição de um Ano Internacional dedicado inteiramente à Família (AIF) pretende por ao centro da atenção da Igreja e de toda a sociedade civil a família, que como diz a Familiaris Consortio, «na sua profunda natureza é a proclamação, na Igreja, da Boa Nova sobre o amor conjugal». O Papa põe ao centro da evangelização da Igreja a família pedindo que a pastoral de toda a Igreja observe a essa e a essa seja endereçada. São tantos os documentos da Igreja que dizem respeito à família e em particular para todo o ano de 1994 João Paulo II pedirá a todos de ler e meditar principalmente a constituição pastoral Gaudium et spes, a exortação apostólica Familiaris Consortio, a Carta dos direitos da família da Santa Sé, e o Catecismo da Igreja Católica. Naquilo que diz respeito à defesa e a tutela da vida, João Paulo II insistirá muito sobre a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI.
O primeiro intento com que se abre o dia da Festa da sagrada Família 1993, a AIF é de oferecer uma contribuição para que se desenvolva e progrida sempre mais uma pastoral inteiramente dedicada à família e à defesa da vida. A família depois, fundada sobre o matrimônio segundo o projeto original de Deus, quer ser um modelo a ser observado por todos os homens. Na encíclica Centesimus annus recorda-se que é na família que «o homem recebe as primeiras e determinantes noções em torno à verdade e ao bem, aprende que coisa quer dizer amar e ser amado e, portanto, que coisa quer dizer em concreto ser uma pessoa». É justamente no AIF 2004 que João Paulo II quer com força por ao centro da sociedade civil o modelo de família cristã, como primeira e vital célula da sociedade e portanto garantia insubstituível para o bem da humanidade.
Um documento sobre o qual o Santo Padre insistirá muito a fim de levar adiante um diálogo constante e profícuo com toda a sociedade civil será a Carta dos direitos da família, da Santa Sé. Esta «é endereçada principalmente aos governos. Ao reafirmar, para o bem da sociedade, a comum consciência dos direitos essenciais da família, a Carta oferece a todos aqueles que dividem a responsabilidade pelo bem comum um modelo e um ponto de referência para a elaboração de uma legislação e de uma política da família, e uma guia para os programas de ação».
1994: A Mensagem para a Jornada Mundial da Paz
“Da família nasce a paz da família humana” é o tema da Mensagem de João Paulo II escrito para a celebração da XXVII Jornada Mundial da Paz, em 1 de janeiro de 1994, a poucos dias da abertura do Ano Internacional da Família. Escreve o Santo Padre: «Deus quis para a humanidade uma condição de harmonia e de paz, colocando o seu fundamento na própria natureza do ser humano, criado «à sua imagem». Esta imagem divina realiza-se não só no indivíduo, mas também naquela singular comunhão de pessoas que é formada por um homem e uma mulher, de tal modo unidos no amor que se tornam «uma só carne» (Gn 2, 24). Assim está escrito: «Criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). A esta comunidade específica de pessoas, confiou o Senhor a missão de dar a vida e dela cuidar formando uma família, e contribuindo assim de maneira decisiva para a tarefa de administrar a criação e prover ao futuro mesmo da humanidade».
A Mensagem fala da família como uma comunidade de vida e amor que «debruça-se sobre quantos se encontram em dificuldade: os que não têm família, as crianças privadas de assistência e afeto, as pessoas abandonadas e marginalizadas». Esta além disso, é freqüentemente vítima de ausência de paz quando «em contraste com a sua original vocação de paz, a família revela-se, infelizmente e tantas vezes, lugar de tensão e prepotência, ou então vítima inerme das numerosas formas de violência que caracterizam a sociedade atual». A família, conclui a Mensagem, é esta mesma protagonista da paz ao serviço desta.
1994: A Mensagem para a Jornada das Comunicações Sociais
Nas Mensagens para a Jornada Mundial das Comunicações Sociais, João Paulo II fala freqüentemente da família. Em particular, no curso da vigésima oitava Jornada Mundial das Comunicações Sociais, fala da Família em relação à Televisão. O tema é delicado porque, segundo o Santo Padre, a televisão não é simplesmente um objeto presente em casa, mas, muito mais, é um objeto que muda e mudou profundamente a vida mesma de cada família: « Nos últimos decênios, a televisão revolucionou as comunicações, influenciando profundamente a vida familiar. Hoje, a televisão é uma fonte primária de notícias, de informações e de distração para inumeráveis famílias, a ponto de modelar as suas atitudes e as suas opiniões, os seus valores e os protótipos de comportamento».
É necessário, segundo João Paulo II, que os pais estejam atentos àquilo que os filhos vêem na televisão, lhes ajudem a discernir quais programas é lícito ver e quais não. Até porque «formar os hábitos dos filhos pode, por vezes, querer simplesmente significar apagar o televisor, porque há coisas melhores a se fazer, ou porque a consideração para com os outros membros da família o exige, ou porque a assistência indiscriminada da televisão pode ser prejudicial. Os pais que usam habitualmente e por tempo prolongado a televisão como uma espécie de babá eletrônica, abdicam do seu papel de primeiros educadores dos próprios filhos. Esta dependência da televisão pode privar os membros da família da oportunidade de interagir mutuamente através da conversa, das atividades e da oração comuns. Os pais sábios são, além disso, conscientes de que também os bons programas devem ser completados por outras fontes de informação, entretenimento, educação e cultura».
« A Igreja — que é comunhão na verdade e no amor de Jesus Cristo, Palavra de Deus —, agradecida pela contribuição que a televisão, como meio de comunicação, tem dado e pode dar a esta comunhão no interior da família e entre as famílias, aproveita a oportunidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais para encorajar as mesmas famílias, os que trabalham nos meios de comunicação social e as autoridades públicas a realizar plenamente o nobre mandato de sustentar e reforçar a primeira e mais vital "célula" da sociedade, a família».
1994: A Carta às Famílias
Em 2 de fevereiro de 1994, no Ano Internacional da Família, João Paulo II escreve uma longa carta dirigida a todas famílias. A Carta permanece um ponto central no interior da atenção que João Paulo II quis dedicar às famílias e no curso dos anos sucessivo a sua promulgação foi por diversas pessoas recordada, retomada e meditada.
A intenção do Santo Padre é, como escreve ao fim da Carta, que «a Sagrada Família, ícone e modelo de cada família humana, ajude cada um a caminhar no espírito de Nazaré; ajude cada núcleo familiar a aprofundar a própria missão civil e eclesial, mediante a escuta da Palavra de Deus, a oração e a partilha fraterna de vida! Maria, Mãe do belo amor, e José, Guarda do Redentor, nos acompanhem a todos com a sua incessante proteção!».
João Paulo II na Carta sublinha que « a Igreja saúda com alegria a iniciativa promovida pela Organização das Nações Unidas, de fazer de 1994 o Ano Internacional da Família. Tal iniciativa põe em realce o quanto seja fundamental a questão familiar para os Estados que são membros da ONU. Se a Igreja deseja tomar parte nela, fá-lo porque ela mesma foi enviada por Cristo a «todas as nações» (Mt 28, 19). Não é a primeira vez, aliás, que a Igreja assume como própria uma iniciativa internacional da ONU».
O Papa escreve a Carta dirigindo-se em particular a cada família « a cada família concreta de cada região da terra, qualquer que seja a longitude e latitude geográfica, onde se encontre, ou a diversidade e complexidade da sua cultura e da sua história». Às famílias o Santo Padre relembra antes de tudo como seja justamente graças à oração que o Filho de Deus pode habitar em meio aos homens e convida cada família a rezar em conjunto. A Carta depois, se desdobra em dois longos capítulos intitulados “A Civilização do Amor” e “O Esposo convosco”. No primeiro capítulo João Paulo II relembra como uma civilização do amor seja possível somente se no centro desta é reconhecida a família: « Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história. A família está no centro de todos estes problemas e tarefas: relegá-la para um papel subalterno e secundário, excluindo-a da posição que lhe compete na sociedade, significa causar um grave dano ao autêntico crescimento do corpo social inteiro».
No segundo capítulo o Papa explica como «a verdade da família seja inscrita na Revelação de Deus e na história da salvação». Jesus vive no interior de cada família cristã e de dentro a sustenta, a ajuda, a guia e a educa: « o Esposo está convosco. Sabeis que Ele é o bom Pastor, e conheceis a sua voz. Sabeis para onde vos conduz, como luta para vos providenciar as pastagens onde encontrar a vida e encontrá-la em abundância; sabeis como enfrenta os lobos devoradores, sempre pronto a arrebatar-lhes das fauces as suas ovelhas: cada marido e cada esposa, cada filho e cada filha, cada membro das vossas famílias. Sabeis que Ele, como bom Pastor, está disposto a oferecer a própria vida pelo rebanho (cf. Jo 10, 11). Ele vos conduz por estradas que não são aquelas sinuosas e traiçoeiras de muitas ideologias contemporâneas; repete ao mundo de hoje a verdade integral, como quando se dirigia aos fariseus ou anunciava aos Apóstolos, que depois foi por estes pregada ao mundo, proclamando-a aos homens do tempo, hebreus e gregos. Os discípulos estavam bem cientes de que Cristo tudo tinha renovado; de que o homem se tornara «nova criatura»: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, mas «um só», n'Ele (cf. Gál 3, 28), agraciado com a dignidade de filho adotivo de Deus. No dia do Pentecostes, este homem recebeu o Espírito Consolador, o Espírito de verdade; e teve assim início o novo Povo de Deus, a Igreja, antecipação de um novo céu e de uma nova terra (cf. Ap 21, 1).
Os Apóstolos, anteriormente temerosos inclusivamente em relação ao matrimônio e à família, tornaram-se corajosos. Compreenderam que o matrimônio e a família constituem uma verdadeira vocação proveniente do próprio Deus, um apostolado: o apostolado dos leigos. Estão ao serviço da transformação da terra e da renovação do mundo, da criação e da humanidade inteira».
1994: A Mensagem para a Jornada Missionária Mundial
Para a Jornada Missionária Mundial de 1994, Ano internacional da Família, o Papa João Paulo II dedica a sua Mensagem a este tema, “consciente como sou do estreito relacionamento que se dá entre a missão da Igreja e a família”. Escreve o Papa: «Cristo mesmo escolheu a família humana como âmbito da sua encarnação e da preparação à missão confiada pelo Pai celeste. Ele, ale disso, fundou uma nova família, a Igreja, enquanto prolongamento da sua universal ação de salvação. Igreja e família, portanto, na perspectiva da missão de Cristo, manifestavam laços recíprocos e finalidades convergentes. Se cada cristão é co-responsável pela atividade missionária, constitutiva da Família eclesial à qual, por graça de Deus, todos pertencemos, com maior razão solicitada pelo anelo missionário deve sentir-se a família cristã, que apóia-se sobre um sacramento específico. O amor de Cristo que consagra o pacto conjugal é também fogo sempre ardente que aquece a evangelização. Cada membro da família, em sintonia com o Coração Redentor, é convidado a empenhar-se per todos os homens e mulheres do mundo, manifestando «a solicitude por aqueles que estão longe, como por aqueles que estão próximos»... É oportuno sublinhar como os dois santos Patronos das missões, ao lado de tantos operários do Evangelho, gozaram na sua juventude de um ambiente familiar realmente cristão... A família participa da vida e da missão eclesial segundo uma tríplice ação evangelizadora: em seu interior, na comunidade de pertencimento à Igreja universal. O sacramento do matrimônio, de fato, «constitui os cônjuges e os pais cristãos testemunhas de Cristo até os extremos da terra, verdadeiros e próprios missionários do amor e da vida».»...
«A expressão mais alta de generosidade é o dom integral de si. Por ocasião da Jornada Missionária não posso evitar dirigir-me em modo particular aos jovens. Caríssimos! O Senhor lhes deu um coração abertos a grandes horizontes: não temam comprometer a sua inteira vida no serviço de Cristo e de seu Evangelho! Escutem-no enquanto repete também hoje: «A messe é muita, mas os operários são poucos». Dirijo-me, além disso, a vocês pais. Jamais falte ao vosso coração a fé e a disponibilidade, quando o Senhor quiser abençoar-lhes chamando um filho ou uma filha a um serviço missionário. Saibam dar graças! Façam antes de modo que esta chamada seja preparada com a oração familiar, com uma educação rica de ímpeto e entusiasmo, com o exemplo quotidiano da atenção aos outros, com a participação à atividade paroquial e diocesana, com o empenho no associacionismo e no voluntariado. A família, que cultiva o espírito missionário no modo de delinear o estilo de vida e a mesma educação, prepara o bom terreno para a semente da divina chamada e reforça, ao mesmo tempo, os vínculos afetivos e as virtudes cristãs dos seus membros».
1994: Carta às crianças
Durante o Ano Internacional da Família, João Paulo II escreve uma carta às crianças. Também esta, como a carta à família, permanece uma obra chave na pedagogia educativa de João Paulo II para com a família inteira. João Paulo II em 13 de dezembro de 1994 dirige-se às crianças de todo o mundo para festejar juntamente com eles a festa de Natal. « O Natal é a festa de um Menino, de um Recém-nascido – escreve João Paulo II. É, portanto, a vossa festa! Aguardais a ela com impaciência, e para ela vos preparais com alegria, contando os dias e quase as horas que faltam para a Noite Santa de Belém. Parece que estou a ver-vos: andais a preparar o presépio, em casa, na paróquia, em cada canto do mundo, reconstruindo o clima e o ambiente em que nasceu o Salvador. É verdade! Durante o período natalício, a gruta com a manjedoura ocupa o lugar central na Igreja. E todos se apressam a ir em peregrinação espiritual até lá, como os pastores na noite do nascimento de Jesus. Mais tarde, será a vez dos Magos chegarem do Oriente distante, seguindo a estrela até ao lugar onde foi colocado o Redentor do universo».
«Queridas crianças – continua o Santo Padre na sua carta – escrevo-vos a pensar no tempo, já lá vão muitos anos em que também eu era menino como vós. Também eu vivia, então, a atmosfera feliz do Natal, e quando brilhava a estrela de Belém corria ao presépio, junto com os da minha idade, para reviver o que sucedeu há 2000 anos, na Palestina. Nós, crianças, manifestávamos a nossa alegria sobretudo com o canto. Como são belos e comoventes os cânticos natalícios, que, segundo a tradição de cada povo, se alternam à volta do presépio! Como são profundos os pensamentos neles contidos, e sobretudo quanta alegria e ternura neles se exprime ao Deus-Menino, que veio ao mundo na Noite Santa!».
A Carta se desenvolve em dois capítulos nos quais o Santo Padre explica às crianças que no Natal Jesus doa a verdade e doa si mesmo. Enfim, João Paulo II relembra o salmo “Laudate pueri Dominum” e escreve: «Permiti, queridos meninos e meninas, que, no final desta Carta, recorde as palavras de um Salmo que sempre me tocaram: Laudate pueri Dominum! Louvai, meninos, louvai o nome do Senhor! Bendito seja o nome do Senhor agora e para sempre! Desde o nascer ao pôr do sol, seja louvado o nome do Senhor (cfr. Sal 112/113,1- 3). Quando medito as palavras deste Salmo, passam diante dos meus olhos os rostos das crianças de todo o mundo: do Oriente ao Ocidente, do Norte ao Sul. É a vós, meus amiguinhos, sem distinção de língua, de raça ou nacionalidade, que digo: Louvai o nome do Senhor!».
1999: A Carta aos anciãos
Em 1º de outubro de 1999 é publicada a Carta que João Paulo II escreve ais anciãos de todo o mundo. «A soma da nossa vida é de setenta anos, os mais fortes chegam aos oitenta; mas a maior parte deles é fadiga e dor, passam depressa e nós desaparecemos » (Sal 90/89, 10) é a citação do Salmista com a qual o Santo Padre decidiu abrir a Carta. «Porém, é sempre verdade que os anos passam rapidamente; o dom da vida, apesar da fadiga e dor que a caracteriza, é belo e precioso demais para que dele nos cansemos».
João Paulo II escreve aos anciãos em um momento particular de sua existência, ou seja, quando a velhice inicia a fazer-se ouvir, e com esta os primeiros sinais da doença. « Sendo também eu ancião, senti o desejo de estabelecer um diálogo convosco. Faço-o, antes de mais, dando graças a Deus pelos abundantes dons e oportunidades que Ele me concedeu até hoje. Percorro novamente com a memória as etapas da minha existência, que se entrelaçam com a história de grande parte deste século, e vejo aparecer a figura de numerosas pessoas, algumas delas particularmente queridas: são lembranças de eventos ordinários e extraordinários, de momentos felizes e de fatos marcados pelo sofrimento. Acima de tudo, no entanto, vejo estender-se a mão providente e misericordiosa de Deus Pai, o qual « trata do melhor modo tudo o que existe »,(1) e « se algo Lhe pedimos, segundo a Sua vontade, Ele ouve-nos » (1 Jo 5, 14). A Ele, digo com o Salmista: « Desde a minha juventude, Vós me instruístes, Senhor, até ao presente anuncio as Vossas maravilhas. Agora na velhice e na decrepitude, não me abandoneis, ó Deus; para que narre às gerações a força do Vosso braço, o Vosso poder a todos os que hão-de vir » (Sal 71/70, 17-18).
Em poucas e simples palavras João Paulo II explica o motivo desta Carta sobre a sua vida. « Meu pensamento dirige-se com afeto a vós, caríssimos anciãos de qualquer língua e cultura. Escrevo-vos esta carta no ano que a Organização das Nações Unidas quis oportunamente dedicar aos anciãos, para chamar a atenção da sociedade inteira para a situação daquele que, pelo peso da idade, deve com freqüência enfrentar problemas numerosos e difíceis. Sobre este tema, o Pontifício Conselho para os Leigos já ofereceu preciosas linhas de reflexão. Com esta carta, desejo somente exprimir a minha proximidade espiritual com o intuito de quem, ano após ano, sente crescer dentro de si uma compreensão sempre mais profunda desta fase da vida e nota conseqüentemente a necessidade de um contacto mais direto com os seus coetâneos para refletir sobre coisas que são de comum experiência, tudo colocando sob o olhar de Deus que nos envolve com o seu amor, e com a sua providência nos sustenta e conduz».
2000: O Jubileu das famílias
Sábado 14 de outubro de 2000, na praça São Pedro, durante o Grande Jubileu do ano de 2000, João Paulo II encontra as famílias. João Paulo II logo expressou «a alegria» da recente peregrinação realizada por ele a Nazaré, «o lugar onde o verbo se fez carne». « Nessa visita – explicou o Santo Padre – levei todos vós no meu coração, rezando com ardor por vós à Sagrada Família, sublime modelo de todas as famílias. E é precisamente o clima espiritual da Casa de Nazaré que desejamos reviver nesta noite. O grande espaço que nos congrega, entre a Basílica e a colunata de Bernini, serve-nos de casa, uma grande casa ao ar livre. Aqui reunidos como uma verdadeira família, "um só coração e uma só alma" (cf. At 4, 32), podemos intuir e fazer nosso o sabor doce e íntimo daquela casa humilde, onde Maria e José viviam entre oração e trabalho, e Jesus "lhes era submisso" (Lc 2, 51), tomando gradualmente parte na vida comum».
João Paulo II falou depois especificamente das tarefas que cabem às família cristã: «Olhando para a Sagrada Família, casais cristãos, sois estimulados a interrogar-vos acerca das tarefas que Cristo vos confia, na vossa maravilhosa e comprometedora vocação. Por isso, o tema do vosso Jubileu Os filhos: primavera da família e da sociedade pode oferecer-vos sugestões significativas. Não são precisamente as crianças que fazem uma espécie de "exame" contínuo aos pais? Não o fazem apenas com os seus freqüentes "por quê?", mas com o seu próprio rosto, ora risonho, ora velado pela tristeza. Como que inscrito em todo o seu modo de ser há um interrogativo, que se exprime das maneiras mais diversas, por vezes mesmo através dos caprichos, e que poderíamos traduzir em perguntas como estas: mãe, pai, amais-me? Sou verdadeiramente um dom para vós? Aceitais-me como sou? Esforçais-vos por fazer sempre o meu bem genuíno? Talvez estas perguntas se façam mais com os olhos que com as palavras, mas elas obrigam os pais à sua grande responsabilidade e, de certa forma, são-lhes o eco da voz de Deus».
«Os filhos são "primavera": qual é o significado desta metáfora escolhida para o vosso Jubileu?
Ela leva-nos para aquele horizonte de vida, de cores, de luz e de cântico que é próprio da estação primaveril. Os filhos são tudo isto por natureza. Eles são a esperança que continua a florescer, um projeto que recomeça permanentemente, o porvir que se abre de forma incessante. Representam o florescimento do amor conjugal, que neles se encontra e se consolida. Ao nascerem, trazem uma mensagem de vida que, em última análise, remete para o próprio Autor da vida. Necessitados de tudo como eles são, de maneira especial nas primeiras fases da existência, constituem naturalmente um apelo à solidariedade. Não foi por acaso que Jesus convidou os discípulos a terem um coração de crianças (cf. Mc 10, 13-16). Diletas famílias, hoje quereis dar graças pelo dom dos filhos e, ao mesmo tempo, receber a mensagem que Deus vos transmite através da sua existência».
«Infelizmente, como bem sabemos, a situação das crianças no mundo nem sempre é aquela que deveria ser. Em muitas regiões, e paradoxalmente nos países de maior bem-estar, ter filhos tornou-se uma opção decidida com grande perplexidade, muito além da prudência que é justamente necessária para uma procriação responsável. Dir-se-ia que às vezes os filhos são sentidos mais como ameaça que como dádiva. Depois, o que dizer do outro triste cenário da infância ultrajada e explorada, para o qual chamei a atenção inclusivamente na Carta às Crianças? Porém, nesta noite encontrais-vos aqui para dar testemunho da vossa convicção, fundamentada na confiança em Deus, de que é possível inverter esta tendência. Estais aqui reunidos para uma "festa da esperança", fazendo vosso o "realismo" concreto desta virtude cristã fundamental».
«Com efeito, a situação das crianças constitui um desafio para a inteira sociedade, um desafio que interpela diretamente as famílias. Ninguém mais que vós, estimados pais, pode constatar quanto é essencial para os filhos poderem contar convosco, com ambas as vossas figuras paterna e materna na complementaridade dos vossos dons. Não, não é um passo em frente na civilização secundar tendências que obscurecem esta verdade elementar e pretendem afirmar-se também a nível legal».
«Não são porventura as crianças já demasiado penalizadas pelo flagelo do divórcio? Como é triste para uma criança ter de se resignar a dividir o seu amor entre pais em conflito! Muitos filhos ficarão psicologicamente marcados para sempre devido à provação a que a divisão dos pais os submeteram».
«Diante de inúmeras famílias desfeitas, a Igreja não se sente chamada a expressar um juízo severo e desinteressado, mas antes a fazer penetrar a luz da palavra de Deus em tantos dramas humanos, acompanhada do testemunho da sua misericórdia. Este é o espírito com que a pastoral familiar procura enfrentar também as situações dos fiéis que divorciaram e voltaram a casar-se. Eles não são excluídos da comunidade; pelo contrário, são convidados a participar na sua vida, percorrendo um caminho de crescimento no espírito das exigências evangélicas. Sem deixar de lhes revelar a verdade acerca da desordem moral objetiva em que se encontram e das conseqüências que daí derivam para a prática sacramental, a Igreja pretende demonstrar-lhes toda a sua proximidade maternal».
«Cônjuges cristãos, estai certos disto: o Sacramento do matrimônio garante-vos a graça necessária para perseverardes no amor recíproco, do qual os vossos filhos têm tanta necessidade quanto do pão».
«Hoje sois chamados a interrogar-vos sobre esta profunda comunhão entre vós, enquanto pedis a abundância da misericórdia divina».
«Ao mesmo tempo, não podeis evitar o interrogativo essencial sobre a vossa missão de educadores. Tendo dado a vida aos vossos filhos, estais comprometidos também em acompanhá-los nas orientações e opções de vida, da maneira apropriada à sua idade, garantindo-lhes todos os seus direitos».
«No nosso tempo, o reconhecimento dos direitos da criança conheceu um progresso indubitável, mas ainda é motivo de aflição a negação prática destes direitos, como se manifesta em numerosos e terríveis atentados contra a sua dignidade. É preciso vigiar, a fim de que o bem da criança seja colocado sempre em primeiro lugar. Desde o momento em que se deseja ter um filho. A tendência a recorrer a práticas moralmente inaceitáveis na geração trai a absurda mentalidade de um "direito ao filho", que tomou o lugar do justo reconhecimento de um "direito do filho" a nascer e depois a crescer de maneira plenamente humana. Como é diversa e meritória, ao contrário, a prática da adoção! Um verdadeiro exercício de caridade, que visa o bem dos filhos antes das exigências dos pais».
«Caríssimos, comprometamo-nos com todas as nossas forças, em defender o valor da família e o respeito da vida humana, desde o momento da concepção. Trata-se de valores que pertencem à "gramática" fundamental do diálogo e da convivência humana entre os povos. Formulo votos veementes por que tanto os governos e os parlamentos nacionais como as Organizações internacionais e, de modo particular, a Organização das Nações Unidas, não deixem que esta verdade se extravie. A todos os homens de boa vontade, que acreditam nestes valores, peço que unam eficazmente os próprios esforços, para que eles prevaleçam na prática da vida, nas orientações culturais e nos mass media, nas opções políticas e nas legislações dos povos».
«A vós, queridas mães, que tendes dentro de vós um instinto incoercível pela defesa da vida, dirijo um sentido apelo: sede sempre fonte de vida, nunca de morte!»
«A vós, pais e mães, digo: fostes chamados para a excelsa missão de colaborar com o Criador na transmissão da vida (cf. Carta às Famílias, 8); não tenhais medo da vida! Proclamai juntos o valor da família e da vida, pois sem estes valores, não há um futuro digno do homem!»
«O maravilhoso espetáculo das vossas tochas acesas nesta Praça vos acompanhe por muito tempo, como um sinal d'Aquele que é a Luz e vos chama a iluminar com o vosso testemunho o caminho da humanidade pelas vias do novo milênio!»
1994 - 2003: Os Encontros Mundiais das Famílias
Deram-se quatro Encontros Mundiais da Família presididos pelo Santo Padre João Paulo II. Instituídos no Ano Internacional da Família (1994), realizam-se a cada triênio e iniciam-se sempre com um Congresso Teológico Pastoral. Assim a cada três anos é oferecida esta singular oportunidade de refletir de modo aprofundado sobre um tema central da pastoral da família e da vida.
No primeiro Encontro (Roma, 1994) por ocasião do Ano Internacional da Família, o tema foi: “Família: coração da civilização do amor”. O segundo Encontro (Rio de Janeiro, 1997) teve por tema “A família: dom e empenho, esperança da humanidade”. Por ocasião do III Encontro Mundial, desenvolvido em Roma no âmbito do Grande Jubileu do ano de 2000, a reflexão concentrou-se sobre o tema “Os filhos, primavera da família e da sociedade”. O IV Encontro mundial, desenvolvido nas Filipinas (Manila, 2003) teve como tema “A Família cristã: uma boa nova para o terceiro milênio”. João Paulo II, não tendo podido participar pessoalmente, fez-se presente através de uma vídeo-transmissão. Este último Encontro das Famílias teve também um espírito ecumênico: o Patriarca da Igreja ortodoxa romena, Sua Beatitude Teoctist, enviou seu representante, e além disso esteve presente uma delegação russa da diocese de Ivanovo.

FAMÍLIA: NATUREZA E DIREITOS
Não obstante o modelo de família cristã fundada sobre o sacramento do Matrimônio seja hoje sempre mais atacado e julgado irrealizável e utópico, a Igreja continua a propô-lo convencida de que seja o único que possa realmente realizar a plena felicidade de um homem e de uma mulher.
A simples observação da realidade de todos os tempos e lugares e de cada homem, nos mostra como a família monogâmica fundada sobre o amor recíproco entre duas pessoas de sexo oposto, selado por um pacto, uma promessa de fidelidade, sempre existiu. Em outras palavras, os fatos antes de tudo nos mostram como a família fundada sobre o matrimônio seja uma realidade inata ao homem. É suficiente este dado de fato para bater qualquer argumentação que busca minar a família como nós a conhecemos.
Um desejo inato
É inscrito de fato na natureza mesma do ser humano, que ele tenha tanto desejo de amar. Isto é explicado pela constatação de que o homem por si só é insuficiente, no sentido que não se basta a si mesmo. Como de fato os animais não dotados de razão têm necessidades, o homem, ser racional, têm desejos, tende a alguma coisa de outro. Este tender é antes de tudo ditado pela condição física do homem que o leva a desejar aquilo que serve à sua subsistência, o alimento antes de tudo e tudo aquilo que satisfaz as suas necessidades de ser corporal. É isto de algum modo aquilo que associa o homem ao animal. Mas o ser humano tem o poder, através de razão, de sublimar as necessidades materiais a tal ponto de torná-las prazeres.
A maior das necessidades
A natureza da pessoa humana é indivisivelmente composta por um princípio material, o corpo, e por um princípio material, a alma. Mesmo a alma tem as suas necessidades. E assim como o corpo quando sacia, ainda que instantaneamente, as suas necessidades sente-se satisfeito, assim também a alma tem necessidade de ser satisfeita por algo que seja apropriado à sua natureza. Assim nasce no homem o sentimento inato de aprender e de conhecer. Mas assim como as necessidades do corpo precisam de algo de adaptado à natureza material do corpo mesmo para serem saciadas, assim a alma encontrará a sua satisfação, ou melhor, sentir-se-á saciada, somente por aquilo que lhe é símile. É fácil intuir então como esta necessidade espiritual inata da alma possa ser preenchida e satisfeita somente por aquilo que lhe é similar, ou seja, por uma outra pessoa, reconhecida como igual em dignidade e natureza. As necessidades da alma, que se tornam claramente necessidade do homem todo, uma vez que a alma é o princípio de toda a pessoa, podem ser preenchidos e satisfeitos plenamente somente por uma outra pessoa e não por coisas.
A necessidade de amar
Todas as necessidades tendem por natureza ao bem, ou àquilo que se retém como tal. Assim também a alma tende por si mesma ao bem através de uma particular inclinação chamada amor. Segundo a filosofia tomista o amor é, de fato, o nome que se dá a todas as inclinações em direção a qualquer tipo de bem. Ora, pode-se amar em dois modos diferentes, como diz S. Tomás: “O amor com o qual se ama um ser, querendo para este o bem, é um amor em senso pleno e absoluto. O amor, por outro lado, com o qual se ama uma coisa para extrair dela o bem em proveito de terceiros é um amor secundum quid” (S. Th, I-II, q. 26, a. 4). É esta uma verdade fundamental: o amor entre duas pessoas, e tanto mais o amor entre um homem e uma mulher sobre o qual se funda o matrimônio, não poderá jamais se resolver em um amor egoístico como aquele em que se ama uma coisa para satisfazer simplesmente as próprias necessidades como se faria com uma coisa. O amor a uma pessoa, para poder ser realmente tal, deverá sempre ser um amor entre sujeitos.
É claro que o homem, buscando o próprio bem, sentirá um sentimento de amor que poderá ser satisfeito somente por algo similar a ele, por uma outra pessoa como se disse acima. Mas uma pessoa, em quanto tal, não poderá jamais ser um objeto de satisfação do desejo de ser amado. Enquanto pessoa, sempre será e deverá ser somente um sujeito, em nome da dignidade que lhe é própria. Assim o homem busca o sumo bem para si mesmo através de um sentimento de amor a uma outra pessoa que definitivamente satisfaz e corresponde a este desejo inato. Uma volta um tanto longa talvez, para demonstrar filosoficamente uma coisa muito simples, mas não sempre óbvia. A felicidade do ser humano, isto é o seu bem, pode ser satisfeito definitivamente somente por uma outra pessoa à qual se nutre o amor.
Todo efeito, de fato, é proporcionado à sua causa. A felicidade humana poderá ser satisfeita somente por uma causa que lhe seja similar, isto é, uma outra pessoa. “Mas objeto próprio do amor é o bem: posto que o amor comporta uma conaturalidade ou complacência do amante com relação ao amado, e para cada ser é bem aquilo que lhe é conatural ou proporcionado” (S. Th, I-II, q. 27, a.1).
Para recapitular: o ser humano tem uma necessidade inata de preencher um vazio por assim dizer primordial, que transcende as suas necessidades, posto que deriva diretamente da tendência da alma ao bem. Esta tendência ao bem, com a qual se chega à felicidade, é chamada amor e pode ser satisfeito somente por um sujeito conatural ao ser humano, ou seja, por uma outra pessoa. O homem, portanto, entendido como homem e como mulher, encontrará a sua plena felicidade somente no encontro de amor com uma outra pessoa. Tudo isto é conatural à pessoa humana, fortemente enraizada na sua experiência e demonstrável simplesmente pela observação do comportamento de todos os homens em todas as épocas e em todas as culturas.
Dois gêneros
O ser humano é indivisivelmente formado por alma e corpo. O corpo do homem se explicita desde o nascimento em dois gêneros diferentes, o masculino e o feminino. Mesmo se o gênero, como se verá em seguida, não é exclusivamente o sexo corpóreo, todavia deriva deste. O gênero masculino e feminino então informa toda a vida pessoal, explicitando-a em dois diferentes modos de ser iguais entre si na dignidade e nos direitos, e complementares na atuação das faculdades humanas. Por complementares entende-se que aquilo que um explicita não o explicita o outro e vice-versa.
Por que o homem busca naturalmente uma mulher e uma mulher um homem? Simplesmente porque os dois gêneros vêem no outro um sujeito similar a si em dignidade e, portanto, capaz de preencher o próprio desejo de bem e de amor; mas ao mesmo tempo a complementaridade faz com que se busque no outro aquilo que não se tem, para preencher o próprio vazio originário, com um sujeito amado complementar a si.
Um amor exclusivo
Por que um amor entre um homem e uma mulher é exclusivo? Foi dito como tal amor não é um amor entre um sujeito e objeto, mas justamente entre dois sujeitos, nenhum dos quais podendo ser visto como mera satisfação das próprias necessidades. Mas há algo a mais a dizer. O amor entre um homem e uma mulher é um amor de união no qual um busca o outro e no outro busca alguma coisa, ou seria melhor dizer alguém, insubstituível e único com o qual fundar e construir o próprio ser. O amor realmente conjugal, como o chamaremos mais adiante, não é, portanto, um amor ocasional, mas sim um amor que tem uma tendência natural à exclusividade e à continuidade. Não é, desta forma, um amor passageiro, no qual em um dos dois componentes o amor possa ser trocável, substituível, pelo simples fato que cada um, embora mantendo a própria individualidade, sem a qual não seria possível o amor pessoal, se identifica e se transforma no outro. São Tomás assim o descreve: “O amante é transformado no amado e em um certo modo converte-se nesse. E pelo fato de que o amor transforma o amante no amado, ele faz com que o amante penetre a intimidade do amado, e vice-versa, de modo que nada daquilo que pertence ao amado permanece separado do amante” (III Sent. d. 27, q. 1, a. 1,4).
Aquilo que acabamos de descrever é a essência do matrimônio, ou seja, a essência da união entre duas pessoas de sexo oposto sobre o qual se funda a família. É uma descrição que parte substancialmente da observação dos fatos, da natureza das coisas, ajudada e aprofundada graças à lente da filosofia personalista. É portanto uma reflexão compartilhável e acessível com exclusivamente com os meios da razão especulativa, comum a todos os homens, prescindindo de suas crenças religiosas. Sobre esta visão do amor conjugal inscreve-se também o Magistério da Igreja sobre a Família e sobre a ética familiar.
Um modelo obsoleto?
Se este é um modelo, um paradigma daquilo que é o amor sobre o qual se baseia a família, é igualmente verdadeiro que hoje são propostos outros paradigmas culturais que por sua vez se baseiam sobre diferentes visões e definições do ser humano. Acontece com freqüência que a visão da família até aqui proposta seja vista como algo de obsoleto e antiquado, que em quanto tal não corresponde mais à realidade das coisas do mundo de hoje. Tudo evolui, diz-se, e a família também evoluiu, não podendo mais ser a mesma coisa do passado. Novas exigências de vida, novas condições sócio-econômicas, fazem com que o velho paradigma do amor conjugal hoje esteja e deva estar em crise, a favor de novo modelos de família que gozariam de dignidade igual, se não maior. Quem quisesse ainda obstinadamente crer na antiga e obsoleta instituição da família compreendida como união entre homem e mulher, diz-se, está fora dos tempos.
Mas a natureza da pessoa, sempre a mesma e idêntica a si mesma, continua a persistir igual no tempo. Se, portanto, é natural que hajam mudanças em determinadas realidades que dizem respeito à pessoa, deve também ser verdadeiro que determinadas realidades, as mais profundas, sejam e permaneçam sempre as mesmas, pois sempre o mesmo é o homem sobre o qual se fundam.
Se portanto é normal que a instituição familiar deva em qualquer modo seguir a evolução do mundo, é igualmente verdadeiro que a essência, o núcleo da família permanece sempre o mesmo, como o homem que evolui nas suas expressões, as quais, porém, derivam da mesma natureza pessoal que constitui a pessoa.
Com muita freqüência novas ideologias, novas reivindicações, novas propostas que atingem a família fundam-se sobre o uso ambíguo de determinados termos e de algum conceitos. Mesmo se por vezes é inegável que haja somente um grão de má fé, é errada interpretação de alguns termos e conceitos a causa de uma certa confusão.


Como orientar-se
Uma instrumento útil para tentar ao menos orientar-se nesta intrincada vereda de caminho palavras ricas de significado é o Lexicon editado pelo Pontifício Conselho da Família. Compilado em forma de vocabulário, o Lexicon reúne em ordem alfabética uma série de termos ambíguos e discutíveis, sobre a família, vida e questões éticas, como justamente indica o subtítulo da obra. Para o argumento que estamos ilustrando, a família, há alguns vocábulos dos quais buscaremos fazer uma síntese. Sem nenhuma pretensão de exaustividade, tentaremos usar o material do Lexicon buscando seguir em frente na justificação antropológica da família entendida como união entre homem e mulher fundada sobre o matrimônio.
Dois gêneros e somente dois
A primeira coisa, e provavelmente a mais basilar, é justificar que no mundo o ser humano se encarna somente em dois gêneros, masculino e feminino, de modo que se pode afirmar com uma certa segurança que podem existir seres humanos fêmeas e outros seres humanos machos, entre eles idênticos em dignidade e direitos, mas complementares. Tudo isto poderia parecer supérfluo, e no entanto não o é. Se de fato na experiência prática encontram-se somente homens e mulheres, para alguns esta distinção entre gênero masculino e feminino seria totalmente falsa. Os gêneros, ao contrário de dois seriam quatro, cinco, se não seis: heterossexual masculino, heterossexual feminino, homossexual, lésbica, bissexual e diferenciado.
É claro, porém, que fazendo assim, ou seja, não individuando somente dois gêneros sexuais, a instituição familiar perde todo fundamento. Reafirmar, portanto, que o ser humano se encarna e goza de dois gêneros sexuais será então fundamental para poder justificar a existência da família.
No curso da segunda metade do século passado uma certa corrente de pensamento feminista quis destacar o gênero do sexo. Para alguns o sexo seria individuado nos atributos físicos com o qual se vem ao mundo, ao passo que o gênero, totalmente desligado do sexo, seria a identidade sexual do indivíduo como produto das pressões sociais. Estas construções sociais, essencialmente impostas, teriam produzido uma desigualdade entre homem e mulher para prejuízo desta última. Se, portanto, desejamos realmente afirmar a igualdade de todos os indivíduos da espécie humana, seria preciso que nos libertássemos das construções sociais de gênero, que conferem ao homem e à mulher papeis e tarefas predeterminados e, enquanto tais, impostos.
Livres de todo vínculo
Tais reivindicações inscrevem-se também na luta de classes que pregava a liberação de qualquer vínculo e superestrutura de modo que a humanidade, livre de condicionamentos arcaicos, pudesse finalmente viver uma nova era. Uma das primeiras “superestruturas” a serem eliminadas é a família: “O primeiro antagonismo de classe coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher unidos no matrimônio monogâmico, e a primeira opressão de uma classe sobre a outra com o sexo feminino submetido ao masculino”. Estas frases são de Frederick Engels em sua Origem da família da propriedade e do estado, obra considerada uma pedra de base para um certo feminismo desestruturalista de cunho marxista.
À sessão do Lexicon “Ideologia de gênero: perigos e alcance”, recorda-se quais sejam os objetivos desta ideologia. Desmontar a sociedade partindo da família de modo que a igualdade dos seres humanos, e sobretudo daquela que se considera mais oprimida, a mulher, passe antes de tudo através da libertação do gênero imposto pela sociedade. Assim a família monogâmica do homem e da mulher será uma arcaica instituição a ser superada, a educação das crianças deverá prescindir de qualquer “imposição” de gênero, as religiões, enfim, deverão ser abandonadas posto que fonte de fundamentalismos perigosos.
A mulher, portanto, subjugada por séculos de abusos e opressão, deverá antes de tudo liberar-se do papel de esposa e de mãe que lhe impôs a família. De outra parte, se o sexo deve ser realmente desligado do gênero, quem disse que a mulher e não o homem deve fazer o papel de mãe? Sobre que coisa se poderiam fundar os papeis familiares vistos aqui como opressivos e discriminantes? Objetivo final de quem impugna e propõe uma nova definição de gênero é a desconstrução da sociedade tal como hoje a conhecemos, na tentativa de destruir o patriarcado, os papeis sociais, a religião, a tradição, a educação política, e assim por diante. Portanto o programa principal das feministas é a “desconstrução do gênero a fim de obter uma sociedade sem gêneros”, como se lê em uma outra sessão do Lexicon, o de título “Novas definições de gênero”.
Esta tendência, que deriva do uso impróprio, como veremos em seguida, da palavra gênero, está presente também em muitos e importantes documentos de organizações internacionais. Assim, por exemplo, a IV Conferência mundial das Nações Unidas sobre a mulher, realizada em Pequim em setembro de 1995, definiu o gênero como “a relação entre homem e mulher baseada sobre papeis definidos socialmente que se designam a um e ao outro sexo” (Lexicon, p. 457).
Com uma tal concepção do termo gênero, nos documentos da Conferência de Pequim, bem como do Cairo, aspirava-se a uma total liberação da mulher do gênero feminino, de modo que esta pudesse ser finalmente livre para decidir sobre sua própria vida, sobre seu próprio corpo e sobre o uso a lhe dar.
Novos direitos
A partir destas reivindicações baseadas sobre uma nova visão do ser humano, nascem também para muitos novos direitos, como os assim chamados direitos reprodutivos. Muitas sessões do Lexicon são dedicadas a estes novos direitos, com base nos quais se invocaria a total liberdade de usar o próprio corpo e a própria sexualidade em modo totalmente desvinculado do sexo biológico de nascimento. Toda mulher deveria ser assim livre para decidir se, como e quando por no mundo um filho, se em companhia de um homem, de uma mulher, de ambos, ou ainda a partir da simples doação de esperma de um desconhecido. O menino assim obtido não necessitaria mais de duas figuras, uma masculina e uma feminina para a própria educação e o próprio crescimento; menos ainda deveria ser influenciado em qualquer tipo de escolha com relação às suas inclinações sexuais. Estes novos direitos, entre os quais justamente o reprodutivo e sexual, dever-se-iam inscrever sem reservas entre os direitos fundamentais da pessoa, entre os sancionados pelas Nações Unidas na Declaração universal dos direitos do homem, juntamente aos da saúde, da vida, da educação e da cidadania. Conseqüentemente, quem quer que fosse, seja de que modo fosse, se opusesse ao não reconhecimento destes novos direitos, deveria ser considerado retrógrado, fundamentalista religioso e opressor.
Um convite à reflexão
Além de expor e denunciar estas novas ideologias que põem em risco a sobrevivência da instituição familiar, o Lexicon propõe também reflexões interessantes para tentar entender até o fundo o peso e o verdadeiro sentido das palavras, de modo a que se possa usá-las corretamente. Uma entre as mais interessantes e inovadoras e dada sob o título “Novas definições de gênero”. Como declara o autor mesmo tenta-se aprofundar antropologicamente e filosoficamente o gênero humano, tratando-se “mais de um convite à reflexão que de uma declaração de verdade absoluta!” (Lexicon p. 607).
O autor leva em consideração a pessoa humana com os meios da filosofia aristotélico-tomista e com estes traça um paralelismo entre matéria e forma, corpo e alma, sexo e gênero. O ser humano é composto indivisivelmente de alma e corpo, que juntos formam a pessoa. Como o homem, todas as substâncias que conhecemos são compostas de matéria e forma: na pessoa humana a forma é o princípio espiritual, o corpo é, ao contrário a matéria. Ambos têm igual dignidade e são essenciais e inseparáveis para a substância do ser humano. Formam uma unidade real e não podem ser divididas, sob pena da dissolução da substância do ser humano. Se a distinguem, isto se faz somente por via conceitual, para compreender melhor a natureza da substância de que se fala, que neste caso é a substância do homem.
O autor faz um interessante paralelismo: como o corpo está para a alma, assim o sexo está para o gênero. É uma proposta de reflexão, nada mais, mas abre cenários interessantes. A reflexão parte da cisão que para alguns deveria existir entre o sexo e o gênero, pelo o qual o segundo estaria totalmente desligado do primeiro. Vistos, ao contrário, como um unicum incindível, o sexo tornar-se-ia o substrato necessário sobre o qual o gênero se explicita. Assim não poderá existir a possibilidade de que uma pessoa de sexo feminino, por exemplo, possa ter um gênero masculino ou por assim dizer neutro. Se o sexo, isto é a fisicidade biológica do corpo, será igual para todos aqueles que o gozam, o gênero será uma explicitação na vida concreta de uma unicidade pessoal: todo homem e toda mulher explicitarão o próprio gênero masculino e feminino em maneira única, pertencendo, no entanto ao mesmo sexo masculino e feminino. De outro lado mancomunando o sexo à matéria e o gênero à forma, segundo a teoria hilemórfica pela qual cada corpo pertence tão somente a uma alma, não será possível que um gênero masculino ou feminino possa tomar vida sem um sexo específico.
O autor usa, enfim, também a teoria do movimento aristotélico para definir com clareza a estreita relação que existe e deve necessariamente existir entre gênero e sexo. Mesmo para o ser humano sexuado de fato, podem-se identificar quatro causas que influenciam o ser humano da pessoa. Como causa material é individuado o corpo com a sua individualidade sexual de macho ou fêmea; como causa formal, ao contrário, individua-se o gênero, que por sua vez se explicita em infinitos modos de acordo com a causa eficiente que está individuada nos condicionamentos externos e nos movimentos interiores de cada um. A causa final por sua vez será a escolha fundante e fundamental com a qual cada um decide orientar a própria vida. Lendo o gênero com as quatro causas aristotélicas, parece evidente que este não possa ser desligado totalmente do sexo biológico, mesmo se não é totalmente condicionado. Lê-se de fato: “A matéria de um particular ser é o seu mesmo potencial e a formação é a gradual relação da própria perfeição. [...] No contexto de gênero o sexo corpóreo sugere a direção da realização através de um determinado gênero oposto: um conjunto feito de um corpo feminino e de um corpo masculino não parece ser capaz e realizar o potencial de uma pessoa humana. [...] O gênero é por isso maleável, sujeito a influências internas e externas à pessoa humana, mas deve obedecer à ordem já predisposta pelo corpo” (Lexicon p. 609).
Salvar a unidade
Parece claro diante destas reflexões que as reivindicações clamadas pelo feminismo de gênero e por aqueles que querem o gênero desligado totalmente do sexo, não possam gozar de uma real e exaustiva visão do ser humano. Além das conseqüências, por vezes preocupantes, que tais teorias possam aportar à sociedade e à família, lançam a pessoa humana em um ulterior e perigoso dualismo. A filosofia, ao contrário, e uma séria leitura da pessoa humana, têm a tarefa de conjugar a visão da realidade com uma leitura do humano mais orgânica possível. Os dualismos, na história, causaram sempre danos, enquanto tomaram sempre em consideração a realidade da pessoa humana sob um único ponto de vista. A pessoa, ao contrário, é uma unidade orgânica, não despedaçável em diversas partes, complicada de se estudar e analisar justamente por sua incindível unidade e organicidade das suas várias partes. Além disso, é igualmente claro que certas reivindicações surgiram de justas leituras da realidade: é justo restituir dignidade à mulher onde esta a perdeu, é um dever libertar o homem de constrições que o afligem, é um dever designar a cada um, homem e mulher, deveres e dignidades iguais, mas complementares. Tudo isto sem, porém, trair a natureza mesma da pessoa. Escrevia João Paulo II na “Carta às mulheres” no parágrafo 11: “é possível acolher, sem conseqüências desvantajosas para a mulher, também uma certa diversidade nos papeis, na medida em que tal diversidade não é fruto de arbitrária imposição, mas surge da peculiariedade do ser masculino e feminino”.
Direitos e “direitos”
Da reivindicação de novos direitos, entre os quais aqueles reprodutivos e sexuais. Alguns destes foram elencados na Declaração dos direitos sexuais e reprodutivos da Federação Internacional de Planificação Familiar (IPPF). Para que cada um possa fazer um juízo, bastará cotejar, como em uma visão sinóptica, alguns destes direitos, com aqueles sancionados e universalmente reconhecidos pela Declaração universal dos direitos humanos promulgada pela ONU em 1948.

Declaração universal dos direitos humanos Direitos sexuais e reprodutivos
Os homens e as mulheres, a partir da idade núbil, têm o direito, sem quaisquer restrições por razões de raça, nacionalidade ou religião, de casar-se e criar uma família. O exercício da independência sexual, bem como o direito a gozar segundo as próprias preferências, e o direito a que isso seja tutelado por lei.

Somente através do livre e pleno consentimento dos futuros esposos, o matrimônio poderá ser contraído. Sexualidade por prazer e recreação, independente da reprodução.
A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem o direito de ser protegida pela sociedade e pelo estado. Igual participação das mulheres e dos homens nos cuidados das crianças através de uma construção criativa além dos tradicionais papeis de gênero.

Por questão de correção é preciso dizer que se realizou uma seleção de direitos reprodutivos aqui elencados, entre aqueles que mais se atritam contra os da Declaração. De todo modo, é preciso também dizer que não existe uma lista rígida e universalmente reconhecida daquilo que se desejaria elevar à condição de direitos naquilo que diz respeito ao sexo e a reprodução humana. Faltando portanto um consenso reconhecido, a lista dos direitos reprodutivos e sexuais é potencialmente aberta a qualquer reivindicação que, com base a determinadas e específicas ideologias, queira elevar à condição de direitos universais, aquelas que possam ser somente reivindicações de uma parte minoritária.
Mas então qual pode ser a fonte segura da qual possam surgir novos direitos humanos, que possam realmente fazer jus a tal título? Uma resposta pode ser encontrada no título “Novos direitos humanos” do Lexicon: “São três as coisas que devem ser contempladas pelos direitos humanos: a dignidade pessoal, a fundação sobre a lei natural do homem, a condição comunitária do homem” (p. 631). Em outras palavras – seguindo a filosofia tomista – para individuar aquilo que é direito do homem e aquilo que, ao contrário, não o é, “basta seguir a estrada da observação da inclinação profunda da natureza humana, tais como a conservação do ser, a tendência à propagação, a fome e a sede de transcendência que pertencem a todos os seres humanos” (Lexicon p. 629).
Em suma, não toda reivindicação é um direito do homem, não toda exigência, ainda que a primeira vista legítima, pode ser considerada direito universal da pessoa humana, enquanto somente aquilo que emerge da natureza da pessoa pode e deve ser reconhecido como um direito a ser garantido e preservado.
Se o ser humano tem direitos, essencialmente sancionados pela ONU em 1948, também toda realidade propriamente humana pode evocar a si direitos inalienáveis, justamente pelo fato de que tais realidades existem, e têm uma dignidade diretamente proporcional à natureza da qual derivam, ou seja, da natureza humana. A família, realidade e instituição que, como se viu, tem suas raízes profundamente radicadas na natureza do ser humano, tem também esta direitos que podem ser individuados pela observação racional da sua natureza.
A Carta dos direitos da família
O Pontifício Conselho da Família, no qüinquagésimo aniversário da Declaração Universal dos direitos humanos, destilou um elenco de direitos da família para “apresentar a todos os nossos contemporâneos, sejam estes cristãos ou não, uma formulação – a mais completa e ordenada possível – dos direitos fundamentais inerentes àquela sociedade natural e universal que é a família” como se lê no preâmbulo da Carta.
Tais direitos são expressos na consciência do ser humano e nos valores comuns a toda a humanidade. Não são portanto formulações dogmáticas nem tanto menos artigos de fé, mas foram individuados e são propostos como pertencentes a cada família humana pela simples convicção que cada ser humano, além do seu credo religioso, goza das mesmas dignidades da comum natureza humana.
Começa-se antes de tudo com a afirmação no preâmbulo de que se o ser humano goza de determinados direitos, então os goza também a família, uma vez que “os direitos da pessoa, mesmo se expressos como direitos do indivíduo, têm uma fundamental dimensão social”. Lê-se, além disso, a fundamental distinção entre Estado e família: “A família, sociedade natural, existe anteriormente ao estado e a qualquer outra comunidade e possui direitos próprios, que são inalienáveis”.
O artigo 1º sanciona o direito inalienável de cada pessoa de contrair matrimônio em liberdade e sem constrição, ou ainda a permanecer nubente ou celibatária; é um direito poder contrair matrimônio e “restrições legais ao exercício deste direito [...] podem ser introduzidas somente quando são requeridas por graves e objetivas exigências do mesmo instituto matrimonial”.
A família, célula da sociedade, deve ser sustentada juridicamente pela autoridade, mas ao mesmo tempo “a situação dos casais não unidos em matrimônio não deve ser posta sobre o mesmo plano do matrimônio devidamente contraído”.
Sendo a família uma instituição baseada sobre o matrimônio, se ressalta que este “não pode ser contraído senão mediante o livre e pleno consenso dos esposos devidamente expresso”. Em tal modo os esposos “na natural complementariedade que existe entre homem e mulher, gozam da mesma dignidade e dos mesmos direitos com relação ao matrimônio”.
Os esposos, segundo a Carta, têm direito a decidir a respeito do intervalo entre o nascimento e o número de filhos que aceitam procriar, “em uma justa hierarquia de valores e em conformidade à ordem moral objetiva”. Se é um direito dos esposos poder ter filhos “a atividade das autoridades públicas e das organizações privadas, que tentam de qualquer modo limitar a liberdade dos casais a decidir a respeito de seus filhos, constitui uma grave ofensa à dignidade humana e contra a justiça”.
Um inteiro artigo, o 4, é dedicado totalmente ao respeito devido à vida nascente, desde o momento da concepção. Declara-se, de fato, que o “aborto é uma violação do direito fundamental à vida do ser humano”, exclui-se toda possibilidade de manipulação genética (justamente pela dignidade inerente à pessoa), e do mesmo modo declaram-se ilegítimos todos as intervenções que manipulem o patrimônio genético da pessoa humana, excluídos claramente aqueles que visam corrigir eventuais anomalias genéticas.
Os pais, diz-se no artigo seguinte, têm o “originário, primário e inalienável direito” de educar os filhos. Esta liberdade exprime-se no direito a educar a prole segundo as próprias convicções morais e religiosas, tendo como único limite o bem e a dignidade da criança; os pais têm direito a “escolher livremente escolas ou outros meios necessários para educar os seus filhos em conformidade com as suas convicções”. Se isto é reconhecido como um direito da pessoa e portanto da família, “as autoridades públicas devem fazer com que subsídios públicos sejam dispostos de modo que os pais sejam realmente livres para exercitar este direito, sem que isto acarrete uma onerosidade injusta”.
Alguns direitos inalienáveis do ser humano devem ser aplicados também à família, como a liberdade religiosa, aquela de professar e difundir publicamente a própria fé; o direito a exercitar a sua função social e política na construção da sociedade; o direito a condições econômicas aptas a garantir uma vida digna. O trabalho, direito do homem, deve reentrar na família na medida em que “permita aos membros uma vida em conjunto e não seja obstáculo à unidade, o bem estar a saúde e a estabilidade da família”, assim como “o trabalho doméstico da mãe deve ser reconhecido e respeitado pelo seu valor perante a família e a sociedade”.
Toda boa lei positiva de qualquer estado tem a sua tarefa de preservar o bem da pessoa e da sociedade. Tal bem, o bem integral da pessoa, será de acordo com a natureza objetiva da pessoa e com os direitos que desta emergem. Bastará portanto ter aqui elencado quais possam ser os direitos da família para poder julgar quais sejam as leis boas, quais sejam aquelas que apontam para o bem da sociedade, preservando sua célula primária, justamente a família. Mas para fazer isto é preciso antes de tudo ter a coragem de chamar as coisas com o seu nome e não, por exemplo, chamar família àquilo que família não é; usar com lentes interpretativas erradas termos importantes para definir o ser humano; correr atrás de momentâneas reivindicações para esquecer a realidade imutável da instituição familiar.

A FAMÍLIA NO MUNDO
NÚMEROS E DADOS
Do ponto de vista sociológico e antropológico a família tem o fim de assegurar o futuro à sociedade através da geração dos filhos e através da transmissão de ensinamentos e estilos de vida que formam o núcleo sócio-cultural de pertença a um grupo mais ou menos amplo de pessoas. Desde os primórdios da história do homem são identificáveis os primeiros traços dos núcleos familiares. Antes, juntamente com o culto os mortos, os testemunhos de vida familiar são os primeiros traços que podem contradistinguir uma sociedade humana daquilo que, ao contrário, não a é. Do ponto de vista antropológico, de fato, as raízes das instituições familiares podem ser identificadas na necessidade de criação da prole e de mútua assistência entre os dois componentes do casal. Na pré-história, como também em algumas culturas primitivas, os vários núcleos familiares viviam juntos dividindo espaços de habitação, recursos alimentares e cuidado da prole; em outras civilizações, ao contrário, existiram e existem ainda hoje, outras formas de coexistência de pessoas de sexo diverso com o fim de cuidar da prole, que em algum modo podem ser considerados modelos alternativos à família, por assim dizer, tradicional.
Antropologicamente falando pois a família pode ser definida “Conjugal”: composta pelos pais e pelos seus filhos. A família conjugal pode ser portanto: (1) Monógama (com somente dois pais); (2) Poligínica (quando existem diversas mais e um só pai); (3) Poliândrica (quando há diversos pais e uma só mãe); (4) Poligimnândrica (quando existem diversos pais e mães convivendo em conjunto).
Além da família conjugal, com as suas formas conhecidas, pode existir a família co-sanguínea, ou a assim chamada família alargada, composta pelos pais, pelos filhos e por outros membros co-sanguíneos aos pais como avós e tios.
Hodiernamente, no mundo pós moderno, formam-se sempre mais freqüentemente famílias assim chamadas monogenitoriais, compostas por um único pai que sozinho cria a prole.
Se, portanto, no mundo existiram e existem várias formas de convivência que de algum modo podem ser definidas família, aquela conjugal é de longe a mais praticada e a mais numerosa. Muitas pesquisas, além da simples observação da realidade, demonstram que esta, sobretudo naquilo que diz respeito ao crescimento dos filhos, seja aquela que garante maior segurança e estabilidade.
A família monogâmica está presente em todas as partes do mundo sempre idêntica a si mesma, com as mesmas estruturas essenciais. Mas estando presente em zonas geográficas e geopolíticas distantes e com dinâmicas sócio-culturais diferentes, a família enfrenta determinados problemas de acordo com a zona geográfica em que vive.
As Nações Unidas, ainda que por vezes levem adiante reivindicações familiares baseadas em ideologias não sempre aceitáveis, têm há tempos fotografado a situação da família em todas as partes do mundo, apresentando relações e dossiês que cuidadosamente apresentam os desafios e as dificuldades da família nos cinco continentes. Aos estudos das Nações Unidas nos referiremos naquilo que diz respeito aos números, cifras e problemas gerais.
A primeira consideração a se fazer é que no último século a instituição da família sofreu muitas mudanças, mesmo profundas, em sua própria estrutura, tanto que para alguns a família mesma, tal como foi sempre concebida encontra-se em crise. Uma crise – sempre para alguns – segundo a qual, sendo a família um produto de uma sociedade em contínua evolução, não é possível falar-se de família tradicional, mas seria preciso reconhecer o natural desdobramento da família em direção a novas formas que eram consideradas há um tempo impensáveis.
Se, de fato, em escala global não se verifica uma diminuição significativa da união matrimonial, da qual estatisticamente nasce uma família, ao que parece estas uniões são sempre mais frágeis e menos duráveis. A comprová-lo estão os divórcios em vários estados do mundo, que tomamos como situações-tipo, e que relatamos a seguir.
Matrimônios e divórcios
Cuba é o país com a mais alta taxa de divórcio:
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimônios 64900 57252 57001 54345 56876
Divórcios 39798 40068 37937 37260 35590





Um dos maiores estados da África do norte, o Egito.
1998 1999
Matrimônios 503551 525412
Divórcios 71792 73414

Os dados para as zonas urbanas e rurais.
MATRIMÔNIOS 1998 1999
Zonas Urbanas 183.975 191.224
Zonas Rurais 319575 334188

DIVÓRCIOS 1998 1999
Zonas Urbanas 38872 39829
Zonas Rurais 32920 33585

No Egito e faixa de idade com a qual se casa é mais alta em relação aos países fronteiriços: dos 20 aos 34 anos.
Não se registra uma forte diferença de idade do esposo e da esposa.

Uruguai
1988 1999 2000 2001 2002
Matrimônios 16176 15488 13888 13988 14073
Divórcios 6598 7002 6822 7409 6761

Brasil
1999 2000 2001
Matrimônios 788 744 732 721 710 121
Divórcios 121 333 121 417 122 791

Japão
1998 1998 2000 2001 2002
Matrimôn. 784 595 762 028 798 138 799 999 757 331
Divórcios 243 183 250 529 264 246 285 911 289 836

Irã
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 531 490 611 073 646 498 640 710 650 960
Divórcios 42 391 51 044 53 797 60 559 67 256

Israel
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 40 137 40 236 38 894 38 924 39 718
Divórcios 9 886 10 683 10 723 11 164 10 939

Turquia
1998 1999 2000 2001
Matrimôn. 485 035 475 513 461 417 453 213
Divórcios 32 167 31 540 34 862

Canadá
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 152 821 155 742 157 395 146 618 147 634
Divórcios 69 088 70 910 71 144

França
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 271 361 286 191 297 922 288 255 280 600
Divórcios 116 515 116 813 114 005 126 631

Áustria
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 39 143 39 485 39 228 34 213 36 570
Divórcios 17 884 18 521 19 552 20 582 19 639

Bélgica
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 44 393 44 171 45 123 42 110 40 434
Divórcios 26 503 26 423 27 002 29 314 30 628

Finlândia
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 24023 24271 26150 24830 26969
Divórcios 13 848 14 030 13 913 13 568 13 336

Polônia
1998 1999 2000 2001 2002
Matrimôn. 209 430 219 398 211 150 195 122 191 935
Divórcios 45 230 42 020 42 770 45 308 45 414


A idade com a qual se casa
Em Cuba a idade legal para casar-se é de 16 anos para os homens e 14 para as mulheres. Diferentemente de países com condições sócio-econômicas similares, em Cuba há um nivelamento da idade do matrimônio entre homens e mulheres que não cria fortes disparidades de idade entre esposo e esposa. Em geral, portanto – sempre em Cuba –, permanece alto o número de pessoas, seja de homens seja de mulheres, que se casa na faixa de idade entre 30 e 34 anos. E depois maior é o número de matrimônios contraídos em zonas urbanas que no campo: em 2000 de fato foram realizados mais de 51.762 matrimônios na cidade com relação aos 5.607 dos celebrados no campo.
No Brasil, ao contrário, onde a idade legal para casar-se é muito baixa, 14 anos para o homem e 12 para a mulher, existe uma fortíssima disparidade de idade no casal. Por exemplo, dos 788.744 matrimônios de 1999, 204.117 mulheres casaram-se quando tinham uma idade compreendida entre os 15 e os 19 anos, mas somente 42.959 destas casaram-se com homens da mesma faixa de idade.
Nos países não industrializados, a idade do matrimônio permanece relativamente baixa, em torno à faixa compreendida entre os 14 e os 21 anos, com diferenças entre os homens e as mulheres. De outra parte, a idade do matrimônio nestes países se eleva no que se refere às zonas urbanas. A constituição da família, de fato nas zonas rurais pouco desenvolvidas, é antes de tudo uma garantia de força e trabalho; nas zonas urbanas dos países subdesenvolvidos, ao contrário, a formação de uma família pode mostrar-se também como uma dificuldade a mais, sobretudo para aquela faixa de pessoas vindas do campo para a cidade a fim de buscar condições econômicas melhores. Nos países industrializados eleva-se muito a idade do matrimônio, até quase a média dos 30 anos, e suaviza-se a diferença de idade entre esposo e esposa.

A taxa de fertilidade
Mesmo a taxa de fertilidade, ou seja o número de crianças concebidas em cada família, muda muitíssimo de zona para zona do mundo. A África sub-saariana, por exemplo, é a zona mundial com a mais alta taxa de fertilidade do planeta, mesmo se nestas áreas registra-se uma forte diminuição de nascimentos nos últimos anos. De fato, desde 1975 registra-se uma inflexão dos nascimentos que foi gradualmente e ainda não de todo retomada a partir de 1995. Mas o dado mais significativo desta zona geográfica, que mudou muito mesmo a taxa de fertilidade, é a forte urbanização de uma larga parte da população da África sub-saariana.
Se, de fato, em 1950 somente 11% da população vivia na cidade, em 1996 o percentual chegou a 32% com uma previsão para o ano de 2025 que chega a 50%. Este deslocamento da população em direção às áreas urbanas significou uma forte mudança de hábitos, usos e costumes, que reduziu drasticamente a taxa de natalidade. Por exemplo no Kenia a taxa de fertilidade desceu até 1,62% nas zonas rurais, enquanto nas urbanas a taxa desceu 2,64%. Esta diferença é logo explicada: nas zonas rurais as instituições sociais e as práticas culturais tradicionais permanecem fortes, e também o uso de contraceptivos artificiais é uma prática ainda fortemente limitada. Na cultura africana, de fato, a vida é considerada uma grande riqueza seja material seja espiritual. Por exemplo em Ruanda, após as terríveis chacinas dos últimos anos, a taxa de natalidade cresceu fortemente porque a população de algum modo se sentia no dever de reparar milhões de mortos com a riqueza de novas crianças.
Se na África no qüinqüênio 1995-2000 a taxa de fertilidade para a mulher foi de 5,74%, a situação muda drasticamente na Europa ocidental e na América do Norte: nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de fertilidade é de 2,03%. Após um forte declínio dos nascimentos nos anos sessenta e setenta, nos países ocidentais, parece que agora a taxa de fertilidade está se recuperando.

A idade do primeiro filho
O momento em que a mulher permanece grávida eleva-se sempre mais a partir de 1970. Se, de fato, na Europa e América do norte o primeiro filho chega entre 25 e 29 anos, muitos casais esperam até os 35 anos. Na Itália em 1978 o primeiro filho chegava em média em torno aos 24 anos, hoje acima dos 29.
Se, porém, nestes países se eleva o momento de ter a primeira gravidez, a idade do primeiro relacionamento sexual, , bem como a idade em que se casa, declinaram radicalmente. Se, de fato, nos anos 30 a mulher tinha o seu primeiro relacionamento sexual entre 19 e 21 anos, nos anos 90 a idade havia se instalado entre os 16 e os 18 anos. Aumentou exponencialmente o número de jovens que ainda vive com os pais: na faixa entre os 25 e os 29 anos, nos países do sul da Europa a o percentual é de 65% para os homens e de 44% pra as mulheres. É inferior, ao contrário, naquilo que diz respeito aos países do norte da Europa, onde desce aos 25% para os homens e a 12% para as mulheres. Naquilo que diz respeito ao matrimônio, depois, prefere-se antes adquirir a própria independência econômica, e portanto tentar conviver com o próprio parceiro; somente após, e não para todos, chega-se à decisão de esposar-se.

Fragilidade do matrimônio
Dos dados expostos até agora, vê-se com muitos países e novos matrimônios sejam um tanto frágeis: na Europa a taxa dos divórcios é de 30%, mesmo se nos países escandinavos e na Inglaterra a taxa chega até 59%. Após a ruptura de uma união os dados dizem que se tende em larga parte a formarem-se novas: 75% das mulheres e 80% dos homens tentam fundar uma nova união. E, todavia, existem sempre mais famílias assim chamadas monoparentais, formadas em geral por mulheres que, sozinhas, criam um ou mais filhos. Freqüentemente, na Europa e na América do Norte, isto ocorre em seguida a um divórcio ou simplesmente por escolha.
As famílias monoparentais, ao contrário, mostraram timidamente sua face somente há pouco tempo na Ásia central. Nos últimos anos 90, por exemplo, o Paquistão detinha o maior número de famílias com mais de cinco pessoas: eram mais de 75% do total. De todo modo, também nos países da Ásia central, houve um declínio das famílias numerosas, mesmo se como dissemos, as famílias monoparentais, permanecem ainda uma exceção. No Casaquistão, por exemplo, as famílias com mais de cinco componentes eram 31,2% durante os anos 90: em 200, ao contrário, desceram a 27,9%.

A família matriarcal
Um outro fenômeno a ser registrado é a família matriarcal, ou, de qualquer modo, o papel de chefe de família, que em várias partes do mundo e em várias regiões a mulher vai cada vez mais assumindo. Em muitas culturas asiáticas, por exemplo, a mulher mais velha assume o papel de chefe de família. Este fenômeno, sempre na Ásia, é em forte crescimento. Particularmente nas zonas rurais as mulheres se encontram sempre mais sós na administração também econômica da família, papel que em geral é tradicionalmente reservado aos homens. As causas podem ser muitas, como a viuvez, razões de saúde, carestia ou guerras; ou ainda em razão dos movimentos migratórios internos e externos aos estados, que sempre mais freqüentemente levam os homens longe de casa por longos períodos de tempo a fim de buscar trabalho. No Sri Lanka, por exemplo, o percentual de mulheres chefes de família aumentou de 19% nos anos 90 até 20% em 2000. No Casaquistão e Uzbequistão, respectivamente 32 e 22% do total dos núcleos familiares têm como chefe mulheres.
Na África, a situação é, por sua vez, diferente. Muito freqüentemente encontram-se famílias monoparentais, não por tradição, mas por necessidade. De fato, neste continente muitos núcleos familiares são destruídos por morte de um dos dois cônjuges, mas sobretudo por causas inerentes e fluxos migratórios de estado africano a estado africano, bem como da África para outro continente, como a Europa ou a América do Norte. Atualmente na África os movimentos migratórios transformaram-se em movimentos de refugiados, isto é, em movimentos migratórios forçados em razão da carestia e da guerra. Desde 1995 na África encontram-se mais de um terço dos refugiados de todo o mundo, quase dez milhões de pessoas. Na Guiné, por exemplo, encontram-se cerca de 650.000 refugiados provenientes sobretudo de Sierra Leone e da Libéria; no Sudão são cerca de 395.000, na Etiópia 326.000. Claramente a situação de refugiado investe também contra a solidez e o bem estar da família africana, dividindo por vezes inteiros núcleos familiares.
Mas retornando à situação das mulheres sós que administram um núcleo familiar, um dado acima de todos fala por si só. No estado de Lesoto, calcula-se que 40% da força de trabalho masculina entre os 20 e os 39 anos emigra a fim de buscar trabalho na fronteiriça África do Sul, de modo que a maior parte das famílias depende economicamente do trabalho que os homens da família desenvolvem no estado confinante.

A FAMÍLIA NA EUROPA

A Europa é um continente velho, onde anciãos superam os jovens; além disso, na União Européia rompe-se um matrimônio a cada 33 segundos: estes são somente alguns sinais de alarme lançados pela Rede Européia do Instituto de Política Familiar (IPF), através do seu relatório sobre a “Evolução da Família na Europa em 2006” apresentado em 9 de maio, no Parlamento Europeu, na jornada que coincide com a celebração da jornada da Europa. A relação foi realizada por uma equipe multidisciplinar de especialistas em diversas áreas: psicólogos, demógrafos, especialistas na conciliação da vida de trabalho e matrimonial etc... coordenados pelo IPF. Constitui, portanto, um dos estudos mais completos e atuais que se realizou até agora sobre a família na Europa nos últimos 25 anos (1980-2005). À apresentação estiveram presentes Lola Velarde, Presidente da Rede Européia do IPF, e Eduardo Hertfelder Aldecoa, Presidente da Federação Internacional do IPF.
O relatório articula-se em três partes. A primeira analisa a situação da família na Europa e a sua evolução nos últimos 25 anos nos diversos aspectos: demográficos, natalidade, vida matrimonial, etc. Na segunda se observa a evolução das diversas políticas que a Comissão Européia aplicou neste tempo, e aquelas dos diversos países da União Européia. Como conseqüência desta analise a terceira parte propõe uma séria de medidas que o Instituto da Política Familiar considera indispensáveis para a realização de uma verdadeira política integral da família, e para o crescimento de políticas públicas na perspectiva da família. Apresentamos em seguida alguns dados significativos da relação.

1. Evolução da população
O crescimento da população européia foi lento. A Europa é hoje em dia um continente velho. Em 26 anos a população da União Européia cresceu em 35 milhões de pessoas, isto supõe um crescimento de 8,3%. Nos últimos 25 anos a população juvenil européia (menores de 14 anos) desceu em 21,6%, e isto significa que se perderam 20 milhões de jovens neste período, uma vez que estes representam atualmente somente 16,4% da população total européia. Espanha, Portugal e Itália são os países nos quais os jovens menores de 14 anos diminuíram e a população maior de 65 anos cresceu mais. Ao contrário, Irlanda e Chipre são os países da UE com maior população juvenil: superior em 20% com relação à media européia.
O futuro da população é preocupante. Segundo as projeções de população, a Europa chegará a um pico populacional em 2.025 para depois iniciar a descida. Os Estados Unidos da América, por sua vez, cresceram quatro vezes mais que a UE desde 1994.

2. Evolução da natalidade
Na União Européia cada vez nascem menos crianças. No ano de 2005 nasceram na UE 870.478 crianças a menos em relação a 1982. Isto supõe uma redução de 15,3%. Em algumas nações a situação de natalidade é crítica: Grécia (1,29), Espanha (1,32) e Itália (1,34) são os países da UE-15 com um índice de natalidade crítico. Todos os países da ampliação – com exceção de Chipre – não chegam a um índice de fecundidade de 1,3.
Na Europa (UE-25) verifica-se um aborto a cada 30 segundos. A cada dia 2.880 crianças não podem nascer na Europa. Fala-se de 120 abortos a cada hora. Isto é, uma a cada 6 gravidezes (17,2%) que se verificam na Europa terminam em aborto.
França (208.759), Inglaterra (195.483), Itália (133.000), Alemanha (128.030) e Espanha (79.788) são os cinco países da UE-25 com mais abortos, e representam 75% de todos os abortos da UE. Isto faz com que o aborto seja, juntamente ao câncer, a primeira causa de mortalidade em toda a Europa.
3. Evolução dos matrimônios
Em 24 anos (1980-2004) o número dos matrimônios na UE-25 caiu em 663.600 unidades, o que representa uma perda de 23,5%. Estes matrimônios dão-se sempre em idade mais alta. Em apenas 23 anos, os europeus retardaram em quase 5 anos a idade na qual começam a ter filhos.
Uma em cada três crianças nasce fora do matrimônio (31,6% na UE-25 e 32,8% na UE -15). Isto supõe que mais de 1.300.000 crianças nasçam fora do matrimônio, do momento em que em alguns países a metade dos filhos nascem fora do matrimônio: Suécia (55,4%), Dinamarca (45,5%), França (45,2%) e Reino Unido (42,3%).
Segundo o relatório a ruptura dos matrimônios atingiu cifras alarmantes na Europa. As rupturas aumentaram em 315.360 unidades em 25 anos (1980-2004); isto representa um aumento de 50%. Portugal, com um crescimento de 89%, é o país da UE-15 onde cresceu majoritariamente a ruptura do matrimônio nos últimos 10 anos (1995-2004), seguido pela Itália (62%) e pela Espanha (59%). Em somente 15 anos (1990-2004) romperam-se na Europa mais de 10 milhões de matrimônios (10.190.000), com mais de 16 milhões de crianças afetadas pela decisão de seus pais. Atualmente para cada dois matrimônios que se celebram na Europa, um se rompe.
4. Evolução das famílias
As casas européias serão sempre mais vazias, posto que contam cada vez menos com seus membros. A média está já abaixo e 2,5 membros. Eslovênia (3,1 membros), Polônia (3,1), Chipre (3), e Espanha (2,9) são os países com maior número de membros por família. Ao contrário Inglaterra (2,3), Finlândia (2,2), Dinamarca (2,2) e Alemanha (2,1) são os países com menor número de membros.
5. Evolução das políticas familiares
Enquanto alguns países como Alemanha, França, Irlanda, Noruega, Hungria, Luxemburgo, Eslovênia, Bélgica, Eslováquia, contam com Ministérios/Secretarias de Estado para a Família, a Comissão Européia não conta com um Comissariado para a Família, nem possui um Observatório da Família, nem um Livro Verde da Família. A Europa destina em média 28% do PIB para despesas sociais, e, ao contrário, destina à família somente 2,2% do PIB, o que representa 7,8% das despesas sociais (2003).
Estes dados não fazem senão demonstrar, como afirma Eduardo Hertfelder, que a Europa “esqueceu-se da família e meteu-se em políticas aberrantes contra a família”. Por isso, juntamente ao relatório, a IPF apresenta também uma série de propostas, entre as quais: (1) impulsionar o desenvolvimento de políticas públicas na perspectiva da família na Europa implantando uma verdadeira e eficaz política integral da família com caráter universal; (2) transformar a família em uma prioridade política; (3) garantir a todas as famílias igualdade de oportunidades e evitar discriminações por número de filhos, nível de renda, etc; (4) solicitar aos países membros da UE a criação de um Ministério para a Família a fim de desenvolver a proteção e a promoção da família na Europa; (5) desenvolver campanhas de sensibilização social para reavaliar a infância e a maternidade...
O texto integral do Relatório sobre a Família na União Européia:
Em espanhol: http://www.ipfe.org/Informe_Evolucion_Familia_Europa_2006_Espanol.pdf
Em inglês: http://www.ipfe.org/Report_Evolution_Family_in_Europe_2006.pdf
Em francês: http://www.ipfe.org/rapport_evolution_famille_europe_2006.pdf

A FAMÍLIA NA ÁFRICA

A família é universalmente reconhecida como o fundamento da sociedade, seja qual for a realidade sócio-cultural de cada continente. Na África, a evocação do tema da família assume uma conotação particularmente importante no sentido que cada homem é intrinsecamente e espiritualmente ligado à sua família, aos seus antepassados e aos seus descendentes, sejam estes vivos ou mortos.
Na tradição “fon” do Benim do Sul, por exemplo, a comunidade é entidade alargada. É uma comunidade física e espiritual independente da localização geográfica dos indivíduos que a compõem.
O ser humano, portanto, é antes de tudo um ser familiar. A criança não pertence assim aos seus pais diretos, mas à coletividade, da qual leva o nome e pela qual é criada. Desta identificação sumária da família, derivam os principais traços, os aspectos positivos e os negativos, e os problemas particulares da família na África.
Aspectos positivos
Antes de tudo diremos que a família na África é fundamentada sobre a aliança natural entre um homem e uma mulher. Não obstante a diversidade das culturas, esta apresenta traços característicos positivos (v. A. Quenum & K. Dabire Eglise famille de Dieu: chemim de fraternité em Afrique, Université Catholique de l’Afrique de l’Ouest):
a) o sentido da solidariedade, que se revela como uma característica fundamental da família. Esta, de fato, protege cada indivíduo do perigo de isolamento, compreendidas as dificuldades climáticas, de suicídio e de outras conseqüências provocadas pela solidão;
b) a responsabilidade coletiva: o pertencimento da criança à grande coletividade comporta que esta última seja responsável “comunitariamente” pela sua educação e pela sua integração, sobretudo através de ritos de iniciação por faixas de idade ou por famílias “clãs”, em alguns casos;
c) o sentido da divisão: o homem não deve ser definido por suas posses, mas pelo seu ser, sobretudo pelo seu senso de divisão, a sua generosidade e a sua preocupação pelo outro. Isto limita os riscos de um acúmulo de riquezas em benefício de minoria egoísta;
d) a pesquisa de consenso: associado ao sentido do diálogo e caracterizado pela discussão, busca evitar a cristalização dos antagonismos, ao fim de esconjurar a violência doméstica, a comunidade tem necessidade de paz para sobreviver;
e) o sentido da hospitalidade;
f) o sentido de honra e do crescimento da família para assegurar a sobrevivência.
Aspectos negativos
Os aspectos negativos da família africana derivam pela maior parte de seus aspectos positivos. Assim se evidencia o risco de sufocamento das iniciativas pessoais devido a esta demasiado grande responsabilidade coletiva. Portanto o sentido da divisão e da solidariedade pode gerar o risco do parasitismo. Espera-se tudo do outro, sobretudo os mais anciãos. Não se assumem as responsabilidades individuais, e assim a responsabilidade individual é ameaçada também pela escolha do estado de vida, na escolha profissional. A interferência dos pais e dos sogros na escolha do cônjuge e na vida conjugal é a sua ilustração perfeita. Esta representa uma ameaça para a identidade e a sobrevivência da família nuclear.
É preciso igualmente evidenciar uma pronunciada crença no fatalismo. Quase tudo é ligado ao destino, à influência dos defuntos e dos espíritos maléficos ou benéficos. Esta crença nos espíritos, em certas culturas gera a psicose da onipresença dos inimigos, sobretudo na própria família. Se uma criança tem diarréia, pensa-se logo ao sortilégio provocada por aquele ou aquela suspeita de bruxaria na família. Neste modo se cultiva um clima de desconfiança e de medo. “O verdadeiro inimigo não está fora, mas dentro da família”, ouve-se com freqüência.
Problemas particulares
O subdesenvolvimento e a miséria causam uma perda de identidade e antes de dignidade que provocam certa vulnerabilidade diante de solicitações externas em realidade nocivas à existência e a solidez da família, e prejudicam perigosamente o desenvolvimento. O etnocentrismo representa uma violação ao direito natural à liberdade de escolha do companheiro de vida. Algumas práticas tradicionais como a viuvez, despersonalizam a mulher e por vezes a coisificam. É preciso compreender que não é ainda reconhecida à mulher na sociedade africana toda a dignidade que lhe confere o projeto de clichês veiculados em abundância pelos meios de comunicação, cuja objetividade no tratamento da informação sobre a África é sempre um tanto equívoca.
R.p. Philippe Kinkpon
Vice-Presidente Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e Família em Cotonou (Benin)

A FAMÍLIA NA ÁSIA

Ao tema da família na Ásia foi dedicada dois anos atrás, em agosto de 2004, uma Assembléia Plenária da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas (FABC). O Instrumentum Laboris que guiou os trabalhos da 8ª Assembléia Plenária da FABC, celebrada entre 17 e 23 de agosto de 2004 em Taejeon, na Coréia do Sul, sobre o tema “A família asiática em direção a uma cultura da vida”, era articulada em três partes. A primeira parte do documento traçava o quadro da “Situação Pastoral da família na Ásia”, reportando tradições e valores da família asiática, as suas diversas variedades e formas, concentrando-se sobre os problemas da pobreza das famílias nas áreas urbanas e rurais.
A segunda parte era uma reflexão teológico-pastoral, segundo a Sagrada Escritura e os princípios da Doutrina Social da Igreja, que define a família “Santuário de amor e de vida, harmonia e comunhão”, concentrando-se sobre a vocação e missão da família no Terceiro milênio em uma era de globalização cultural e de grandes transformações sociais, diante à difusão, também na Ásia, de práticas como o aborto e o divórcio, que ameaçam a unidade das famílias.
A terceira parte era dedicada às “Recomendações Pastorais para o serviço às famílias”, que deveria concentrar-se não somente sobre a fase de formação pré-matrimonial, mas também sobre a evangelização das famílias, a educação à fé e à formação em eu interior, e sobre a particular atenção às famílias pobres.
Da grande reunião dos representantes das Igrejas asiáticas participaram 186 delegados, entre os quais 6 cardeais, 25 arcebispos, 60 bispos, 29 sacerdotes, 3 religiosos, 8 religiosas, 55 leigos, homens e mulheres. Há “grandes sinais de esperança” para as famílias asiáticas que vivem e testemunham os valores cristãos: é aquilo que emergiu dos trabalhos da Assembléia Plenária. Na conclusão dos trabalhos os Bispos, notando o contexto em que as famílias cristãs vivem na Ásia, em condições de exígua minoria religiosa, sublinharam como estas são capazes de testemunhar valores tais como a veneração pela vida, a hospitalidade, o respeito pelos anciãos, o amor pelos filhos.
Na mensagem conclusiva os bispos, não escondendo as dificuldades que a família deve enfrentar no continente asiático, sempre mais marcado pela globalização cultura, pelo individualismo, materialismo e laicismo, apontam que somente uma cultura da vida inspirada nos valores do reino de Deus pregado por Jesus, pode promover o bem das famílias. A cultura da vida significa “a proteção da vida humana em todas as suas dimensões, da concepção à morte” e o “primado da dignidade humana sobre a eficiência e a economia”.
Durante os trabalhos da assembléia, os delegados examinaram e discutiram o Instrumentum laboris que elencava alguns problemas que afligem muitas famílias asiáticas: a pobreza, as migrações, a exploração das mulheres e das crianças, os problemas da globalização e do secularismo, os das culturas tradicionais.
Entre os desafios assinalados pelo documento, consta o crescimento na Ásia de uma cultura contra a família, a falta de respeito pela vida, o alto número de divórcios. A Igreja quer responder a estes desafios com a visão da famílias.
Os grupos de trabalho eram organizados com base à proveniência regional e lingüística dos delegados. Naquele dedicado ao “diálogo inter-religioso e família” houve testemunhos de casais “mistos” (do ponto de vista confessional), dado que os matrimônios entre pessoas de diferentes religiões são sempre mais um desafio pastoral para a Igreja na Ásia.
Os bispos asiáticos receberam também a visita de mons. Wilton Gregory, Presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Ele notou que, não obstante os diversos problemas que vivem as famílias asiáticas imigradas na América, “estes porém são capazes de um testemunho luminoso de unidade e concórdia, de amor e dedicação”.
“A Igreja católica e as sociedades asiáticas e africanas devem apresentar com força o matrimônio e a família como algo precioso. A família cristã, vista com olhos cristãos como “Igreja doméstica”, deveria ser um lugar em que a verdade do Evangelho é a norma de vida e o dom que os membros da família fazem à intera comunidade. (...) A família não é somente objeto de cuidados pastorais da Igreja, mas também o agente de evangelização mais eficaz”. Assim declarou S.E. o Arcebispo Robert Sarah, Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, em discurso pronunciado na Assembléia Plenária (FABC). Na sua palestra Mons. Sarah sublinhou que a Congregação para a Evangelização valoriza muito o trabalho de evangelização que os Bispos asiáticos estão levando adiante no vasto continente, relembrando que “a missão da Igreja na Ásia não foi outra que aquela que Cristo confiou-lhe, isto é, levar a mensagem de salvação do Evangelho a todos os homens de boa vontade, a mensagem de paz, amor e fraternidade especialmente nestes tempos de ódio e violência”.
Constatando o crescimento da dimensão materialista e secular no mundo contemporâneo, Mons. Sarah delineou a tarefa da Igreja relembrando a imagem de uma pintura no interior de Basílica de S. Francisco em Assis: aquela do Santo que sustenta a Igreja de S. Giovanni in Laterano sobre suas costas. “Como S. Francisco, somo chamados a fazer a nossa parte no sustento do mundo. Esta é a nossa missão, e a grandeza de um cristão reside nesta missão”, disse o Arecebispo. “Como São Francisco, podemos evitar o colapso deste mundo sustentando-o sobre as nossas costas, vivendo em Deus e com Deus e permitindo a Ele de preenchê-lo com o Seu amor”.
Relembrando que a missão do cristão é essencialmente “uma missão de amor”, Mons. Sarah disse que “não há amor sem sofrimento” e depois indicou aos bispos asiáticos duas figuras modelo para o seu caminho: Santa Teresa do Menino Jesus, que descobriu o Pai como “ser que tem um amor incondicionado por nós”, e Madre Teresa de Calcutá, que tinha “o amor como fundamento da sua missão evangelizadora”.
Mons. Sarah tocou depois o tema do processo cultural, que definiu “um complexo e contínuo processo que envolve a totalidade da vida de uma pessoa. É o processo que liga Deus à vida, a uma dada cultura e a história humana. Neste sentido o processo cultural é visto como o maior desafio presente e futuro à Igreja”. “O processo cultural – continuou – é uma irrupção, uma epifania do Senhor no coração de um povo e de uma cultura. (...) essa transforma o coração do homem na sua postura em relação a Deus e aos seus irmãos, para amá-los e servi-los totalmente, sem calcular os custos”. Por isto, disse, “o processo cultural é um desafio à santidade”.
“Esta experiência de um Deus que é santo e que ama – concluiu o Secretário – deve começar pelas famílias cristãs, que devem ser consideradas um ponto de partida de cada experiência humana e cristã”. “Quando uma família cristã é um sinal crível de sua vocação e missão essencial, proclamando através de sua vida o Evangelho do amor e contribuindo ao desenvolvimento de uma civilização do amor”.
Texto da Mensagem dos Bispos na conclusão da Assembléia
http://www.evangelizatio.org/portale/adgentes/chieselocali/chieselocali.php?id=49

A FAMÍLIA NO MÉXICO

Esta anotação se baseia sobre alguns dados recolhidos no Diagnóstico da Família Mexicana, apresentado pelo Sistema Nacional para o Desenvolvimento Integral da Família, DIF, órgão governativo encarregado da área da família no México, com o qual o Instituto Superior de Estudos para a Família, Seção Mexicana do Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre o Matrimônio e Família, trabalhou em diversas ocasiões.
Na apresentação da Numeralia de la Família em México a família é apresentada como “o primeiro grau para a construção do tecido social”, e são fornecidos alguns dados importantes sobre a evolução e sobre a sua situação atual. Reportamos aqui a nossa interpretação destes dados numéricos.
1. Famílias nucleares e Famílias extensas
Das 20.636.169 famílias hoje existentes no nosso país, 47,1% corresponde a famílias nucleares e 45,9% a famílias extensas, entendendo-se per família extensa aquela formada por uma família nuclear que vive com outros parentes sob o mesmo teto.
Uma primeira reflexão nos leva a crer que um número relevante de casais não têm uma casa própria (adquirida ou alugada) e são obrigados a viver com a sua família extensa. Esta situação em particular é pouco favorável, porque impede o justo crescimento e o desenvolvimento familiar. Devemos de todo modo compreender que se trata de uma situação que se dá por necessidade mais que por vontade.
Há um provérbio que diz “quem se casa quer casa”, porque é claro que quem inicia uma nova família deve abandonar a própria para levar adiante com o cônjuge um novo projeto de vida, e que é preciso fazê-lo, nos limites do possível, a sós. Na maioria dos casos a intromissão dos parentes nos conflitos dos casais – que, é preciso dizê-lo, são necessários para a consolidação do casal e para a sua mútua compreensão – é de pouca ajuda na resolução dos problemas.
Em muitas destas famílias extensas há ainda problemas mais graves como a promiscuidade, o abuso sexual, o alcoolismo, a violência, os maltratos, etc., que, somados às problemáticas típicas do casal, constituem um terreno particularmente fértil a fim de que os filhos cresçam com grandes carências e dificuldades, sejam fáceis presas da droga e tornem-se jovens delinqüentes.
Uma solução de boa parte destes problemas é promover meios de modo que as famílias possam ter uma habitação própria, e isto se reveste de particular interesse social, porque é certo que as famílias nucleares oferecem melhores oportunidades de crescimento e desenvolvimento aos seus membros, e a coisa melhor para cada família é ter a própria casa.

2. Famílias Monoparentais e Biparentais
Um outro dado de grande interesse fornecido pela Numeralia de la Família em México diz respeito ao número de famílias nucleares monoparentais, que são 2.064.812 sobre um total de 15.294.905 famílias nucleares. Ou seja, 13,5% das famílias nucleares têm somente pai ou somente mãe, mesmo se em geral neste grupo falta o pai.
Mesmo esta situação representa um cenário difícil para a educação dos filhos, porque é importante que este posam contar com a figura paterna e materna, e que aprendam, com o exemplo dos pais a convivência própria do amor conjugal, a compreensão, a generosidade, a tolerância, a atenção e o respeito. A primeira e melhor escola para tornar-se pai e mãe é a própria família.
Um dado interessante desta estatística é que, mesmo se em menor proporção, existem famílias monoparentais onde o chefe de família é um homem, ou seja, a mãe falta por morte ou abandono. Nestas circunstâncias a educação é ainda mais difícil porque se presume que o pai esteja empenhado sobretudo no trabalho fora de casa e tenha pouco tempo a dedicar aos filhos. Ao contrário, quando o chefe de família é a mãe, em geral desenvolve trabalhos em meio período ou atividades que se podem realizar em casa.
É exemplar como muitas mães sós nestas circunstâncias tenham levado adiante famílias numerosas, infundindo nos seus filhos um exemplo de amor que os leva a serem pessoas de bem, mesmo se, como já se disse, a carência da figura paterna pode ter um impacto na formação da pessoa.
Para tudo o quanto exposto é desejável que a família permaneça unida pelos pais, porque somente assim é possível oferecer aos filhos a possibilidade de crescer e desenvolver-se de modo adequado, salvo em caso, obviamente de morte de um dos cônjuges, e então pode ser justo que o cônjuge que tenha sobrevivido busque apoio na família de origem ou se case novamente.

3. Número de filhos
Este é um argumento muito interessante e não obstante as médias estatísticas, seguramente há uma diminuição no número de filhos da família mexicana. É o caso das famílias nucleares que têm uma média de 2,6 filhos e das famílias monoparentais que têm uma média de 2,2 filhos.
Estes dados podem sugerir que as famílias de hoje em dia têm, na maior parte, entre 2 ou 3 filhos e que no caso das famílias monoparentais onde o chefe de família é a mãe, estes filhos podem ser de um só pai ou mãe ou de diversos pais.
Aqui são necessárias 2 reflexões. A primeira: é verdade que um menor número de filhos significa um ônus econômico menor para os pais, mas é do mesmo modo verdadeiro que se corre o risco de uma super proteção dos filhos quando são poucos, ainda mais se se trata de um filho único, ou ainda de dois, sendo um menino e uma menina, freqüentemente tratado como se fossem filhos únicos. A segunda reflexão nos leva ao tema da mãe nubente, separada ou divorciada, que, por vezes, na busca de uma pessoa que lhe dê amor, proteção e companhia, se encontra na situação de uma nova gravidez, tornando evidente o seu desejo de formalizar um relacionamento e freqüentemente sofre o conseqüente abandono por parte do novo companheiro.
A realidade é que não necessariamente um menor número de filhos comporta um benefício, porque existem famílias que, embora tendo a possibilidade de manter um número maior de filhos, não os há, por uma escolha pessoal, justificada ou não, mas que não diz respeito à própria situação econômica. De outra parte a realidade nos mostra que famílias monoparentais, sobretudo aquelas que têm a mãe como chefe de família, são muito vulneráveis e sujeitas a outros problemas mais graves e complexos, como no caso referido, onde em muitas ocasiões a solução de um problema como uma gravidez não desejada é o aborto, que minará em modo grave a consciência da mulher e influirá pesadamente sobre o ambiente familiar.
O número de filhos que um casal deve ter diz cabe a eles decidirem, todavia é importante sublinhar o papel desempenhado nesta decisão pela própria consciência. De outra parte, as mães nubentes, têm todo o direito de formar uma família, e oferecer aos seus filhos a possibilidade de ter um lar e contar com uma figura paterna em casa, e poder elas mesmas contarem com uma pessoa com a qual dividir o seu projeto de vida. Seguramente é necessário trabalhar para prevenir esta condição, seguramente é necessário trabalhar também para que esta condição seja aceita no nosso contexto social e na caridade para com quem a vive.

4. Casais casados e casais de fato
Sobre este ponto se encontra uma proporção de 4 para 1. Ou seja, a cada quatro casais, um vive uma união de fato, entendendo-se com isto que a união não tem vínculos legais. A proporção é alta e aumenta a cada ano, ou seja, a cada ano surgem mais casais que decidem conviver sem casar-se, enquanto o número de matrimônios cresce 1% ao ano, ou seja muito menos que a população (mais ou menos a metade).
De quanto se disse somos levados a refletir sobre o fato de que uma em cada cinco pessoas preferem não se comprometer em um relacionamento, talvez porque pensam que no caso de as coisas irem mal podem evitar o tedioso processo de divórcio, ou ainda porque sabem já que o relacionamento não durará muito e preferem esta condição para poder mudar o parceiro sem problemas.
De todo modo, aquilo que prevalece, de fundo, é o egoísmo e a falta de empenho, mesmo se em alguns casos existe também o medo, o temor, sobretudo nos filhos dos pais separados ou divorciados.
Esta situação tem como corolário que diante da incerteza sobre o futuro do relacionamento, estes casais não geram filhos, ou ao menos buscam não fazê-lo, porque sabem que a chegada de um filho pode causar a separação ou a ruptura, sendo o filho vítima desta triste situação. Porém há também situações em que a chegada de um filho motiva positivamente o casal a empenhar-se e a formalizar o relacionamento, freqüentemente com sucesso.
Certamente o medo do compromisso é um fato determinante, e, como se disse, tem também a ver com o egoísmo. Por isso é necessário que sejam as famílias mesmas a dar aos seus filhos os valores fundamentais que levam ao altruísmo e a ver o matrimônio como qualquer coisa de natural – porque o é –; que o compromisso de unir-se com uma outra pessoa não seja outra coisa que a conseqüência da própria maturidade; e que tenham uma idéia precisa do significado do matrimônio.

5. Matrimônios e divórcios
Aqui encontramos dados muito interessantes. Avalia-se que a cada 100 matrimônios ocorrem 7 divórcios; todavia para cada divórcio há o triplo de casais separados e esta cifra está em crescimento. Ou seja, 28 a cada 100 casais são divorciadas ou separadas. Esta cifra é alarmante.
Hoje em dia os casais se casam mais tarde do que antes, em média próximo aos 25 anos, e aqueles que se divorciam permanecem juntos em média por um período de 10 anos, e isto subentende uma certa capacidade de tolerância e compreensão, que porém não é suficiente para conservar o vínculo.
Há um outro dado importante: o nível de educação de quem se divorcia é superior ao da média da população, e isto indica que a um nível maior de instrução há um maior conhecimento desta figura jurídica e um maior recurso a essa.
O divórcio tornou-se algo socialmente aceito, enquanto antes não o era muito, e vindo a faltar a pressão social é praticado com mais freqüência. De outra parte, sobre o plano religioso, católico, como no caso da maior parte dos mexicanos, a anulação do sacramento do matrimônio é hoje mais requerida com relação ao passado, mesmo se se trata de um número não comparável ao divórcio e muito menos às separações. Em síntese, o divórcio e a separação crescem dia após dia. E não somente são aceitos, mas mesmos justificados, ao passo que na maior parte dos casos derivam somente de uma falta de conhecimento e de compreensão do significado do matrimônio. É curioso que esta ignorância seja radicada em um mais alto nível de instrução, como se isto reforçasse a cultura do egoísmo, o materialismo, o hedonismo, deixando o conhecimento e a promoção dos valores universais e fundamentais que são pouco ensinados e que são aqueles que devem sustentar a pessoa, o casal, a família e a sociedade.

Conclusão
Há muitos outros dados que poderíamos analisar para obter uma reflexão capaz de nos ajudar a compreender a dinâmica social em torno ao casal e à família no México, todavia uma coisa deve restar clara: seguramente a família é o primeiro grau na construção do tecido social, e a sua função e insubstituível.
A responsabilidade de manter unida a família é de toda a sociedade, do estado, das igrejas de todos os credos, das instituições educativas em todos os níveis, dos meios de comunicação, etc; em síntese, de todos os setores sociais em geral. Mas, de modo particular, a união da família é de responsabilidade daqueles indivíduos que assumiram a difícil, mas gratificante incumbência de formar uma família, dos homens e das mulheres que decidiram ajudar-se e formar-se para compreender o verdadeiro sentido do matrimônio e defender assim o valor da família.
Eduardo Zainos García Cano
Diretor Nacional do Instituto Superior para a Família “João Paulo II” na Cidade do México

FAMÍLIAS EM MISSÃO
As Catequeses propostas pelas POM da Espanha para solicitar a reflexão e o empenho missionário das famílias em vista do Encontro Mundial de Valência
O Conselho Pastoral das Pontifícias Obras Missionárias (POM) da Espanha, por ocasião do V Encontro Mundial das Famílias que se celebrará em Valência de 1º a 9º de julho, decidiu ajudar a reflexão sobre o tema da “Família Missionária”. Por isto foram publicadas algumas catequeses sobre este argumento. Parte-se da constatação que muitas famílias espanholas, de diversos modos, dedicam-se ao suporte e à cooperação missionária, e, portanto, ao trabalho missionário da Igreja na Espanha depende em boa medida do seu esforço e da sua colaboração. Por isso as POM pretendem prestar maior atenção às “famílias missionárias”, de modo que o seu trabalho seja mais conhecido e muitas outras possam unir-se a esta missão.
Principais destinatários das catequeses publicadas pelas POM são as famílias que cooperam já ativamente na missão da Igreja através de grupos de animação missionária, as famílias dos missionários e missionárias que ajudam aqueles que partiram em missão, e as famílias interessadas na missão universal da Igreja que desejam conhecer mais sta realidade e buscam o modo de cooperar segundo as próprias possibilidades.
Os temas tratados nas catequeses são os seguintes: “A dimensão missionária da família”, que tem o objetivo de descobrir como a responsabilidade missionária resida na própria família cristã; “O suporte e a cooperação missionária da família” onde se apresentam os modelos para um verdadeiro suporte missionário das famílias, buscando elevá-las à consciência da própria responsabilidade missionária e de seu compromisso para com a missão da Igreja, segundo a própria condição de vida; “A família dos missionários” que tem por objeto tomar consciência da importância da família para as vocações e para a atividade missionária. Enfim propõe-se sugestões para a celebração da Eucaristia com as famílias missionárias. Cada uma das catequeses é estruturada em cinco partes: (1) apresentação e objetivos; (2) testemunho missionário; (3) desenvolvimento expositivo do tema, iluminando-o a partir dos ensinamentos bíblicos, litúrgicos, doutrinais, etc., da Igreja; (4) compromisso missionário com propostas concretas para viver a dimensão missionária na família; e, enfim, (5) uma oração que conclui o tema.
Tema 1: a dimensão missionária da família
Este tema busca aprofundar a dimensão missionária da família, a fim de evidenciar que a responsabilidade missionária pertence ao ser da família cristã, segundo as palavras da Encíclica Redemptoris Missio: “A família cristã tem também parte na missão universal da Igreja... a sua ação evangelizadora ultrapassa os limites do quadro familiar, tendo uma dimensão apostólica... A cooperação na missão é sinal de maturidade, de abertura e de autenticidade na fá. Uma família cristã na qual – cada um de seus membros e essa como família – vive-se a fé com maturidade é uma família que sente a missão universal da Igreja como algo de próprio e colabora com ela na medida de suas possibilidades” (cf. RM 49).
A família é considerada pela Igreja como uma “pequena igreja doméstica”, isto é, uma comunidade evangelizadora, “um espaço onde o Evangelho é transmitido e de onde isto se irradia e onde, conscientes desta missão, todos os membros evangelizam e são evangelizados” (Evangelii Nuntiandi 71b).
A família cristã é chamada a viver com responsabilidade a sua inserção na Igreja e assumir a parte que lhe corresponde na evangelização do mundo. O modo como realizar esta missão é próprio e original porque responde ao seu ser como uma comunidade intima de vida e amor (cf. FC 50).
Dada a especificidade da sua missão o testemunho da família cristã no mundo tem uma importância capital. Através da experiência da vida familiar, os esposos juntamente aos seus filhos, fazem presente a Igreja e a mensagem do Evangelho nos ambientes quotidianos nos quais encontram-se os membros das outras famílias. A família é chamada a fazer, generosamente, “partícipes outras famílias de suas riquezas espirituais” (GS 48). A experiência do amor e a fidelidade dos cônjuges, a unidade e a solidariedade na família, são uma presença viva de Cristo em meio às circunstâncias quotidianas nas quais se encontra a família.
A potência evangelizadora e missionária que possui este testemunho das famílias cristãs é inimaginável. Quando uma família cristã faz da sua vida familiar um testemunho claro e consciente da fé em Cristo, cria profundos pontos de interrogação (cf. EM 21) que movem muitos a interessarem-se sobre a verdade e sobre Cristo.
A missão evangelizadora da família é, como a da Igreja, de caráter universal. A família não pode fechar-se sobre si mesma em nenhum sentido, nem mesmo no sentido de concentrar-se exclusivamente sobre a educação cristã e sobre a evangelização de seus membros.
A família desdobra o seu potencial missionário em dois aspectos complementares:
- Dentro do âmbito familiar ou mais restrito. Os cristãos são chamados a buscar com o seu testemunho de atrair à fé os parentes que não a têm ou que não a vivem com coerência.
- Fora do âmbito familiar. O testemunho ilumina o caminho de fé de outras famílias e com o seu empenho apostólico mostra o modo de viver a fé como família.
Além disso há hoje em dia numerosas famílias que se dedicam à atividade missionária fora das fronteiras do próprio país,nos países de missão Ad Gentes.
Compromisso missionário
A família é igreja doméstica que:
- Transmite a fé: os pais cristãos assumem o compromisso de transmitir a fé aos seus filhos.
- Introduz à oração e aos sacramentos: os pais são os primeiros a ensinar e acompanhar os filhos na oração e na participação sacramental.
- Introduz em um estilo de vida evangélico: são os pais que, com a palavra e o testemunho, ajudam a viver o estilo de vida de Jesus.
- Fomenta o compromisso missionário: a família é a base ideal a fim que a vida cristã se expanda a outras pessoas e famílias.
Tema 2: a animação e a cooperação missionária da família
Neste capítulo dão-se modelos para um verdadeiro suporte missionário das famílias e busca tomar consciência da responsabilidade missionária que têm e de seu compromisso para com a missão da Igreja segundo as próprias condições de vida.
O suporte missionário da família baseia-se sobre princípios comuns da ação missionária: a seqüela de Cristo, a experiência da própria vocação e carisma, a comunhão eclesial e a disponibilidade para a evangelização. O suporte missionário parte logicamente da chamada que Cristo faz a todos os seus discípulos à sua seqüela. A família, como pequena igreja doméstica, é convidada a seguir Jesus nos seus critérios e no seu modo de vida, assim como se exprime no Evangelho. Do encontro com Cristo e de sua seqüela a família pode reconhecer a sua vocação eclesial e a vocação missionária.
A animação missionária da família ajuda a amar profundamente a própria realidade eclesial; evangeliza-se pela família e como família. Por esta razão a família deve radicar-se profundamente na própria realidade e viver a vocação à qual foi chamada por Deus. Por isso é também fundamental viver a comunhão eclesial como parte essencial da própria identidade, com tudo aquilo que implica: a inserção vital na comunidade eclesial e a comunhão das diversas vocações, carismas e ministérios.
Enfim, a animação missionária suscita a disponibilidade para a evangelização, sobretudo dos mais pobres – dentro e fora da própria comunidade – isto é, aqueles que não têm fé.
Um elemento específico do suporte e da cooperação missionária das famílias e a iniciação das crianças e dos jovens ao compromisso apostólico. Na família aprende-se a viver com o espírito aberto aos outros, consciente dos dons que foram recebidos e da necessidade de compartilhá-los com os outros.
As famílias contribuem à missão com a oração para os missionários e para a evangelização das pessoas e dos povos. O fazem também com a contribuição material: material escolástico, medicinas, contribuição econômica, etc., e para outras necessidades da missão. Enfim, emerge a cooperação pessoal: a consagração do próprio tempo e do próprio esforço às atividades de animação e formação missionária, de acolhimento dos missionários, de colaboração com a Delegação Diocesana das Missões, as instituições missionárias, etc.
Compromisso missionário
O suporte e cooperação missionária das famílias abraça muitos âmbitos e ações.
Suporte missionário
- Informar-se sobre a situação da missão no mundo, especialmente sobre temas relativos à família, à infância e à juventude. Por isto as revistas missionárias oferecem uma grande ajuda.
- Formar-se no espírito missionário da Igreja, usando os meios que são oferecidos para tanto: cursos, materiais de formação, de suporte missionário, jornadas de formação, etc.
- Participar às jornadas missionárias, das POM, das Conferências Episcopais, diocesanas, sensibilizando outras famílias.
- Colaboração na animação missionária continua que se leva a termo na paróquia, na diocese, etc., através de grupos missionários, atividades, campanhas, iniciativas de formação missionária...
Iniciativa ao compromisso apostólico:
- Servir prioritariamente a educação à fé dos seus membros: o batismo, a catequese, a vida litúrgica e sacramental, a oração pessoal e comunitária, o compromisso apostólico...
- Acompanhar os filhos na maturação da fé e da vida cristã e no discernimento da vocação eclesial (matrimônio, sacerdócio, vida consagrada).
- Colaborar com grupos cristãos juvenis de modo que conheçam a aprofundem a dimensão missionária na formação e no compromisso cristão.
Cooperação missionária
- Cooperar espiritualmente e economicamente nas Jornadas Missionárias da Igreja.
- Colaborar com a missão da Igreja, levando a fé àqueles que não conhecem Cristo e aos distantes da Igreja, tanto àqueles que estão próximos à família (familiares, parentes, amigos, etc.) como aos mais distantes, especialmente do mundo familiar e juvenil.
- Empenhar-se especialmente nas atividades realizadas pelas instituições missionárias, da Delegação Diocesana das Missões e das POM, pelo seu caráter universal e pontifício.
Tema 3: a família dos missionários
Este tema tem por objetivo trazer à consciência a importância das famílias para as vocações e para as atividades missionárias e, além de reconhecer o seu trabalho, pretende mostrar como cooperar com tais atividades e, através destas, com os missionários. Sem dúvida a vocação missionária, como qualquer outra vocação eclesial, desenvolve-se e se cultiva nas famílias cristãs. Ainda que a vocação seja um dom do Espírito Santo à pessoa, é evidente que a influência sobre a chamada que pode exercitar o ambiente, sobretudo familiar, é muito grande.
Os pais, portanto, têm a obrigação de educar de modo cristão os filhos nos valores necessários de modo que compreendam a dimensão universal do amor de Deus (cf. FC 54). Deste modo estarão fixando as bases de modo que os filhos sejam capazes de responder à vocação missionária se Deus os chamar. Se isto ocorre a família cristã, como pequena igreja doméstica, é a ajuda mais próxima que os filhos podem encontrar durante o discernimento da vocação e a sua maturação.
A família cristã é chamada a acolher a vocação de alguns membros como um dom de Deus, e a ajudar com generosidade a resposta àquilo que Deus pede, com liberdade e com alegria. Além disso as famílias devem considerar que este é um dom de Deus antes primeiro para a pessoa chamada, mas também para toda a família ou a comunidade cristã e, em última instância, para toda a Igreja. As famílias dos missionários são logicamente unidas estreitamente aos seus membros missionários.
Estas são formalmente as primeiras a oferecer o seu apoio e o seu afeto para ajudá-las a perseverar na vocação e na missão a que Deus lhes chamou e a Igreja lhes envia. Muitas vezes as famílias dos missionários prestam também, na medida de suas possibilidades, apoio material para as atividades dos missionários. As mesmas famílias dos missionários tornam-se missionárias quando difundem o espírito missionário na comunidade cristã e participam ao suporte e à cooperação missionária desta. Não raramente chegam mesmo a viajar para visitar os missionários, conhecer de perto o trabalho e cooperar pessoalmente consigo na missão que levam adiante.
Compromisso missionário
Três chaves importantes para maturar o empenho centrando a atenção na família dos missionários:
1. A cooperação das famílias cristãs à missão universal da Igreja começa com o discernimento da vocação dos filhos:
- Criar um ambiente de oração, serviço ao próximo e participação às atividades eclesiais que favoreça o nascimento e o desenvolvimento das vocações na família.
- Informar-se e conhecer a vocação missionária em geral, como participar da Jornada de “Vocações Nativas” da Pontifícia Obra de São Pedro Apostolo, para conhecer as necessidades das Igrejas em missão.
2. Ajudar diretamente as famílias dos missionários com:
- A oração para os missionários conhecidos e suas famílias.
- A gratidão e o apoio da comunidade eclesial às famílias dos missionários, sobretudo nos momentos em que mais têm necessidade: doença, morte de um parente, etc.; ou no momento de aceitar a vocação de um membro.
- A colaboração com a Delegação Diocesana das Missões no trabalho de contato com os missionários das dioceses e no acolhimento daqueles retornados.
3. Cooperar com a missão universal da Igreja através das famílias dos missionários para:
- Conhecer as notícias dos missionários e do seu trabalho missionário.
- Colaborar economicamente com os missionários buscando além disso a aproximação de pessoas, famílias, comunidades cristãs, etc., para a missão.
- Ajudar as famílias dos missionários para uma cooperação momentânea na própria missão.

TESTEMUNHOS DE FAMÍLIAS MISSIONÁRIAS
MOVIMENTO DOS FOCOLARI
As primeiras experiências de “famílias missionárias” do Movimento dos Focolari remontam a 1959. As famílias que fizeram esta experiência até agora são cerca de 250. As famílias se transferem em relação às exigências da Obra pelo qual pode acontecer que uma família esteja por alguns anos em um local e depois retorne ao seu país de origem ou se transfira a um outro local; outras, ao contrário, permanecem definitivamente onde são transferidas. Algumas transferências ocorrem de uma nação ou outra ou de um continente ao outro. Uma das primeiras transferências com duração de 4 anos ocorreu da Itália à África (Família Calò). Atualmente são muito freqüentes viagens da família por um período variável de poucos dias a aproximadamente um mês.
As famílias, antes de partir, recebem uma formação seja pessoal nos respectivos Focolari, seja como casal por parte da secretaria de Famílias Novas. A formação diz respeito à própria vida espiritual, à consciência dos documentos da Igreja e à vida de família segundo a espiritualidade da unidade, que ajuda a família a adaptar-se culturalmente à nova realidade social e eclesial. São fornecidas também informações necessárias para os cuidados com a saúde e para a adaptação ao novo ambiente geográfico.
As famílias focolare são por vocação disponíveis à transferência. Antes de tudo são avaliadas as exigências da Obra seja na própria zona seja na solicitante. Avaliam-se depois as características que deve ter uma dada família para andar naquele determinado local (conhecimento da língua, tipo de trabalho, idade, saúde, etc.). Embora tendo estas características não todas as famílias são, porém, capazes de transferir-se (filhos adolescentes, pais anciãos, problemas de trabalho, etc.). A coordenação se dá através de um setor específico presente na Secretaria Central de Famílias Novas.
Andrea e Fiorella: da Itália missionários em Honduras
De si mesmos Andrea e Fiorella dizem ter vivido um namoro “particular”. Veneziana ela, hoje com 50 anos, e comasco ele, com 53, conheceram-se e apaixonaram-se nos anos setenta. Andrea não acreditava em Deus e Fiorella, que vinha de uma família cristã, atravessava um daqueles períodos de crescimento em que, buscando o próprio caminho, recusava tudo aquilo que lhe era proposto ou que lhe parecia imposto. De resto eram anos de fermento cultural e de mudanças sociais, nos quais sobre os rastros das contestações nasciam as afirmações de novos direitos, redesenhavam-se a sociedade e os relacionamentos entre as pessoas sobre a base da afirmação das novas liberdades individuais. Assim os primeiros anos de namoro foram vividos sem que pusessem a si mesmos tantos problemas: estavam juntos e tanto bastava, não se colocavam perguntas sobre o futuro ou o significado de um relacionamento de casal; defendiam a própria liberdade.
Mas depois Fiorella encontrou os Focolarinos, e tudo mudou. «Estas pessoas fizeram-me reencontrar o Evangelho, de conseqüência repensei a minha vida e fiz escolhas, de qualquer modo impondo-as também a Andrea, que não estava fazendo o mesmo percurso que eu». Por exemplo em relação aos relacionamentos prematrimoniais: ela estava convencida do fato de que era necessário abandoná-los, para reencontrar um sentido mais profundo e mais projetado ao futuro em seu amor. Da sua parte Andrea foi sempre muito disponível: «Para mim foi um discernimento», explica, «porque naquela época compreendi que a amava realmente, a ponto de aceitar que ela tivesse amadurecido as próprias idéias, que a levavam a questionar-me, a dividir escolhas que por minha conta não teria feito jamais». De outra parte, acrescenta Fiorella, «sentia que o nosso amor deveria recomeçar desta nova presença na minha vida: Deus».
Dito deste modo pode parecer um percurso simples e linear, mas de fato não o foi. Um momento fundamental de crise (mas também um ponto decisivo no caminho de crescimento) foi quando ela acreditou estar grávida, e ele considerou óbvio que aquela criança não deveria nascer. Fiorella ao contrário sentiu que justamente a busca de liberdade que até aquele momento a havia guiado, impunha-lhe ter o bebê, ao custo de abandoná-lo. Na realidade não era grávida, e quando se reencontraram, após um pouco de tempo, colocaram o seu relacionamento sobre novas bases. «Aceitei até mesmo casar-me na Igreja...», relembra Andrea. Após três anos de matrimônio, também ele reencontrou Deus. Brincando, hoje dizem que é culpa do fato que Fiorella não tinha a carteira de motorista, e, portanto, freqüentemente ele devia acompanhá-la às reuniões e aos encontros (mesmo se ele não participava: preferia esperá-la fora). O fato é que aceitou um diálogo sempre mais agudo e pôs em crise as próprias certezas sobre o fato que Deus, se existia, estava errado...
Sempre mais, portanto, a vida de casal construía-se sobre a consciência da presença do amor de Deus em meio a eles, e esta consciência fazia-se também ação concreta: hospedaram uma menina anoréxica, receberam para cuidar uma menina de 12 anos que depois descobriu-se estar grávida, e assim por diante...
Recontar o percurso interior e o caminho de fé de Andrea e Fiorella pode parecer uma digressão, mas na verdade a escolha de oferecer a sua disponibilidade ao Movimento para uma eventual transferência nasce desta conversão. O encontro com as famílias-focolare (assim são chamadas, no Movimento, aqueles que estão dispostos a deslocar-se para habitar onde a Obra considera oportuna a presença de uma família para ajudar as comunidades nascentes) despertou em Fiorella o seu desejo juvenil de partir a outros países, e fascinou Andrea: assim deram a sua disponibilidade de partir. «Mas éramos um pouco como crianças pequenas, que dizem “quando crescer quero ser piloto de avião”. Talvez não estivéssemos muito conscientes daquilo que estávamos fazendo...», dizem hoje, repensando aquele momento.
A sua disponibilidade, de todo modo, não foi acolhida de pronto, e a vida seguia adiante. De outra parte, enquanto isso, Andrea havia construído uma carreira, tornando-se diretor de uma empresa na qual trabalhava; dois filhos haviam nascido, tinham quase esquecido de ter dado a disponibilidade. Assim, quando após quatro anos a proposta de partir concretizou-se, chegou improvisamente, tanto que tinham acabado de realizar uma reforma em sua casa. O tempo transcorrido, de todo modo, não foi inútil: o seu caminho de fé se havia reforçado, tanto que cada um deles havia pedido de entrar e fazer parte da comunidade dos consagrados (no movimento dos Focolari esta possibilidade é contemplada também para os casados, na forma adequada ao seu estado, e a escolha é de toda forma individual, não do casal).
Naquelas condições tiveram de preparar os filhos: Maria Giovanna tinha oito anos, e Ivan cinco, e não era de fato óbvio que tivessem vontade de partir (o terceiro, Juan Diego, nasceria em Honduras). «Foi um período intenso», relembra Fiorella, «marcado também da dor. Minha mãe estava doente, e justamente ao fim de uma longa noite de vigília telefonaram-nos para dizer que uma pessoa do movimento havia colocado à nossa disposição uma casa lá. Parecia um absurdo; repensei a passagem do Evangelho, “... mas tu vem e segue-me... deixa que os mortos”, e improvisamente pareceu-me aplicável ao pé da letra». Dois dias depois a mãe morreu, e seis meses depois os Turatti partiram para Tegucigalpa, a capital de Honduras. Mas se se lhes pergunta que coisa se propunham realizar, respondem que não sabiam. Não tinham um projeto preciso, mas somente uma motivação: «movia-nos o mesmo princípio que nos moveu quando começamos a ter uma consciência de fé: amar os outros, difundir aquele amor que Jesus gera em meio a nós», explica Andrea.
Também eles, como todas s famílias tinham diante de si problemas práticos e incógnitas. Para Andrea tratava-se de deixar o trabalho, e era um bom trabalho, e mesmo seus colegas tinham já começado a fazer brincadeiras pela escolha que estava fazendo. O apartamento foi alugado a uma família estrangeira que tinha absolutamente necessidade de uma casa (de outra parte a idéia era partir por um ano para fazer, digamos, uma espécie de experiência de prova). Não falavam nem mesmo a língua. Sabiam somente que lá, em Honduras, teriam encontrado uma pequena comunidade focolarina que lhes teria acolhido, e que havia uma casa pronta para eles.
A comunidade era realmente pequena, sete pessoas apenas, e o impacto com o novo ambiente não foi fácil. Não facilitavam nada a nova vida os problemas de higiene e a necessidade, por exemplo, de desinfetar regularmente a casa para eliminar os insetos portadores de doenças; o dever de ferver a água antes de bebê-la e o alimento diverso («comemos a primeira pizza após um ano, porque não podíamos nos permitir»); as primeiras doenças; a inserção escolar das crianças («eram classes com mais de 60 crianças e por vezes vinham a casa com hematomas, porque haviam apanhado»); as dificuldades econômicas. A escolha dos focolarinos, de fato, é que as famílias, podendo, se sustentem por si sós: quem se transfere pela Obra, portanto, deve buscar um trabalho no local ao qual foi enviado (mesmo se o movimento intervém caso isso não seja possível). Nos primeiros tempos os Turatti tiveram de recorrer à liquidação que Andrea havia recebido no momento de sua demissão, porque buscar um trabalho, qualquer que fosse, revelou-se logo uma tarefa quase impossível. E quatro meses em casa foram um problema não só econômico, mas também humano: não era fácil, para alguém que havia sempre trabalhado, aceitar este novo status (nos sustentava neste sentido o ter dito sim a Deus sem esperar nada em troca). Ao fim um trabalho chegou, mesmo se como simples ajudante de armazém; mas o importante era começar, e após um pouco de tempo, na seqüência de uma série de circunstâncias quase incríveis, chegou finalmente um contrato para um trabalho muito melhor.
Um dado de fato que os sensibilizou, no início, foi o contraste entre a presença de poucas pessoas em boas condições sociais e a interminável multiplicação de barracos em que vive a população pobre. As dificuldades de relacionamento entre as classes sociais, entre outras coisas, refletia inevitavelmente também dentro da pequena comunidade focolarina.
«Por sorte, nos sustentamos entre si, fomos uma família unida», comenta Fiorella. «Levamos sempre conosco os nossos filhos, mesmo se nas situações mais estranhas e, por vezes, perigosa», acrescenta Andrea. Como na vez em que se aventuraram em uma colina absolutamente revestida de barracos a fim de procurar uma família da comunidade que há um certo tempo estava sumida da comunidade. E não sabiam eles, chegados há poucos meses, que era perigoso para dois gringos circular por aquelas vielas, porque se arriscavam a ser agredidos e passar por situações desagradáveis. Mas a sua imprudência, na realidade, abriu uma estrada que percorreriam proficuamente, porque continuaram a andar entre os barracos, e a buscar gente pobre, a levar ajuda, mas sobretudo a estabelecer relacionamentos. «Foi uma escolha fundamental, porque de outro modo havia o risco de que nos mancomunássemos aos outros estrangeiros, que normalmente fazem parte da alta sociedade, e que portanto nos recusassem. Porém, vendo-nos entre eles, viram-nos sob outra luz», explica Andrea. «E nós apostamos na possibilidade de juntar ricos e pobres, em torna à Palavra de vida (um comentário a uma frase do Evangelho que no movimento dos Focolari se busca viver todos os meses). Não nos apoiávamos em uma paróquia, não havíamos estrutura: tínhamos somente a nossa casa e nós mesmos», continua Fiorella. «Tínhamos começado a encontrar as pessoas, a falar deste Jesus vivo em meio a nós. Trocávamos experiências, e era estranho escutar, ao mesmo tempo quem ia comer em um restaurante e quem não tinha o necessário para sobreviver. Porém tanto uns quanto os outros vinham à nossa casa, gerando a realidade de uma única família entre todos».
Era em sua casa que, entre outras coisas, realizavam-se todos os encontros e as reuniões, ao menos no começo. «Depois começamos a ser chamados para encontrar alguns pequenos grupos nas paróquias, ou então em outras casas, ou onde quer que se reunisse um grupo de pessoas. Logo iniciou-se também uma bela colaboração com os outros movimentos presentes na diocese e com o bispo, que nos envolveu em algumas atividades da diocese, compreendida a preparação do congresso eucarístico». De todo modo a comunidade focolarina crescia, e entravam nela pessoas que provinham de seitas, ou das filas das testemunhas de Jeová, das Igrejas da “última hora”... por vezes também de outras experiências eclesiais que haviam vivido com menos convicção».
Andrea e Fiorella tinham também alargado o território do qual se ocupavam, e iam aos países em torno, sobretudo nos fins de semana, para seguir os grupos que pouco a pouco nasciam, freqüentemente atingindo zonas perdidas, nas quais não havia sequer água potável e ainda menos luz elétrica, e onde encontravam talvez seis, sete pessoas. Mas o trabalho dava frutos: o ser finalmente conhecidos, e também reconhecidos como focolarinos, facilitava as coisas; e também quando começaram a organizar as Mariapoles. Os relacionamentos estabelecidos nas longas viagens dos fins de semana faziam com que participassem também pessoas que deviam enfrentar horas de viagem: para as Mariapoles, que duravam três dias, chegavam a reunir-se 250 pessoas.
«Na medida em que seguíamos adiante dávamo-nos conta do quanto era ocidental a nossa cultura», diz Fiorella. «Não é a Palavra de Deus, somos nós que devemos nos adaptar culturalmente», continua Andrea, «para anunciá-la mais eficazmente. Gradualmente, aprendíamos a compreender as pessoas, e, assim, compreendíamos também como propor a nossa mensagem. Por exemplo, eles tendem a nunca dizer não para não ofender ou parecer muito descorteses, e nos tomou tempo até aprendermos a distinguir o sim verdadeiro daquele que era cortesia, que na realidade era um não». «A coisa mais importante, e também mais bela, é viver com eles», conta Fiorella. «Havia uma senhora de S. Pedro Sula, que vive a cinco horas de Tegucigalpa. Havia vindo a um encontro enfrentando todas aquelas horas de viagem junto ao filho deficiente. Naquelas ocasiões dormíamos todos, nós e eles, em uma escola, sobre colchões que havíamos jogado sobre a terra após ter deslocado os bancos. À noite esta menino era inquieto, e nós havíamos feito um pouco de turnos para cuidar dele. Ao fim, a mãe nos disse: “este filho eu mantinha sempre escondido, mas agora entendi que também ele é filho de Deus”. Agora ela e o marido guiam a comunidade de S. Pedro Sula. Poderíamos contar tantas destas histórias de pessoas que foram conquistadas pelo amor e por sua vê conquistaram outras, sempre por amor».
Andrea e Fiorella conduziram também várias atividades de formação para a família e formação religiosa. «Nos baseávamos, obviamente, sobre o estilo focolarino, e usávamos os subsídios e os materiais nossos ao lado daqueles oficiais da Igreja». Deste modo seguiram-se grupos de famílias (onde vários casais de fato regularizaram com o matrimônio a sua união), grupos de pessoas solteiras, jovens e crianças pequenas; nasceram de fato os GEN 3 e os GEN 4.
Estes últimos nasceram também graças a Maria Giovanna e Ivan. «A presença das crianças foi fundamental, antes de tudo porque permitiu-nos uma vida normal», explica Andrea. «Os nossos filhos misturavam-se com os filhos dos outros, brincavam com eles nos barracos, faziam amizade. Tanto que haviam desenvolvido um sentido de igualdade que os mesmos hondurenhos não têm. Depois, à medida que cresciam, começaram a dar um contributo sempre mais consciente à vida do movimento naquele País. Com eles nasceram os GEN 4, porque contagiaram os seus amigos falando de suas experiências de amor concreto». «Eles nos seguiam por todas as partes, ns vilas como entre os barracos. Isto os levou, crescendo, a imitar-nos, a assumir espontaneamente os nosso mesmos compromissos», acrescenta Fiorella. «Naturalmente houve também momentos de cansaço: por vezes era pesada aquela vida em uma casa sempre cheia de gente, que arriscava a não nos deixar espaço para uma vida pessoal. Um dia era ao telefone e Maria Giovanna me disse: “certo, se também eu telefonasse, talvez me responderia”. Compreendemos então que deveríamos reservar momentos exclusivamente dedicados a eles, assim no domingo a noite nos concedíamos um sorvete, ou buscávamos uma piscina... mas estávamos juntos». «As viagens eram freqüentes e muito longas», continua Andrea, «e estes tornaram-se espaços também para nós, espaços nos quais podíamos falar, dizer aquilo que desejávamos, ou aquilo que não nos agradava em relação um ao outro...».
As viagens fazíamos sempre todos juntos, mesmo porque a situação de Tegucipalpa não permitia deixar as crianças em casa a sós: muita violência, muitas drogas, muitos perigos pelas ruas. Em certos momentos a disponibilidade dos filhos para ajudar os outros quase ultrapassava a dos pais: havia o perigo de que para ajudar os companheiros se metessem por sua vez em problemas, ou outras eram eles mesmos a pedirem a disponibilidade dos pais: «as pessoas batiam continuamente à nossa porta pedindo ajuda, e nós, quando podíamos, os ajudávamos dando comida. Uma vez que já não agüentávamos mais, ao sentir bater a enésima pessoa dissemos: “chega!”, mas Ivan replicou: “mas é Jesus que bate!”».
Em Honduras os Turatti permaneceram por oito anos. Depois sentiram a necessidade de voltar, até porque Maria Giovanna havia completado os graus superiores, e a única possibilidade de continuar a estudar era ir embora de Honduras. Começava a época dos namoros e eles começaram a perguntar-se sobre o futuro dos filhos, sobre a sua possibilidade de construir uma família ali, naquele ambiente tão difícil... Era hora de voltar, mesmo se Andrea temia, após tantos anos no exterior, não encontrar trabalho. Encontrou-o logo, porém, em Milão. Mas quando o movimento propôs-lhe morar e trabalhar na Cidade Nova, revista do Movimento dos Focolari, e atualmente ao Centro do Movimento Famílias Novas, expressão do Movimento dos Focolari relativa à família, aceitou, mesmo se isto implicava receber um estipêndio menor com relação àquele que receberia voltando a trabalhar em uma empresa.
Não obstante, a volta não foi fácil. «Após tantos anos não era um voltar, mas um partir. As crianças sentiam-se hondurenhas: Ivan tinha já 13 anos e Maria Giovanna 16; não faltaram problemas de adaptação e, entre outras coisas, não pode inscrever-se na Universidade porque era jovem demais... Mas aceitar a proposta que vinha do Movimento nos parecia um modo de continuar a estar a disposição de Deus», disse Andrea. «E estamos contentes, porque cremos ter feito uma experiência privilegiada, e porque vemos que, ainda hoje, os nossos filhos buscam Deus todos os dias», conclui Fiorella.
Que podemos dizer; cremos firmemente que Deus tem um desígnio belíssimo para cada um de nós, o importante e aderir a ele. Certamente nestes anos Jesus pediu-nos muito; tudo. Mas não terminaremos nunca de agradecer a Deus e Chiara (a fundadora do Movimento dos Focolari) por nos ter lançado nesta maravilhosa revolucionária e divina aventura, por nos ter metido no coração o desejo de amá-lo e seguí-lo. Temos somente uma vida, queremos gastá-la em alguma coisa que valha a pena, custe o que custar, e sermos assim, como diz Chiara, “colaboradores de Deus a fim de doar a humanidade vida e amor”.

Antonella e Luca: da Itália missionários no Quênia
Luca: Estivemos na África dois anos, como voluntários e ao serviço do Movimento dos Focolari. Aqueles anos tiveram uma importância na minha formação de homem e de cristão empenhado a viver a espiritualidade da unidade, típica do Movimento.
Parti para o Quênia sozinho. Antonella me encontraria cerca de dois meses depois com a menina. Vi-me projetado em uma realidade formada pela pobreza, injustiça, doença, mas também pela simplicidade, a alegria: aquilo que me sensibilizava é que as pessoas pareciam-me felizes e em harmonia com o mundo dentro e fora de si. Na noite mesma de minha chegada vi-me no hospital onde viria a oferecer meus serviços a mais de 50 km de casa, com um conhecimento do inglês muito precário e com uma preparação para enfrentar aquele mundo bastante escassa, mas com a sensação de ter diante de mim uma ocasião única, quase a possibilidade de recomeçar tudo do zero.
Os primeiros tempos foram transcorridos na preparação profissional à tarefa que deveria assumir. Sentia-me inadequado mesmo sob este perfil, porque na Itália era especialista em um ramo, ao passo que lá deveria enfrentar todo tipo de patologia, inclusive a cirurgia.
As mais variadas experiências de acolhimento, de partilha e a tensão de manter-me em unidade com o lar haviam-me preparado para este momento, mas não foi fácil adequar-me à cultura, às exigências das pessoas com as quais todos os dias tinha trabalho; tive que esquecer os meus modos de pensar europeus, eficientíssimos, lógicos, e dar espaço a pessoas que antes do hospital buscavam a ajuda de feiticeiras, a pessoas que, interrogadas se tinham dor em um certo órgão respondiam: “É você o doutor; você que deve me dizer que coisa eu tenho”.
Certamente, não obstante os meus esforços, cometi muitos erros. Relembro esta experiência dos primeiros dias... No hospital, uma rapaz afetado pela osteomielite tinha acabado de saber que deveria transcorrer um longo período na cama. Vi-o triste e desencorajado e, buscando consolá-lo, dei-lhe um rádio portátil e vi o sorriso retornar ao seu rosto. Pensava ter feito a coisa justa, com generosidade, mas falando em seguida sobre isto em casa, com delicadeza fizeram-me entender que não era aquele o caminho, não era dando um objeto do qual, além de tudo, me veria privado, que encontraria o relacionamento com ele. Nos meses seguinte tornou-se sempre mais claro para mim que tinha me arriscado a cair no erro de quem quer ajudar sem entender que a cada povo devemos o respeito pela sua dignidade e que somente isto nos pode tornar iguais e portanto capazes de reciprocidade.
Algum tempo depois fui chamado para uma delicada operação cirúrgica em um hospital perdido no Norte do Quênia, na região onde vivem os Samburu. A viagem foi longa e desagradável. Na volta trazia no coração um dito que havia ouvido lá: “Aliviar a dor é coisa de Deus”. Pensava em tantos de meus colegas na Itália, tomados por outros problemas, e todavia tão sensíveis a este misterioso fascínio que está na consciência social do médico. Parecia-me intuir nesta frase uma resposta a esta exigência. No encontro com a cultura africana sentimo-nos freqüentemente pobres e impotentes, mas sempre vigilantes a fim de não sobrepor e impor o nosso modo de ser, a nossa cultura ao patrimônio do outro.
Com alegria aprendi a respeitar a cultura africana, a compreender que o nosso modo de viver e de pensar, para eles é freqüentemente estranho e os faz sorrir; descobri tantos valores que são vividos de modo radical e entre estes a unidade do homem entre o seu ser o ser de Deus.
A sua vida é profundamente permeada por Deus, fincada no sacro. Aquelas sementes do Verbo que Chiara Lubich, a fundadora dos Focolari, descobriu na cultura africana e que intuiu ser fruto do Espírito, ajudaram-nos, através de sua aplicação na vida e no relacionamento de todos os dias, a compreender, respeitar e amar o povo que nos havia acolhido.
No Quênia, um dos provérbios que freqüentemente se houve, referido às mais diversas situações, é: “Aquilo que custa pouco, vale pouco”.
Custaram-nos seguramente estes anos, tanto trabalho, incertezas, nostalgias, falta de bens materiais, riscos para a saúde nossa e dos filhos, mas nós fomos transformados por esta experiência, aprendemos a sofrer mais pelos outros, a crer, além das circunstâncias, a descobrir a obra de Deus nos eventos de todos os dias, e nos encontramos reforçados, seja na vida de casal, seja na família, mais abertos aos outros, porque mais capazes de escutar a nós mesmos, de viver o outro. Pois bem, creio que a nossa experiência possa ser justamente sintetizada naquele provérbio: “custou-nos muito, valeu muito”.
Antonella: Aquilo Chiara Lubich nos disse sobre importância da interação cultural com outros povos, fez com que víssemos mais bela, mais significativa a nossa preciosa experiência africana. O primeiro ensinamento neste sentido o recebemos do Eterno Pai, que nos deu como sinal a nossa primeira filha, nascida um pouco antes da nossa partida: para a cultura africana, de fato, que dá um grande valor à maternidade, eu como mulher sem filhos não teria sido bem aceita.
Por isto crianças e mães ocuparam logo um lugar privilegiado em meu coração. Observando o mundo do qual havia vindo, permaneci sempre impressionada ao observar com quanta delicadeza as mãos das mães africanas, habituadas a trabalhos pesados, manejam um recém-nascido. As mães, lá, segundo um comportamento em uso, não acariciam nem beijam os seus filhos, mas mais que em outros lugares a mãe e a criança são uma coisa só, mesmo fisicamente. Ela o leva nas costas a todo lugar: ao campo, à Igreja, à feira. Mas as crianças crescem boas e não fazem manha, porque se contentam com pouca coisa.
Por uma exigência forte de assumir dentro de mim a cultura, os valores, as esperanças, e as misérias deste povo, ajudei e encorajei Luca e abrir uma clínica de infertilidade (e os seus colegas, embora conhecendo bem o problema, haviam sempre se recusado a ocupar-se disto, porque na África há já tantas crianças) e grande era a nossa alegria quando, graças a tratamentos mais adequados, conseguíamos dar a uma mulher humilhada, aviltada e repudiada pelo marido, porque estéril, a felicidade de tornar-se mãe. Sabíamos que aquela mulher retomaria o seu lugar na família, na tribo e na sociedade.
Se nos machucava o fato de que a sedução do consumismo ocidental criasse também neste povo necessidades artificiais, pelas quais estes renunciavam à simplicidade incomparável da sua vida, notávamos e valorizávamos a sabedoria pacata dos anciãos, tornados especialistas pela vida. Relembro um encontro particularmente significativo pelo ensinamento que me deu: a um velho kikuju, recuperado no hospital de uma gravíssima asma bronquial, uma enfermeira recordava que as próximas chuvas trariam um recrudescimento da sua doença. “Paciência”, teria respondido ele de pronto, “estarei mal eu, mas a chuva será uma benção para todos: após tanta seca teremos finalmente uma boa colheita e alimento para os nossos filhos que por ora sofrem com a fome”.
Nesta resposta vi exprimido o sentido comunitário tribal que antepõe sempre o bem de todos ao do indivíduo, e não é acaso este um valor do Evangelho?
São poucos dois anos em confronto com uma vida, mas permaneceu dentro de nós a sua simples alegria de viver, a sua extraordinária capacidade de adaptação a situações difíceis, a sua hospitalidade. Fomos em busca, em sua casa, de uma família que habitava fora da cidade, em uma zona bastante quente, de modo que pensamos em levar conosco uma garrafa d’água para nossa filha Sara, que na época tinha dois anos. Não há água corrente naquela zona, e aquela que é utilizada é a da chuva, recolhida em depósitos de uma estação das chuvas à outra. Para nós europeus é decididamente perigosa, mesmo porque somos escassamente imunizados contra todas as doenças que se poderiam contrair bebendo-a, de modo que pensávamos que teríamos de evitar beber naquele dia.
Na nossa chegada compreendemos o quanto éramos esperados e com qual amor concreto. No almoço, para cada um de nós três, havia uma garrafa de coca-cola. Olhamo-nos comovidos e conscientes que o tornar-se um pode ter raízes somente no céu.
Um dos aspectos da cultura africana com o qual tivemos de nos fazer um é o sentido do tempo. Para quem é obrigado a conviver com as estações mais do que com o relógio, um compromisso a uma certa hora é inconcebível. Uma vez estávamos em Meru, uma cidade a cerca de 300km de nossa casa, a fim de encontrar a comunidade do Movimento que era ali numerosa. O encontro deveria começar as dez da manhã, mas as pessoas chegaram por volta da uma. Havíamos raciocinado ao modo europeu, e não havíamos levado em consideração que para chegar à missão deveriam percorrer horas de estrada a pé.
À noite, no momento de partir, tivemos, ao contrário, de nos apressar, porque no escuro as estradas não são seguras e porque nos esperavam no hospital e sabíamos que ficariam preocupados de não nos ver no horário marcado. Uma família que habitava próximo convidou-nos a ir à sua casa para nos mostrar e porque queria nos doar produtos da sua terra.
Tais momentos nos educaram a viver com solenidade o instante presente, sem preocupações com o futuro, seguros do amor de Deus. Uma experiência forte para mim foi o impacto com aquela grande pobreza e com a dor que dessa deriva. Uma noite era já tarde e Luca não retornava a casa. Fui ao hospital. Luca era com uma criança somali que morria por desnutrição. Foi um momento duríssimo para mim: estar próxima a esta pobreza sem poder fazer nada. Parecia-me ler sobre o seu rosto sofrido toda a dor de um povo.
Um povo (porque é o número que impressiona) que anda horas a pé sob o sol para ir ao trabalho; um povo que trabalha com paciência os pedaços de metal para conseguir alguns utensílios de cozinha para vender. Veio-me dentro a revolta contra a injustiça e contra a nossa sociedade do bem estar que o permite, até que me lembrei que Jesus viu-se impotente, Ele que era filho de Deus. Amando porém este senso de impotência salvou a humanidade. Creio que a escolha de amar Jesus na Sua máxima dor, experimentada na cruz, quando se sentiu abandonado pelo Seu próprio Pai, então, como agora, para mim é a maior contribuição que se possa fazer a fim de que o mundo encontre a unidade, concretizando aquele amor que Jesus nos deixou como Seu mandamento.
No Quênia vivíamos no Hospital Nazaré, onde Luca realizava a sua obra de médico missionário. Todas as manhãs Warimu me trazia leite fresco. Falava só Kikuiu, mas – não sei como – conseguiam se comunicar profundamente. Assim quis dizer uma coisa que era muito importante: seu filho tinha quatro mulheres e onze filhos. Ela, atraída pelo testemunho de uma família cristã como a nossa, queria nos falar do matrimônio cristão, mas não sabia como fazê-lo: na época havíamos encontrado um modo de transmitir a ela esta mensagem. Passado um outro ano nós tivemos de retornar para a Itália. Não tive mais contatos com Warimu, exceto pelas notícias que nos chegavam de amigos do hospital. Retornando ao Quênia após cinco anos, com todos os filhos, que então haviam se tornado três, fomos ao Hospital Nazaré onde encontrei Warimu: um encontro belíssimo, verdadeiro, como se não nos tivéssemos jamais nos afastado. Ela chama alguém que a possa traduzir, porque tem uma coisa importante a dizer-me: seu filho converteu-se ao Cristianismo e casou-se com uma das quatro mulheres. É inacreditável. Esta conversão de vida era também para ela o fruto da unidade entre nós. Realmente nada é impossível a Deus, se estamos unidos em Seu nome.

CAMINHO NEOCATECUMENAL
Vicente e Imaculada: da Espanha missionários na Costa Rica
Em outubro de 2000, no âmbito do Jubileu das Famílias, o nosso amado Papa João Paulo II diante de milhares de peregrinos enviou cento e nove famílias pertencentes ao Caminho Neocatecumenal a evangelizar por todo o mundo. Estas famílias haviam vivido precedentemente um período de convivência em Porto S. Giorgio (Itália) onde se havia também realizado o sorteio de suas destinações nos cinco continentes. Uma daquelas famílias era a nossa: Eu, Vicente, minha mulher Imaculada e 7 filhos que havíamos então (hoje temos 11), da paróquia da “Sagrada Família de Torrent” (Valência, Espanha).
A nossa destinação era um pequeno país da América Central chamado Costa Rica, de onde Monsenhor Hugo Barrantes Ureña, Bispo da nova diocese criada a Puntarenas (1988), havia feito um pedido de famílias que o ajudassem a evangelizar.
A nossa missão? Tentar viver como a Sagrada Família de Nazaré: com simplicidade e com humildade, louvando o Senhor e vendo “no outro” o Cristo. A Costa Rica é um país onde a figura do chefe de família está a ponto de extinguir-se, onde inteiros bairros são habitados por mulheres solteiras, que vivem juntas a vários filhos de pais diferentes e onde são poucas as famílias que não sofreram abusos e violência da parte de um dos próprios componentes, de algum vizinho ou de conhecidos. A Igreja nos pedia simplesmente de viver ali, com a ajuda de Deus, unidos e fiéis. Nesta zona as seitas abundam. Na nossa rua as únicas duas casas católicas eram as de uma senhora anciã e a nossa; o resto das casas eram habitadas por testemunhas de Jeová, protestantes, etc.
Na nossa casa, que tinha o teto feito de tábuas, como todas as outras, convivíamos com todo tipo de animais: iguanas sobre o teto, serpentes no jardim, ratos, aranhas, belíssima variedades de colibris, esquilos, etc. Muito próximo a nós havia um cárcere e toda vez que passávamos por ali sentíamos o desejo de anunciar o amor de Deus. Todas as sextas-feiras acompanhávamos o Vicário da paróquia para assistir os encarcerados. O índice de violência era muito alto e para entrar na cela ao início éramos escoltados por oito guardas. Lembro-me que uma vez estas guardas tiveram de criar uma divisão entre aqueles que queriam nos escoltar e aqueles que não queriam. Aqueles que não queriam saber nada da Igreja católica gritavam para nos impedir de sermos escoltados. Eu, que tivera uma juventude muito difícil no mundo da droga, da qual Deus me havia libertado, entendia os encarcerados perfeitamente. Contei-lhes a gritos de onde me havia tirado o Senhor e disse-lhes que havia a possibilidade de que Deus regenerasse também a eles... Então começaram a escutar-me e com o passar das semanas nos respeitaram sempre mais. Mesmo se não fazia parte dos nossos projetos, propusemos ao pároco, ao Bispo e aos responsáveis itinerantes, de anunciar o Evangelho aos encarcerados constituindo pequenas comunidades no interior do cárcere. Esta experiência havia já sido tentada em um cárcere italiano e havia dado ótimos resultados.
Deus arrombou as portas do cárcere e assim começamos a catequese para adultos juntamente a um grupo de catequistas. Entre enormes dificuldades criaram-se diversas comunidades e isto reduziu muito o nível de violência no interior do cárcere porque, uma vez constituídas, eram os mesmos encarcerados que as compunham a evangelizar aos outros. Quando antes devíamos ser escoltados por 8 guias, agora nos bastava somente uma.
Na Costa Rica os cursos para o batismo se articulam em 10 encontros obrigatórios. Nós, que estávamos na paróquia para ajudar o pároco, ocupávamo-nos também destes cursos, aos quais dávamos um caráter fortemente kerigmático, sem esconder que a origem da frustração do homem era no pecado, e predicando que Deus vinha em socorro daqueles que acreditavam no poder divino de mudar as suas vidas. Um jovem casal que nos escutava com muita atenção terminou o curso com grande satisfação. Alguns anos mais tarde os encontramos e a mulher nos cumprimentou afetuosamente sem deixar de nos agradecer pelos cursos. Mais tarde soubemos que naqueles tempos seu marido era-lhe infiel e que graças à nossa catequese havia renunciado ao adultério, havia entrado em uma pequena comunidade paroquial e haviam tido diversos filhos.
Durante uma catequese no cárcere disse aos detentos que quando descobrissem Cristo ficariam descontentes até mesmo de deixar o cárcere... Naturalmente puseram-se a rir e houve uma grande confusão... Os ciclos de catequese concluíam-se com um período de convivência. O senso de união com que o Senhor nos presenteava era de tal modo forte que uma semana antes que começasse este período de convivência aproximei-me de um dos detentos que me confessou estar triste porque voltava à liberdade um dia antes do início este período de convivência e queria que eu falasse com o diretor do cárcere para deixá-lo permanecer alguns dias a mais... Queria permanecer outro dia após uma condenação de 17 anos! A esmagadora verdade é que aquilo que nos rende prisioneiros não são muros com cancelas, mas a ausência de Cristo no coração. Com Cristo somos livres. Sem Ele vivemos como escravos. Aquele detento havia compreendido muitíssimo bem.
Nestes cinco anos de missão passamos por muita coisa: incidentes, doenças tropicais como a dengue – pela qual fomos internados no hospital, eu e alguns de meus filhos –, febres de todo tipo e grandes dificuldades econômicas. Mas tivemos também grandes alegrias, como a de ver tantos esposos reconciliados e também o nascimento de dois casais de gêmeos – motivo de perseguição em um País onde é normal que os médicos pratiquem nas mulheres a ligação das trompas, em muitos casos sem sequer pedir o seu consentimento. Lembro-me bem que quando estavam para nascer os meus gêmeos (décimo e undécimo filhos) eu estava na sala de espera e o médico que deveria praticar a cesárea em minha mulher saiu irritadíssmo perguntando pelo pai dos meninos... Disse-me com grande irritação que minha mulher havia recusado a ligação das trompas após tantos filhos. Este é um modo de ferir a maternidade brutalmente: no momento em que a mulher é mais fraca, logo após o parto, ela é persuadida a interromper a vida para sempre... Inma, minha mulher, saiu chorando da sala de parto, abatida entre a alegria e a dor, como alguém que após ter sustentado um longo combate sabe ter saído vencedor.
Retornamos a Valencia há alguns meses, em tempo para esta providencial visita de Sua Santidade Bento XVI para o Encontro das Famílias; e digo providencial porque não é esta a Espanha que deixamos para trás há cinco anos. Retornando, deparamo-nos com outra missão. Se na América Latina são a pobreza e a sede os grandes desafios a serem superados, aqui há verdadeiros perigos como o comunismo, o consumismo, o hedonismo e tantas outras coisas similares. É realmente um desafio manter e viver segundo as próprias convicções religiosas. O ataque à vida a à família é feroz. Esperemos portanto na palavra do Santo Padre que nos conforta e nos ajuda a manter viva a chama da Fé.

FAMÍLIAS MISSIONÁRIAS LIGADAS ÀS PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS
Na América Latina
Com relação ao objetivo da Pontifícia Obra Missionária da Propagação da Fé de prestar particular atenção à formação missionária da família, prestamos este serviço já há tantos anos e de modos diversos com o resultado de ter obtido o compromisso missionário de tantas famílias na nossa Igreja Argentina e fora dessa. Deste modo estas famílias respondem “quando chamadas a serem sinal missionário para aqueles que estão longe, para famílias que não crêem ainda e para famílias cristãs que não vivem em sintonia com a fé recebida” (Familiaris Consortio).
A primeira família missionária partiu em 1991 para a diocese de Xai-Xai (Moçambique) onde adotaram uma criança de seis meses que havia sido abandonada pouco depois de um ataque da guerrilha. Outras famílias prestaram o seu serviço em Madagascar, na Índia, em Angola, e outras ainda se preparam para partir além das fronteiras da sua pátria.
Nos dias 15 a 17 de julho de 1995 realizou-se em Belo Horizonte (Brasil) o primeiro Encontro das Famílias Missionárias da América Latina, no âmbito do V Congresso Missionário Latinoamericano (COMLA V), do qual participaram famílias da Argentina, do Brasil, da Colômbia (País organizador), do Equador, de Honduras, do Paraguai, do Peru, da República Dominicana e da Venezuela. O primeiro e o Segundo Encontro Nacional das Famílias Missionárias (1995 e 1996) foram realizados nos locais das POM de Buenos Aires.
No Primeiro Congresso Nacional (1997) estiveram presentes 24 famílias missionárias e tantas outras participaram do Segundo Congresso Missionário Nacional, realizado em Mar del Plata, no COMLA VI-CAM 1 (Argentina), no COMLA VII-CAM 2 (Guatemala) e no ECOLMI 3 (Panamá). Este ano se realizam os encontros missionários regionais, onde haverá o setor das Famílias Missionárias.
Nestor e Silvia: na Argentina missionários entre a população aborígene do Chaco
A minha família é composta por mim, Nestor (Médico), minha mulher Silvia (Profesora de Biologia) e os nossos três filhos. Movidos pelo ardor missionário começamos a trabalhar em uma comunidade terapêutica para a recuperação e a cura de jovens que faziam uso de drogas; uma das atividades da “Legião de Maria” da diocese de Loma (Zamora).
Todos os domingos levávamos os jovens à Missa na paróquia local e quando tornávamos à comunidade, sendo que enquanto eu realizava as conversas individuais ou me encontrava com o grupo de auto-ajuda, Silvia ensinava-os a trabalhar na horta e no jardim, a cuidar das galinhas e coelhos e a preparar as refeições na cozinha. Também os nossos filhos tinham uma tarefa: os dois maiores ajudavam a fazer as tarefas com os jovens que estavam terminando a escola elementar ou média e a pequenina era um pouco a irmãzinha de todos e os entretinha com as suas travessuras.
Quando na Argentina começou a epidemia da cólera começamos a colaborar, através das irmãs de “Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Jesus de Castres”, com a população creola e indígena de “wichi”, na impenetrável zona rural da província do Chaco. A nossa ajuda foi em princípio unicamente de tipo solidário, mas na Páscoa de 1996 fomos a Sauzalito e nas aldeias vizinhas, e, vivendo esta realidade de perto sentimos a necessidade de oferecer também nós um apoio de tipo pastoral e evangelizador. A zona que depende da paróquia é muito vasta e as duas paróquias mais próximas estão longe 300km uma da outra. Desde 1996 a cada ano a visitamos em diversos momentos do ano. Em Sauzalito colaboramos nas atividades paroquiais e na vila de Tapalís (Tartagal). Eu ajudo a população como médico, minha mulher Silvia visita as mulheres aborígenes, e os meus filhos ocupam-se de brincar com as crianças e de dar a eles a merenda. Na capela, se vamos com um sacerdote, celebramos a Missa todos os dias, de outro modo, enquanto ministro extraordinário da Comunhão, celebramos a Liturgia da Palavra.
A nossa família alargou-se com a mulher de meu filho Gabriel e com o marido de nossa Filha Verônica, que se uniram à nossa atividade missionária aqui – Silvina, a menor é ainda solteira. Havíamos também começado a nos preparar com o nosso Diretor diocesano das POM para ir à Costa do Marfim, onde ele havia trabalhado três anos como missionário, mas a crise econômica do nosso País nos impediu.
Atualmente coordenamos um grupo missionário composto pelas famílias dos nossos filhos casados e por outros dois casais, com os quais prestamos serviço fora de nossa diocese.
Quando terminamos nossa atividade em comunidade, uma específica solicitação do pároco durante a Missa fez com que sentíssemos que a paróquia precisava de nós; daquele momento em diante somos o casal guia na catequese familiar.
Como família missionária, no nosso ambiente, nos nossos trabalhos quotidianos e nos lugares de missão damos testemunho da alegria de ser apaixonados por Cristo e da sua missão, e de quanto nos faz feliz compartilhar a fé e a nossa preparação com os nossos irmãos creolos e aborígenes wichi nos quais pensamos continuamente. Estamos aguardando a aposentadoria a fim de podermos dedicar mais tempo a eles, uma vez que a nossa missão é a 1700km de distância de nossa casa.
Augusto e Idalmy: no centro de Cuba uma “casa missionária”
No centro da ilha de Cuba, na diocese de “Santa Clara”, existe uma casa que abre as suas portas às pessoas do Reparto José Martí. Trata-se da casa da família de Augusto Alfredo Hernández Lorezo, composta pela sua mulher Idalmy Ruiz Acosta, pela sua filha Aneisi Hernández Ruiz, casada há pouco com Zacharit Hurtado Sánchez. Todos são missionários há mais de cinco anos.
Aneisi, que queria fazer alguma coisa além de freqüentar encontros de formação e as celebrações eucarísticas, viu esta possibilidade de oferecer a própria disponibilidade à primeira equipe missionária fundada na diocese. O ser testemunha da fé simples do povo da região a havia enchido de esperança e ela havia conseguido transmitir esta esperança aos seus pais, a tal ponto que ficaram bastante contentes de participar também eles deste compromisso pastoral. Visitando zonas muito pobres da Zona de Báez descobriram que as pessoas que encontravam conseguiam manter muito viva a sua fé, não obstante vivessem em condições de tanto desagravo. Idalmy conta por exemplo que uma senhora de 95 anos que a havia convidado a entrar em sua casa, dormia em uma cama sem colchão, mas mostrara orgulhosa todas as orações e todos os santinhos que conservava há anos. Nas zonas que visitava Idalmy faltava até mesmo um templo onde se pudesse reunir em oração, e ainda assim isto não havia impedido que a fé permanecesse tão viva entre o povo.
A sua casa é atualmente uma casa de missão que, estando muito longe da paróquia da cidade, é utilizada para celebrar a Eucaristia, para rezar o rosário e para o catecumenato dos jovens, adultos e crianças; uma das iniciativas pastorais que a Igreja cubana promove. Existem além disso mais de duas mil casas que funcionam como pequenas comunidades, muitas das quais desenvolvem também ações de tipo social a favor dos mais necessitados.
A cada ano as dioceses escolhem uma zona pastoral para realizar uma missão no verão, missão da qual a família de Alfredo participa regularmente. A missão tem início em 11 de agosto, festa de “Santa Clara de Assis”, Patrona da diocese, com o envio missionário da parte do Bispo. No dia seguinte as famílias partem para as casas-família que as deverão acolher. As pessoas empenhadas acordam cedo, rezam as Laudes e recebem a Eucaristia e em grupos de dois desenvolvem a sua missão “porta à porta” nas zonas que lhes foram designadas. À tarde, ao contrário, organizam encontros de iniciação cristã com as crianças, os adolescentes e os jovens que encontraram durante as visitas da manhã. A noite, ao contrário, é dedicada aos adultos.
Um outro grupo se ocupa das visitas aos doentes que não podem sair de casa. Idalmy diz que as crianças são muito pontuais e muito felizes de participar: “querem logo vir a nós e realizar missão, se fazem novas amizades e a atmosfera na zona torna-se muito serena”. Somos muito bem acolhidos, conta Augusto, mesmo quando visitamos pessoas que não são praticantes ou que não crêem. As pessoas nos demonstram afeto, gratidão e admiração. Oferecem-nos aquilo que possuem de melhor. A missão nos agrada tanto; mais do que o trabalho pastoral na paróquia.
Recebemos uma formação permanente para poder ser missionários. Uma sábado ao mês somos formados especificamente de modo que a nossa missão adquira uma qualidade. Quando chegam nos bairros e nas zonas rurais nos apresentamos com uma camiseta com a bandeira cubana e com a N. Sra. da “Caridade do Cobre”, patrona de Cuba. O povo nos abre as portas, nos pergunta que coisa fazemos e isto facilita o início de um diálogo evangelizador. A Missão conclui-se todos os anos com uma celebração na qual N. Sra. peregrina ocupa um lugar de honra. Os aplausos, as flores e as velas são todas sinais de afeto para com a santa imagem, que todos desejam tocar e levar nas costas. A religiosidade popular, que parecia adormentada, começa a despertar, conta Aneisi. Agora é preciso organizar novas casas de missão como a nossa.
Marco e Maribel: missionários entre as vilas mais pobres e perdidas do Equador
Vivemos intensamente dia a dia a nossa escolha, como uma resposta à situação de crise e de perda dos valores cristãos na qual nos encontramos. Propomos despertar as consciências de modo que as famílias descubram o verdadeiro sentido da vida através da experiência, do serviço apostólico e do encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo libertador; e a fim de que esta descoberta os leve a uma mentalidade nova, à realização de ações que transformem a realidade e tornando assim efetivo o mandamento missionário de Jesus Cristo: “Ide e anunciai a Boa Nova por todo o mundo...” Este mandamento para nós torna-se um imperativo: andai pelo mundo e anunciai o Evangelho em todo ambiente por onde vos moveis! Ide ao encontro do outro! É uma “obrigação” do batismo. É assim que a missão para nós tornou-se o projeto da nossa vida; um projeto quotidiano. Não somos missionários somente quando vivemos a experiência missionária nas vilas perdidas e pobres de nosso país, mas o somos também quando ultrapassamos os nossos limites pessoais e geográfico, e juntamente aos nossos filhos nos preparamos, rezamos, dialogamos...
Eu, Maribel, havia iniciado a minha formação nos grupos jovens da minha escola; experiência que logo amadureceu em mim a idéia de comprometer-me mais profundamente no auxílio aos necessitados, mesmo contra o parecer de meus pais, parentes e amigos que me diziam que era somente uma perda de tempo, que bastava freqüentar a Missa de quando em quando e realizar coletas no Natal para “doar” aos pobres.
Marco, sensibilizado por uma experiência de vida muito negativa, havia começado esta “loucura” de seguir Cristo no grupo juvenil da paróquia, também ele contra a opinião de todos aqueles que eram convencidos de que teria feito melhor em “dedicar-se a construir o seu futuro para ter uma boa posição econômica a fim de não sofrer tanto como naqueles momentos”.
“Juntos”, mas em lugares diferentes, havíamos iniciado o processo de educação à fé que, mais tarde, freqüentando os cursos, as reuniões de grupo e os períodos de convivência, teria permitido o nosso encontro. A Missa do nosso matrimônio durou duas horas e meia durante as quais fomos consagrados como “Família Missionária”. Finalmente havíamos encontrado não somente a pessoa que nos tornava felizes, mas sobretudo a pessoa com a qual compartilhar este sonho de ir além dos nossos limites onde quer que o Senhor quisesse nos mandar.
Havíamos já realizado a experiência missionária juntos quando éramos namorados, coisa muito gratificante, mas a primeira experiência como marido e mulher foi realmente maravilhosa. Maribel estava grávida de Naomi (que agora tem nove anos). Havíamos organizado cada coisa perfeitamente. O povo estava sensibilizado tão somente com a nossa presença, e nos demos conta de que o simples fato de nos apresentarmos como família era já de algum modo evangelizar. Agora há também Pauleth (6 anos) e Mateo (2 anos) e juntos nos dedicamos completamente à experiência missionária “ad intra” em cada parte do nosso amado Equador: costa, serra e oriente. Hoje com o frio intenso das montanhas e amanhã com o calor sufocante da praia ou da selva. Isto, porém, não conta; aquilo que conta é poder compartilhar com o povo o nosso maravilhoso encontro pessoal e familiar com o Cristo vivo; conta o dom de si em troca da felicidade do outro, de quem nos é próximo como de quem nos é distante.
Nada nos importa da fadiga das longas jornadas dedicadas às assembléias com os jovens e os adultos, as catequeses, a recreação com as crianças e as longas caminhadas para visitar as famílias. O importante é ter encontrado arrombadas as portas daquelas casas e dos corações daqueles que nelas moram; importam as confissões íntimas que nos faziam aquelas pessoas esperando de nós uma palavra de conforto.
Também nosso filhos Naomi, Pauleth e Mateo são missionários ao seu modo. Ensinam às crianças da comunidade o Pai Nosso, a Ave Maria e as outras orações enquanto nós falamos com os seus pais.
A nossa prioridade é aquela de ir ao encontro do outro. Não vemos a hora de partir, e na espera que chegue o momento buscamos viver o Evangelho todos os dias nas nossas atividades cotidianas, no trabalho, nos orfanatos, na escola, nas ruas, sobre os ônibus, etc., junto aos jovens com os quais dividimos a vida de fé. A nossa tarefa é de formar os jovens e as famílias.
As nossas famílias sempre se opuseram a esta nossa escolha. Mesmo após casados nos diziam: “agora que são casados devem ser mais conscientes”, “não devem expor as crianças”, “devem pensar no futuro”... mas depois, pouco a pouco, estas coisas foram substituídas por outras entre as quais: “temos necessidade de rezar”, “podem nos orientar nisto?”, “que são exatamente estas missões?”...
Lutamos para que nossas vidas sejam sempre mais coerentes com a nossa fé, para que nos tornemos verdadeiras “testemunhas” capazes de dar o que possuem e de viver aquilo que dão, e para que consigamos administrar melhor o tempo que dedicamos ao serviço missionário, à nossa atividade quotidiana, à oração e ao nosso ser esposos e pais.
Agora estamos nos preparando para uma missão ad gentes, mas ainda não sabemos aonde iremos: à África, à Oceania ou ao próprio continente americano. Iremos aonde quiser o Senhor. Estamos prontos para tudo. Nos abandonamos à Sua Providência. Sabemos que tudo isto implica “sacrifícios”, mas os aceitamos porque estamos convencidos de que Cristo, o missionário do Pai, nos acompanhará para sempre nesta grande aventura missionária. Coloquemos a nossa experiência nas mãos do Deus da Vida.
Os inícios de um grupo de Famílias Missionárias em Arica, no Chile
Em Arica, no norte do Chile, está nascendo um grupo de Famílias Missionárias. Estamos ainda no início e, portanto, até que o grupo não esteja consolidado devemos ainda nos considerar como uma expressão diocesana. Quando formos um grupo em uma outra diocese poderemos falar de grupo nacional.
Na paróquia do Cristo Salvador, na cidade de Arica, um grupo de pais, cujos filhos participam da Obra Pontifícia da Infância Missionária, acolhendo o desafio de João Paulo II na Encíclica Familiaris Consortio (“A família é chamada a ser sinal missionário para aqueles que estão longe, para aqueles que não crêem e para as famílias cristãs que não vivem coerentemente a fé recebida”) deram vida à Família Missionária.
Desde o início declararam-se um serviço das Pontifícias Obras Missionárias que, através da Obra da Propagação da Fé, colabora com toda a Igreja na sua missão de evangelização em seu senso missionário universal de modo que desenvolvam a sua missão de verdadeiras famílias católicas.
Encorajados pelo Monsenhor Héctor Vargas, Bispo diocesano, guiados espiritualmente pelo Padre Armando Andrade, Diretos Diocesano das Pontifícias Obras Missionárias e com o apoio dos esposos Juan Carlos Basay e Maria Elena Diaz, reúnem-se todas as semanas para preparar os argumentos a serem propostos às respectivas comunidades cristãs.
O seu método de trabalho é o mesmo seguido pelos filhos na Infância Missionária, isto é “A escola de Jesus”, as suas quatro fases: Catequese Familiar Missionária, Espiritualidade Missionária, Projeção Missionária e Vida de Família. O objetivo final é antes de tudo o de aumentar o compromisso de cada um para com Jesus e depois para com a Igreja, e para com os nossos irmãos. A família deve ser entendida como a primeira comunidade missionária, o primeiro e principal agente evangelizador que educa na fé, no amor e nas outras virtudes; e o termo não é referido à família tomada individualmente ou à comunidade paroquial, mas sim à humanidade inteira...” Ide e pregai o Evangelho ao mundo (Mt 28, 19-20).
Além de formar missionários, a Comunidade de Famílias Missionárias de Arica sustenta a formação de 200 chefes de família que são organizados para dar vida ao “Projeto de Habitação Católico Hasche Sanchez”, os quais se reúnem nesta mesma cidade todas as sextas-feiras em grupos de 12 a 15 pessoas para refletir sobre os ensinamentos de Jesus Cristo, porque seguir a Cristo significa identificar-se com os seus projetos, os seus comportamentos e com as suas escolhas; é ser instrumento do seu amor que libera; é crer n’Ele como o único capaz de nos fazer livres.
Além disso visitam as famílias mais necessitadas, vêem como se organizam e se distribuem, se ocupam daquelas que não possuem uma casa ou que sofreram a perda de uma pessoa querida... visitam os doentes e os anciãos e dão o seu sustento aos atos litúrgicos tais como procissões da primeira sexta-feira de todos os meses em cada paróquia.
Charles e Ysidmar: missionários na Amazônia venezuelana
Segundo o Diretor Nacional das POM da Venezuela, Padre José Romero Linares, na Venezuela não existe uma verdadeira organização de famílias missionárias no interior das POM, mas trabalha-se para que hajam famílias missionárias e para dar sustento a todos aqueles que sentem a vocação missionária.
Charles e Ysidmar são um casal de esposos convidados pela POM no Vicariato Apostólico de Puerto Ayacucho, na Amazônia Venezuelana.
Somos Ysidmar e Charles, um casal de esposos missionários da Venezuela. Charles nasceu no estado do Zulia e eu no de Portuguesa. Temos ambos 26 anos. Sou formada em filosofia e ele é engenheiro informático. Em 2 de agosoto festejaremos o nosso terceiro aniversário de matrimônio. Três anos durante os quais o Senhor nos concedeu todos os bens. A escolha que fizemos não foi sempre fácil, mas valeu à pena; uma coisa que construímos dia após dia, um dom, um compromisso, a nossa vocação e o projeto de felicidade que Deus tinha para nós.
Charles recebeu a sua formação cristã no Seminário Diocesano dos Pais Oblatos; eu, ao contrário, nos serviços de animação das Pontifícias Obras Missionárias (Infância e Missões Jovens). Quando nos encontramos e decidimos unir as nossas vidas tínhamos claro que o Senhor nos chamava a servir os nossos irmãos de modo completo. Não podíamos ser um casal dedicado ao trabalho e a si mesmos esquecendo a chamada de Deus de dar testemunho aos homens de Seu amor. Estávamos certos de que o Senhor nos havia dado a vocação ao matrimônio, mas também aquela de missionários ad gentes... O projeto de amor de Deus para nós era aquele de ser uma família missionária também além de nossas fronteiras.
O dia do nosso matrimônio foi o dia do sim definitivo a este projeto e a nosso Senhor. Começamos a nossa vida de casados no Vicariato apostólico de Machiques, do qual Charles é originário. Charles era docente em um liceu e eu trabalhava com a sua ajuda no Setor de Direitos Humanos do Vicariato. Juntos nos ocupávamos de dois municípios localizados em uma zona de fronteira muito perigosa do nosso país. Trabalhávamos com amor em uma comunidade muito pobre deste vicariato (indígenas e refugiados), mas era também um trabalho duro, porque naquele tempo nesta comunidade vivia-se um clima de grande violência em razão dos conflitos armados na fronteira com a República da Colômbia. O medo, as perseguições, a violência eram a ordem do dia nestas comunidades. Após termos compartilhado um ano com eles, nos propuseram ir à Amazônia, no vicariato de Puerto Ayacucho. Monsenhor Ramiro, Vicário de Machiques, no início não era tanto de acordo sobre deixar que fossemos. O vicariato de Machiques é muito vasto e o pessoal missionário é pouco. Após ter orado e refletido disse-nos: “Gostaria que permanecessem. O seu testemunho, como família, é luz para as outras famílias do nosso Vicariato. É verdade, somos um Vicariato pobre... mas, mesmo se pobres, mandamos missionários...”
As suas palavras nos encheram de alegria e assim, três meses mais tarde, partimos felizes à nossa meta de missão na Amazônia: S. Carlos do Rio Negro, na fronteira com a Colômbia, o Brasil e a Venezuela. San Carlos é uma pequena vila na selva, ao qual se pode chegar somente por via aérea; duas horas de vôo da capital do estado. Encontram-se vários grupos étnicos: Curripacos, Yeral, Baré, Baniva e Yanomami que convivem com os creolos.
Entre esta diversidade desenvolvemos o nosso apostolado: formação de animadores comunitários, catequistas; condutores de grupos juvenis e infantis; cursos para o povo; visita e assistência de 25 comunidades indígenas localizadas nas margens do Rio Negro e o Casiquiare. O compromisso mais importante: viver com o povo dia após dia entrando nas suas casas e nas suas vidas para que Jesus entrasse em seus corações.
Transcorrido quase um ano, Monsenhor Divasson, Vicário de Puerto Ayacucho, nos conduziu ao Alto Orinoco, em uma zona de prevalência Yanomami... Foi uma mudança radical. Após ter vivido com creolos e indígenas, passamos a viver na companhia do povo Yanomami em uma zona onde não há senão selva. Éramos uma comunidade de 11 missionários, entre sacerdotes, religiosos e leigos a serviço de quatro missões nesta vasta zona: Malaca, Mavaquita, Platanal e Ocamo.
A nós dois foi designada a missão de Mavaquita... tivemos de viver ali e tivemos a responsabilidade de conduzir esta missão... tivemos de nos ocupar da escola, da cooperativa dos artesãos e das costureiras, e do catecumenato; coisa bem diversa da catequese ao qual estávamos habituados nas nossas paróquias... E tudo isto sem nos esquecermos que teríamos antes de tudo de aprender a falar o Yanomami, porque os indígenas de Mavaquita têm pouquíssimo contato com o mundo creolo e são muito poucos os que falam espanhol. Graças a Deus os Yanomami nos ajudaram muito e em pouco tempo aprendemos as coisas mais necessárias para pode comunicar com eles, e aqueles poucos que falavam espanhol nos ajudavam com as traduções quando não compreendíamos mesmo.
Tantas vezes nos encontramos fazendo o papel de enfermeiros, de doutores, de mediadores nos conflitos. Existia um ambulatório, mas não havia um médico. Relembro em quantas ocasiões tivemos de socorrer os pacientes, de dia e de noite, crianças na maioria afetadas pela malária ou pela pneumonia... Eu que não sabia nada de medicina acabei tornando-me uma grande enfermeira!
Não é fácil viver entre os Yanomami, mas isto não depende tanto das características geográficas (acaba-se por se habituar as cobras, as aranhas e a todo tipo de animais) quanto das diversidades culturais, que por vezes tornam difíceis aceitar que se o outro pensa diversamente de mim é porque a sua cultura e o seu modo de ver o mundo são completamente diferentes do meu.
Em janeiro descobri que estava grávida de um mês. Foi um presente dos céus, algo que não esperávamos, uma alegria imensa para nós e para toda a comunidade que pensava já em um nome yanomami para o nosso filho. Decidimos permanecer em Mavaquita não obstante o risco de que esta escolha comportava... Deus teria pensado em nós... O nosso moto: prudência e providência.
No início de fevereiro, porém, desencadeou-se uma forte epidemia de malária no alto Orinoco, principalmente em Mavaquita, e a comunidade católica considerou prudente que abandonássemos logo a zona em razão de minha gravidez. Interromper a nossa amadíssima missão foi para nós uma grande dor. Os Yanomami insistiram muito para que permanecêssemos, mas estávamos certo de aquela era a vontade do Senhor, mesmo se por vezes é difícil aceitá-la.
Monsenhor Divasson nos reenviou a Puerto Ayacucho, capital do estado. Eu trabalhando na Secretaria para os Direitos Humanos e Charles no Escritório Técnico de Projetos... Estamos contentes porque estes dois departamentos trabalham para a inserção da comunidade indígena e a nossa experiência como família missionária nos serve de ajuda para desenvolvê-lo melhor. Em setembro nascerá o novo membro de nossa comunidade, Jesus Esteban, um pequeno missionário que completará a nossa família missionária.

FRATERNIDADE MISSIONÁRIA VERBUM DEI
Miguel e Saidy: família missionária no Peru
Somos um casal de missionários e pertencemos à Fraternidade Missionária Verbum Dei. Miguel Gutiérrez (48) e Saidy (33) Gutarra e três filhos: Ángela de 7 anos, Pablo de 5 e Mariana de 2. Somos casados há 10 anos. Quando nos casamos éramos muito apaixonados, mas não tínhamos um projeto claro para o nosso matrimônio, a única coisa que desejávamos era poder construir uma família feliz. E filhos aos quais poder oferecer o melhor, que para nós significava uma boa educação, e um nível social e econômico privilegiado. Não excluíamos o divórcio, por nós considerados uma solução razoável caso o relacionamento, um dia, não funcionasse mais. Buscávamos ter valores cristãos, mas não como alguma coisa de concreto a ser vivido, antes como uma boa moral praticável e como religiosidade possível. O nosso maior interesse era o de adquirir objetos e fazer carreira, e nos empenhávamos a conquistar estes objetivos a custo de qualquer sacrifício, buscando assim garantir um futuro melhor aos nossos filhos e a nós mesmos. Os estudos que havíamos feito, odontologia e direito, representavam para nós um horizonte a ser potencializado a fim de conquistarmos aquilo que queríamos obter.
Sentíamos, porém, a necessidade de dar um lugar a Deus entre nós. Nos primeiros cinco anos vivemos de modo dissipado, buscando sermos felizes, porém não conseguíamos, e não conseguíamos sequer experimentar aquilo que queríamos; ao lado da felicidade desejada havia um profundo senso de insatisfação. Agora nos damos conta de que não éramos capazes de imaginar que “seguir Jesus” e “optar” pelos valores do Evangelho pudesse ser o nosso caminho; sendo um casal, acreditávamos, erroneamente, que a plenitude do amor era reservada a pessoas especiais como os religiosos ou os sacerdotes.
A nossa busca de sentido nos levou a encontrar uma comunidade de missionários que se dedicava exclusivamente a difundir a palavra de Deus. Não eram somente meninos e meninas não casados, mas também casais que se dedicavam à oração e à pregação, viviam em modo simples e fraterno e emanavam uma alegria que até agora não conhecíamos. O segredo da sua vida era a oração, e nos fez o grande dom de nos ensinar a rezar e conhecer a Palavra de Deus, um Deus próximo, amigo e familiar. Descobrimos que em seu projeto redentor há os casais e nós éramos chamados a sermos luz para outros casais. Este projeto não somente preenchia todos os vazios, mas nos tomava de entusiasmo. A melhor coisa que podemos oferecer aos nossos filhos e a nós mesmos é a alegria de viver plenamente a nossa união amando-nos com um amor humano-Divino.
Demo-nos também conta de que, na nossa busca pela realização da nossa vocação enquanto casal, não tínhamos um grande conhecimento da verdade da fé e nem mesmo uma formação justa para responder à chamada de “como transmitir a fé?”, “Como evangelizar neste mundo de hoje? E os nossos filhos? E as outras famílias? Como ser luz?...” Assim iniciamos um intenso período de formação, de oração, de gestação e crescimento na fé. Pouco a pouco, com o calor da oração, e sem que nos déssemos conta, construímos das mãos de Deus aquilo que hoje é o nosso projeto de casal: viver dedicando-se à evangelização, consagrar a vida, não com isoladas atividades apostólicas, mas doando a vida à evangelização a partir da nossa realidade como família. Isto significa dedicar tempo à oração e a preparar a Palavra a ser transmitida, usando aquilo que temos de melhor: a inteligência, o afeto, o esforço, de modo que esta Palavra chegue a um maior número de pessoas e estas possam conhecer Deus, a vida de fé, o Amor, recuperar o sentido da vida. Temos ainda muita estrada a fazer, porém nos grupos que quotidianamente seguimos na oração, nas Escolas da Palavra, nos retiros de oração, etc... descobrimos que todos os homens são nascidos por obra de Deus: e como podem encontrá-lo se não se anuncia o Evangelho?
Daniel e Galdis: família missionária no Chile
Chamo-me Daniel e minha mulher Gladys. Temos duas filhas: Andréia (28 anos) e Daniela (22). Somos casados há 26 anos, infelizmente muito atormentados e cheios de brigas e separações.
Ambos trabalhamos para uma fábrica (PRISA “supermercado e empresa distribuidora de artigos para escritório”) na qual os missionários do Verbum Dei desenvolvem há algum tempo uma bela e intensa obra pastoral. Na fábrica há uma capela onde se celebra a Missa toda semana e onde é possível seguir cursos de catequese para receber os sacramentos. Inscrevi-me no curso de crisma juntamente com minha mulher e a minha filha (que então tinha 19 anos e não havia sido batizada). Honestamente o fiz somente porque sentia-me no dever e portanto chegava aos encontros sempre no último momento e com efeito não me esforçava. Minha mulher e minha filha, ao contrário, entusiasmaram-se de pronto, e freqüentando a catequese sentiram-se logo melhor.
Mas isto foi assim até o momento do fim de semana de retiro do qual participou todo o grupo. Lembro que enquanto era ainda no caminho pensava: “ninguém me fará lavagem cerebral”. O meu coração era duro e cético. Ficou-me impresso o primeiro testemunho que ouvi: uma menina de 19 anos contou a sua dura vida, e sua experiência do amor do Pai que a sustentava a ajudava a ser feliz... convidou-nos, portanto a falar com Ele e nos sentirmos seus filhos. Esta coisa simples comoveu-me profundamente e me fez refletir sobre tantas coisas. O sábado à tarde havíamos feito uma via crucis... E foi tremendamente doloroso entender de improviso o quanto havia me comportado mal até aquele momento, e quanto mal havia feito à minha família e a todos aqueles que me amavam. Ao fim nos foi dada a possibilidade de confessarmo-nos. Sofria muitíssimo e experimentei tanta vergonha... Custou-me muito a decisão de dar aquele passo, e quando finalmente encontrei-me diante do padre ajoelhei-me e não conseguia fazer outra coisa que chorar... Chorar pelos meus erros, chorar porque sentia que o amor do Pai abraçava a minha vida e me perdoava. Senti-me renascer... Comecei a ver as coisas sob uma luz completamente diversa e senti que a alegria nascia-me espontânea do coração. Mesmo para minha mulher e para minha filha encontrar a Deus foi uma experiência maravilhosa. Agora o nosso matrimônio é feliz, cheio de amor recíproco. Deus nos buscou e encontrou para que entre nós houvesse realmente o respeito e a confiança que havíamos perdido.
Tínhamos buscado ajuda de psicólogos e um pouco por tudo quanto é lugar, mas somente o amor de Deus foi capaz de reunir e de dar nova luz ao nosso matrimônio. Agora sentimos o dever de ajudar outros casais e pedimos aos missionários de nos formar para testemunhar Deus. Freqüentamos há algum tempo a “Escola de Apóstolos”, onde nos preparamos para evangelizar e fazemos também a “revisão de vida” com outros casais que sentem o nosso desejo que nós. Juntos organizamos diversos retiros para as famílias. O próximo será feito com casais de nossos companheiros de trabalho. Hoje em dia não conseguimos mais nos conceber sem um compromisso sério com a missão. Participamos ativamente nos trabalhos da comunidade e nos ocupamos da gestão da casa para os retiros Verbum Dei de Santiago (Pirque).
Germán e Ana Maria: família missionária na Espanha
Somos uma família missionária da Fraternidade Missionária Verbum Dei; temos quatro filhos de 6, 11, 13 e 20 anos. Vivemos em Zaragoza (Espanha), onde Gérman trabalha em uma escola como professor elementar e Ana Maria e dedica às tarefas domésticas para a família. Para falar de nossa vida missionária, da nossa família de hoje, devemos voltar muitos anos atrás. Em um momento da nossa vida Jesus voltou o seu olhar sobre nós, nos amou, chamou-nos a segui-lo a partir da nossa situação conjugal. Foi uma experiência fundamental que mudou o nosso modo de viver e de agir. “Segui-me, vos farei pescadores de homens” (Mt 4,19). Deus nos punha diante de um projeto de vida e de amor que dizia respeito aos nossos filhos, à nossa família e muitas outras famílias.
O Senhor nos chamou já “antes de nos formar no seio materno” (Jr 1,5), “para que estivéssemos com Ele e também para que nos enviasse a pregar” (Mc 3,13), e, pela sua graça, pouco a pouco encontramos resposta a esta chamada, como os primeiros discípulos, na nossa dedicação à oração e ao ministério da Palavra (At 6,4). Compreendemos que esta chamada é um dom, um presente de Deus, por puro amor, pura misericórdia. Porque Ele nos olhou na nossa pequenez, e por isto podemos cantar a sua Magnificência em ações de graça juntamente à nossa Mãe, a Virgem.
Iniciamos a nossa formação missionária há 20 anos, pouco depois do nosso casamento e do nascimento de nosso primeiro filho. Deus nos chamava e queríamos responder àquilo que ele queria de nós. A oração, o trabalho, o estudo, a educação dos nossos filhos e o apostolado marcaram o ritmo desta primeira etapa de nossa vida missionária. Primeiro em Valência, para a formação na espiritualidade própria do carisma. Depois em Madri para a formação teológica e em seguida Lisboa para a experiência da evangelização. Mais tarde, Roma, para completar os estudos. E depois chegaram outras destinações, Madri como formadores e atualmente Zaragoza para colaborar com a pastoral missionária da diocese.
De um lado, trabalhamos para a preparação dos cristãos que se dedicam à evangelização e ao serviço da Palavra de Deus. Ocupamo-nos da vida espiritual e da formação que nos habilita a nos tornarmos apóstolos e missionários que, através da oração, o testemunho de vida e o anúncio da Palavra, ajudam os outros a tornarem-se também eles discípulos e missionários de Cristo. Buscamos oferecer uma formação integral que toque todos os âmbitos da vida. Por isso organizamos retiros, exercícios espirituais, convivências, conversas, formações, revisões de vida e tutelas.
De outro lado, porém, o trabalho apostólico é dirigido à evangelização de todos. As iniciativas apostólicas surgem de corações apaixonados por Cristo, e aqueles que participam da evangelização tornam-se pilastras e propulsores de projetos de evangelização. Atualmente trabalhamos em uma “escola de apóstolos”, onde venho planejar diversas atividades de formação e evangelização. Além disso, colaboramos com um grupo de fé dirigido aos pais dos alunos; deste modo podem também eles ocuparem-se da catequese em família. Na paróquia, com o grupo de imigrantes. Em algumas cidades do interior, com um grupo que celebra a Palavra na ausência do presbítero. Com a Delegação das Missões, participam do Conselho Diocesano da Pastoral e ajudam nos planos pastorais da diocese neste setor.
Em todos estes anos tivemos o prazer de poder contemplar como Deus pouco a pouco escreveu uma maravilhosa história de amor para a nossa família. Tivemos sempre a certeza de que a coisa melhor que poderíamos dar e deixar como herança aos nossos filhos era a fé, a descoberta de um Deus Pai, amigo, companheiro, que fala aos nossos corações. Cremos na sua Palavra quando diz: “Todos os teus filhos serão discípulos do Senhor, grande será a prosperidade de teus filhos” (Is 54,13). Desde pequenos ensinamos a eles a buscarem Jesus, ao Papai do Céu Deus, à Virgem, de modo simples e espontâneo; a falar com Deus como se fala a um amigo. Buscamos criar ambientes onde os nossos filhos sentiam que a nossa família faz parte de uma família universal, com os irmãos de todas as línguas, raça, nação e condição social. Na realidade sentimos que a nossa casa é o mundo inteiro, e os nossos irmãos são os homens de toda a terra.
Muitas vezes as pessoas nos perguntam: “E os vossos filhos?” A nossa resposta foi sempre que, cada um deles, como o amor que lhes demos, com a fé que lhes transmitimos, como o nosso testemunho de vida com a ajuda de Deus, deverá percorrer a própria estrada, fazer as próprias escolhas, em liberdade como fizemos nós. A tarefa de formar apóstolos e missionários de Cristo, inicia nossa família. Esta é o nosso primeiro campo de apostolado. A Igreja doméstica é o local onde os nossos filhos começam a conhecer Deus e é a primeira escola de evangelização, onde todos somos evangelizados e evangelizadores.
A nós não cabe conhecer o momento, nem temos o direito de pretender os frutos de nossa semeadura. Isto o sabe somente Deus. A nós cabe semear todos os dias com paciência e esperança, amar-nos unidos com a certeza que “Aquele que iniciou em vós esta obra boa a levará ao seu termo” (Fil 1,6), porque “quem confiou no Senhor e permaneceu desiludido?” (Sir 2,10).
Adriana e Alfonso: família missionária no México
Somos Adriana e Alfonso, um casal mexicano, somos casados a treze anos e Deus nos concedeu sermos pais de quatro filhos. Conhecemo-nos trabalhando nas missões e durante o noviciado compreendemos que Deus nos chamava a servi-lo juntos e por isto decidimos nos casar. No início acreditávamos servir a Deus com as nossas profissões. Como médico e como laureada em comunicação; foi-nos proposto trabalhar na África, mas Deus, com o nascimento do nosso primeiro filho, nos fez ver que não eram estes os seus planos.
Seis meses mais tarde conhecemos a Fraternidade Missionária Verbum Dei e compreendemos que se podia ser uma família e consagrar a vida à evangelização. Duas coisas que nos pareciam inconciliáveis. Aceitamos a chamada de Deus e iniciamos a aventura mais fascinante da nossa vida: seguir Cristo de perto, ao ponto de nos consagrarmos como casal missionário Verbum Dei. Desde então o nosso único desejo foi: Escutar o Senhor através de sua Palavra, deixar-se forjar por Ele e levar a sua mensagem às pessoas que Ele põe em nosso caminho.
Somos testemunhas que o Evangelho é vida e é Verdade. E como família constatamos que quando se busca em primeiro lugar Deus, todo o resto vem em abundância. Após 8 anos de formação, compreendidos alguns anos de teologia, tínhamos a urgência de levar este fogo a outras cidades, motivo pelo qual, como Abraão, deixando a casa, as terras, os parentes, seguimos a chamada de Deus e dos nossos responsáveis a iniciar o movimento na cidade de Puebla.
Estes quatro anos passados em Puebla foram os mais fecundos de nossas vidas. Dedicamo-nos a formar evangelizadores de todas as idades e condições: crianças, adolescentes, jovens, namorados, profissionais, casais, mães solteiras que se aproximaram da fé e agora nos dedicamos a difundi-la na sua universidade: namorados que se deram conta de que o matrimônio é uma vocação e desejam casar-se com a melhor preparação possível e ajudar os outros; casais que se dedicam a dar a oportunidade de começar, porém com Deus; crianças que cresceram com os valores da fé, profissionais que buscam ser coerentes no seu ambiente... Ou seja, pudemos ver a força que tem a Palavra de Deus: quando as pessoas se metem com humildade e docilidade diante d’Ele e obedecem.
Os nossos mesmos filhos que cresceram neste ambiente, maravilham-se quando vêem que chegamos a Puebla em seis e agora somos muitos. Deus nos deu uma grande família: todos aqueles que escutam a Palavra de Deus e a querem por em prática são seus tios, primos, irmãos, avós. Os maiores, que têm 10 e 12 anos, já ajudam nas pregações às crianças pequenas. Os menores de 8 e 6 anos preferem ajudar-nos cantando e dançando as canções dos “amigos de Jesus”.
Trabalhamos o suficiente para viver, e o tempo que sobra dedicamos a ensinar às pessoas a rezar, a formar as pessoas de modo que aprendam a conhecer a Palavra, a dialogar para ajudá-los na sua vida espiritual, a organizar com eles os retiros de fim de semana, etc. É verdade, há muito trabalho a fazer, porém por nada neste mundo cederemos ao nosso cansaço cotidiano, seguindo com o coração satisfeito por ter feito a Sua vontade.
A missão nos uniu como casal, os nossos filhos podem ver que o Evangelho pode ser vivido, e nos foi oferecido um projeto que não terminará com a morte. Este continuará a trabalhar porque nos não fomos mais que “servos inúteis, que fizeram aquilo que deveriam fazer”. Queremos deixar aos nossos filhos e às pessoas que conhecemos a herança do Evangelho, “onde os ladrões não chegam nem e a traça rói” (Lc 12,33), porque somente a sua Palavra transformará realmente as famílias, os ambientes sociais bem como os políticos.
A nós, como família, cabe escutá-lo, amá-lo e obedecer-lhe... permitindo que Ele passe através de nossa pobre vida e continue a amar cada irmão.
Um casal missionário com dois filhos missionários
Pela graça de Deus, e é o caso de dizê-lo, somos os pais de dois filhos missionários. Em todos estes anos foram muitas as pessoas que, chegando ao conhecimento desta circunstância, se dirigiram a nós para nos manifestar a sua admiração como se tivéssemos sido nós a promover e a incentivar a escolha dos nossos filhos de responder à chamada do Senhor. Nada mais errado! Seguramente nos consideramos sempre uma família cristã, mas que se limitava a freqüentar a Missa dominical e a observar os mandamentos com maior ou menos sucesso. Quando pensávamos no futuro dos nossos filhos não nos passou jamais pela mente que um deles pudesse consagrar-se a Deus. A primeira parte da sua vida transcorreu na Cidade Real, onde juntamente com os dois outros irmãos freqüentaram uma escola pública normal, não uma escola religiosa – ainda que naquele tempo, de um ponto de vista religioso, o ar que se respirava em qualquer tipo de escola, pública ou religiosa, fosse de todo modo muito diferente daquele que se respira hoje.
Em 1986 nos transferimos a Toledo por motivos de trabalho, e encontrar o local de uma nova escola para os nossos 4 filhos não foi tarefa fácil. Finalmente isto foi possível no “Colégio Infantes”, dependente do Arcebispo de Toledo. É plausível que a vocação de nossa filha esteja ligada a ideologia daquela escola? De modo direto diria que não, mas talvez sim, porque é ali que realizei os primeiros contatos com as missionárias do Verbum Dei de Madri. Talvez a sua vocação missionária tivesse nascido justamente assim, mas na época não nos demos conta.
Em 1989 Isabel foi a Santiago de Compostela em peregrinação, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, presidida por João Paulo II, e ao voltar comunicou-nos a sua decisão de tornar-se missionária. Ficamos perplexos e um pouco desconcertados. Jamais esperaríamos que a sua vida tomasse este rumo. Nossa filha era uma menina ao passo dos tempos, com os mesmos hobbies dos jovens de sua idade, não tendo jamais demonstrado um particular interesse em atividades de tipo religiosos ou espiritual.
Eu e minha mulher aceitamos a sua decisão não sem um certa inquietação, especialmente por parte de minha mulher, uma vez que Isabel era a nossa única filha fêmea, porque éramos conscientes que enquanto cristãos não podíamos nos opor à chamada do Senhor. Que contraditório seria pois nos opormos quando era nossa filha que o Senhor chamava?
Acreditávamos que esta fosse uma questão que dizia respeito somente à nossa filha e Deus, e que, portanto, nos deveríamos nos manter fora, mas pouco depois compreendemos que quando Deus chama um membro de uma família, toda a família, no fim das contas, é envolvida. Como já disse antes, eu e minha mulher éramos cristãos de uma qualidade medíocre. Deus não havia uma verdadeira presença em nossas vidas, mas, movidos pelo desejo de entender que coisa leva uma menina de 19 anos a realizar um giro tão drástico em sua vida, quisemos conhecer a comunidade religiosa na qual havia entrado e que até então não sabíamos sequer que existisse.
Soubemos que esta comunidade era dividida em três setores: missionários, missionárias e casais missionários. Saber da existência desta terceira possibilidade foi para nós uma grande novidade, mas também a porta que nos permitiu conhecer um âmbito de fé e de religiosidade completamente novo para nós. Foi como se Deus, movendo nossos os filhos, nos tivesse permitido conhecê-lo.
Ensinaram-nos a rezar e a dialogar com Deus por meio de Sua Palavra, levando-nos à descoberta de um Deus próximo, para nós desconhecido, que preencheu as nossas vidas de VIDA, libertando-nos de todas as coisas que o consumismo nos apresenta como necessárias e que, ao contrário, não são senão fardos pesados que nos distanciam de Deus e nos impedem de sermos felizes.
Havíamos descoberto o tesouro que nossa filha havia descoberto antes; por isto, quando seis anos mais tarde nosso filho menor, 21 anos, noivo e a ponto de formar-se em engenharia agrônoma, nos comunicou que abandonava tudo para se tornar missionário, ao invés de nos preocuparmos, sentimo-nos infinitamente gratos ao Senhor que em sua misericórdia continuava a abençoar-nos sem que sequer o merecêssemos. Haviam acaso se realizado em nossa casa as palavras de Jesus a Zaqueu: hoje chegou a salvação a esta casa?
Não é preciso dizer o impacto que teve a escolha de meu filho sobre o resto da família, especialmente sobre os nossos tios e primos. Para tranqüilizar-lhes, eu, minha mulher e nossos filhos, juntamente a alguns missionários do Verbum Dei, decidimos compartilhar com todos eles uma jornada de convivência no Santuário da Patrona de nossa cidade, da qual participaram além de nossos parentes tantas pessoas de nossa cidade, sobretudo os jovens. Foi uma experiência fantástica! Um sucesso tão grande que agora todos aqueles são tão entusiastas quanto nós do fato que nossos filhos sejam missionários.
Passaram-se 17 anos do nascimento da vocação de minha filha e 11 da de meu filho, e em todo este tempo a nossa família não fez outra coisa que continuar a crescer na família do Verbum Dei. Toledo é uma cidade de grande interesse turístico, diria que uma visita obrigatória, e portanto viver aqui nos dá a oportunidade de acolher tantos missionários e missionárias. A nossa casa hospedou irmãos dos cinco continentes com os quais compartilhamos a sua cultura e a sua fé em Cristo.
Guardamos as recordações da nossa viagem à Rússia e às Filipinas a fim de visitarmos os nossos filhos, nem como das experiências absolutamente inesquecíveis que nos permitiram compartilhar a nossa fé com os irmãos que até agora não conheciam, mas com os quais sentiam-se ligados com vínculos ainda mais fortes do que os de sangue; vínculos que não conhecem as barreiras da cultura o idioma. Como esquecer os nossos encontros com os casais do Verbum Dei de Manila e de Zabu, ou ainda aqueles com os professores da universidade desta última cidade! Éramos um só coração e uma só alma, como nas primeiras comunidades cristãs. Quando se experimenta coisas desta ordem, como tornam-se atuais as palavras do profeta Isaías: alarga o espaço de tua tenda; não pares; alonga as tuas cordas, firma tuas estacas porque te alargarás a esquerda e a direita! Com os nosso filhos, também nós anunciamos Cristo em todos os ambientes em que se movem sem temor daquilo que pensam ou não pensam de nós. Possa Deus acrescentar a nossa fé e conceder-lhes a graça de continuar a testemunhá-Lo, com firmeza e coragem, em cada momento e circunstância em que vivemos.

A FAMÍLIA NO WEB: LINKS ÚTEIS
Portais e sites católicos sobre a família
Vaticano (portal plurilíngüe)
www.vatican.va

Pontifício Conselho para a Família (portal plurilíngüe)
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/family/index_it.htm

Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre o Matrimônio e Família (ita-ing)
http://www.istitutogp2.it/presentazione/home.aspx

Equipe Notre Dame (site em italiano)
http://www.equipes-notre-dame.it/

Centre de Liaison des Equipes de Recherche, Amour et Famille (site em francês)
http://www.cler.net

The Apostolate for Peace in the Family (site em inglês)
http://www.peaceinthefamily.org/

Human Life International (site em inglês e espanhol)
http://www.hli.org/

Vida Humana Internacional (site em espanhol e inglês)
http://www.vidahumana.org/

Women for Faith and Family (site em inglês)
http://www.wf-f.org/

La Treve de Dieu (site em francês, espanhol e inglês)
http://www.trdd.org/

Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família (site em português)
http://providafamilia.org

Confederation Nationale des Associations Familiales Catholiques de France. (site em francês)
http://www.afc-france.org/

LifeSite (site em inglês)
http://www.lifesite.net/

Culture of Life Family Services (site em inglês)
http://www.colfs.org/

Portale delle Famiglie (site em italiano)
http://www.portalefamiglie.it

Adorto - Movimento nazionale per la famiglia e la vita (site em italiano)
http://www.adorto.com/

Mondo Famiglie (site em italiano)
http://www.mondofamiglia.it/

Pastoral Familiar – CNBB (site da Conferência Episcopal do Brasil, em português)
http://www.pastoralfamiliarcnbb.org.br/

La Famiglia.info (site em espanhol)
http://www.lafamilia.info/

The Catholic Family and Human Rights Institute (C-FAM) (site em inglês)
http://www.c-fam.org
John Paul II Institute at The Catholic University of America (site em inglês)
http://www.johnpaulii.edu/

CISF - Centro Internazionale Studi Famiglia (site em italiano)
http://www.sanpaolo.org/cisf/

Movimento Familiare Cristiano (site em italiano)
http://www.mfc-italia.it/

Christian Family Movement (site em inglês)
http://www.cfm.org

Familie: Auf einen Blick (site sobre a família no portal da Conferência Episcopal Alemã)
http://www.katholisch.de/2649.htm

Secretariado Nacional para la Famiglia (site em espanhol da Conferência Episcopal Argentina)
http://www.matrimonioyfamilia.org.ar/

Comision Episcopal de Familia, Infancia y Vida (site em espanhol da Conferência Episcopal Peruana)
http://www.iglesiacatolica.org.pe/cep/cep_comisiones/pagina_inst/familia.htm

Catholic Organization for Life and Family (site em ingles da Conferência Episcopal do Canadá)
http://colf.cccb.ca

Hombre y mujer los creó (site em espanhol da Conferência Episcopal Espanhola)
http://www.Conferênciaepiscopal.es/dossier/familia.htm

USCCB - (FLWY) - Committee on Marriage and Family (site em inglês da Conferência Episcopal dos Estados Unidos da América)
http://www.usccb.org/laity/marriage/

C.E. de Pastoral Familiar (site em espanhol da Conferência Episcopal Mexicana)
http://www.cem.org.mx/comision/familia/index.htm

Departamento de Pastoral Familiar e Infancia de la CEV (site em espanhol da Conferência Episcopal Venezuelana)
http://www.cev.org.ve/dep_03.php


Publicações:

Familia et Vita
Revista quadrimensal do Pontifício Conselho para a Família (italiano)
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/family/documents/rc_pc_family_doc_20031217_review-FV_it.html

________________________________________________________________________
Agência Fides 1/7/2006
Este Dossiê foi edidato por: R.G.,A.P.,C.E.,F.B.G.,P.L.R.,S.L.

 
At 9/17/2007 2:14 da manhã, Anonymous Anónimo escreveu...

MARIA E A EUROPA
(Segunda Parte)

De N. Bux e S. Vitiello


IRLANDA:
- NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
- NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA:
- SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA).
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).

MALTA:
- IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
- SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.

HOLANDA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DO BOSQUE – ‘S-HERTOGENBOSH.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MARR – MAASTRICHT.

POLÔNIA:
- SANTUÁRIO DA MÃE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
- SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLÔNIA DAS DORES – LICHEN.
- SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (NOSSA SENHORA NEGRA)

REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS SETE DORES - ŠAŠTIN.
PAÍSES ESCANDINAVOS:
- SANTUÁRIO DA MÃE DO SENHOR– VADSTENA.

DINAMARCA


IRLANDA

Os santuários irlandeses ainda existentes datam do século XI, pois as terras irlandesas que, embora situadas nos confins do mundo conhecido, foram entre as mais férteis na conversão seguida à evangelização que teve início somente em 432, por obra de São Patrício, originário da Bretanha, sofreram, no século VIII, ataques das populações viquingues, que saquearam e destruíram mosteiros em todo o Norte da Europa.
O reflorescimento da fé católica e a conseguinte devoção mariana devem-se ao deslocamento de populações normandas à ilha, no século XI, que re-batizaram com o nome de Nossa Senhora muitos locais precedentemente dedicados a santos locais.

NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
É o caso de Nossa Senhora da ilha, localidade antes dedicada a San Barry. Continuaram a se fazer peregrinações a este local até mesmo nos períodos de maior perseguição inglesa, durante o reino de Henrique VIII, com características fortemente penitenciais: percorria-se o perímetro da ilha diversas vezes, caminhando a pés descalços na água. Nestes períodos, o fervor católico irlandês tornou-se símbolo da identidade nacional e cultural que foi por tanto tempo negada pela opressão inglesa. Nos períodos de maior perseguição, a consciência de pertença a Cristo, e a conseqüente devoção do homem a seu Criador tornaram-se sempre mais intensos e evidentes, não como conseqüência da necessidade de tomar posição no âmbito do conflito, mas como uma necessidade inegável do homem de unir-se à Verdade, diante da sua injustificável negação.
Em 1647, a primeira assembléia nacional do novo reino proclamou Maria como sua protetora. Em 1641, o povo irlandês, guiado pelo comandante Owen Roe O’Neill, adotou como grito de guerra “Santa Maria” e como estandarte do exército a imagem de Nossa Senhora com o Menino. Mas a resistência foi rapidamente vencida pelas tropas de Oliver Cromwell, que, após percorrer toda a ilha e destruir todo vestígio de culto católico, demoliu todas as igrejas e conventos.
A oração pessoal ou doméstica do Santo Terço, permitiu aos irlandeses manterem a própria identidade católica e alimentar eficazmente a fé. O Terço desempenhou um papel tão importante que se tornou uma característica nacional.
As leis penais contra os católicos foram abolidas apenas em 1828 e a reabilitação social e econômica teve que aguardar tempos ainda mais longos. Os velhos santuários e conventos destruídos foram re-edificados e ainda hoje, as ruínas estão abandonadas. Por isso, ainda não é possível constatar, na Irlanda, a presença de santuários, com exceção de Knock.

NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

O Santuário mariano nacional é meta obrigatória para os irlandeses católicos.
Este local teve origem com a aparição de Nossa Senhora, em companhia de São José e São João Evangelista, completada com um altar com o Divino Cordeiro e a Cruz. A aparição data de 21 de agosto de 1879 e se verificou diante de quinze pessoas de idades diferentes.
O santuário recebe a visita de cerca de um milhão de peregrinos por ano. O evento contribui para reduzir a tensão social e a antipatia pelos ingleses, e foi interpretado como um sinal da assistência celestial e um apelo a permanecer fiéis à Igreja católica, em especial à Divina Eucaristia e ao culto mariano. O próprio bispo, Dom John McHale, comentou com as seguintes palavras a decisão favorável da comissão, sobre a aparição de Knock: «É um privilégio para a pobre gente do Oeste, em sua miséria e sofrimento, que a Virgem tenha aparecido para ela».
Em 1976, foi construída uma grande igreja, que se somou à paróquia, e a localidade foi homenageada com a visita do Servo de Deus João Paulo II, em 30 de setembro, aniversário da aparição.


LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA

Últimas a ser evangelizadas, por volta de 1200, época em que estavam sob a proteção de Maria, as populações bálticas conquistaram a independência em fins de 1991, depois da submissão à URSS, durante o segundo conflito mundial.
A onda reformadora protestante, luterana e calvinista, do século XVI dominou as três nações, que estavam até então sob controle da Ordem Teutônica, da qual o próprio grande mestre, Alberto Hoenzollern, em 1525, aderiu ao luteranismo.

SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA)
Indispensável sustento da “reforma católica”, com a conseqüente re-evangelização daquelas terras, constituiu-se, além da indispensável obra dos padres jesuítas, pela aparição de Maria, em 1612, no então destruído santuário de Silura. Ali, dois pastorzinhos assistiram a aparição de uma jovem mulher que chorava copiosamente, com um menino nos braços; a imagem desapareceu rapidamente. O pastor calvinista local, depois de reprovar severamente as crianças, foi ao local, para desmentir os boatos e dispersar a multidão que se encontrava reunida, mas se surpreendeu ao ver, pessoalmente, o que lhe havia sido narrado. À pergunta do pastor sobre os motivos daquele choro, a Virgem respondeu: “Houve um tempo em que meu Filho era adorado pelo meu povo. Mas este terreno sagrado está agora abandonado ao ferro do arado e aos pastos”. A fama do evento chegou até o sacristão da antiga igreja, que, cego havia muitos anos, quando chegou ao local, readquiriu milagrosamente a visão, tanto que indicou o local indicado pelo pároco para enterrar o ícone de Nossa Senhora, para defende-lo da fúria iconoclasta calvinista, durante a qual, o primitivo santuário foi totalmente destruído. O evento, que obteve imediatamente importante repercussão, chamou muitos à conversão.
O principal obstáculo à premente e contínua tentativa de “russificação” daquelas terras, especialmente após as insurreições anti-zaristas de 1831, foi próprio a nova fé católica. Quando a história, para afirmar um ideal, foi necessária para a eliminação de elementos da realidade, nunca houve uma posição livre, uma primazia do amor pela verdade. A fé em Jesus de Nazaré, suma Verdade, mantém e manteve na história a humana razão, em sua dimensão mais autêntica, e a plena consciência de si e da própria identidade. A violência da ideologia, de fato, tentou destruir aquilo que constituía os próprios símbolos das nações: a Igreja de São Casimiro e Vilnius, coração da Lituânia católica e máxima expressão arquitetônica do País, foi requisitada pelo exército russo; a comunidade carmelita do santuário da Porta da Aurora, em Vilnius, foi afastada; em 1866 as peregrinações foram proibidas, através de medidas legislativas.
Forte da própria fé e da proteção mariana, o povo sempre se opôs, compacto, a esta ‘invasão’ ideológica, tanto que o general russo Mura’ëv, principal condutor da feroz repressão, escreveu em um relatório entregue ao zar Alexandre II: “Não podemos nos iludir, e é preciso saber que até quando existir o catolicismo no País, o Governo não conseguirá submete-lo”.
A devoção mariana teve uma importante expansão nestas terras a partir de 1917, com a queda do zarismo, por obra da revolução comunista, até 1940, ano em que a Rússia ocupou o território. Recuperou-se a tradição das peregrinações, que encontrou sua mais alta expressão em Suliva. A vitalidade mariana báltica foi tanta que suscitou a admiração do então Núncio Apostólico na Polônia, Dom Achille Ratti, sucessivamente papa, com o nome de Pio XI, que definiu a Lituânia como “Terra de Maria”. A definição agradou tanto a população lituana, que a assumiu como sua.
Mesmo sob a ditadura comunista, as peregrinações continuaram a constituir, para o povo, um momento de expressão fundamental da própria fidelidade a Cristo e à Igreja, em sua identidade nacional. A magistralidade dos eventos marianos conseguiu reduzir as autoridades políticas à impotência.




SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).
Um dos principais locais de cultos bálticos, o santuário de Nossa Senhora Negra de Aglona, na Letônia, merece atenção. Erguida em 1699 como simples igrejinha de madeira, anexa a um convento dominicano e situada entre um bosque de pinheiros, a construção foi ampliada significativamente em 1768, após os prodígios verificados na veneração da imagem de madeira que retratava o ícone do santuário mariano de Torki, que, com a cor assumida nos tempos, foi apelidada de “Nossa Senhora Negra”, e sua predileção como meta de peregrinações.


MALTA

Polônia do Mediterrâneo, a ilha de Malta assistiu, graças à conquista normanda, ao florescimento do culto mariano, cujas orações desempenharam um papel determinante durante a resistência dos católicos malteses ao incessante assédio de 1565, realizado por duzentos navios provenientes da ‘islamizada’ Istambul, para obter o controle do Mar Mediterrâneo. Na véspera da Natividade de Maria, a inesperada retirada da frota turca foi interpretada como um sinal claro de proteção da Bem-aventurada Virgem. Assim, em 7 de setembro, desde então, o dia é celebrado como dia da festa de Nossa Senhora das Vitórias, além de ser feriado nacional. Perdida a liberdade de autodeterminação com a conquista napoleônica de 1798, graças ao enfraquecimento da Soberana Ordem de Malta, a ilha passou, em 1814, sob a soberania da Grã-Bretanha. Malta tornou-se um estado independente no Commonwealth somente em 1964.

IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
Uma das obras mais grandiosas da arquitetura mundial, a Igreja da Glória de Mosta, erguida em fins de 1800, constitui uma cópia quase perfeita, e de dimensões apenas levemente menores, do Pantheon de Roma. Por isso, merece o título de “terceira cúpula” do mundo, depois de São Pedro, no Vaticano, e o próprio Pantheon. O glorioso edifício, extremamente complexo, do ponto de vista arquitetônico, foi realizado por um mestre-de-obras quase analfabeta, mas herdeiro da arte secular dos malteses de esculpir a pedra local.
Durante a grande guerra, as mesmas bombas italianas que destruíram parcialmente a Polônia do Mediterrâneo, caíram diversas vezes sobre a grande cúpula, mas, inexplicavelmente, despencaram dela, sem explodir. A população viu neste episódio um sinal de proteção da Rainha dos Apóstolos.



SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.
Uma das imagens marianas mais queridas pelos malteses foi conservada na parte noroeste da ilha de Gozo, em uma pequena igreja em cujo local hoje se encontra o santuário de Ta’ Pinu. Ela foi colocada por um certo Filippo Guaci (Pino, a quem o santuário) em 1619, na então capela campestre, simples, que estava no local deste a época Medioeval; onde o pintor italiano Amadeo Perugino havia pintado uma imagem de Nossa Senhora da Glória no Céu. A construção do santuário, datada de 1883, após uma aparição de Nossa Senhora a uma camponesa do local, Carmni Grima. Passando diante da igrejinha, ela foi chamada por uma voz feminina, que lhe disse: “Reza três Ave Maria, em honra dos três dias em que meu corpo permaneceu na tumba”. Descrevendo o episódio a um pio jovem da localidade, a mulher descobriu que ele também havia sido convidado a rezar pela “chaga escondida” de Jesus, ou seja, a ferida que o peso da Cruz havia provocado em suas costas.
O bispo local, depois de interrogar os dois videntes, autorizou o exercício do culto, que se ampliou, renovado, quando, em 1887, os residentes da ilha superaram milagrosamente imunes uma epidemia de cólera.
O novo santuário, em estilo românico-bizantino, foi consagrado em 1931, e a imagem foi coroada pelo Capítulo Vaticano, em 1935.

HOLANDA

Os Países Baixos tiveram conhecimento pela primeira vez do Evento cristão em 384, graças à evangelização de São Serviço, primeiro apóstolo daquela região, que desempenhou seu ministério em Maastricht (no sul, no confim com a Bélgica). Narra-se que construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora, que, sucessivamente, se transformou no atual e majestoso santuário.
A necessária re-evangelização daquelas terras, após as invasões das populações bárbaras do século VII, foi atuada pelos monges itinerantes irlandeses, entre os quais, Wilfrid e são Willibrord (657 - 738), que se tornou o santo mais popular dos Países Baixos. Ele exerceu seu ministério principalmente em Utrecht, onde fundou uma igreja mariana.
O povo católico holandês aumentou entre as “competições cidadãs” do ano Mil, no qual todas as instituições da sociedade de então se esforçavam em obter, para a própria cidade, a proteção de Nossa Senhora, sobretudo através da adoção de uma imagem milagrosa, quase sempre de pequenas dimensões, sem particulares pretensões estéticas ou artísticas. Um povo que conheceu o envolvimento humano das peregrinações que, mais do que nunca, formalizavam a união histórica entre os Países Baixos e a vizinha Bélgica, rica de numerosas metas de culto.
Este país também não foi poupado pela onda protestante, concretizada com a perseguição calvinista contra os católicos. Estes, os católicos, objetivamente em minoria, viram-se privados de seus direitos fundamentais, como os políticos, e lhes foi impedido de exercer publicamente o culto, assistindo inermes à equiparação de sua fé a um simples reato, punível penalmente.
Proibida qualquer evocação à oração, de modo especial aos santuários, todas as festividades, peregrinações e procissões foram banidas. Deste modo, os católicos holandeses puderam prosseguir com sua prática religiosa apenas camuflando-as com outras formas, tentando assim preservar e custodiar a própria identidade cristã, e consequentemente, nacional.
É o caso de ‘s-Hertogenbosh, onde a antiga procissão, realizada durante sete noites consecutivas ao redor da cidade, se transformou numa composta e silenciosa passeata.
Os católicos puderam recomeçar a ver reconhecida a própria identidade, dignidade e liberdade somente em fins do ano 1700, com a ocupação napoleônica e a expulsão dos Orange. Neste período, o Povo de Deus obteve as catedrais precedentemente requisitadas, entre as quais, a de “Nossa Senhora do Bosque de ‘s-Hertogenbosh”, que merece atenção particular.

SANTUÁRIO DI NOSTRA SIGNORA DEL BOSCO – ‘S-HERTOGENBOSH.
O edifício do tardo período gótico, tem como origem de seu culto uma estátua milagrosa, conservada na capela desta grandiosa e maravilhosa catedral.
A estátua, inicialmente removida e colocada em um depósito, pois considerada pouco preciosa, atraiu o culto popular quando, em uma inútil tentativa de transporta-la novamente à catedral, devido à insistência de um operário, verificaram-se numerosas e atentamente documentadas curas.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MAR – MAASTRICHT.
Em Maastricht, berço do cristianismo holandês, o culto mariano é muito antigo e profundamente enraizado. A igreja atual data do ano 1100, e tem o aspecto de uma fortaleza, com suas torres de defesa. A estátua ali conservada data de 1400 e, provavelmente, substituiu uma imagem ainda mais antiga.
A população começou a peregrinar a Nossa Senhora Estrela do Mar no início de 1500, e seu culto se prolongou até 1639, quando a cidade foi dominada pelos Protestantes. Naquele ano, a estátua iniciou uma fase de complicadas peregrinações entre Bélgica e Holanda, que tiveram fim somente em meados do século passado, quando a imagem foi depositada em seu lugar.

POLÔNIA

«Mãe de Deus, Virgem, glorificada pelo Senhor, Maria, dai-nos a graça. Kyrie eleison», entre as composições poéticas mais antigas da língua polonesa, assim reza um hino mariano, cantado ainda hoje, clara expressão deste povo à Mãe da Igreja, a “Begurodzica” (Mãe de Deus).
No território polonês, marcado por uma identidade fortemente católica, datada de cerca do ano Mil, as expressões de devoção a Nossa Senhora assumem uma intensidade e uma cordialidade dificilmente existentes em outros países. A Mãe de Deus é parte integrante da vida pública, social, e principalmente familiar desta população. É suficiente recordar, por exemplo, que para se iniciar atividades como agricultor ou construtor, era preciso pedir a intercessão da Virgem, através da benção, sem a qual não era permitido começar a trabalhar.
A primeira igreja construída na Polônia foi consagrada à Glória, cujo culto jamais veio a menos na devoção popular, e se difundiu principalmente graças à ordem cisterciense. Um grupo de monges paulinos, enviados por Luigi d’Angiò, então rei da Hungria e da Polônia, em fins de 1300, deu início à construção do santuário de Jasna Gora, nas redondezas de Czestochowa.
Em meados do século XVI, marcado pela influência da Reforma protestante, assistiu-se à reafirmação da Igreja católica, sobretudo por obra dos jesuítas e através da forte devoção mariana, pois a Polônia, circundada por povos pagãos, tomou consciência de si como baluarte do catolicismo e proclamou Maria como “Rainha da Polônia”.

SANTUÁRIO DA MAE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
Um significativo episódio de intercessão mariana na história polonesa data dos anos do domínio do rei João Casimiro (1648-1668), quando a expansão para os territórios do Leste causou o chamado “período do dilúvio”. O exército polonês sofreu uma séria derrota do império zarista, e ao mesmo tempo, foi atacado pelos suecos. Em dezembro de 1655, e precisamente na noite depois do Natal, sua marcha em direção do interior da Polônia foi detida exatamente sob o muro do mosteiro de Jasna Gora. Maria, protetora dos frágeis, não permitiu que a “sede” de seu reino caísse em mãos inimigas. Assim sendo, rei Casimiro consagrou a Virgem toda a nação, em 1o de abril do ano seguinte.
O santuário polonês por excelência foi alvo de numerosas vicissitudes, entre as quais, em 1430, o saque por parte de um bando de ussitas provenientes da Boemia, que reduziram em pedaços o ícone, que teve que ser necessariamente pintado novamente. Este sacrilégio alimentou ainda mais o movimento peregrino e consagrou Jasna Gora como santuário nacional. A primitiva igreja em madeira deu lugar a uma igreja de estilo gótico, mas ainda permanece como capela e constituiu o coração do amplo complexo sagrado. O esplendido mosteiro e os muros, construídos para defender o santuário-castelo, datam de 1600.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
A aparição da Mãe Santa em Gietrzwald, em 1877, merece atenção especial. Naquele ano, a região polonesa foi dominada pela “germanização” imposta pelo Chanceler Bismark, que proibiu inclusive o uso da língua polonesa em toda a região sob seu domínio. Nela, se encontrava uma igreja, na qual estava exposta ao culto do povo uma imagem que reproduzia de modo livre a de Częstochowa.
Naquele ano, duas jovens, Jacinta e Bárbara, foram protagonistas de uma magistral aparição da Imaculada Conceição, que, transgredindo a dura lei do “Chanceler de ferro”, desabafou com eles, em polonês, pedindo que rezasse o terço, e anunciando o fim da longa perseguição religiosa.
Deve-se também mencionar o santuários da Mãe de Deus Zebrzydow, em Kalwaria Zebrzydowska, da Imaculada Conceição de Niepokalanòw, da Bem.aventurada Mãe de Piekary , em Piekary Slaskie, de Nossa Senhora das Graças, em Varsóvia (no qual se venera uma cópia da imagem de Faenza (Itália), cuja devoção foi difundida por padre Giacinto Orselli).
Também são relevantes:

SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLONIA DAS DORES – LICHEN.
Nasce da aparição ocorrida diante de um soldado polonês, Tomás Klossowski, gravemente ferido no campo de batalha de Lipsia (1813), ao qual a Virgem concedeu a cura e pediu que encontrasse um ícone, que pode achar somente vinte e três anos depois, e que ainda hoje é venerado na capela do santuário.

SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (VIRGEM NEGRA).
Enfim, o mais evidente problema, não apenas polonês, mas do catolicismo em geral, da total e exemplar seqüela de Cristo na devoção a Virgem Maria, o Servo de Deus João Paulo II, desempenhou um papel fundamental no reconhecimento da veridicidade da mensagem da Divina Misericórdia, a Divina Misericórdia. De sua difusão, encarregou-se a humilde serva, e hoje santa, Faustina Kowalska, irmã da Congregação da Bem-aventurada Virgem Maria da Misericórdia.
Ela passou ali seus dois últimos anos de vida terrena, para em seguida nascer nos Céus, aos trinta e três anos, depois de sofrimentos agudos causados pela tuberculose, contraída em uma colina do bairro de Lagiewniki, onde hoje surge o santuário mais conhecido da Polônia, da Divina Misericórdia.
A santidade sempre fecunda de Kowalska que, sofrendo e adorando, optou por doar cotidianamente tudo de si a Deus, faz desta colina e deste santuário o fulcro da oração e da busca do infinito Amor da Misericórdia de Jesus Cristo, assim como se notam, na imagem ali conservada, os dois raios luminosos que emergem de Seu coração.
O próprio Papa João Paulo II recuperou a mensagem da Divina Misericórdia e depositou a primeira pedra do novo santuário, situado exatamente sobre o original.
O novo projeto arquitetônico, embora caracterizado pela busca de luminosidade, com amplos espaços de cimento armado, decepciona do ponto de vista litúrgico, pois possui poucas referencias religiosas, com exceção da grande imagem de irmã Faustina, retratada em um quadro.
O principal efeito destas construções é a perda de importância do Santíssimo Sacramento em relação à “funcionalidade”, ao minimalismo e à acústica do espaço religioso. Com isto, o Tabernáculo não está centralizado, o que causa a desorientação dos fiéis.
Já a antiga capela interna, onde Kowalska rezava e fazia recolhimento espiritual, tem mais impacto. Em seu interior, os peregrinos têm a possibilidade de rezar diante do Santíssimo, ao lado do qual encontra-se uma efígie da maravilhosa Nossa Senhora Negra.


REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA

A República Checa e a Eslováquia, que se tornaram independentes somente em 1993, possuem as mesmas origens cristãs.
A cristianização destes territórios deve-se, em particular, ao testemunho eficaz dos Santos Cirilo e Metódio, que colocaram as bases, não apenas da fé, mas também de uma característica piedade mariana, hoje parte da vida espiritual e litúrgica, assim como intelectual e cultural, de ambos os países.
As duas culturas cristãs foram atingidas por duas graves feridas na fé católica: a devida à pregação de Hus, em 1400, e a Reforma Luterana, em 1500, que comprometeram, por muito tempo, seu peculiar catolicismo.
Todavia, vários prodígios, em áreas campestres e bosques, o achado de um considerável número de imagens e proteções milagrosas durante ataques inimigos, permitiram o contínuo surgimento de santuários e locais de culto, graças, sobretudo, ao crescimento de ordens religiosas. Merecem atenção particular os Jesuítas, que, sob a proteção dos Asburgo, restauraram o catolicismo romano, recebendo força da grande devoção mariana que os distingue.
A eles, deve-se a abertura de muitos santuários suprimidos ou abandonados, estimulando, desta forma, o antigo entusiasmo popular pela Mãe de Deus, intitulada “Protetora” de seus territórios, que se tornaram assim “Jardim de Maria”: esta devoção é provada por longas procissões, animadas por orações e cantos, e por bandeiras e estátuas que evocam os mistérios da fé nos meses de maio e outubro, com a recitação do Santo Terço, e nas vigílias de festividades marianas, com o jejum, bem como em peregrinações.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
Provavelmente o mais antigo da Boemia, foi dedicado inicialmente aos Santos Cosme e Damião. A devoção mariana começou a crescer por volta de 1600, após a descoberta de uma placa de metal dourado, sobre a qual constava um retrato mariano. Por ter sido roubada e re-encontrada três vezes durante a guerra dos trinta anos, foi chamada “Paládio da Boemia”. A tradição reza que ela foi doada a São Metódio e santa Ludmila, e ainda hoje, está exposta à devoção popular.



SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS SETE DORES - ŠAŠTIN.
Em 1927, o Santo Padre Pio XI proclamou Nossa Senhora das Dores como padroeira da Eslováquia. Este santuário nasceu por causa de uma imagem de uma nobre húngara, abandonada pelo marido, doada a Nossa Senhora das Dores. A mulher prometera construir um oratório em Sua homenagem, caso o marido retornasse.
Em breve tempo, seu desejo se realizou, e hoje, o santuário está aberto ao público, embora o mosteiro salesiano anexo tenha sido transformado em quartel, em 1927, para impedir práticas de piedade.


PAÍSES ESCANDINAVOS

Em função da evidente homogeneidade histórica, cultural e religiosa, aborda-se conjuntamente os países da Suécia, Noruega, Finlândia e Islanda, dedicando um espaço autônomo à Dinamarca, histórica e culturalmente mais autônoma e rica de tradições cristãs, em relação a seus vizinhos.
O mérito da difusão do cristianismo nestas terras, marcadas principalmente por florestas, deve ser reconhecido à obra do beneditino Santo Ancário, no ano 830. Após a chegada da ordem cisterciense, a atividade missionária desenvolveu-se significativamente, enraizada na devoção mariana e confiada à sua intercessão.
A difusão do culto de Maria, considerado elemento fundamental e insubstituível para o amadurecimento da fé, é um objetivo primário dos filhos de São Bernardo e São Norberto. A eles, deve-se a edificação e a consagração de um importante número de capelas e igrejas, erguidas em homenagem a Nossa Senhora.

SANTUÁRIO DELLA MADRE DEL SIGNORE – VADSTENA.
Um novo impulso à piedade mariana foi dado com a chegada das ordens franciscana e dominicana, e, em especial com a fúlgida figura de Santa Brígida (1303-1373). Educada à vida cisterciense, fundou a Ordem do Santíssimo Salvador, sub-dividindo a adesão em um ramo masculino e um feminino. A mãe abadessa, que representava a Bem-aventurada Virgem Maria, recebeu a obediência seja das consagradas como dos monges, inspirando-se em Maria entre os Onze, no Pentecostes.
Sucessivamente, surgiram várias confrarias do Terço, que se constituíram como verdadeiras “casas do Terço de Maria”, centro impulsores do testemunho dominicano e custódios da coroa de Santa Brígida.


DINAMARCA

O Povo de Deus sempre encontrou, na história, conforto e acolhida no materno afeto da Virgem Maria. O Evento cristão e o conseqüente lema de devoção à Mãe Celestial chegou em terras dinamarquesas pela primeira vezes graças ao santo beneditino Villibrord (658-739), primeiro bispo de Utrecht. A obra de Deus foi conduzida, entre 950 e 1150, pelos missionários anglo-normandos e beneditinos. A Nossa Senhora, foi atribuído, então, o título de “Rainha da Dinamarca”. Em apenas um século, o País ganhou cerca de duas mil igrejas, muitas das quais intituladas a Santa Maria. Ergueram-se, consequentemente, esplêndidas e gigantescas catedrais góticas e românticas, que suscitaram a chegada de novas ordens monásticas, difundindo ainda mais a espiritualidade mariana: com o nome da Virgem, surgiram, vinte e quatro mosteiros beneditinos, quinze cistercienses, sete premostratrenses, vinte e seis dominicanos, trinta franciscanos, onze carmelitas, nove agostinianos e dois brigidinos.
Após a expansão do luteranismo, no século XVI, o povo dinamarquês assistiu, inicialmente à supressão dos altares dedicados a Virgem e à destruição dos ícones, aos quais se voltavam os olhos dos fiéis recolhidos em oração; e em seguida, à promulgação, em 1683, de uma disposição legal que proibiu, sob a pena de morte, os padres católicos de permanecerem no reino.
Todavia, o Povo de Deus permaneceu fiel ao culto mariano, e ao soar do Ângelus, os camponeses continuavam a descobrir a cabeça para rezar o Ave Maria e a ajoelhar-se nos lugares em que havia um altar ou tivesse passado uma estátua de Nossa Senhora.
Finalmente, em 1849, a promulgação de uma nova lei reconheceu aos católicos a plena liberdade de culto, e a possibilidade de se reunir em associações marianas, voltando a edificar, nas décadas sucessivas, conventos e santuários dedicados a Nossa Senhora.

 
At 9/17/2007 2:14 da manhã, Anonymous Anónimo escreveu...

MARIA E A EUROPA
(Segunda Parte)

De N. Bux e S. Vitiello


IRLANDA:
- NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
- NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA:
- SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA).
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).

MALTA:
- IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
- SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.

HOLANDA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DO BOSQUE – ‘S-HERTOGENBOSH.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MARR – MAASTRICHT.

POLÔNIA:
- SANTUÁRIO DA MÃE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
- SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLÔNIA DAS DORES – LICHEN.
- SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (NOSSA SENHORA NEGRA)

REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS SETE DORES - ŠAŠTIN.
PAÍSES ESCANDINAVOS:
- SANTUÁRIO DA MÃE DO SENHOR– VADSTENA.

DINAMARCA


IRLANDA

Os santuários irlandeses ainda existentes datam do século XI, pois as terras irlandesas que, embora situadas nos confins do mundo conhecido, foram entre as mais férteis na conversão seguida à evangelização que teve início somente em 432, por obra de São Patrício, originário da Bretanha, sofreram, no século VIII, ataques das populações viquingues, que saquearam e destruíram mosteiros em todo o Norte da Europa.
O reflorescimento da fé católica e a conseguinte devoção mariana devem-se ao deslocamento de populações normandas à ilha, no século XI, que re-batizaram com o nome de Nossa Senhora muitos locais precedentemente dedicados a santos locais.

NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
É o caso de Nossa Senhora da ilha, localidade antes dedicada a San Barry. Continuaram a se fazer peregrinações a este local até mesmo nos períodos de maior perseguição inglesa, durante o reino de Henrique VIII, com características fortemente penitenciais: percorria-se o perímetro da ilha diversas vezes, caminhando a pés descalços na água. Nestes períodos, o fervor católico irlandês tornou-se símbolo da identidade nacional e cultural que foi por tanto tempo negada pela opressão inglesa. Nos períodos de maior perseguição, a consciência de pertença a Cristo, e a conseqüente devoção do homem a seu Criador tornaram-se sempre mais intensos e evidentes, não como conseqüência da necessidade de tomar posição no âmbito do conflito, mas como uma necessidade inegável do homem de unir-se à Verdade, diante da sua injustificável negação.
Em 1647, a primeira assembléia nacional do novo reino proclamou Maria como sua protetora. Em 1641, o povo irlandês, guiado pelo comandante Owen Roe O’Neill, adotou como grito de guerra “Santa Maria” e como estandarte do exército a imagem de Nossa Senhora com o Menino. Mas a resistência foi rapidamente vencida pelas tropas de Oliver Cromwell, que, após percorrer toda a ilha e destruir todo vestígio de culto católico, demoliu todas as igrejas e conventos.
A oração pessoal ou doméstica do Santo Terço, permitiu aos irlandeses manterem a própria identidade católica e alimentar eficazmente a fé. O Terço desempenhou um papel tão importante que se tornou uma característica nacional.
As leis penais contra os católicos foram abolidas apenas em 1828 e a reabilitação social e econômica teve que aguardar tempos ainda mais longos. Os velhos santuários e conventos destruídos foram re-edificados e ainda hoje, as ruínas estão abandonadas. Por isso, ainda não é possível constatar, na Irlanda, a presença de santuários, com exceção de Knock.

NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

O Santuário mariano nacional é meta obrigatória para os irlandeses católicos.
Este local teve origem com a aparição de Nossa Senhora, em companhia de São José e São João Evangelista, completada com um altar com o Divino Cordeiro e a Cruz. A aparição data de 21 de agosto de 1879 e se verificou diante de quinze pessoas de idades diferentes.
O santuário recebe a visita de cerca de um milhão de peregrinos por ano. O evento contribui para reduzir a tensão social e a antipatia pelos ingleses, e foi interpretado como um sinal da assistência celestial e um apelo a permanecer fiéis à Igreja católica, em especial à Divina Eucaristia e ao culto mariano. O próprio bispo, Dom John McHale, comentou com as seguintes palavras a decisão favorável da comissão, sobre a aparição de Knock: «É um privilégio para a pobre gente do Oeste, em sua miséria e sofrimento, que a Virgem tenha aparecido para ela».
Em 1976, foi construída uma grande igreja, que se somou à paróquia, e a localidade foi homenageada com a visita do Servo de Deus João Paulo II, em 30 de setembro, aniversário da aparição.


LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA

Últimas a ser evangelizadas, por volta de 1200, época em que estavam sob a proteção de Maria, as populações bálticas conquistaram a independência em fins de 1991, depois da submissão à URSS, durante o segundo conflito mundial.
A onda reformadora protestante, luterana e calvinista, do século XVI dominou as três nações, que estavam até então sob controle da Ordem Teutônica, da qual o próprio grande mestre, Alberto Hoenzollern, em 1525, aderiu ao luteranismo.

SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA)
Indispensável sustento da “reforma católica”, com a conseqüente re-evangelização daquelas terras, constituiu-se, além da indispensável obra dos padres jesuítas, pela aparição de Maria, em 1612, no então destruído santuário de Silura. Ali, dois pastorzinhos assistiram a aparição de uma jovem mulher que chorava copiosamente, com um menino nos braços; a imagem desapareceu rapidamente. O pastor calvinista local, depois de reprovar severamente as crianças, foi ao local, para desmentir os boatos e dispersar a multidão que se encontrava reunida, mas se surpreendeu ao ver, pessoalmente, o que lhe havia sido narrado. À pergunta do pastor sobre os motivos daquele choro, a Virgem respondeu: “Houve um tempo em que meu Filho era adorado pelo meu povo. Mas este terreno sagrado está agora abandonado ao ferro do arado e aos pastos”. A fama do evento chegou até o sacristão da antiga igreja, que, cego havia muitos anos, quando chegou ao local, readquiriu milagrosamente a visão, tanto que indicou o local indicado pelo pároco para enterrar o ícone de Nossa Senhora, para defende-lo da fúria iconoclasta calvinista, durante a qual, o primitivo santuário foi totalmente destruído. O evento, que obteve imediatamente importante repercussão, chamou muitos à conversão.
O principal obstáculo à premente e contínua tentativa de “russificação” daquelas terras, especialmente após as insurreições anti-zaristas de 1831, foi próprio a nova fé católica. Quando a história, para afirmar um ideal, foi necessária para a eliminação de elementos da realidade, nunca houve uma posição livre, uma primazia do amor pela verdade. A fé em Jesus de Nazaré, suma Verdade, mantém e manteve na história a humana razão, em sua dimensão mais autêntica, e a plena consciência de si e da própria identidade. A violência da ideologia, de fato, tentou destruir aquilo que constituía os próprios símbolos das nações: a Igreja de São Casimiro e Vilnius, coração da Lituânia católica e máxima expressão arquitetônica do País, foi requisitada pelo exército russo; a comunidade carmelita do santuário da Porta da Aurora, em Vilnius, foi afastada; em 1866 as peregrinações foram proibidas, através de medidas legislativas.
Forte da própria fé e da proteção mariana, o povo sempre se opôs, compacto, a esta ‘invasão’ ideológica, tanto que o general russo Mura’ëv, principal condutor da feroz repressão, escreveu em um relatório entregue ao zar Alexandre II: “Não podemos nos iludir, e é preciso saber que até quando existir o catolicismo no País, o Governo não conseguirá submete-lo”.
A devoção mariana teve uma importante expansão nestas terras a partir de 1917, com a queda do zarismo, por obra da revolução comunista, até 1940, ano em que a Rússia ocupou o território. Recuperou-se a tradição das peregrinações, que encontrou sua mais alta expressão em Suliva. A vitalidade mariana báltica foi tanta que suscitou a admiração do então Núncio Apostólico na Polônia, Dom Achille Ratti, sucessivamente papa, com o nome de Pio XI, que definiu a Lituânia como “Terra de Maria”. A definição agradou tanto a população lituana, que a assumiu como sua.
Mesmo sob a ditadura comunista, as peregrinações continuaram a constituir, para o povo, um momento de expressão fundamental da própria fidelidade a Cristo e à Igreja, em sua identidade nacional. A magistralidade dos eventos marianos conseguiu reduzir as autoridades políticas à impotência.




SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).
Um dos principais locais de cultos bálticos, o santuário de Nossa Senhora Negra de Aglona, na Letônia, merece atenção. Erguida em 1699 como simples igrejinha de madeira, anexa a um convento dominicano e situada entre um bosque de pinheiros, a construção foi ampliada significativamente em 1768, após os prodígios verificados na veneração da imagem de madeira que retratava o ícone do santuário mariano de Torki, que, com a cor assumida nos tempos, foi apelidada de “Nossa Senhora Negra”, e sua predileção como meta de peregrinações.


MALTA

Polônia do Mediterrâneo, a ilha de Malta assistiu, graças à conquista normanda, ao florescimento do culto mariano, cujas orações desempenharam um papel determinante durante a resistência dos católicos malteses ao incessante assédio de 1565, realizado por duzentos navios provenientes da ‘islamizada’ Istambul, para obter o controle do Mar Mediterrâneo. Na véspera da Natividade de Maria, a inesperada retirada da frota turca foi interpretada como um sinal claro de proteção da Bem-aventurada Virgem. Assim, em 7 de setembro, desde então, o dia é celebrado como dia da festa de Nossa Senhora das Vitórias, além de ser feriado nacional. Perdida a liberdade de autodeterminação com a conquista napoleônica de 1798, graças ao enfraquecimento da Soberana Ordem de Malta, a ilha passou, em 1814, sob a soberania da Grã-Bretanha. Malta tornou-se um estado independente no Commonwealth somente em 1964.

IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
Uma das obras mais grandiosas da arquitetura mundial, a Igreja da Glória de Mosta, erguida em fins de 1800, constitui uma cópia quase perfeita, e de dimensões apenas levemente menores, do Pantheon de Roma. Por isso, merece o título de “terceira cúpula” do mundo, depois de São Pedro, no Vaticano, e o próprio Pantheon. O glorioso edifício, extremamente complexo, do ponto de vista arquitetônico, foi realizado por um mestre-de-obras quase analfabeta, mas herdeiro da arte secular dos malteses de esculpir a pedra local.
Durante a grande guerra, as mesmas bombas italianas que destruíram parcialmente a Polônia do Mediterrâneo, caíram diversas vezes sobre a grande cúpula, mas, inexplicavelmente, despencaram dela, sem explodir. A população viu neste episódio um sinal de proteção da Rainha dos Apóstolos.



SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.
Uma das imagens marianas mais queridas pelos malteses foi conservada na parte noroeste da ilha de Gozo, em uma pequena igreja em cujo local hoje se encontra o santuário de Ta’ Pinu. Ela foi colocada por um certo Filippo Guaci (Pino, a quem o santuário) em 1619, na então capela campestre, simples, que estava no local deste a época Medioeval; onde o pintor italiano Amadeo Perugino havia pintado uma imagem de Nossa Senhora da Glória no Céu. A construção do santuário, datada de 1883, após uma aparição de Nossa Senhora a uma camponesa do local, Carmni Grima. Passando diante da igrejinha, ela foi chamada por uma voz feminina, que lhe disse: “Reza três Ave Maria, em honra dos três dias em que meu corpo permaneceu na tumba”. Descrevendo o episódio a um pio jovem da localidade, a mulher descobriu que ele também havia sido convidado a rezar pela “chaga escondida” de Jesus, ou seja, a ferida que o peso da Cruz havia provocado em suas costas.
O bispo local, depois de interrogar os dois videntes, autorizou o exercício do culto, que se ampliou, renovado, quando, em 1887, os residentes da ilha superaram milagrosamente imunes uma epidemia de cólera.
O novo santuário, em estilo românico-bizantino, foi consagrado em 1931, e a imagem foi coroada pelo Capítulo Vaticano, em 1935.

HOLANDA

Os Países Baixos tiveram conhecimento pela primeira vez do Evento cristão em 384, graças à evangelização de São Serviço, primeiro apóstolo daquela região, que desempenhou seu ministério em Maastricht (no sul, no confim com a Bélgica). Narra-se que construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora, que, sucessivamente, se transformou no atual e majestoso santuário.
A necessária re-evangelização daquelas terras, após as invasões das populações bárbaras do século VII, foi atuada pelos monges itinerantes irlandeses, entre os quais, Wilfrid e são Willibrord (657 - 738), que se tornou o santo mais popular dos Países Baixos. Ele exerceu seu ministério principalmente em Utrecht, onde fundou uma igreja mariana.
O povo católico holandês aumentou entre as “competições cidadãs” do ano Mil, no qual todas as instituições da sociedade de então se esforçavam em obter, para a própria cidade, a proteção de Nossa Senhora, sobretudo através da adoção de uma imagem milagrosa, quase sempre de pequenas dimensões, sem particulares pretensões estéticas ou artísticas. Um povo que conheceu o envolvimento humano das peregrinações que, mais do que nunca, formalizavam a união histórica entre os Países Baixos e a vizinha Bélgica, rica de numerosas metas de culto.
Este país também não foi poupado pela onda protestante, concretizada com a perseguição calvinista contra os católicos. Estes, os católicos, objetivamente em minoria, viram-se privados de seus direitos fundamentais, como os políticos, e lhes foi impedido de exercer publicamente o culto, assistindo inermes à equiparação de sua fé a um simples reato, punível penalmente.
Proibida qualquer evocação à oração, de modo especial aos santuários, todas as festividades, peregrinações e procissões foram banidas. Deste modo, os católicos holandeses puderam prosseguir com sua prática religiosa apenas camuflando-as com outras formas, tentando assim preservar e custodiar a própria identidade cristã, e consequentemente, nacional.
É o caso de ‘s-Hertogenbosh, onde a antiga procissão, realizada durante sete noites consecutivas ao redor da cidade, se transformou numa composta e silenciosa passeata.
Os católicos puderam recomeçar a ver reconhecida a própria identidade, dignidade e liberdade somente em fins do ano 1700, com a ocupação napoleônica e a expulsão dos Orange. Neste período, o Povo de Deus obteve as catedrais precedentemente requisitadas, entre as quais, a de “Nossa Senhora do Bosque de ‘s-Hertogenbosh”, que merece atenção particular.

SANTUÁRIO DI NOSTRA SIGNORA DEL BOSCO – ‘S-HERTOGENBOSH.
O edifício do tardo período gótico, tem como origem de seu culto uma estátua milagrosa, conservada na capela desta grandiosa e maravilhosa catedral.
A estátua, inicialmente removida e colocada em um depósito, pois considerada pouco preciosa, atraiu o culto popular quando, em uma inútil tentativa de transporta-la novamente à catedral, devido à insistência de um operário, verificaram-se numerosas e atentamente documentadas curas.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MAR – MAASTRICHT.
Em Maastricht, berço do cristianismo holandês, o culto mariano é muito antigo e profundamente enraizado. A igreja atual data do ano 1100, e tem o aspecto de uma fortaleza, com suas torres de defesa. A estátua ali conservada data de 1400 e, provavelmente, substituiu uma imagem ainda mais antiga.
A população começou a peregrinar a Nossa Senhora Estrela do Mar no início de 1500, e seu culto se prolongou até 1639, quando a cidade foi dominada pelos Protestantes. Naquele ano, a estátua iniciou uma fase de complicadas peregrinações entre Bélgica e Holanda, que tiveram fim somente em meados do século passado, quando a imagem foi depositada em seu lugar.

POLÔNIA

«Mãe de Deus, Virgem, glorificada pelo Senhor, Maria, dai-nos a graça. Kyrie eleison», entre as composições poéticas mais antigas da língua polonesa, assim reza um hino mariano, cantado ainda hoje, clara expressão deste povo à Mãe da Igreja, a “Begurodzica” (Mãe de Deus).
No território polonês, marcado por uma identidade fortemente católica, datada de cerca do ano Mil, as expressões de devoção a Nossa Senhora assumem uma intensidade e uma cordialidade dificilmente existentes em outros países. A Mãe de Deus é parte integrante da vida pública, social, e principalmente familiar desta população. É suficiente recordar, por exemplo, que para se iniciar atividades como agricultor ou construtor, era preciso pedir a intercessão da Virgem, através da benção, sem a qual não era permitido começar a trabalhar.
A primeira igreja construída na Polônia foi consagrada à Glória, cujo culto jamais veio a menos na devoção popular, e se difundiu principalmente graças à ordem cisterciense. Um grupo de monges paulinos, enviados por Luigi d’Angiò, então rei da Hungria e da Polônia, em fins de 1300, deu início à construção do santuário de Jasna Gora, nas redondezas de Czestochowa.
Em meados do século XVI, marcado pela influência da Reforma protestante, assistiu-se à reafirmação da Igreja católica, sobretudo por obra dos jesuítas e através da forte devoção mariana, pois a Polônia, circundada por povos pagãos, tomou consciência de si como baluarte do catolicismo e proclamou Maria como “Rainha da Polônia”.

SANTUÁRIO DA MAE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
Um significativo episódio de intercessão mariana na história polonesa data dos anos do domínio do rei João Casimiro (1648-1668), quando a expansão para os territórios do Leste causou o chamado “período do dilúvio”. O exército polonês sofreu uma séria derrota do império zarista, e ao mesmo tempo, foi atacado pelos suecos. Em dezembro de 1655, e precisamente na noite depois do Natal, sua marcha em direção do interior da Polônia foi detida exatamente sob o muro do mosteiro de Jasna Gora. Maria, protetora dos frágeis, não permitiu que a “sede” de seu reino caísse em mãos inimigas. Assim sendo, rei Casimiro consagrou a Virgem toda a nação, em 1o de abril do ano seguinte.
O santuário polonês por excelência foi alvo de numerosas vicissitudes, entre as quais, em 1430, o saque por parte de um bando de ussitas provenientes da Boemia, que reduziram em pedaços o ícone, que teve que ser necessariamente pintado novamente. Este sacrilégio alimentou ainda mais o movimento peregrino e consagrou Jasna Gora como santuário nacional. A primitiva igreja em madeira deu lugar a uma igreja de estilo gótico, mas ainda permanece como capela e constituiu o coração do amplo complexo sagrado. O esplendido mosteiro e os muros, construídos para defender o santuário-castelo, datam de 1600.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
A aparição da Mãe Santa em Gietrzwald, em 1877, merece atenção especial. Naquele ano, a região polonesa foi dominada pela “germanização” imposta pelo Chanceler Bismark, que proibiu inclusive o uso da língua polonesa em toda a região sob seu domínio. Nela, se encontrava uma igreja, na qual estava exposta ao culto do povo uma imagem que reproduzia de modo livre a de Częstochowa.
Naquele ano, duas jovens, Jacinta e Bárbara, foram protagonistas de uma magistral aparição da Imaculada Conceição, que, transgredindo a dura lei do “Chanceler de ferro”, desabafou com eles, em polonês, pedindo que rezasse o terço, e anunciando o fim da longa perseguição religiosa.
Deve-se também mencionar o santuários da Mãe de Deus Zebrzydow, em Kalwaria Zebrzydowska, da Imaculada Conceição de Niepokalanòw, da Bem.aventurada Mãe de Piekary , em Piekary Slaskie, de Nossa Senhora das Graças, em Varsóvia (no qual se venera uma cópia da imagem de Faenza (Itália), cuja devoção foi difundida por padre Giacinto Orselli).
Também são relevantes:

SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLONIA DAS DORES – LICHEN.
Nasce da aparição ocorrida diante de um soldado polonês, Tomás Klossowski, gravemente ferido no campo de batalha de Lipsia (1813), ao qual a Virgem concedeu a cura e pediu que encontrasse um ícone, que pode achar somente vinte e três anos depois, e que ainda hoje é venerado na capela do santuário.

SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (VIRGEM NEGRA).
Enfim, o mais evidente problema, não apenas polonês, mas do catolicismo em geral, da total e exemplar seqüela de Cristo na devoção a Virgem Maria, o Servo de Deus João Paulo II, desempenhou um papel fundamental no reconhecimento da veridicidade da mensagem da Divina Misericórdia, a Divina Misericórdia. De sua difusão, encarregou-se a humilde serva, e hoje santa, Faustina Kowalska, irmã da Congregação da Bem-aventurada Virgem Maria da Misericórdia.
Ela passou ali seus dois últimos anos de vida terrena, para em seguida nascer nos Céus, aos trinta e três anos, depois de sofrimentos agudos causados pela tuberculose, contraída em uma colina do bairro de Lagiewniki, onde hoje surge o santuário mais conhecido da Polônia, da Divina Misericórdia.
A santidade sempre fecunda de Kowalska que, sofrendo e adorando, optou por doar cotidianamente tudo de si a Deus, faz desta colina e deste santuário o fulcro da oração e da busca do infinito Amor da Misericórdia de Jesus Cristo, assim como se notam, na imagem ali conservada, os dois raios luminosos que emergem de Seu coração.
O próprio Papa João Paulo II recuperou a mensagem da Divina Misericórdia e depositou a primeira pedra do novo santuário, situado exatamente sobre o original.
O novo projeto arquitetônico, embora caracterizado pela busca de luminosidade, com amplos espaços de cimento armado, decepciona do ponto de vista litúrgico, pois possui poucas referencias religiosas, com exceção da grande imagem de irmã Faustina, retratada em um quadro.
O principal efeito destas construções é a perda de importância do Santíssimo Sacramento em relação à “funcionalidade”, ao minimalismo e à acústica do espaço religioso. Com isto, o Tabernáculo não está centralizado, o que causa a desorientação dos fiéis.
Já a antiga capela interna, onde Kowalska rezava e fazia recolhimento espiritual, tem mais impacto. Em seu interior, os peregrinos têm a possibilidade de rezar diante do Santíssimo, ao lado do qual encontra-se uma efígie da maravilhosa Nossa Senhora Negra.


REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA

A República Checa e a Eslováquia, que se tornaram independentes somente em 1993, possuem as mesmas origens cristãs.
A cristianização destes territórios deve-se, em particular, ao testemunho eficaz dos Santos Cirilo e Metódio, que colocaram as bases, não apenas da fé, mas também de uma característica piedade mariana, hoje parte da vida espiritual e litúrgica, assim como intelectual e cultural, de ambos os países.
As duas culturas cristãs foram atingidas por duas graves feridas na fé católica: a devida à pregação de Hus, em 1400, e a Reforma Luterana, em 1500, que comprometeram, por muito tempo, seu peculiar catolicismo.
Todavia, vários prodígios, em áreas campestres e bosques, o achado de um considerável número de imagens e proteções milagrosas durante ataques inimigos, permitiram o contínuo surgimento de santuários e locais de culto, graças, sobretudo, ao crescimento de ordens religiosas. Merecem atenção particular os Jesuítas, que, sob a proteção dos Asburgo, restauraram o catolicismo romano, recebendo força da grande devoção mariana que os distingue.
A eles, deve-se a abertura de muitos santuários suprimidos ou abandonados, estimulando, desta forma, o antigo entusiasmo popular pela Mãe de Deus, intitulada “Protetora” de seus territórios, que se tornaram assim “Jardim de Maria”: esta devoção é provada por longas procissões, animadas por orações e cantos, e por bandeiras e estátuas que evocam os mistérios da fé nos meses de maio e outubro, com a recitação do Santo Terço, e nas vigílias de festividades marianas, com o jejum, bem como em peregrinações.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
Provavelmente o mais antigo da Boemia, foi dedicado inicialmente aos Santos Cosme e Damião. A devoção mariana começou a crescer por volta de 1600, após a descoberta de uma placa de metal dourado, sobre a qual constava um retrato mariano. Por ter sido roubada e re-encontrada três vezes durante a guerra dos trinta anos, foi chamada “Paládio da Boemia”. A tradição reza que ela foi doada a São Metódio e santa Ludmila, e ainda hoje, está exposta à devoção popular.



SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS SETE DORES - ŠAŠTIN.
Em 1927, o Santo Padre Pio XI proclamou Nossa Senhora das Dores como padroeira da Eslováquia. Este santuário nasceu por causa de uma imagem de uma nobre húngara, abandonada pelo marido, doada a Nossa Senhora das Dores. A mulher prometera construir um oratório em Sua homenagem, caso o marido retornasse.
Em breve tempo, seu desejo se realizou, e hoje, o santuário está aberto ao público, embora o mosteiro salesiano anexo tenha sido transformado em quartel, em 1927, para impedir práticas de piedade.


PAÍSES ESCANDINAVOS

Em função da evidente homogeneidade histórica, cultural e religiosa, aborda-se conjuntamente os países da Suécia, Noruega, Finlândia e Islanda, dedicando um espaço autônomo à Dinamarca, histórica e culturalmente mais autônoma e rica de tradições cristãs, em relação a seus vizinhos.
O mérito da difusão do cristianismo nestas terras, marcadas principalmente por florestas, deve ser reconhecido à obra do beneditino Santo Ancário, no ano 830. Após a chegada da ordem cisterciense, a atividade missionária desenvolveu-se significativamente, enraizada na devoção mariana e confiada à sua intercessão.
A difusão do culto de Maria, considerado elemento fundamental e insubstituível para o amadurecimento da fé, é um objetivo primário dos filhos de São Bernardo e São Norberto. A eles, deve-se a edificação e a consagração de um importante número de capelas e igrejas, erguidas em homenagem a Nossa Senhora.

SANTUÁRIO DELLA MADRE DEL SIGNORE – VADSTENA.
Um novo impulso à piedade mariana foi dado com a chegada das ordens franciscana e dominicana, e, em especial com a fúlgida figura de Santa Brígida (1303-1373). Educada à vida cisterciense, fundou a Ordem do Santíssimo Salvador, sub-dividindo a adesão em um ramo masculino e um feminino. A mãe abadessa, que representava a Bem-aventurada Virgem Maria, recebeu a obediência seja das consagradas como dos monges, inspirando-se em Maria entre os Onze, no Pentecostes.
Sucessivamente, surgiram várias confrarias do Terço, que se constituíram como verdadeiras “casas do Terço de Maria”, centro impulsores do testemunho dominicano e custódios da coroa de Santa Brígida.


DINAMARCA

O Povo de Deus sempre encontrou, na história, conforto e acolhida no materno afeto da Virgem Maria. O Evento cristão e o conseqüente lema de devoção à Mãe Celestial chegou em terras dinamarquesas pela primeira vezes graças ao santo beneditino Villibrord (658-739), primeiro bispo de Utrecht. A obra de Deus foi conduzida, entre 950 e 1150, pelos missionários anglo-normandos e beneditinos. A Nossa Senhora, foi atribuído, então, o título de “Rainha da Dinamarca”. Em apenas um século, o País ganhou cerca de duas mil igrejas, muitas das quais intituladas a Santa Maria. Ergueram-se, consequentemente, esplêndidas e gigantescas catedrais góticas e românticas, que suscitaram a chegada de novas ordens monásticas, difundindo ainda mais a espiritualidade mariana: com o nome da Virgem, surgiram, vinte e quatro mosteiros beneditinos, quinze cistercienses, sete premostratrenses, vinte e seis dominicanos, trinta franciscanos, onze carmelitas, nove agostinianos e dois brigidinos.
Após a expansão do luteranismo, no século XVI, o povo dinamarquês assistiu, inicialmente à supressão dos altares dedicados a Virgem e à destruição dos ícones, aos quais se voltavam os olhos dos fiéis recolhidos em oração; e em seguida, à promulgação, em 1683, de uma disposição legal que proibiu, sob a pena de morte, os padres católicos de permanecerem no reino.
Todavia, o Povo de Deus permaneceu fiel ao culto mariano, e ao soar do Ângelus, os camponeses continuavam a descobrir a cabeça para rezar o Ave Maria e a ajoelhar-se nos lugares em que havia um altar ou tivesse passado uma estátua de Nossa Senhora.
Finalmente, em 1849, a promulgação de uma nova lei reconheceu aos católicos a plena liberdade de culto, e a possibilidade de se reunir em associações marianas, voltando a edificar, nas décadas sucessivas, conventos e santuários dedicados a Nossa Senhora.

 
At 9/17/2007 2:15 da manhã, Anonymous Anónimo escreveu...

MARIA E A EUROPA
(Segunda Parte)

De N. Bux e S. Vitiello


IRLANDA:
- NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
- NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA:
- SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA).
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).

MALTA:
- IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
- SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.

HOLANDA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DO BOSQUE – ‘S-HERTOGENBOSH.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MARR – MAASTRICHT.

POLÔNIA:
- SANTUÁRIO DA MÃE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
- SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLÔNIA DAS DORES – LICHEN.
- SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (NOSSA SENHORA NEGRA)

REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS SETE DORES - ŠAŠTIN.
PAÍSES ESCANDINAVOS:
- SANTUÁRIO DA MÃE DO SENHOR– VADSTENA.

DINAMARCA


IRLANDA

Os santuários irlandeses ainda existentes datam do século XI, pois as terras irlandesas que, embora situadas nos confins do mundo conhecido, foram entre as mais férteis na conversão seguida à evangelização que teve início somente em 432, por obra de São Patrício, originário da Bretanha, sofreram, no século VIII, ataques das populações viquingues, que saquearam e destruíram mosteiros em todo o Norte da Europa.
O reflorescimento da fé católica e a conseguinte devoção mariana devem-se ao deslocamento de populações normandas à ilha, no século XI, que re-batizaram com o nome de Nossa Senhora muitos locais precedentemente dedicados a santos locais.

NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
É o caso de Nossa Senhora da ilha, localidade antes dedicada a San Barry. Continuaram a se fazer peregrinações a este local até mesmo nos períodos de maior perseguição inglesa, durante o reino de Henrique VIII, com características fortemente penitenciais: percorria-se o perímetro da ilha diversas vezes, caminhando a pés descalços na água. Nestes períodos, o fervor católico irlandês tornou-se símbolo da identidade nacional e cultural que foi por tanto tempo negada pela opressão inglesa. Nos períodos de maior perseguição, a consciência de pertença a Cristo, e a conseqüente devoção do homem a seu Criador tornaram-se sempre mais intensos e evidentes, não como conseqüência da necessidade de tomar posição no âmbito do conflito, mas como uma necessidade inegável do homem de unir-se à Verdade, diante da sua injustificável negação.
Em 1647, a primeira assembléia nacional do novo reino proclamou Maria como sua protetora. Em 1641, o povo irlandês, guiado pelo comandante Owen Roe O’Neill, adotou como grito de guerra “Santa Maria” e como estandarte do exército a imagem de Nossa Senhora com o Menino. Mas a resistência foi rapidamente vencida pelas tropas de Oliver Cromwell, que, após percorrer toda a ilha e destruir todo vestígio de culto católico, demoliu todas as igrejas e conventos.
A oração pessoal ou doméstica do Santo Terço, permitiu aos irlandeses manterem a própria identidade católica e alimentar eficazmente a fé. O Terço desempenhou um papel tão importante que se tornou uma característica nacional.
As leis penais contra os católicos foram abolidas apenas em 1828 e a reabilitação social e econômica teve que aguardar tempos ainda mais longos. Os velhos santuários e conventos destruídos foram re-edificados e ainda hoje, as ruínas estão abandonadas. Por isso, ainda não é possível constatar, na Irlanda, a presença de santuários, com exceção de Knock.

NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

O Santuário mariano nacional é meta obrigatória para os irlandeses católicos.
Este local teve origem com a aparição de Nossa Senhora, em companhia de São José e São João Evangelista, completada com um altar com o Divino Cordeiro e a Cruz. A aparição data de 21 de agosto de 1879 e se verificou diante de quinze pessoas de idades diferentes.
O santuário recebe a visita de cerca de um milhão de peregrinos por ano. O evento contribui para reduzir a tensão social e a antipatia pelos ingleses, e foi interpretado como um sinal da assistência celestial e um apelo a permanecer fiéis à Igreja católica, em especial à Divina Eucaristia e ao culto mariano. O próprio bispo, Dom John McHale, comentou com as seguintes palavras a decisão favorável da comissão, sobre a aparição de Knock: «É um privilégio para a pobre gente do Oeste, em sua miséria e sofrimento, que a Virgem tenha aparecido para ela».
Em 1976, foi construída uma grande igreja, que se somou à paróquia, e a localidade foi homenageada com a visita do Servo de Deus João Paulo II, em 30 de setembro, aniversário da aparição.


LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA

Últimas a ser evangelizadas, por volta de 1200, época em que estavam sob a proteção de Maria, as populações bálticas conquistaram a independência em fins de 1991, depois da submissão à URSS, durante o segundo conflito mundial.
A onda reformadora protestante, luterana e calvinista, do século XVI dominou as três nações, que estavam até então sob controle da Ordem Teutônica, da qual o próprio grande mestre, Alberto Hoenzollern, em 1525, aderiu ao luteranismo.

SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA)
Indispensável sustento da “reforma católica”, com a conseqüente re-evangelização daquelas terras, constituiu-se, além da indispensável obra dos padres jesuítas, pela aparição de Maria, em 1612, no então destruído santuário de Silura. Ali, dois pastorzinhos assistiram a aparição de uma jovem mulher que chorava copiosamente, com um menino nos braços; a imagem desapareceu rapidamente. O pastor calvinista local, depois de reprovar severamente as crianças, foi ao local, para desmentir os boatos e dispersar a multidão que se encontrava reunida, mas se surpreendeu ao ver, pessoalmente, o que lhe havia sido narrado. À pergunta do pastor sobre os motivos daquele choro, a Virgem respondeu: “Houve um tempo em que meu Filho era adorado pelo meu povo. Mas este terreno sagrado está agora abandonado ao ferro do arado e aos pastos”. A fama do evento chegou até o sacristão da antiga igreja, que, cego havia muitos anos, quando chegou ao local, readquiriu milagrosamente a visão, tanto que indicou o local indicado pelo pároco para enterrar o ícone de Nossa Senhora, para defende-lo da fúria iconoclasta calvinista, durante a qual, o primitivo santuário foi totalmente destruído. O evento, que obteve imediatamente importante repercussão, chamou muitos à conversão.
O principal obstáculo à premente e contínua tentativa de “russificação” daquelas terras, especialmente após as insurreições anti-zaristas de 1831, foi próprio a nova fé católica. Quando a história, para afirmar um ideal, foi necessária para a eliminação de elementos da realidade, nunca houve uma posição livre, uma primazia do amor pela verdade. A fé em Jesus de Nazaré, suma Verdade, mantém e manteve na história a humana razão, em sua dimensão mais autêntica, e a plena consciência de si e da própria identidade. A violência da ideologia, de fato, tentou destruir aquilo que constituía os próprios símbolos das nações: a Igreja de São Casimiro e Vilnius, coração da Lituânia católica e máxima expressão arquitetônica do País, foi requisitada pelo exército russo; a comunidade carmelita do santuário da Porta da Aurora, em Vilnius, foi afastada; em 1866 as peregrinações foram proibidas, através de medidas legislativas.
Forte da própria fé e da proteção mariana, o povo sempre se opôs, compacto, a esta ‘invasão’ ideológica, tanto que o general russo Mura’ëv, principal condutor da feroz repressão, escreveu em um relatório entregue ao zar Alexandre II: “Não podemos nos iludir, e é preciso saber que até quando existir o catolicismo no País, o Governo não conseguirá submete-lo”.
A devoção mariana teve uma importante expansão nestas terras a partir de 1917, com a queda do zarismo, por obra da revolução comunista, até 1940, ano em que a Rússia ocupou o território. Recuperou-se a tradição das peregrinações, que encontrou sua mais alta expressão em Suliva. A vitalidade mariana báltica foi tanta que suscitou a admiração do então Núncio Apostólico na Polônia, Dom Achille Ratti, sucessivamente papa, com o nome de Pio XI, que definiu a Lituânia como “Terra de Maria”. A definição agradou tanto a população lituana, que a assumiu como sua.
Mesmo sob a ditadura comunista, as peregrinações continuaram a constituir, para o povo, um momento de expressão fundamental da própria fidelidade a Cristo e à Igreja, em sua identidade nacional. A magistralidade dos eventos marianos conseguiu reduzir as autoridades políticas à impotência.




SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).
Um dos principais locais de cultos bálticos, o santuário de Nossa Senhora Negra de Aglona, na Letônia, merece atenção. Erguida em 1699 como simples igrejinha de madeira, anexa a um convento dominicano e situada entre um bosque de pinheiros, a construção foi ampliada significativamente em 1768, após os prodígios verificados na veneração da imagem de madeira que retratava o ícone do santuário mariano de Torki, que, com a cor assumida nos tempos, foi apelidada de “Nossa Senhora Negra”, e sua predileção como meta de peregrinações.


MALTA

Polônia do Mediterrâneo, a ilha de Malta assistiu, graças à conquista normanda, ao florescimento do culto mariano, cujas orações desempenharam um papel determinante durante a resistência dos católicos malteses ao incessante assédio de 1565, realizado por duzentos navios provenientes da ‘islamizada’ Istambul, para obter o controle do Mar Mediterrâneo. Na véspera da Natividade de Maria, a inesperada retirada da frota turca foi interpretada como um sinal claro de proteção da Bem-aventurada Virgem. Assim, em 7 de setembro, desde então, o dia é celebrado como dia da festa de Nossa Senhora das Vitórias, além de ser feriado nacional. Perdida a liberdade de autodeterminação com a conquista napoleônica de 1798, graças ao enfraquecimento da Soberana Ordem de Malta, a ilha passou, em 1814, sob a soberania da Grã-Bretanha. Malta tornou-se um estado independente no Commonwealth somente em 1964.

IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
Uma das obras mais grandiosas da arquitetura mundial, a Igreja da Glória de Mosta, erguida em fins de 1800, constitui uma cópia quase perfeita, e de dimensões apenas levemente menores, do Pantheon de Roma. Por isso, merece o título de “terceira cúpula” do mundo, depois de São Pedro, no Vaticano, e o próprio Pantheon. O glorioso edifício, extremamente complexo, do ponto de vista arquitetônico, foi realizado por um mestre-de-obras quase analfabeta, mas herdeiro da arte secular dos malteses de esculpir a pedra local.
Durante a grande guerra, as mesmas bombas italianas que destruíram parcialmente a Polônia do Mediterrâneo, caíram diversas vezes sobre a grande cúpula, mas, inexplicavelmente, despencaram dela, sem explodir. A população viu neste episódio um sinal de proteção da Rainha dos Apóstolos.



SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.
Uma das imagens marianas mais queridas pelos malteses foi conservada na parte noroeste da ilha de Gozo, em uma pequena igreja em cujo local hoje se encontra o santuário de Ta’ Pinu. Ela foi colocada por um certo Filippo Guaci (Pino, a quem o santuário) em 1619, na então capela campestre, simples, que estava no local deste a época Medioeval; onde o pintor italiano Amadeo Perugino havia pintado uma imagem de Nossa Senhora da Glória no Céu. A construção do santuário, datada de 1883, após uma aparição de Nossa Senhora a uma camponesa do local, Carmni Grima. Passando diante da igrejinha, ela foi chamada por uma voz feminina, que lhe disse: “Reza três Ave Maria, em honra dos três dias em que meu corpo permaneceu na tumba”. Descrevendo o episódio a um pio jovem da localidade, a mulher descobriu que ele também havia sido convidado a rezar pela “chaga escondida” de Jesus, ou seja, a ferida que o peso da Cruz havia provocado em suas costas.
O bispo local, depois de interrogar os dois videntes, autorizou o exercício do culto, que se ampliou, renovado, quando, em 1887, os residentes da ilha superaram milagrosamente imunes uma epidemia de cólera.
O novo santuário, em estilo românico-bizantino, foi consagrado em 1931, e a imagem foi coroada pelo Capítulo Vaticano, em 1935.

HOLANDA

Os Países Baixos tiveram conhecimento pela primeira vez do Evento cristão em 384, graças à evangelização de São Serviço, primeiro apóstolo daquela região, que desempenhou seu ministério em Maastricht (no sul, no confim com a Bélgica). Narra-se que construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora, que, sucessivamente, se transformou no atual e majestoso santuário.
A necessária re-evangelização daquelas terras, após as invasões das populações bárbaras do século VII, foi atuada pelos monges itinerantes irlandeses, entre os quais, Wilfrid e são Willibrord (657 - 738), que se tornou o santo mais popular dos Países Baixos. Ele exerceu seu ministério principalmente em Utrecht, onde fundou uma igreja mariana.
O povo católico holandês aumentou entre as “competições cidadãs” do ano Mil, no qual todas as instituições da sociedade de então se esforçavam em obter, para a própria cidade, a proteção de Nossa Senhora, sobretudo através da adoção de uma imagem milagrosa, quase sempre de pequenas dimensões, sem particulares pretensões estéticas ou artísticas. Um povo que conheceu o envolvimento humano das peregrinações que, mais do que nunca, formalizavam a união histórica entre os Países Baixos e a vizinha Bélgica, rica de numerosas metas de culto.
Este país também não foi poupado pela onda protestante, concretizada com a perseguição calvinista contra os católicos. Estes, os católicos, objetivamente em minoria, viram-se privados de seus direitos fundamentais, como os políticos, e lhes foi impedido de exercer publicamente o culto, assistindo inermes à equiparação de sua fé a um simples reato, punível penalmente.
Proibida qualquer evocação à oração, de modo especial aos santuários, todas as festividades, peregrinações e procissões foram banidas. Deste modo, os católicos holandeses puderam prosseguir com sua prática religiosa apenas camuflando-as com outras formas, tentando assim preservar e custodiar a própria identidade cristã, e consequentemente, nacional.
É o caso de ‘s-Hertogenbosh, onde a antiga procissão, realizada durante sete noites consecutivas ao redor da cidade, se transformou numa composta e silenciosa passeata.
Os católicos puderam recomeçar a ver reconhecida a própria identidade, dignidade e liberdade somente em fins do ano 1700, com a ocupação napoleônica e a expulsão dos Orange. Neste período, o Povo de Deus obteve as catedrais precedentemente requisitadas, entre as quais, a de “Nossa Senhora do Bosque de ‘s-Hertogenbosh”, que merece atenção particular.

SANTUÁRIO DI NOSTRA SIGNORA DEL BOSCO – ‘S-HERTOGENBOSH.
O edifício do tardo período gótico, tem como origem de seu culto uma estátua milagrosa, conservada na capela desta grandiosa e maravilhosa catedral.
A estátua, inicialmente removida e colocada em um depósito, pois considerada pouco preciosa, atraiu o culto popular quando, em uma inútil tentativa de transporta-la novamente à catedral, devido à insistência de um operário, verificaram-se numerosas e atentamente documentadas curas.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MAR – MAASTRICHT.
Em Maastricht, berço do cristianismo holandês, o culto mariano é muito antigo e profundamente enraizado. A igreja atual data do ano 1100, e tem o aspecto de uma fortaleza, com suas torres de defesa. A estátua ali conservada data de 1400 e, provavelmente, substituiu uma imagem ainda mais antiga.
A população começou a peregrinar a Nossa Senhora Estrela do Mar no início de 1500, e seu culto se prolongou até 1639, quando a cidade foi dominada pelos Protestantes. Naquele ano, a estátua iniciou uma fase de complicadas peregrinações entre Bélgica e Holanda, que tiveram fim somente em meados do século passado, quando a imagem foi depositada em seu lugar.

POLÔNIA

«Mãe de Deus, Virgem, glorificada pelo Senhor, Maria, dai-nos a graça. Kyrie eleison», entre as composições poéticas mais antigas da língua polonesa, assim reza um hino mariano, cantado ainda hoje, clara expressão deste povo à Mãe da Igreja, a “Begurodzica” (Mãe de Deus).
No território polonês, marcado por uma identidade fortemente católica, datada de cerca do ano Mil, as expressões de devoção a Nossa Senhora assumem uma intensidade e uma cordialidade dificilmente existentes em outros países. A Mãe de Deus é parte integrante da vida pública, social, e principalmente familiar desta população. É suficiente recordar, por exemplo, que para se iniciar atividades como agricultor ou construtor, era preciso pedir a intercessão da Virgem, através da benção, sem a qual não era permitido começar a trabalhar.
A primeira igreja construída na Polônia foi consagrada à Glória, cujo culto jamais veio a menos na devoção popular, e se difundiu principalmente graças à ordem cisterciense. Um grupo de monges paulinos, enviados por Luigi d’Angiò, então rei da Hungria e da Polônia, em fins de 1300, deu início à construção do santuário de Jasna Gora, nas redondezas de Czestochowa.
Em meados do século XVI, marcado pela influência da Reforma protestante, assistiu-se à reafirmação da Igreja católica, sobretudo por obra dos jesuítas e através da forte devoção mariana, pois a Polônia, circundada por povos pagãos, tomou consciência de si como baluarte do catolicismo e proclamou Maria como “Rainha da Polônia”.

SANTUÁRIO DA MAE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
Um significativo episódio de intercessão mariana na história polonesa data dos anos do domínio do rei João Casimiro (1648-1668), quando a expansão para os territórios do Leste causou o chamado “período do dilúvio”. O exército polonês sofreu uma séria derrota do império zarista, e ao mesmo tempo, foi atacado pelos suecos. Em dezembro de 1655, e precisamente na noite depois do Natal, sua marcha em direção do interior da Polônia foi detida exatamente sob o muro do mosteiro de Jasna Gora. Maria, protetora dos frágeis, não permitiu que a “sede” de seu reino caísse em mãos inimigas. Assim sendo, rei Casimiro consagrou a Virgem toda a nação, em 1o de abril do ano seguinte.
O santuário polonês por excelência foi alvo de numerosas vicissitudes, entre as quais, em 1430, o saque por parte de um bando de ussitas provenientes da Boemia, que reduziram em pedaços o ícone, que teve que ser necessariamente pintado novamente. Este sacrilégio alimentou ainda mais o movimento peregrino e consagrou Jasna Gora como santuário nacional. A primitiva igreja em madeira deu lugar a uma igreja de estilo gótico, mas ainda permanece como capela e constituiu o coração do amplo complexo sagrado. O esplendido mosteiro e os muros, construídos para defender o santuário-castelo, datam de 1600.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
A aparição da Mãe Santa em Gietrzwald, em 1877, merece atenção especial. Naquele ano, a região polonesa foi dominada pela “germanização” imposta pelo Chanceler Bismark, que proibiu inclusive o uso da língua polonesa em toda a região sob seu domínio. Nela, se encontrava uma igreja, na qual estava exposta ao culto do povo uma imagem que reproduzia de modo livre a de Częstochowa.
Naquele ano, duas jovens, Jacinta e Bárbara, foram protagonistas de uma magistral aparição da Imaculada Conceição, que, transgredindo a dura lei do “Chanceler de ferro”, desabafou com eles, em polonês, pedindo que rezasse o terço, e anunciando o fim da longa perseguição religiosa.
Deve-se também mencionar o santuários da Mãe de Deus Zebrzydow, em Kalwaria Zebrzydowska, da Imaculada Conceição de Niepokalanòw, da Bem.aventurada Mãe de Piekary , em Piekary Slaskie, de Nossa Senhora das Graças, em Varsóvia (no qual se venera uma cópia da imagem de Faenza (Itália), cuja devoção foi difundida por padre Giacinto Orselli).
Também são relevantes:

SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLONIA DAS DORES – LICHEN.
Nasce da aparição ocorrida diante de um soldado polonês, Tomás Klossowski, gravemente ferido no campo de batalha de Lipsia (1813), ao qual a Virgem concedeu a cura e pediu que encontrasse um ícone, que pode achar somente vinte e três anos depois, e que ainda hoje é venerado na capela do santuário.

SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (VIRGEM NEGRA).
Enfim, o mais evidente problema, não apenas polonês, mas do catolicismo em geral, da total e exemplar seqüela de Cristo na devoção a Virgem Maria, o Servo de Deus João Paulo II, desempenhou um papel fundamental no reconhecimento da veridicidade da mensagem da Divina Misericórdia, a Divina Misericórdia. De sua difusão, encarregou-se a humilde serva, e hoje santa, Faustina Kowalska, irmã da Congregação da Bem-aventurada Virgem Maria da Misericórdia.
Ela passou ali seus dois últimos anos de vida terrena, para em seguida nascer nos Céus, aos trinta e três anos, depois de sofrimentos agudos causados pela tuberculose, contraída em uma colina do bairro de Lagiewniki, onde hoje surge o santuário mais conhecido da Polônia, da Divina Misericórdia.
A santidade sempre fecunda de Kowalska que, sofrendo e adorando, optou por doar cotidianamente tudo de si a Deus, faz desta colina e deste santuário o fulcro da oração e da busca do infinito Amor da Misericórdia de Jesus Cristo, assim como se notam, na imagem ali conservada, os dois raios luminosos que emergem de Seu coração.
O próprio Papa João Paulo II recuperou a mensagem da Divina Misericórdia e depositou a primeira pedra do novo santuário, situado exatamente sobre o original.
O novo projeto arquitetônico, embora caracterizado pela busca de luminosidade, com amplos espaços de cimento armado, decepciona do ponto de vista litúrgico, pois possui poucas referencias religiosas, com exceção da grande imagem de irmã Faustina, retratada em um quadro.
O principal efeito destas construções é a perda de importância do Santíssimo Sacramento em relação à “funcionalidade”, ao minimalismo e à acústica do espaço religioso. Com isto, o Tabernáculo não está centralizado, o que causa a desorientação dos fiéis.
Já a antiga capela interna, onde Kowalska rezava e fazia recolhimento espiritual, tem mais impacto. Em seu interior, os peregrinos têm a possibilidade de rezar diante do Santíssimo, ao lado do qual encontra-se uma efígie da maravilhosa Nossa Senhora Negra.


REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA

A República Checa e a Eslováquia, que se tornaram independentes somente em 1993, possuem as mesmas origens cristãs.
A cristianização destes territórios deve-se, em particular, ao testemunho eficaz dos Santos Cirilo e Metódio, que colocaram as bases, não apenas da fé, mas também de uma característica piedade mariana, hoje parte da vida espiritual e litúrgica, assim como intelectual e cultural, de ambos os países.
As duas culturas cristãs foram atingidas por duas graves feridas na fé católica: a devida à pregação de Hus, em 1400, e a Reforma Luterana, em 1500, que comprometeram, por muito tempo, seu peculiar catolicismo.
Todavia, vários prodígios, em áreas campestres e bosques, o achado de um considerável número de imagens e proteções milagrosas durante ataques inimigos, permitiram o contínuo surgimento de santuários e locais de culto, graças, sobretudo, ao crescimento de ordens religiosas. Merecem atenção particular os Jesuítas, que, sob a proteção dos Asburgo, restauraram o catolicismo romano, recebendo força da grande devoção mariana que os distingue.
A eles, deve-se a abertura de muitos santuários suprimidos ou abandonados, estimulando, desta forma, o antigo entusiasmo popular pela Mãe de Deus, intitulada “Protetora” de seus territórios, que se tornaram assim “Jardim de Maria”: esta devoção é provada por longas procissões, animadas por orações e cantos, e por bandeiras e estátuas que evocam os mistérios da fé nos meses de maio e outubro, com a recitação do Santo Terço, e nas vigílias de festividades marianas, com o jejum, bem como em peregrinações.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
Provavelmente o mais antigo da Boemia, foi dedicado inicialmente aos Santos Cosme e Damião. A devoção mariana começou a crescer por volta de 1600, após a descoberta de uma placa de metal dourado, sobre a qual constava um retrato mariano. Por ter sido roubada e re-encontrada três vezes durante a guerra dos trinta anos, foi chamada “Paládio da Boemia”. A tradição reza que ela foi doada a São Metódio e santa Ludmila, e ainda hoje, está exposta à devoção popular.



SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS SETE DORES - ŠAŠTIN.
Em 1927, o Santo Padre Pio XI proclamou Nossa Senhora das Dores como padroeira da Eslováquia. Este santuário nasceu por causa de uma imagem de uma nobre húngara, abandonada pelo marido, doada a Nossa Senhora das Dores. A mulher prometera construir um oratório em Sua homenagem, caso o marido retornasse.
Em breve tempo, seu desejo se realizou, e hoje, o santuário está aberto ao público, embora o mosteiro salesiano anexo tenha sido transformado em quartel, em 1927, para impedir práticas de piedade.


PAÍSES ESCANDINAVOS

Em função da evidente homogeneidade histórica, cultural e religiosa, aborda-se conjuntamente os países da Suécia, Noruega, Finlândia e Islanda, dedicando um espaço autônomo à Dinamarca, histórica e culturalmente mais autônoma e rica de tradições cristãs, em relação a seus vizinhos.
O mérito da difusão do cristianismo nestas terras, marcadas principalmente por florestas, deve ser reconhecido à obra do beneditino Santo Ancário, no ano 830. Após a chegada da ordem cisterciense, a atividade missionária desenvolveu-se significativamente, enraizada na devoção mariana e confiada à sua intercessão.
A difusão do culto de Maria, considerado elemento fundamental e insubstituível para o amadurecimento da fé, é um objetivo primário dos filhos de São Bernardo e São Norberto. A eles, deve-se a edificação e a consagração de um importante número de capelas e igrejas, erguidas em homenagem a Nossa Senhora.

SANTUÁRIO DELLA MADRE DEL SIGNORE – VADSTENA.
Um novo impulso à piedade mariana foi dado com a chegada das ordens franciscana e dominicana, e, em especial com a fúlgida figura de Santa Brígida (1303-1373). Educada à vida cisterciense, fundou a Ordem do Santíssimo Salvador, sub-dividindo a adesão em um ramo masculino e um feminino. A mãe abadessa, que representava a Bem-aventurada Virgem Maria, recebeu a obediência seja das consagradas como dos monges, inspirando-se em Maria entre os Onze, no Pentecostes.
Sucessivamente, surgiram várias confrarias do Terço, que se constituíram como verdadeiras “casas do Terço de Maria”, centro impulsores do testemunho dominicano e custódios da coroa de Santa Brígida.


DINAMARCA

O Povo de Deus sempre encontrou, na história, conforto e acolhida no materno afeto da Virgem Maria. O Evento cristão e o conseqüente lema de devoção à Mãe Celestial chegou em terras dinamarquesas pela primeira vezes graças ao santo beneditino Villibrord (658-739), primeiro bispo de Utrecht. A obra de Deus foi conduzida, entre 950 e 1150, pelos missionários anglo-normandos e beneditinos. A Nossa Senhora, foi atribuído, então, o título de “Rainha da Dinamarca”. Em apenas um século, o País ganhou cerca de duas mil igrejas, muitas das quais intituladas a Santa Maria. Ergueram-se, consequentemente, esplêndidas e gigantescas catedrais góticas e românticas, que suscitaram a chegada de novas ordens monásticas, difundindo ainda mais a espiritualidade mariana: com o nome da Virgem, surgiram, vinte e quatro mosteiros beneditinos, quinze cistercienses, sete premostratrenses, vinte e seis dominicanos, trinta franciscanos, onze carmelitas, nove agostinianos e dois brigidinos.
Após a expansão do luteranismo, no século XVI, o povo dinamarquês assistiu, inicialmente à supressão dos altares dedicados a Virgem e à destruição dos ícones, aos quais se voltavam os olhos dos fiéis recolhidos em oração; e em seguida, à promulgação, em 1683, de uma disposição legal que proibiu, sob a pena de morte, os padres católicos de permanecerem no reino.
Todavia, o Povo de Deus permaneceu fiel ao culto mariano, e ao soar do Ângelus, os camponeses continuavam a descobrir a cabeça para rezar o Ave Maria e a ajoelhar-se nos lugares em que havia um altar ou tivesse passado uma estátua de Nossa Senhora.
Finalmente, em 1849, a promulgação de uma nova lei reconheceu aos católicos a plena liberdade de culto, e a possibilidade de se reunir em associações marianas, voltando a edificar, nas décadas sucessivas, conventos e santuários dedicados a Nossa Senhora.

 
At 9/17/2007 2:15 da manhã, Anonymous Anónimo escreveu...

MARIA E A EUROPA
(Segunda Parte)

De N. Bux e S. Vitiello


IRLANDA:
- NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
- NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA:
- SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA).
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).

MALTA:
- IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
- SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.

HOLANDA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DO BOSQUE – ‘S-HERTOGENBOSH.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MARR – MAASTRICHT.

POLÔNIA:
- SANTUÁRIO DA MÃE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
- SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLÔNIA DAS DORES – LICHEN.
- SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (NOSSA SENHORA NEGRA)

REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA:
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
- SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS SETE DORES - ŠAŠTIN.
PAÍSES ESCANDINAVOS:
- SANTUÁRIO DA MÃE DO SENHOR– VADSTENA.

DINAMARCA


IRLANDA

Os santuários irlandeses ainda existentes datam do século XI, pois as terras irlandesas que, embora situadas nos confins do mundo conhecido, foram entre as mais férteis na conversão seguida à evangelização que teve início somente em 432, por obra de São Patrício, originário da Bretanha, sofreram, no século VIII, ataques das populações viquingues, que saquearam e destruíram mosteiros em todo o Norte da Europa.
O reflorescimento da fé católica e a conseguinte devoção mariana devem-se ao deslocamento de populações normandas à ilha, no século XI, que re-batizaram com o nome de Nossa Senhora muitos locais precedentemente dedicados a santos locais.

NOSSA SENHORA DA ILHA – LADY’S ISLAND
É o caso de Nossa Senhora da ilha, localidade antes dedicada a San Barry. Continuaram a se fazer peregrinações a este local até mesmo nos períodos de maior perseguição inglesa, durante o reino de Henrique VIII, com características fortemente penitenciais: percorria-se o perímetro da ilha diversas vezes, caminhando a pés descalços na água. Nestes períodos, o fervor católico irlandês tornou-se símbolo da identidade nacional e cultural que foi por tanto tempo negada pela opressão inglesa. Nos períodos de maior perseguição, a consciência de pertença a Cristo, e a conseqüente devoção do homem a seu Criador tornaram-se sempre mais intensos e evidentes, não como conseqüência da necessidade de tomar posição no âmbito do conflito, mas como uma necessidade inegável do homem de unir-se à Verdade, diante da sua injustificável negação.
Em 1647, a primeira assembléia nacional do novo reino proclamou Maria como sua protetora. Em 1641, o povo irlandês, guiado pelo comandante Owen Roe O’Neill, adotou como grito de guerra “Santa Maria” e como estandarte do exército a imagem de Nossa Senhora com o Menino. Mas a resistência foi rapidamente vencida pelas tropas de Oliver Cromwell, que, após percorrer toda a ilha e destruir todo vestígio de culto católico, demoliu todas as igrejas e conventos.
A oração pessoal ou doméstica do Santo Terço, permitiu aos irlandeses manterem a própria identidade católica e alimentar eficazmente a fé. O Terço desempenhou um papel tão importante que se tornou uma característica nacional.
As leis penais contra os católicos foram abolidas apenas em 1828 e a reabilitação social e econômica teve que aguardar tempos ainda mais longos. Os velhos santuários e conventos destruídos foram re-edificados e ainda hoje, as ruínas estão abandonadas. Por isso, ainda não é possível constatar, na Irlanda, a presença de santuários, com exceção de Knock.

NOSSA SENHORA RAINHA DA IRLANDA – KNOCK

O Santuário mariano nacional é meta obrigatória para os irlandeses católicos.
Este local teve origem com a aparição de Nossa Senhora, em companhia de São José e São João Evangelista, completada com um altar com o Divino Cordeiro e a Cruz. A aparição data de 21 de agosto de 1879 e se verificou diante de quinze pessoas de idades diferentes.
O santuário recebe a visita de cerca de um milhão de peregrinos por ano. O evento contribui para reduzir a tensão social e a antipatia pelos ingleses, e foi interpretado como um sinal da assistência celestial e um apelo a permanecer fiéis à Igreja católica, em especial à Divina Eucaristia e ao culto mariano. O próprio bispo, Dom John McHale, comentou com as seguintes palavras a decisão favorável da comissão, sobre a aparição de Knock: «É um privilégio para a pobre gente do Oeste, em sua miséria e sofrimento, que a Virgem tenha aparecido para ela».
Em 1976, foi construída uma grande igreja, que se somou à paróquia, e a localidade foi homenageada com a visita do Servo de Deus João Paulo II, em 30 de setembro, aniversário da aparição.


LITUÂNIA, LETÔNIA, ESTÔNIA

Últimas a ser evangelizadas, por volta de 1200, época em que estavam sob a proteção de Maria, as populações bálticas conquistaram a independência em fins de 1991, depois da submissão à URSS, durante o segundo conflito mundial.
A onda reformadora protestante, luterana e calvinista, do século XVI dominou as três nações, que estavam até então sob controle da Ordem Teutônica, da qual o próprio grande mestre, Alberto Hoenzollern, em 1525, aderiu ao luteranismo.

SANTUÁRIO DA NATIVIDADE DE MARIA – SILUVA (LITUÂNIA)
Indispensável sustento da “reforma católica”, com a conseqüente re-evangelização daquelas terras, constituiu-se, além da indispensável obra dos padres jesuítas, pela aparição de Maria, em 1612, no então destruído santuário de Silura. Ali, dois pastorzinhos assistiram a aparição de uma jovem mulher que chorava copiosamente, com um menino nos braços; a imagem desapareceu rapidamente. O pastor calvinista local, depois de reprovar severamente as crianças, foi ao local, para desmentir os boatos e dispersar a multidão que se encontrava reunida, mas se surpreendeu ao ver, pessoalmente, o que lhe havia sido narrado. À pergunta do pastor sobre os motivos daquele choro, a Virgem respondeu: “Houve um tempo em que meu Filho era adorado pelo meu povo. Mas este terreno sagrado está agora abandonado ao ferro do arado e aos pastos”. A fama do evento chegou até o sacristão da antiga igreja, que, cego havia muitos anos, quando chegou ao local, readquiriu milagrosamente a visão, tanto que indicou o local indicado pelo pároco para enterrar o ícone de Nossa Senhora, para defende-lo da fúria iconoclasta calvinista, durante a qual, o primitivo santuário foi totalmente destruído. O evento, que obteve imediatamente importante repercussão, chamou muitos à conversão.
O principal obstáculo à premente e contínua tentativa de “russificação” daquelas terras, especialmente após as insurreições anti-zaristas de 1831, foi próprio a nova fé católica. Quando a história, para afirmar um ideal, foi necessária para a eliminação de elementos da realidade, nunca houve uma posição livre, uma primazia do amor pela verdade. A fé em Jesus de Nazaré, suma Verdade, mantém e manteve na história a humana razão, em sua dimensão mais autêntica, e a plena consciência de si e da própria identidade. A violência da ideologia, de fato, tentou destruir aquilo que constituía os próprios símbolos das nações: a Igreja de São Casimiro e Vilnius, coração da Lituânia católica e máxima expressão arquitetônica do País, foi requisitada pelo exército russo; a comunidade carmelita do santuário da Porta da Aurora, em Vilnius, foi afastada; em 1866 as peregrinações foram proibidas, através de medidas legislativas.
Forte da própria fé e da proteção mariana, o povo sempre se opôs, compacto, a esta ‘invasão’ ideológica, tanto que o general russo Mura’ëv, principal condutor da feroz repressão, escreveu em um relatório entregue ao zar Alexandre II: “Não podemos nos iludir, e é preciso saber que até quando existir o catolicismo no País, o Governo não conseguirá submete-lo”.
A devoção mariana teve uma importante expansão nestas terras a partir de 1917, com a queda do zarismo, por obra da revolução comunista, até 1940, ano em que a Rússia ocupou o território. Recuperou-se a tradição das peregrinações, que encontrou sua mais alta expressão em Suliva. A vitalidade mariana báltica foi tanta que suscitou a admiração do então Núncio Apostólico na Polônia, Dom Achille Ratti, sucessivamente papa, com o nome de Pio XI, que definiu a Lituânia como “Terra de Maria”. A definição agradou tanto a população lituana, que a assumiu como sua.
Mesmo sob a ditadura comunista, as peregrinações continuaram a constituir, para o povo, um momento de expressão fundamental da própria fidelidade a Cristo e à Igreja, em sua identidade nacional. A magistralidade dos eventos marianos conseguiu reduzir as autoridades políticas à impotência.




SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA NEGRA – AGLONA (LETÔNIA).
Um dos principais locais de cultos bálticos, o santuário de Nossa Senhora Negra de Aglona, na Letônia, merece atenção. Erguida em 1699 como simples igrejinha de madeira, anexa a um convento dominicano e situada entre um bosque de pinheiros, a construção foi ampliada significativamente em 1768, após os prodígios verificados na veneração da imagem de madeira que retratava o ícone do santuário mariano de Torki, que, com a cor assumida nos tempos, foi apelidada de “Nossa Senhora Negra”, e sua predileção como meta de peregrinações.


MALTA

Polônia do Mediterrâneo, a ilha de Malta assistiu, graças à conquista normanda, ao florescimento do culto mariano, cujas orações desempenharam um papel determinante durante a resistência dos católicos malteses ao incessante assédio de 1565, realizado por duzentos navios provenientes da ‘islamizada’ Istambul, para obter o controle do Mar Mediterrâneo. Na véspera da Natividade de Maria, a inesperada retirada da frota turca foi interpretada como um sinal claro de proteção da Bem-aventurada Virgem. Assim, em 7 de setembro, desde então, o dia é celebrado como dia da festa de Nossa Senhora das Vitórias, além de ser feriado nacional. Perdida a liberdade de autodeterminação com a conquista napoleônica de 1798, graças ao enfraquecimento da Soberana Ordem de Malta, a ilha passou, em 1814, sob a soberania da Grã-Bretanha. Malta tornou-se um estado independente no Commonwealth somente em 1964.

IGREJA DA GLÓRIA – MOSTA.
Uma das obras mais grandiosas da arquitetura mundial, a Igreja da Glória de Mosta, erguida em fins de 1800, constitui uma cópia quase perfeita, e de dimensões apenas levemente menores, do Pantheon de Roma. Por isso, merece o título de “terceira cúpula” do mundo, depois de São Pedro, no Vaticano, e o próprio Pantheon. O glorioso edifício, extremamente complexo, do ponto de vista arquitetônico, foi realizado por um mestre-de-obras quase analfabeta, mas herdeiro da arte secular dos malteses de esculpir a pedra local.
Durante a grande guerra, as mesmas bombas italianas que destruíram parcialmente a Polônia do Mediterrâneo, caíram diversas vezes sobre a grande cúpula, mas, inexplicavelmente, despencaram dela, sem explodir. A população viu neste episódio um sinal de proteção da Rainha dos Apóstolos.



SANTUÁRIO DE TA’ PINU – ILHA DE GOZO.
Uma das imagens marianas mais queridas pelos malteses foi conservada na parte noroeste da ilha de Gozo, em uma pequena igreja em cujo local hoje se encontra o santuário de Ta’ Pinu. Ela foi colocada por um certo Filippo Guaci (Pino, a quem o santuário) em 1619, na então capela campestre, simples, que estava no local deste a época Medioeval; onde o pintor italiano Amadeo Perugino havia pintado uma imagem de Nossa Senhora da Glória no Céu. A construção do santuário, datada de 1883, após uma aparição de Nossa Senhora a uma camponesa do local, Carmni Grima. Passando diante da igrejinha, ela foi chamada por uma voz feminina, que lhe disse: “Reza três Ave Maria, em honra dos três dias em que meu corpo permaneceu na tumba”. Descrevendo o episódio a um pio jovem da localidade, a mulher descobriu que ele também havia sido convidado a rezar pela “chaga escondida” de Jesus, ou seja, a ferida que o peso da Cruz havia provocado em suas costas.
O bispo local, depois de interrogar os dois videntes, autorizou o exercício do culto, que se ampliou, renovado, quando, em 1887, os residentes da ilha superaram milagrosamente imunes uma epidemia de cólera.
O novo santuário, em estilo românico-bizantino, foi consagrado em 1931, e a imagem foi coroada pelo Capítulo Vaticano, em 1935.

HOLANDA

Os Países Baixos tiveram conhecimento pela primeira vez do Evento cristão em 384, graças à evangelização de São Serviço, primeiro apóstolo daquela região, que desempenhou seu ministério em Maastricht (no sul, no confim com a Bélgica). Narra-se que construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora, que, sucessivamente, se transformou no atual e majestoso santuário.
A necessária re-evangelização daquelas terras, após as invasões das populações bárbaras do século VII, foi atuada pelos monges itinerantes irlandeses, entre os quais, Wilfrid e são Willibrord (657 - 738), que se tornou o santo mais popular dos Países Baixos. Ele exerceu seu ministério principalmente em Utrecht, onde fundou uma igreja mariana.
O povo católico holandês aumentou entre as “competições cidadãs” do ano Mil, no qual todas as instituições da sociedade de então se esforçavam em obter, para a própria cidade, a proteção de Nossa Senhora, sobretudo através da adoção de uma imagem milagrosa, quase sempre de pequenas dimensões, sem particulares pretensões estéticas ou artísticas. Um povo que conheceu o envolvimento humano das peregrinações que, mais do que nunca, formalizavam a união histórica entre os Países Baixos e a vizinha Bélgica, rica de numerosas metas de culto.
Este país também não foi poupado pela onda protestante, concretizada com a perseguição calvinista contra os católicos. Estes, os católicos, objetivamente em minoria, viram-se privados de seus direitos fundamentais, como os políticos, e lhes foi impedido de exercer publicamente o culto, assistindo inermes à equiparação de sua fé a um simples reato, punível penalmente.
Proibida qualquer evocação à oração, de modo especial aos santuários, todas as festividades, peregrinações e procissões foram banidas. Deste modo, os católicos holandeses puderam prosseguir com sua prática religiosa apenas camuflando-as com outras formas, tentando assim preservar e custodiar a própria identidade cristã, e consequentemente, nacional.
É o caso de ‘s-Hertogenbosh, onde a antiga procissão, realizada durante sete noites consecutivas ao redor da cidade, se transformou numa composta e silenciosa passeata.
Os católicos puderam recomeçar a ver reconhecida a própria identidade, dignidade e liberdade somente em fins do ano 1700, com a ocupação napoleônica e a expulsão dos Orange. Neste período, o Povo de Deus obteve as catedrais precedentemente requisitadas, entre as quais, a de “Nossa Senhora do Bosque de ‘s-Hertogenbosh”, que merece atenção particular.

SANTUÁRIO DI NOSTRA SIGNORA DEL BOSCO – ‘S-HERTOGENBOSH.
O edifício do tardo período gótico, tem como origem de seu culto uma estátua milagrosa, conservada na capela desta grandiosa e maravilhosa catedral.
A estátua, inicialmente removida e colocada em um depósito, pois considerada pouco preciosa, atraiu o culto popular quando, em uma inútil tentativa de transporta-la novamente à catedral, devido à insistência de um operário, verificaram-se numerosas e atentamente documentadas curas.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DO MAR – MAASTRICHT.
Em Maastricht, berço do cristianismo holandês, o culto mariano é muito antigo e profundamente enraizado. A igreja atual data do ano 1100, e tem o aspecto de uma fortaleza, com suas torres de defesa. A estátua ali conservada data de 1400 e, provavelmente, substituiu uma imagem ainda mais antiga.
A população começou a peregrinar a Nossa Senhora Estrela do Mar no início de 1500, e seu culto se prolongou até 1639, quando a cidade foi dominada pelos Protestantes. Naquele ano, a estátua iniciou uma fase de complicadas peregrinações entre Bélgica e Holanda, que tiveram fim somente em meados do século passado, quando a imagem foi depositada em seu lugar.

POLÔNIA

«Mãe de Deus, Virgem, glorificada pelo Senhor, Maria, dai-nos a graça. Kyrie eleison», entre as composições poéticas mais antigas da língua polonesa, assim reza um hino mariano, cantado ainda hoje, clara expressão deste povo à Mãe da Igreja, a “Begurodzica” (Mãe de Deus).
No território polonês, marcado por uma identidade fortemente católica, datada de cerca do ano Mil, as expressões de devoção a Nossa Senhora assumem uma intensidade e uma cordialidade dificilmente existentes em outros países. A Mãe de Deus é parte integrante da vida pública, social, e principalmente familiar desta população. É suficiente recordar, por exemplo, que para se iniciar atividades como agricultor ou construtor, era preciso pedir a intercessão da Virgem, através da benção, sem a qual não era permitido começar a trabalhar.
A primeira igreja construída na Polônia foi consagrada à Glória, cujo culto jamais veio a menos na devoção popular, e se difundiu principalmente graças à ordem cisterciense. Um grupo de monges paulinos, enviados por Luigi d’Angiò, então rei da Hungria e da Polônia, em fins de 1300, deu início à construção do santuário de Jasna Gora, nas redondezas de Czestochowa.
Em meados do século XVI, marcado pela influência da Reforma protestante, assistiu-se à reafirmação da Igreja católica, sobretudo por obra dos jesuítas e através da forte devoção mariana, pois a Polônia, circundada por povos pagãos, tomou consciência de si como baluarte do catolicismo e proclamou Maria como “Rainha da Polônia”.

SANTUÁRIO DA MAE DE DEUS JASNA GORA – CZĘSTOCHOWA.
Um significativo episódio de intercessão mariana na história polonesa data dos anos do domínio do rei João Casimiro (1648-1668), quando a expansão para os territórios do Leste causou o chamado “período do dilúvio”. O exército polonês sofreu uma séria derrota do império zarista, e ao mesmo tempo, foi atacado pelos suecos. Em dezembro de 1655, e precisamente na noite depois do Natal, sua marcha em direção do interior da Polônia foi detida exatamente sob o muro do mosteiro de Jasna Gora. Maria, protetora dos frágeis, não permitiu que a “sede” de seu reino caísse em mãos inimigas. Assim sendo, rei Casimiro consagrou a Virgem toda a nação, em 1o de abril do ano seguinte.
O santuário polonês por excelência foi alvo de numerosas vicissitudes, entre as quais, em 1430, o saque por parte de um bando de ussitas provenientes da Boemia, que reduziram em pedaços o ícone, que teve que ser necessariamente pintado novamente. Este sacrilégio alimentou ainda mais o movimento peregrino e consagrou Jasna Gora como santuário nacional. A primitiva igreja em madeira deu lugar a uma igreja de estilo gótico, mas ainda permanece como capela e constituiu o coração do amplo complexo sagrado. O esplendido mosteiro e os muros, construídos para defender o santuário-castelo, datam de 1600.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE WARMIA – GIETRZWALD.
A aparição da Mãe Santa em Gietrzwald, em 1877, merece atenção especial. Naquele ano, a região polonesa foi dominada pela “germanização” imposta pelo Chanceler Bismark, que proibiu inclusive o uso da língua polonesa em toda a região sob seu domínio. Nela, se encontrava uma igreja, na qual estava exposta ao culto do povo uma imagem que reproduzia de modo livre a de Częstochowa.
Naquele ano, duas jovens, Jacinta e Bárbara, foram protagonistas de uma magistral aparição da Imaculada Conceição, que, transgredindo a dura lei do “Chanceler de ferro”, desabafou com eles, em polonês, pedindo que rezasse o terço, e anunciando o fim da longa perseguição religiosa.
Deve-se também mencionar o santuários da Mãe de Deus Zebrzydow, em Kalwaria Zebrzydowska, da Imaculada Conceição de Niepokalanòw, da Bem.aventurada Mãe de Piekary , em Piekary Slaskie, de Nossa Senhora das Graças, em Varsóvia (no qual se venera uma cópia da imagem de Faenza (Itália), cuja devoção foi difundida por padre Giacinto Orselli).
Também são relevantes:

SANTUÁRIO DA RAINHA DA POLONIA DAS DORES – LICHEN.
Nasce da aparição ocorrida diante de um soldado polonês, Tomás Klossowski, gravemente ferido no campo de batalha de Lipsia (1813), ao qual a Virgem concedeu a cura e pediu que encontrasse um ícone, que pode achar somente vinte e três anos depois, e que ainda hoje é venerado na capela do santuário.

SANTUÁRIO DA DIVINA MISERICÓRDIA – CZĘSTOCHOWA (VIRGEM NEGRA).
Enfim, o mais evidente problema, não apenas polonês, mas do catolicismo em geral, da total e exemplar seqüela de Cristo na devoção a Virgem Maria, o Servo de Deus João Paulo II, desempenhou um papel fundamental no reconhecimento da veridicidade da mensagem da Divina Misericórdia, a Divina Misericórdia. De sua difusão, encarregou-se a humilde serva, e hoje santa, Faustina Kowalska, irmã da Congregação da Bem-aventurada Virgem Maria da Misericórdia.
Ela passou ali seus dois últimos anos de vida terrena, para em seguida nascer nos Céus, aos trinta e três anos, depois de sofrimentos agudos causados pela tuberculose, contraída em uma colina do bairro de Lagiewniki, onde hoje surge o santuário mais conhecido da Polônia, da Divina Misericórdia.
A santidade sempre fecunda de Kowalska que, sofrendo e adorando, optou por doar cotidianamente tudo de si a Deus, faz desta colina e deste santuário o fulcro da oração e da busca do infinito Amor da Misericórdia de Jesus Cristo, assim como se notam, na imagem ali conservada, os dois raios luminosos que emergem de Seu coração.
O próprio Papa João Paulo II recuperou a mensagem da Divina Misericórdia e depositou a primeira pedra do novo santuário, situado exatamente sobre o original.
O novo projeto arquitetônico, embora caracterizado pela busca de luminosidade, com amplos espaços de cimento armado, decepciona do ponto de vista litúrgico, pois possui poucas referencias religiosas, com exceção da grande imagem de irmã Faustina, retratada em um quadro.
O principal efeito destas construções é a perda de importância do Santíssimo Sacramento em relação à “funcionalidade”, ao minimalismo e à acústica do espaço religioso. Com isto, o Tabernáculo não está centralizado, o que causa a desorientação dos fiéis.
Já a antiga capela interna, onde Kowalska rezava e fazia recolhimento espiritual, tem mais impacto. Em seu interior, os peregrinos têm a possibilidade de rezar diante do Santíssimo, ao lado do qual encontra-se uma efígie da maravilhosa Nossa Senhora Negra.


REPÚBLICA CHECA E ESLOVÁQUIA

A República Checa e a Eslováquia, que se tornaram independentes somente em 1993, possuem as mesmas origens cristãs.
A cristianização destes territórios deve-se, em particular, ao testemunho eficaz dos Santos Cirilo e Metódio, que colocaram as bases, não apenas da fé, mas também de uma característica piedade mariana, hoje parte da vida espiritual e litúrgica, assim como intelectual e cultural, de ambos os países.
As duas culturas cristãs foram atingidas por duas graves feridas na fé católica: a devida à pregação de Hus, em 1400, e a Reforma Luterana, em 1500, que comprometeram, por muito tempo, seu peculiar catolicismo.
Todavia, vários prodígios, em áreas campestres e bosques, o achado de um considerável número de imagens e proteções milagrosas durante ataques inimigos, permitiram o contínuo surgimento de santuários e locais de culto, graças, sobretudo, ao crescimento de ordens religiosas. Merecem atenção particular os Jesuítas, que, sob a proteção dos Asburgo, restauraram o catolicismo romano, recebendo força da grande devoção mariana que os distingue.
A eles, deve-se a abertura de muitos santuários suprimidos ou abandonados, estimulando, desta forma, o antigo entusiasmo popular pela Mãe de Deus, intitulada “Protetora” de seus territórios, que se tornaram assim “Jardim de Maria”: esta devoção é provada por longas procissões, animadas por orações e cantos, e por bandeiras e estátuas que evocam os mistérios da fé nos meses de maio e outubro, com a recitação do Santo Terço, e nas vigílias de festividades marianas, com o jejum, bem como em peregrinações.

SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE STARÀ BOLESLAV - STARÀ BOLESLAV.
Provavelmente o mais antigo da Boemia, foi dedicado inicialmente aos Santos Cosme e Damião. A devoção mariana começou a crescer por volta de 1600, após a descoberta de uma placa de metal dourado, sobre a qual constava um retrato mariano. Por ter sido roubada e re-encontrada três vezes durante a guerra dos trinta anos, foi chamada “Paládio da Boemia”. A tradição reza que ela